Nada de especial Vivendo Zen Charlotte Joko Beck

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Vivendo Zen

Charlotte Joko Beck

Editora Saraiva 1ª edição, 1994

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ORELHAS: 4

PREFÁCIO 5

I. LUTA 7

RODAMOINHOS E ÁGUAS PARADAS 7 O CASULO DA DOR 14 SÍSIFO E O FARDO DA VIDA 20 RESPONDENDO ÀS PRESSÕES 27 A BASE DE APOIO 33

II. SACRIFÍCIO 41

SACRIFÍCIO E VÍTIMAS 41 A PROMESSA QUE NUNCA É CUMPRIDA 45 JUSTIÇA 52 PERDÃO 53 A FALA QUE NINGUÉM DESEJA OUVIR 54 O OLHO DO FURACÃO 64

III. SEPARAÇÃO E VÍNCULOS 68

PODE ALGUMA COISA NOS FERIR? 68 O PROBLEMA SUJEITO-OBJETO 77 INTEGRAÇÃO 85 OS TOMATEIROS RIVAIS 89 NÃO JULGAR 95

IV. MUDANÇA 102

PREPARO DO TERRENO 102 EXPERIÊNCIAS E VIVÊNCIAS 106 O DIVÃ DE GELO 110 DERRETENDO OS CUBOS DE GELO 120 O CASTELO E O FOSSO 126

V. PERCEPÇÃO CONSCIENTE 134

O PARADOXO DA PERCEPÇÃO CONSCIENTE 134 RECOBRANDO O JUÍZO 143 ATENÇÃO SIGNIFICA ATENÇÃO 152 FALSAS GENERALIZAÇÕES 158 OUVINDO O CORPO 165

VI. LIBERDADE 169

OS SEIS ESTÁGIOS DA PRÁTICA 169 CURIOSIDADE E OBSESSÃO 175 TRANSFORMAÇÃO 184 O HOMEM NATURAL 190

VII. DESLUMBRAMENTO 201

A QUEDA 201 O SOM DE UM POMBO E UMA VOZ CRÍTICA 207 CONTENTAMENTO 211 CAOS E DESLUMBRAMENTO 219

VIII. NADA ESPECIAL 225

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Orelhas:

Viver o zen n ã o é n a d a d e es pecial: é a p en a s a vid a com o t a l. O zen é a vid a em s i, n a d a m a is . Qu a n d o b u s ca m os n o zen (ou em qu a lqu er ca m in h o es p ir it u a l) a r ea liza çã o d e n os s a s fa n t a s ia s , separamo-n os d a t er r a e d o céu , d os n os s os s er es a m a d os , d e n os s o cor a çã o, p ois t a is fa n t a s ia s n os coloca m n u m is ola m en t o t em p or á r io. A r ea lid a d e, n o en t a n t o, s e in s in u a d e m il m a n eir a s , e a n os s a vid a s e t or n a u m a cor r er ia d es en fr ea d a , u m d es es p er o m u d o, m elod r a m a s con fu s os . Dis t r a íd os e ob ceca d os , lu t a n d o p or a lgo es p ecia l, b u s ca m os ou t r o lu ga r e ou t r o t em p o: n ã o o a qu i, n em o a gor a e t a m p ou co o is t o t u d o, m en os a vid a com u m , esse... nada de especial.

E m Na d a d e es p ecia l, Ch a r lot t e J ok o ob s er va : "As cois a s s ã o semp r e o qu e s ã o". E s s e p en s a m en t o n ã o é u m con s elh o d e d es es p er o, m a s u m con vit e a o con t en t a m en t o. Viven d o a p a r t ir d o qu e s om os , s a ím os d e u m a vid a cen t r a d a em n ós p a r a u m a vid a centrad a n a r ea lid a d e. Ab a n d on a n d o os p en s a m en t os m á gicos , despert a n d o p a r a a m á gica d o m om en t o a t u a l, d a m o-n os con t a d a graça do nada de especial... o zen vivido.

As r eflexões d e J ok o Beck s ob r e t óp icos com o lu t a , s a cr ifício, s ep a r a çã o e vín cu los , m u d a n ça , con s cien t iza çã o, lib er d a d e e d es -lu m b r a m en t o r evela m d e qu e m a n eir a a ver d a d eir a es p ir it u a lid a d e n ã o im p lica u m a vid a r eclu s a , s ep a r a d a , m a s u m m er gu lh a r n a s vivên cia s d iá r ia s os s en t im en t os , os r ela cion a m en t os , o t r a b a -lho com con s ciên cia , h on es t id a d e e in t egr id a d e. Dot a d a d e u m a p er s p icá cia e d e u m d is cer n im en t o h oje céleb r es , es t a con s a gr a d a m es t r a ocid en t a l con t em p or â n ea a p r es en t a n ova s d im en s ões p a r a a s im p lifica çã o d e n os s o viver . Com is s o Ch a r lot t e J ok o r evela como quando nada é especial tudo pode sê-lo.

Na d a d e e s p e cia l fa la d o a t em p or a l e d o p er en e, com

m et á for a s s im p les e cla r a s p a r a a s cois a s com u n s e os in cid en t es d o d ia -a -d ia , ilu m in a n d o com m a r a vilh os o b om s en s o a n os s a vid a .

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An geles . Des d e 1 9 8 3 , m u d ou -s e p a r a o Zen Cen t er d e S a n Diego, on d e m or a e lecion a n os d ia s d e h oje. É a u t or a d e S e m p re z e n , pu-blicado pela Saraiva.

Prefácio

O zen vivo n ã o é n a d a es p ecia l: é a vid a com o t a l. O zen é a vid a em s i, n a d a m a is , "Nã o p on h a u m a ou t r a ca b eça em cim a d a s u a ", d ecla r ou o m es t r e Rin za i. Qu a n d o b u s ca m os n o zen (ou em qu a lqu er ca m in h o es p ir it u a l) a r ea liza çã o d e n os s a s fa n t a s ia s , separamo-n os d a t er r a e d o céu , d os n os s os s er es a m a d os , d e n os s os cor a ções e d e n os s a s cos t a s qu e d oem , d a s p r óp r ia s s ola s d e n os s os p és . E s s a s fa n t a s ia s n os coloca m n u m is ola m en t o temporário; no entanto, a realidade insinua-s e d e d ez m il m a n eiras e n os s a s vid a s t or n a m -s e cor r er ia s d es en fr ea d a s , u m m u d o d es es p er o, m elod r a m a s con fu s os . Dis t r a íd os e ob ceca d os , lu t a n do p or a lgo es p ecia l, b u s ca m os ou t r o lu ga r e ou t r o t em p o: não o a qu i,

não o a gor a, não is t o. Tu d o m en os es s a vid a com u m , es s e... n a d a

especial.

O zen vivo s ign ifica u m a in ver s ã o d e n os s a fu ga d o n a d a , u m a a b er t u r a p a r a o va zio d o a qu i-a gor a . De m a n eir a len t a e d olor os a r econ cilia m o-n os com a vid a . O cor a çã o es m or ece, a es p er a n ça m or r e. "As cois a s s ã o s em p r e o qu e s ã o", ob s er va J ok o. E s s a t a u t ologia va zia n ã o é u m con s elh o d e d es es p er o, m a s u m con vit e a o con t en t a m en t o. Ao m or r er m os p a r a os s on h os d o ego, a o a b a n d on a r m os o es for ço d e ob t er r es u lt a d os , r ecu p er a m os a s im p licid a d e d a m en t e. No ja r d im d a s exp er iên cia s cot idianas d es en t er r a m os t es ou r os in es p er a d os . In gen u a m en t e, viven d o a p a r t ir d o qu e s om os , s a ím os d e u m a vid a cen t r a d a em n ós p a r a u m a vid a cen t r a d a n a r ea lid a d e e a b er t a a o d es lu m b r a mento. Ab a n d on a n d o os p en s a m en t os m á gicos , d es p er t a n d o p a r a a m a gia d o m om en t o a t u a l, d a m o-n os con t a , n o va zio d in â m ico, d a gr a ça do nada em especial... o zen vivo.

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Com o ob s er va Len or e Fr ied m a n : "E m s u a n a t u r a lid a d e absoluta, Joko encarna a qualidade zen do 'nada especial'. Ela está a p en a s a li, em ca d a s im p les m om en t o" *, A cla r eza s em cer im ônia

d e J ok o va i lon ge. S u a s id éia s ecoa r a m n u m n ú m er o in con t á vel d e leit or es p elo m u n d o t od o. S e m p re z e n : Com o in trod u z ir a p rá tica d o

z e n e m s e u d ia -a -d ia t r ou xe os en s in a m en t os e a cla r eza d o zen

p a r a a vid a d iá r ia n u m a for m a s in t on iza d a com os r it m os d a vid a ocid en t a l con t em p or â n ea . Na d a e s p e cia l: o z e n v iv o a m p lia e a p r ofu n d a os en s in a m en t os d e J ok o. S u a eleva d a m a t u r id a d e e b em p r óxim a a t en çã o d a p r á t ica em s i fa zem d es t e livr o u m t ext o útil não só para aqueles que desejam compreender melhor o zen no Ocid en t e, com o t a m b ém p a r a a qu eles qu e es t ã o d et er m in a d os a transformar suas vidas.

Como a a n t er ior , es t a ob r a é fr u t o n ã o s ó d a s id éia s d e J ok o, m a s t a m b ém d o gen er os o a p oio d e m u it os d e s eu s d ed ica dos a m igos e a lu n os . Os leit or es en con t r a r ã o a qu i p a les t r a s qu e es s es a lu n os a m igos t r a n s cr ever a m ou s u ger ir a m qu e fos s em in clu íd a s . S em a a ju d a qu e p r es t a r a m , es t e livr o t a lvez n ã o t ives s e s id o con clu íd o. J oh n Lou d on , ed it or -ch efe d a Ha r p er em S a n Fr a n s cís co, or ien t ou es t e p r ojet o com in cen t ivos e s a b ed oria. Agradeço-lh e p or s u a lid er a n ça e s en s a t ez. Pou cos a u t or es e ed it or es p od em s er m a is a for t u n a d os qu e eu em t er m os d e a s s is -t ên cia ed i-t or ia l: com u m b om h u m or in a b a lá vel, Pa -t Pa d illa t r a b a lh ou com r a p id ez e p r ecis ã o em m in h a s ger a lm en t e d es or -denadas revisões. Mais uma vez, colaborar com Joko foi a maior de t od a s a s a legr ia s . Com u m a com p a ixã o qu e a s a b ed or ia t or nou madura, ela continua servindo todas as vidas que toca.

Steve Smith

Claremont, Califórnia Fevereiro de 1993.

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I. Luta

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ODAMOINHOS E ÁGUAS PARADAS

S om os b em p a r ecid os a r od a m oin h os n o r io d a vid a . E m s eu fluxo, o rio ou riacho encontra pedras, galhos ou irregularidades de leit o qu e leva m a o a p a r ecim en t o es p on t â n eo d e r od a m oin h os a qu i e a li. A á gu a qu e p a s s a p or es s es p on t os r a p id a m en t e os a t r a ves s a e s e r ein t egr a a o r io, p od en d o m a is a d ia n t e en t r a r em ou t r o r od a m oin h o e p r os s egu ir d ep ois . E m b or a p or cu r t os p er íod os ela p a r eça d is t in t a , u m even t o s ep a r a d o, a á gu a d o r od a m oin h o é apenas o próprio rio. A estabilidade do rodamoinho é temporária. A en er gia d o r io d a vid a for m a a s cois a s viva s o s er h u m a n o, o ga t o, o ca ch or r o, a s á r vor es e a s p la n t a s , e, en t ã o, o qu e m a n t in h a o r od a m oin h o n o lu ga r s ofr e u m a m od ifica çã o e a qu ele t or velin h o é d es feit o e t om a a en t r a r n o flu xo m a ior . A en er gia qu e foi u m cer t o r od a m oin h o s e d is s olve e a á gu a p r os s egu e, t a lvez p a r a s er n ova m en t e r et id a e, p or u m m om en t o, t r a n s for m a r -s e em outro rodamoinho.

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p a r a qu e a p en a s con t in u e s eu cu r s o. Qu a n d o fica r ep r es a d a , criamos problemas mentais, físicos e espirituais.

A m elh or m a n eir a d e s er vir m os ou t r os r od a m oin h os é p er -m it in d o qu e a á gu a qu e en t r a n o n os s o t en h a lib er d a d e p a r a es cor r er a t r a vés d ele e ir em fr en t e s olt a e r á p id a , p a r a a t in gir qu a lqu er ou t r o p on t o qu e p r ecis e s er m ob iliza d o. A en er gia d a vid a b u s ca u m a r á p id a t r a n s for m a çã o. S e con s egu ir m os ver a vid a d es s a m a n eir a e n ã o n os a p ega r m os a n a d a , a vid a s im p les m en t e vem e va i. Qu a n d o d et r it os ch ega m a o n os s o p equ en o r od a m oinho, e s e s eu flu xo for h a r m ôn ico e for t e, eles fica m gir a n d o p or a li d u r a n t e u m cer t o t em p o e d ep ois s egu em a d ia n t e. Nã o é a s s im p or ém qu e vivem os . Com o n ã o p er ceb em os qu e s om os s im p les r od a m oin h os n o r io d o u n iver s o, con s id eramon os en t id a d es s ep a -r a d a s qu e p -r ecis a m p -r ot ege-r s eu s lim it es . O p -r óp -r io ju lga m en t o "Sinto-m e m a goa d o" es t ip u la u m lim it e a o n om ea r u m "eu " qu e cob r a s er p r ot egid o. S em p r e qu e a lgu m lixo flu t u a p a r a d en t r o d e n os s o r od a m oin h o, fa zem os d e t u d o p a r a evitá-lo, p a r a exp u ls á -lo, ou para, de alguma maneira, controlá-lo.

Noventa por cento da vida é gasta na tentativa de criar limites em t or n o d o r od a m oin h o. E s t a m os con s t a n t em en t e n a d efen s iva : "E le t a lvez m e m a goe"; "Is s o p od e d a r er r a d o"; "Nã o gos t o d ele d e jeit o n en h u m ". E s s e é u m com p let o m a u u s o d a n os s a fu n çã o vit a l e, m es m o a s s im , t od os n os com p or t a m os d es s a for m a , em m a ior ou menor escala.

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p on t os d e es t a gn a çã o qu e ger a m con t a m in a çã o e d oen ça s . E s s es p on t os es t a gn a d os em b u s ca d e p r ot eçã o d en t r o d e d iqu es com eça m a b r iga r u n s com os ou t r os . "Você fed e. Nã o gos t o d e você." Águ a s es t a gn a d a s ca u s a m m u it os p r ob lem a s . O fr es cor d a vida está perdido.

A p r á t ica d o zen a ju d a -n os a ver d e qu e m a n eir a cr ia m os es t a gn a çã o em n os s a vid a . "S er á qu e eu fu i s em p r e t ã o za n ga d o e nunca r ep a r ei? " As s im , n os s a p r im eir a d es cob er t a n a p r á t ica é r econ h ecer n os s a p r óp r ia es t a gn a çã o, cr ia d a p or n os s os p en s a -m en t os cen t r a d os e-m n ós -m es -m os . Os -m a ior es p r ob le-m a s s ã o cr ia d os p or a qu ela s a t it u d es qu e n ã o con s egu im os en xer ga r em nós. A depressão, o medo e a raiva que não são reconhecidos criam r igid ez. Qu a n d o r econ h ecem os a r igid ez e a es t a gn a çã o, a á gu a com eça a flu ir d e n ovo, p ou co a p ou co. S en d o a s s im , a p a r t e m a is vit a l d a p r á t ica é o d es ejo d e s er a p r óp r ia vid a qu e é a p en a s o con ju n t o d a s s en s a ções qu e n os ch ega m com o a qu ilo qu e cr ia nosso rodamoinho.

Ao lon go d e m u it os a n os , t r ein a m o-n os p a r a fa zer o op os to: cr ia r p on t os d e á gu a es t a gn a d a . E s s a é a n os s a fa ls a con qu is ta. Des s e es for ço in ces s a n t e n a s cem t od os os n os s os p r ob lem a s e o nosso d is t a n cia m en t o d a vid a . Nã o s a b em os com o s er ín t imos, como ser um fluxo de vida. Um rodamoinho estagnado, com limites d efen d id os , n ã o es t á p r óxim o d e n a d a . Pr is ion eir os d e s on h os cen t r a d os em n ós m es m os , s ofr em os , com o d izem os vot os d iá r ios de um de nossos centros de zen *. A prática é a lenta inversão disso.

Pa r a a m a ior ia d os es t u d a n t es , es s a in ver s ã o é t r a b a lh o p a r a u m a vid a in t eir a . A m u d a n ça é em ger a l d olor os a , p r in cip a lm en t e n o in ício. Qu a n d o es t a m os h a b it u a d os à r igid ez e à in flexib ilid a d e d e uma vid a d efen d id a , n ã o qu er em os d a r p er m is s ã o p a r a qu e n ova s cor r en t es d e en er gia cr u zem o es p a ço d a con s ciên cia , p or m a is rejuvenescedoras que sejam.

A ver d a d e é qu e n ã o gos t a m os m u it o d e a r fr es co. Nã o gos t a m os m u it o d e á gu a lim p a . Leva m u it o t em p o a t é conseguir-m os en xer ga r n os s o s is t econseguir-m a d e d efes a e conseguir-m a n ip u la çã o d a vid a econseguir-m n os s a s a t ivid a d es d iá r ia s . A p r á t ica a ju d a -n os a en xer ga r t a is m a n ob r a s com m a is cla r eza , e es s a s con s t a t a ções s em p r e s ã o

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d es a gr a d á veis . Ain d a a s s im , é fu n d a m en t a l qu e veja m os o qu e estam os fa zen d o. Qu a n t o m a is t em p o p r a t ica r m os , m a is p r on t a -m en t e p od er e-m os r econ h ecer n os s os p a d r ões d e d efes a . O p r o-ces s o n u n ca é fá cil ou in d olor , p or ém , e a qu eles qu e es t ã o es p er a n d o en con t r a r u m lu ga r fá cil e r á p id o p a r a d es ca n s a r n ã o deverão embarcar nessa viagem.

Por es s e m ot ivo é qu e n ã o m e s in t o à von t a d e com o crescimento do Centro Zen em San Diego. Um número excessivo de a p r en d izes es t á em b u s ca d e s olu ções fá ceis e in d olor es p a r a s u a s d ificu ld a d es . Pr efir o u m cen t r o m en or , lim it a d o à qu eles qu e es tão p r on t os e d is p os t os a execu t a r o t r a b a lh o. Cla r o qu e n ã o es p er o d e p r in cip ia n t es o m es m o qu e d e p r a t ica n t es m a is exp er ien t es . E s t a m os t od os a p r en d en d o, ca d a vez m a is . No en t a n t o, qu a n t o maior o centro, mais difícil é manter o ensino limpo e rigoroso. Não é im p or t a n t e o n ú m er o d e a lu n os qu e con s egu im os a t r a ir p a r a o centro. Importante é manter forte a prática. Por isso estou exigindo ca d a vez m a is n os en s in a m en t os . E s t e n ã o é u m lu ga r p a r a qu em es t á in t er es s a d o n u m a p a z ou n u m es t a d o d e gr a ça a r t ificia is , ou em algum outro estado particular.

O qu e ob t em os efet iva m en t e d a p r á t ica é t or n a r m o-n os m a is con s cien t es , m a is d es p er t os , m a is vivos . É r econ h ecer n os sas t en d ên cia s n ociva s t ã o b em qu e n ã o t en h a m os n eces s id a d e d e p ô-la s em p r á t ica com os ou t r os . Ap r en d em os qu e n u n ca es t á cer t o b er r a r com a lgu ém s ó p or qu e es t a m os a b or r ecid os . A p r á tica ajuda-n os a p er ceb er on d e n os s a vid a es t á es t a gn a d a . Dife-r en t em en t e d os Dife-r ios d e m on t a n h a com s u a m a Dife-r a vilh os a á gu a p er cor r en d o vá r ios lu ga r es , s om os à s vezes leva d os a u m a im o-b iliza çã o com p en s a m en t os d o t ip o: "Nã o gos t o d is s o... E le d e fa t o me magoa", ou "Minha vida é tão difícil...". Na realidade, só existe o flu xo in ces s a n t e d a á gu a . Aqu ilo qu e ch a m a m os d e n os s a vid a nada mais é que um pequeno desvio, um rodamoinho que se forma para em seguida se desfazer. Às vezes, os desvios são pequeninos e m u it o cu r t os : a vid a r od op ia p or u m a n o ou d ois em u m s ó lu ga r e d ep ois é r em ovid a . Ás p es s oa s s e in d a ga m p or qu e a lgu n s b eb ês m or r em qu a n d o a in d a s ã o t ã o n ovin h os . Qu em s a b e? Nós n ã o s a b em os p or qu ê. Fa z p a r t e d es s e in t er m in á vel flu xo d e en er gia . Qu a n d o p u d er m os a ceit á -lo, es t a r em os em p a z. Qu a n d o t od os os nossos esforços vão em direção oposta, não estamos em paz.

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a ceit a r a s cois a s com o ela s s ã o? E s t ip u la r m et a s es p ecífica s p od e bloquear o fluxo da vida, não é?

JOKO: O p r ob lem a es t á n ã o em t er m os m et a s , m a s em n os s a r ela çã o com ela s . Pr ecis a m os t er a lgu m a s m et a s . Por exem p lo, os p a is s e es t ip u la m m et a s , com o or ga n iza r s u a s fin a n ça s a n t e-cip a d a m en t e p a r a p a ga r a ed u ca çã o d e s eu s filh os . As p es s oa s com t a len t os n a t u r a is t êm com o m et a d es en volvê-los . Nã o h á n a d a d e er r a d o n is s o. Ter m et a s é p a r t e d e s er h u m a n o. É com o chegamos lá que cria transtornos.

ALUNO: O m elh or ca m in h o é t er a s m et a s , m a s n ã o fica r n a dependência do resultado final?

JOKO: É is s o. A p es s oa s im p les m en t e fa z a qu ilo qu e é p r ecis o p a r a a t in gir s eu ob jet ivo. Qu a lqu er p es s oa qu e s e in t er es s e em obter u m gr a u a ca d êm ico p r ecis a m a t r icu la r -s e n u m a es cola e a s s is t ir à s a u la s , p or exem p lo. A qu es t ã o é in cen t iva r o ob jet ivo realizando-o n o p r es en t e: fa zen d o is t o, is s o ou a qu ilo, con for m e for s e m os t r a n d o n eces s á r io, a qu i, a gor a . E m a lgu m m om en t o ir em os cola r o gr a u , ou o qu e for . Por ou t r o la d o, s e a p en a s s on h a m os com u m ob jet ivo e d eixa m os d e p r es t a r a t en çã o a o p r es en t e, é p r ová vel qu e n ã o con s iga m os leva r n os s a vid a a d ia n te e fiquemos estagnados.

S eja qu a l for a n os s a es colh a , o r es u lt a d o n os s er vir á como u m a liçã o. S e es t iver m os a t en t os e d es p er t os , a p r en d er em os o qu e é n eces s á r io fa zer em s egu id a . Nes s e s en t id o, n ã o h á d ecis ã o er r a d a . No m in u t o m es m o em qu e t om a m os u m a d ecis ã o, s om os con fr on t a d os com n os s o p r óxim o p r ofes s or . Pod em os fa zer es -colh a s qu e n os d eixem in com od a d os . Pod em os t er r em or s o p or cer t a s cois a s qu e fa zem os e a p r en d er com es s a s exp er iên cia s . Por exem p lo, n ã o exis t e u m a p es s oa id ea l p a r a s e ca s a r , n em u m m eio id ea l d e s e viver . No in s t a n t e em qu e n os ca s a m os , es t a m os com t od o u m n ovo con ju n t o d e op or t u n id a d es in éd it a s d e a p r en -d iza gem , com b u s t ível p a r a p r á t ica . Is s o va le n ã o a p en a s p a r a ca s a m en t os , m a s p a r a qu a lqu er r ela çã o. E n qu a n t o es t iver m os p r a t ica n d o com o qu e ch ega a n ós , o r es u lt a d o fin a l s er á qu a s e sempre recompensador e terá valido a pena.

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JOKO: Qu a n d o o r od a m oin h o t en t a t or n a r -s e in d ep en d en t e d o r io, com o u m t or n a d o qu e r od op ia e s a i d o con t r ole, ele p od e ca u s a r m u it os es t r a gos . Mes m o qu e p en s em os n o ob jet ivo com o u m cer t o es t a d o fu t u r o a s er a lca n ça d o, a ver d a d eir a m et a é s em p r e a vid a d es t e m om en t o. Nã o h á com o em p u r r a r o r io p a r a o la d o. Mes m o qu e t en h a m os con s t r u íd o u m d iqu e à n os s a volt a e ten h a m os n os t or n a d o u m la go d e á gu a es t a gn a d a , a lgu m a cois a a con t ecer á qu e n ã o h a vía m os p r evis t o. Ta lvez é a a m iga e s eu s qu a t r o filh os qu e s e con vid a p a r a vir n os vis it a r p or u m a s em a n a . Ou m or r e a lgu ém . Ou o t r a b a lh o m u d a d e r ep en t e. A vid a p a r ece n os a p r es en t a r ju s t a m en t e a qu ilo qu e s er ia p r ecis o p a r a m ovi-mentar o lago.

ALUNO: Em termos da analogia dos rodamoinhos e do rio, qual

é a diferença entre vida e morte?

JOKO: O r od a m oin h o é u m vór t ice, e em t or n o d e s eu cen t r o a á gu a gir a . Con for m e a vid a d a p es s oa va i p r os s egu in d o, o cen t r o a os p ou cos va i fica n d o ca d a vez m a is fr a co. Qu a n d o en fr a qu ecer o s u ficien t e, d es fa z-s e e a á gu a s im p les m en t e s e t or n a d e n ovo p a r t e do rio.

ALUNO: Des s e p on t o d e vis t a , n ã o s er ia m elh or s er s em p r e apenas parte do rio?

JOKO: Nós s em p r e s om os p a r t e d o r io, s en d o r od a m oin h os ou n ã o. Nã o h á com o evit a r m os s er p a r t e d o r io. Nã o s a b em os d is s o, p or ém , p or qu e t em os u m a for m a d elim it a d a e n ã o en xer gamos além dela.

ALUNO: Por t a n t o é u m a ilu s ã o qu e a vid a s eja d ifer en t e d a morte?

JOKO: E m s en t id o a b s olu t o is s o é ver d a d e, em b or a d e n os s o p on t o d e vis t a s eja m m om en t os d is t in t os . E m n íveis d ifer en t es , a m b a s a s p er cep ções s ã o ver d a d eir a s : n ã o exis t e vid a e m or t e e exis t e vid a e m or t e. Qu a n d o s ó con h ecem os es s a s egu n d a p er s p ect iva , a p ega m o-n os à vid a e t em em os a m or t e. Qu a n d o vemos as duas, o aguilhão da morte é muito mais tênue.

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mesmo com os rodamoinhos: eles também mudam e, com o tempo, vã o en fr a qu ecen d o. Algo ced e en fim , a á gu a flu i n u m a corredeira e está tudo certo.

ALUNO: Qu a n d o e n fim m orre m os , re te m os a lgu m a cois a d o qu e fomos ou tudo se acaba?

JOKO: Nã o vou r es p on d er a es s a p er gu n t a . S u a p r á t ica ir á proporcionar-lhe um certo entendimento dessa questão.

ALUNO: Algu m a s vezes você d es cr eveu a en er gia d a vid a com o u m a in t eligên cia n a t u r a l qu e n ós s om os . E s s a in t eligên cia t er ia algum tipo de limite?

JOKO: Nã o. In t eligên cia n ã o é u m a cois a ; n ã o é u m a p es s oa . Nã o t em lim it es . No in s t a n t e em qu e es t a b elecem os lim it es p a r a u m a cois a , n ós a r ein s er im os n a es fer a fen om ên ica d a s cois a s , como um rodamoinho que se enxerga separado do rio.

ALUNO: Um d e n os s os vot os com u n s n o Cen t r o Zen fa la d e u m "ilim it a d o ca m p o d e b en es s es " *. Is s o é o m es m o qu e o r io, qu e a

inteligência natural que nós somos?

JOKO: S im . A vid a h u m a n a é a p en a s u m a for m a t em p or á r ia que essa energia toma.

ALUNO: Ap es a r d is s o, em n os s a s vid a s exis t e d e fa t o a necessidad e d e lim it es . Ten h o u m a gr a n d e d ificu ld a d e em ju n t a r isso com o que você está dizendo.

JOKO: Algu n s lim it es s ã o s im p les m en t e in er en t es a o qu e s om os ; p or exem p lo, t od os t em os u m a qu a n t id a d e lim it a d a d e en er gia e d e t em p o. Pr ecis a m os r econ h ecer n os s a s lim it a ções n es s e s en t id o. Ma s is s o n ã o qu er d izer qu e t en h a m os d e es t a b elecer lim it es a r t ificia is e d efen s ivos qu e b loqu eia m n os sas vid a s . Mes m o qu a n d o s om os a in d a p equ en os r od a m oin h os p od em os já r econ h ecer qu e s om os p a r t e d o r io e n ã o fica m os estagnados.

*

(14)

O

CASULO DA DOR

Qu a n d o n os in clin a m os n o zen d o, o qu e es t a m os h on r a n d o? Uma maneira de responder a essa pergunta é indagar o que de fato h on r a m os em n os s a vid a e qu e t r a n s p a r ece n a qu ilo qu e p en s a m os e fa zem os . E a ver d a d e d es s a qu es t ã o é qu e, em n os s a vid a , n ós n ã o h on r a m os a n a t u r eza b u d a , n em o Deu s qu e en glob a t od a s a s cois a s , in clu s ive a vid a e a m or t e, o b em e o m a l, t od os os op os t os . A ver d a d e é qu e n ã o es t a m os in t er es s a d os n is s o. É cer t o n ã o qu er er m os h on r a r a m or t e, a d or e a p er d a . O qu e fa zem os é er igir um falso deus. A Bíblia diz: "Não tens outros deuses antes de mim". Mas fazemos justamente isso.

Qu a l é o d eu s qu e con s t r u ím os ? O qu e d e fa t o h on r a m os , a qu e d a m os r ea lm en t e a t en çã o, d e m om en t o a m om en t o? Pod e-r ía m os ch a m á -lo d e o d eu s d o con foe-r t o, d a s a m en id a d es e d a s egu r a n ça . Qu a n d o r ever en cia m os es s e d eu s , d es t r u ím os a n os s a vid a . Qu a n d o r ever en cia m o d eu s d o con for t o e d a s a m en id a d es , a s p es s oa s lit er a lm en t e s e m a t a m , com d r oga s , á lcool, cor r id a s d e a u t om óveis , r a iva , im p r u d ên cia s . As n a ções r ever en cia m es s e d eu s n u m a es ca la m u it o m a ior e d es t r u t iva . E n qu a n t o n ã o en xer garmos d e for m a h on es t a qu e é d is s o qu e n os s a vid a t r a t a , n ã o s er em os capazes de descobrir quem somos de fato.

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en ca ixa r t u d o em a lgu m p la n o ou or d em , for m u la n d o u m en t en d im en t o in t elect u a l com p let o, en t ã o t a lvez n ã o s eja m os ameaça d os . S e con s egu ir m os n os s u b m et er a a lgu m a a u t or id a d e, fazê-la d it a r -n os com o a gir , en t ã o p od er em os en t r ega r a ou t r em a r es p on s a b ilid a d e p or n os s a vid a e n ã o t er em os m a is qu e n os in cu m b ir d ela . Nã o t er em os d e s en t ir a a n s ied a d e d e t om a r u m a d ecis ã o. S e viver m os a lu cin a d a m en t e cor r en d o a t r á s d e t od a s a s sensações a gr a d á veis , d e t od a s a s excit a ções , d e t od a s a s for m a s d e d iver s ã o, en t ã o t a lvez n ã o t en h a m os d e s en t ir d or . S e con s e-gu ir m os d izer a os ou t r os o qu e fa zer , m a n t en d o-os b em s ob con t r ole, s ob n os s os p és , t a lvez eles n ã o con s iga m n os fer ir . S e conseguirmos "via ja r " n u m êxt a s e qu a lqu er , s e con s egu ir m os s er u m "b u d a " in con s eqü en t e, n ã o t er em os d e a s s u m ir a r es p on -s a b ilid a d e p elo-s in côm od o-s d o viver . Pod er em o-s a p en a -s r ela xa r e ser felizes.

Tod a s es s a s s ã o ver s ões d o d eu s qu e r ea lm en t e r ever en cia -m os . É o d eu s d o n en h u -m d es con for t o e d o n en h u -m in cô-m od o. S em exceçã o, t od o s er n a Ter r a t em es s a a t it u d e, em m a ior ou m en or gr a u . E n qu a n t o a a lim en t a m os , p er d em os o con t a t o com o qu e n a ver d a d e é. Nes s a fa lt a d e con t a t o, n os s a vid a d es ce em es p ir a l. E a qu eles m es m os in côm od os qu e t a n t o d es ejá va m os evitar conseguem, tomar-nos de assalto.

Tem s id o es s e o p r ob lem a d a vid a h u m a n a d es d e o in ício d os t em p os . Tod a s a s filos ofia s e r eligiões t êm s id o t en t a t iva s va r iá veis d e lid a r com es s e m ed o b á s ico. Ap en a s qu a n d o es s a s t en t a t ivas n os fa lh a m é qu e fica m os p r on t os p a r a in icia r u m a p r á t ica s ér ia . E ela s d e fa t o fa lh a m . Por qu e os s is t em a s qu e a d ot a m os n ã o s e b a s eia m n a r ea lid a d e, n ã o p od em d a r cer t o, a p es a r d e t od os os n os s os m a ior es es for ços . Ma is ced o ou m a is t a r d e, con s t a t a m os que está faltando algo.

In felizm en t e, n ós m u it a s vezes a p en a s a u m en t a m os o n os s o er r o con t in u a n d o com a s m es m a s t en t a t iva s ou r eves t in d o n os s o velh o e d éb il s is t em a com u m ou t r o n ovo, t a m b ém d éb il. É s ed u t or , p or exem p lo, en t r ega r m o-n os a a lgu m a fa ls a a u t or id a d e ou a u m p r et en s o gu r u , qu e ir á a d m in is t r a r a n os s a vid a p or n ós , enquanto t en t a m os en con t r a r a lgo ou a lgu ém for a d e n ós qu e s e in cu m b a d e nosso medo.

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for a . Fiqu ei p en s a n d o n a vid a d e u m a b or b olet a . E la com eça com o u m a la ga r t a , qu e s e d es loca m u it o d eva ga r e n ã o con s egu e enxergar muito longe. Depois de um certo tempo, ela faz um casulo e n a qu ele es p a ço es cu r o e s ilen cios o p er m a n ece m u it o t em p o. Por fim , d ep ois d o qu e d eve p a r ecer u m a et er n id a d e d e t r eva s , ela emerge como uma borboleta.

A h is t ór ia d e vid a d a s b or b olet a s é s em elh a n t e à n os s a p r á t ica . Tem os a lgu n s p r econ ceit os a r es p eit o d e a m b a s , p or ém . Pod em os im a gin a r , p or exem p lo, qu e s en d o a s b or b olet a s s er es lin d os , s u a vid a n o ca s u lo, a n t es d e s e t or n a r em b or b olet a s , t a m b ém é lin d a . Nã o p er ceb em os t u d o o qu e a la ga r t a d eve s u p or t a r p a r a t or n a r -s e u m a b or b olet a . Da m es m a for m a , qu a n d o com eça m os a p r a t ica r , n ã o n os d a m os con t a d a lon ga e p en os a t r a n s for m a çã o a qu e s om os s olicit a d os . Tem os d e en xer ga r a t r a vés d e n os s a b u s ca d e cois a s ext er n a s , d os fa ls os d eu s es d o p r a zer e d a s egu r a n ça . Tem os d e p a r a r d e d evor a r is s o e p er s egu ir a qu ilo com n os s a vis ã o m íop e e s im p les m en t e r ela xa r d en t r o d o ca s u lo, nas trevas da dor que é a nossa vida.

E s s a p r á t ica exige a n os e a n os . Diver s a m en t e d a s b or b oletas, n ã o em er gim os d e u m a s ó vez. E n qu a n t o gir a m os d en t r o d o ca s u lo d e d or , p od em os t er vis lu m b r es fu ga zes d a vid a , com o u m a b or b olet a es voa ça n d o a o s ol. Nes s es m om en t os , s en t im os o a b s olu t o d es lu m b r a m en t o d o qu e é n os s a vid a a lgo qu e n u n ca con h ecem os com o la ga r t in h a s a t a r efa d a s , p r eocu p a d a s a p en a s com n ós p r óp r ia s . Com eça m os a con h ecer o m u n d o d a b or b olet a apen a s p elo con t a t o com n os s a p r óp r ia d or , o qu e s ign ifica n ã o r ever en cia r m a is o d eu s d o con for t o e d a s a m en id a d es . Tem os d e d es is t ir d e n os s a s er vil ob ed iên cia a qu a lqu er s is t em a qu e evit e a d or qu e t en h a m os ela b or a d o, con s t a t a n d o qu e n ã o p od em os n os es qu iva r d o in côm od o s im p les m en t e cor r en d o m a is d ep r es s a e t en t a n d o m a is u m p ou co. Qu a n t o m a is d ep r es s a n os a fa s t a m os d e n os s a d or , m a is ela s e a p od er a d e n ós . Qu a n d o n ã o fu n cion a m a is a qu ilo d e qu e d ep en d ía m os p a r a d a r s en t id o à n os s a vid a , o qu e fazer?

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s u b m et id a a u m con t r ole t ot a l. Qu a n t o m a is fu gim os d a r ea lid a d e, mais a dor aumenta. Essa dor é nossa mestra.

A p r á t ica s en t a d a n ã o t r a t a d e en con t r a r u m es t a d o feliz d e gr a ça e n ele s e es qu ecer . E s s e es t a d o p od e in clu s ive ocor r er n a p r á t ica s en t a d a , qu a n d o já h ou ver m os viven cia d o n os s a d or vá rias vezes s egu id a s , d e m od o qu e d ep ois s ó r es t a o en t r ega r -s e. E s s a en t r ega a es s a a b er t u r a p a r a a lgo n ovo e vir gem é a con s eqüência d e s e viver a d or , n ã o o r es u lt a d o d e s e en con t r a r u m lu ga r on d e podemos deixar a dor do lado de fora.

Sesshin * s en t a d o e a p r á t ica d iá r ia s ã o u m a qu es t ã o d e n os

embrulharmos naquele casulo de dor. Não o faremos senão de bom gr a d o. Pr im eir o p od em os t er a p en a s u m a p equ en a fa ixa atando-n os , e eatando-n t ã o atando-n os livr a m os d ela . Ou t r a vez a eatando-n r ola m os à atando-n os s a volt a e m a is u m a vez n os s olt a m os , Dep ois d e u m t em p o, s en t im o-n os d is p os t os a s eo-n t a r com u m a p a r cela d e o-n os s a d or d u r a o-n t e a lgu m t em p o. E n t ã o d ep ois , t a lvez, d is p om o-n os a t oler a r d u a s ou t r ês fa ixa s n os a p er t a n d o. Con for m e n os s a vis ã o va i fica n d o m a is cla r a , p od em os s im p les m en t e s en t a r d en t r o d e n os s o ca s u lo e descobrir que é o único espaço sossegado que já tivemos na vida. E, qu a n d o es t iver m os d is p os t os a es t a r a li em ou t r a s p a la vr a s , qu a n d o es t iver m os d es eja n d o qu e a vid a s eja o qu e ela é, en glob a n d o t a n t o a vid a com o a m or t e, t a n t o o p r a zer com o a d or , t a n t o o b em com o o m a l, s en t in d o con for t o em s er a s d u a s coisas , então o casulo começa a desfazer-se.

Difer en t em en t e d a b or b olet a , a lt er n a m os en t r e o ca s u lo e a borboleta muitas vezes. Esse processo se mantém por toda a nossa vid a . Tod a vez qu e d ep a r a m os com á r ea s n ã o r es olvid a s d d n os s a vid a , t em os qu e con s t r u ir u m ou t r o ca s u lo e r ep ou s a r n ele em s ilên cio a t é qu e t en h a s e com p let a d o o p er íod o d e a p r en d iza gem . Tod a vez qu e o ca s u lo s e r om p e e n ós d a m os m a is u m p equ en o passo, estamos um pouco mais livres.

O p r im eir o e es s en cia l p a s s o p a r a n os t or n a r m os u m a b or -b olet a é r econ h ecer qu e n ã o ch ega r em os lá s en d o la ga r t a s . Temos que enxergar mais além de nossa busca pelo falso deus do conforto e d o p r a zer . Tem os qu e for m u la r u m a n ít id a im a gem d es s e d eu s . Tem os d e a b r ir m ã o d e n os s a n oçã o d e qu e t em os d ir eit os , d e qu e a vid a n os d eve is t o ou a qu ilo. Por exem p lo, t em os d e a b a n d on a r a

*

(18)

n oçã o d e qu e con s egu im os for ça r os ou t r os a n os a m a r fa zen d o cois a s p a r a eles . Tem os d e r econ h ecer qu e n ã o t em os con d ições d e m a n ip u la r a vid a p a r a n os s a t is fa zer e qu e en con t r a r os d efeit os em n ós ou n os ou t r os n ã o é u m ca m in h o efica z p a r a s e a ju d a r qu em qu er qu e s eja . Aos p ou cos va m os a b a n d on a n d o n os s a arrogância básica.

A ver d a d e é qu e a vid a d en t r o d o ca s u lo é fr u s t r a n t e e d ói m u it o e n u n ca fica in t eir a m en t e p a r a t r á s . Nã o es t ou d izen d o qu e d a m a n h ã a t é a n oit e s en t im os a lgo com o "E s t ou en volvid o p ela d or ". E s t ou d izen d o qu e es t a m os s em p r e a cor d a n d o p a r a o qu e d e fato nos sentimos atraídos, para aquilo que estamos fazendo com a n os s a vid a r ea lm en t e. E o fa t o é qu e is s o é d olor os o. Nã o exis t e possibilidade de liberdade, porém, sem essa dor.

Ou vi h á p ou co t em p o u m a d ecla r a çã o d e u m a t let a p r ofis -s ion a l: "Am or n ã o é p r a zer com p a r t ilh a d o. É d or r ep a r t id a ". E i-s u m a b oa p er cep çã o. S em d ú vid a p od em os gos t a r m u it o d e p a s sear com nosso marido ou namorado, por exemplo, quando saímos para ja n t a r ju n t os . Nã o es t ou qu es t ion a n d o o va lor d o p r a zer com p a r t ilh a d o. Ma s , s e qu er em os u m a r ela çã o m a is p r óxim a e a u t ên t ica , p r ecis a m os com p a r t ilh a r com n os s o com p a n h eir o a qu ilo qu e m a is n os a s s u s t a fa la r p a r a ou t r a p es s oa . Qu a n d o fa zem os is s o, en t ã o o ou t r o t em a lib er d a d e d e fa zer a m es m a cois a . E m vez d is s o, qu er em os fica r m a n t en d o a n os s a im a gem , p r in cip a lmente para alguém a quem estamos tentando impressionar.

Compartilhar nossa dor não significa ficar informando o outro d e qu e m a n eir a ele n os ir r it a . S er ia u m a ou t r a m a n eir a d e lh e es t a r d izen d o "E s t ou com r a iva d e você". Is s o n ã o n os a ju d a a qu eb r a r n os s o fa ls o íd olo, n em a n os a b r ir p a r a a vid a com o u m a b or b olet a . O qu e d e fa t o n os a b r e é fa la r d e n os s a s vu ln er a b ilid a d es . Às vezes vem os u m ca s a l qu e vem fa zen d o es s e á r d u o t r a b a lh o d u r a n t e t od a s u a vid a . Ao lon go d es s e t em p o, en velh ecer a m ju n t os . Pod em os s en t ir o im en s o con for t o, a qu a -lid a d e r ecíp r oca d e b em -es t a r en t r e os d ois . É m a r a vilh os o e m u it o r a r o. S em es s a qu a lid a d e d e a b er t u r a e vu ln er a b ilid a d e, os p a r es n ã o fica m s e con h ecen d o d e ver d a d e; s ã o u m a im a gem viven d o com outra imagem.

(19)

é is s o qu e es t á a con t ecen d o, qu a l s er ia u m a b oa p er gu n t a p a r a s e fazer?

ALUNO: "O que estou evitando?"

ALUNO-. Eu poderia perguntar: "O que estou vivenciando neste

exato momento?".

JOKO: E s s a s s ã o d u a s b oa s p er gu n t a s p a r a s e fa zer . O cu r ios o é qu e d izem os qu e qu er em os con h ecer a r ea lid a d e e ver a n os s a vid a com o ela é; e, n o en t a n t o, qu a n d o com eça m os a p r a t ica r , ou freqüentamos os sesshin, encontramos imediatamente maneiras de evitar a realidade, refugiando-nos nesse estado nebuloso, sonhador. E s s a é a p en a s u m a ou t r a for m a d e r ever en cia r o fa ls o d eu s d o conforto e do prazer.

ALUNO: Nã o é u m cer t o d es equ ilíb r io b u s ca r o s ofr im en t o e concentrar nele a atenção?

JOKO: Nã o t em os qu e ir b u s cá -lo, ele já es t á em n os s a s vid a s . A ca d a cin co m in u t os en t r a m os n u m a es p écie d e d ificu ld a d e. Tod a n os s a "b u s ca " é p a r a evit á -lo. E xis t em in con t á veis m a n eir a s p a r a s e t en t a r es ca p a r d ele, ou p a r a coloca r u m a con ch a d e p r ot eçã o a n os s a volt a . Ap es a r d e t od os os n os s os es for ços , es s a con ch a s e r om p e. E n t ã o fica m os m a is d es es p er a d os e n os es for ça m os m a is . Va m os t r a b a lh a r e d es cob r im os qu e o ch efe t eve u m a n oit e d ifícil, ou qu e n os s o filh o a ca b a d e liga r d izen d o qu e es t á com p r ob lem a s n a es cola . A con ch a es t á s en d o o t em p o t od o in va d id a . Nã o exis t e m a n eir a d e n os a s s egu r a r m os d e qu e ela p er m a n ecer á in t a ct a . Nos s a s vid a s s e d es m or on a m p or qu e n ã o con s egu im os t oler a r nenhuma oposição ao modo como queremos que as coisas saiam.

A d or es t á con s t a n t em en t e em n os s a s vid a s . S en t im os n ã o s ó a n os s a p r óp r ia d or , m a s a d a s p es s oa s a o n os s o r ed or . Ten t a m os erguer um paredão mais sólido que o anterior, ou evitar as pessoas qu e es t ã o s ofr en d o; con t u d o, a d or s em p r e es t á p r es en t e, s eja como for.

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JOKO: Nã o é n eces s á r io. S e es t iver m os a ler t a s p a r a o qu e es t á s e p a s s a n d o em n os s os p en s a m en t os e em n os s o cor p o n es t e m o-mento, teremos mais do que o suficiente com que trabalhar.

Qu a n d o es t a m os p len a m en t e d es p er t os , n es t e m om en t o, a p r á t ica t a m b ém p od e s er a gr a d á vel. Ma s n ã o d evem os ir em b u s ca d is s o e t en t a r es ca p a r d a d or , p ois a s s im es t a r ía m os t r a zen d o p a r a a p r á t ica o fa ís o d eu s e n os r ecu s a r ía m os a d es p er t a r p a r a s u a verdadeira natureza.

ALUNO: Com o t em p o d es cob r i qu e o qu e com eça a a p a r ecer d u r a n t e a p r á t ica n ã o é t a n t o p r a zer ou d or , n em a lgo en t r e es s es d ois , m a s a p en a s in t er es s e. A vivên cia p od e s er vis t a com o u m a espécie de curiosidade,

JOKO: Sim, bem lembrado.

ALUNO: E s t a m os fa la n d o d a d ifer en ça en t r e o a b s olu t o e o relativo? Podemos dizer que o absoluto é prestar atenção em tudo e qu e o r ela t ivo é ir a p en a s a t r á s d e p r a zer e con for t o? Rela xa r n o casulo da dor seria então um meio de se chegar ao absoluto?

JOKO; E u n ã o d ir ia qu e é "u m m eio d e ch ega r a o a b s olu t o", p ois s em p r e es t a m os n ele. Por ém , es colh em os n ã o p r es t a r a t en çã o n o fa t o d e es t a r m os n ele e d eixa r m os d e la d o p a r t e d e n os s a s vivência s . O a b s olu t o s em p r e en glob a a d or e o p r a zer . Nã o h á n a d a d e er r a d o com a d or em s i: n ós a p en a s n ã o gos t a m os d ela . Nã o exis t e a lgo ch a m a d o a b s olu t o qu e s eja m a ior d o qu e o r ela t ivo. São os dois lados de uma mesma moeda. O mundo fenomênico das p es s oa s , d a s á r vor es e d os t a p et es e o m u n d o a b s olu t o d o p u r o n a d a in cogn os cível, d a en er gia , s ã o a m es m a cois a . E m vez d e ir em b u s ca d e u m id ea l u n ila t er a l, p r ecis a m os n os cu r va r d ia n t e d o a b s olu t o n o r ela t ivo, a s s im com o d o r ela t ivo n o a b s olu t o. Devem os honrar todas as coisas.

S

ÍSIFO E O FARDO DA VIDA

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p ed r a im en s a colin a a cim a a p en a s p a r a vê-la d es cer t u d o d e n ovo, interminavelmente, eternidade afora.

Com o t od os os m it os , es s a h is t ór ia con t ém u m en s in a m en to. Como vocês vêem esse mito? Do que ele trata? Como um koan, tem muitos aspectos.

ALUNO: O m it o s u ger e p a r a m im qu e a vid a é u m ciclo. E xis t e um começo, um meio e um fim e então começa tudo de novo.

ALUNO: Is s o m e fa z p en s a r n a p r á t ica d e fica r lim p a n d o e limpand o o es p elh o. Tem os d e fa zê-lo a t é d es is t ir e viver o momento presente.

ALUNO: O ca s t igo d e S ís ifo é h or r ível s ó s e ele es p er a qu e u m dia termine.

ALUNO: E s s e m it o m e r ecor d a a a çã o ob s es s iva , qu a n d o es t ou preso num ciclo repetitivo de comportamentos e pensamentos.

ALUNO: S ís ifo p a r ece u m a p es s oa qu e es t á lu t a n d o com a vid a e seus fardos, tentando livrar-se deles.

ALUNO: E s s a h is t ór ia p a r ece a n os s a p r á t ica . S e vivem os ca d a m om en t o, s em o p en s a m en t o d e a lgu m a m et a , ou d e ch ega r em a lgu m lu ga r ou d e fin a lm en t e ob t er a lgu m a cois a , en t ã o n ós a p en a s vivem os . Fa zem os o qu e h á em s egu id a : em p u r r a r a r och a , ela rolar, e então empurrar de novo.

ALUNO: Pen s o qu e a h is t ór ia d e S ís ifo r ep r es en t a a id éia d e que não existe esperança.

ALUNO: A n a t u r eza d e m in h a m en t e é n ã o fica r s a t is feit o com m eu s p r óp r ios feit os e t er m a is in t er es s e n o d es a fio d e ch ega r em a lgu m lu ga r . As s im qu e con s igo a lgo, ele n ã o m e d iz m a is m u it a coisa.

ALUNO: S ís ifo é qu em eu s ou . S om os t od os S ís ifos , t en t a n d o fa zer a lgu m a cois a com n os s a s vid a s e d izen d o "Nã o p os s o". O próprio rochedo é o "Não posso".

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mesma coisa. Nossa interpretação comum é que a tarefa de Sísifo é d ifícil e d es a gr a d á vel. Con t u d o s ó o qu e a con t ece é em p u r r a r a p ed r a e vê-la volt a r , u m m om en t o d ep ois d o ou t r o. Com o S ís ifo, estamos todos apenas fazendo o que estamos fazendo, de momento a m om en t o. Acr es cen t a m os ju lga m en t os a es s a s a t ivid a d es , con t u d o, a cr es cen t a m os -lh es id éia s . O in fer n o n ã o es t á em em p u r r a r a p ed r a , m a s em p en s a r n is s o, em cr ia r id éia s d e es p er a n ça e d es a p on t a m en t o, em in d a ga r -s e s e u m d ia s er á p os s ível fin a lm en t e fa zer com qu e a p ed r a fiqu e lá em cim a . "Trabalhei tanto! Talvez desta vez a pedra fique."

Nossos esforços de fato fazem com que as coisas aconteçam e, fa zen d o com qu e ela s a con t eça m , ch ega m os a o s egu n d o s egu in t e. Ta lvez a p ed r a fique n o a lt o p or u m cer t o t em p o; t a lvez n ã o. Nenhum dos dois acontecimentos é, em si, bom ou mau. O peso da p ed r a , 0 fa r d o, é o p en s a m en t o d e qu e n os s a vid a é u m a lu t a , d e qu e d ever ia s er d ifer en t e d o qu e é. Qu a n d o ju lga m os o fa r d o com o a lgo d es a gr a d á vel, p r ocu r a m os m eios p a r a es ca p a r . Ta lvez u m a p es s oa s e em b eb ed e p a r a es qu ecer d o qu e é em p u r r a r a p ed r a . Ou t r a m a n ip u la a s p es s oa s p a r a a ju d á -la com is s o. Mu it a s vezes tentamos em p u r r a r es s a ca r ga p a r a u m a ou t r a p es s oa , p a r a fugirmos do trabalho.

Qu a l p od er ia s er o es t a d o ilu m in a d o p a r a o r ei S ís ifo? S e ele em p u r r a r a p ed r a a lgu n s m ilh a r es d e a n os , o qu e p or fim ir á compreender?

ALUNO: Ser uno com o ato de empurrar, a cada momento.

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en qu a n t o a em p u r r a m os , len t a m en t e ir em os n os t r a n s for m a r . O que significa transformar?

ALUNO: Ma is a ceit a çã o, m en os ju lga m en t os , m a is

descontração diante da vida, abertura para a vida.

JOKO: Ab e rtu ra p a ra a v id a e a ce ita çã o es t ã o u m p ou co for a d o a lvo, em b or a s eja d ifícil en con t r a r p a la vr a s exa t a m en t e cor r et a s .

ALUNO: A ilu m in a çã o t em a lgo qu e ver com ch ega r a o zer o, a o "não-Iugar".

JOKO: Mas o que significa para um ser humano o "não-Iugar"? O que é esse "não-Iugar"?

ALUNO: O agora, o já.

JOKO: S im , m a s com o o vivem os ? Va m os s u p or qu e a cor d o d e m a n h ã com u m a for t e d or d e ca b eça e qu e t en h o u m a a gen d a lot a d a . Tod os t em os d ia s a s s im . O qu e s ign ifica "es t a r n o zer o" diante disso?

ALUNO: S ign ifica es t a r a li com t od os os m eu s s en t im en t os e com t od os os m eu s p en s a m en t os s im p les m en t e es t a r a li, s em acrescentar mais nada extra.

JOKO: S im , e m es m o qu e a cr es cen t em os a lgo ext r a is s o t a m b ém fa z p a r t e d o p a cot e, p a r t e d a vid a com o ela é n es t e m om en t o. Pa r t e d o p a cot e é: "E u s im p les m en t e n ã o qu er o fa zer t u d o d es t e d ia ". Qu a n d o es s e p en s a m en t o é o qu e r econ h eço com o present e, en t ã o es t ou a p en a s em p u r r a n d o a m in h a p ed r a . Pa s s o por esse dia difícil e o que me resta para o dia seguinte? De alguma for m a o r och ed o d es lizou d e volt a p a r a b a ixo en qu a n t o eu es t a va d or m in d o, d e m od o qu e lá vou eu d e n ovo: em p u r r a r , em p u r r a r , em p u r r a r . "E u d et es t o is s o... s im , eu s ei qu e d et es t o. Gos t a r ia qu e t ives s e u m jeit o d e s a ir , m a s n ã o t em ou p elo m en os eu n ã o enxergo nenhum agora." Perfeito sendo como é.

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s im p les m en t e a s in t a m os . Má von t a d e n ã o é p r ob lem a . Um a p a r t e fu n d a m en t a l d e t od a p r á t ica s ér ia é "Nã o qu er o fa zer is s o". E n ã o fa zem os . Ma s , qu a n d o n os s a m á von t a d e é ca r r ega d a p elos es for ços p a r a es ca p a r , a qu es t ã o é ou t r a . "Bom , vou com er ou tra fa t ia d es t e b olo d e ch ocola t e. Ach o qu e s ob r ou u m a "; "Vou t elefon a r p a r a m in h a s a m iga s e fa la r d e com o t u d o é t er r ível"; "Vou m e en fia r n u m ca n t o p a r a p od er r ea lm en t e fica r m e p r eocu p a n d o com minha vida horrível e com toda a pena que sinto de mim". Que outras maneiras existem para se escapar?

ALUNO: Ficar muito ocupado até me esgotar.

ALUNO: Ficar adiando.

ALUNO: Fazer planos e então refazê-los sem parar.

ALUNO: Meu jeito é ficar doente algum tempo.

JOKO: É ver d a d e, cos t u m a m os fa zer is s o: fica r r es fr ia d os, torcer o tornozelo, pegar gripe.

Qu a n d o r ot u la m os n os s os p en s a m en t os , fica m os con s cien tes d e com o es ca p a m os . Com eça m os a ver a s m il e u m a for m a s p ela s qu a is t en t a m os es ca p a r d e viver es t e m om en t o, d e em p u r r a r a n os s a p ed r a . Des d e o m om en t o em qu e n os leva n t a m os p ela m a n h ã a t é a h or a em qu e va m os d or m ir , es t a m os fa zen d o a lgu ma cois a ; em p u r r a m os a n os s a p ed r a o d ia in t eir o. É o n os s o ju lga m en t o a r es p eit o d o qu e es t a m os fa zen d o qu e ca u s a a n os s a in felicid a d e. Pod em os n os ju lga r vít im a s : "E s t ou t r a b a lh a n d o com alguém que não é justo comigo1';' 'Não consigo me defender''.

(25)

Os fa r d os s em p r e es t ã o a p a r ecen d o em n os s os ca m in h os . Por exem p lo, va m os s u p or qu e p r ecis o p a s s a r u m cer t o t em p o com a lgu ém d e qu em n ã o gos t o, e is s o m e p a r ece u m fa r d o. Ou t en h o u m a s em a n a d ifícil p ela fr en t e e fico d es a n im a d a com es s a p er s p ect iva . Ou a s t u r m a s qu e t en h o n es t e s em es t r e s ã o d e a lu n os d es p r ep a r a d os . Cr ia r filh os p od e n os fa zer s en t ir s ob r eca r r ega d os . Doen ça s , a cid en t es , qu a is qu er ob s t á cu los qu e n os ven h a m p ela fr en t e p od em s er s en t id os com o fa r d os . Nã o p od em os viver com o s er es h u m a n os sem en con t r a r d ificu ld a d es , qu e p od em os r es olver chamar de "fardos". A vida então começa a ser tão pesada.

ALUNO: Aca b ei d e m e lem b r a r d e u m con ceit o d a p s icologia que fala da "querida carga".

JOKO: S im , em b or a a "qu er id a ca r ga " n ã o p os s a p er m a n ecer a p en a s em n os s a s ca b eça s ; ela d eve t r a n s for m a r s e em n ós . E xis -t em m u i-t os con cei-t os e n oções m a r a vilh os os , m a s s e eles n ã o s e t or n a r em n ós , com o s om os , p od em t or n a r -s e os fa r d os m a is h os t is d e t od os . E n t en d er u m a cois a in t elect u a lm en t e n ã o b a s t a ; à s vezes é pior do que não entender nada.

ALUNO: E s t ou com d ificu ld a d e p a r a com p r een d er a id éia d e que estamos sempre empurrando a pedra colina acima. Talvez por-que neste momento as coisas todas parecem estar a meu favor.

JOKO: É p os s ível. Às vezes a s cois a s r ea lm en t e vã o a o n os s o en con t r o. Pod em os es t a r viven d o o a u ge d e u m n ovo e m a r a vilh os o r ela cion a m en t o. O n ovo em p r ego con t in u a excit a n t e. Ma s h á u m a d ifer en ça en t r e a s cois a s n os s er em fa vor á veis e o ver dadeiro con t en t a m en t o. Va m os s u p or qu e es t a m os n u m d es s es b elos p er íod os em qu e t em os u m b om r ela cion a m en t o ou u m b om em p r ego, e t u d o es t á u m a m a r a vilh a . Qu a l é a d ifer en ça en t r e es s a s en s a çã o b oa , qu e s e b a s eia em cir cu n s t â n cia s , e o con t en t a m en t o? Como saber?

ALUNO: Tememos que possa acabar.

JOKO: E como esse medo se manifestaria?

ALUNO: Em alguma tensão corporal.

(26)

m es m o a s s im u m a fa s e b oa . Com o é qu e o con t en t a m en t o a ceit a essa sensação boa?

ALUNO: Simplesmente como é.

JOKO: S im . S em s om b r a d e d ú vid a , s e es t iver m os n u m b om p er íod o d e n os s a s vid a s , va m os d es fr u t á lo, m a s s em n os a p ega r -m os a is s o. Nos s a t en d ên cia é p r eocu p a r -m o-n os co-m s eu fi-m e então tentaremos nos agarrar a ele.

ALUNO: É , eu p er ceb o qu e, en qu a n t o es t ou s im p les m en t e viven d o e d es fr u t a n d o is s o, es t ou b em , E qu a n d o eu p a r o e p en s o "Is s o es t á ót im o" qu e eu com eço a m e p r eocu p a r com "Qu a n t o tempo isso ainda vai durar?".

JOKO: Nen h u m d e n ós es colh er ia s er S ís ifo, m a s , em cer t o sentido, todos somos.

ALUNO: Todos temos pedras na cabeça.

JOKO: S im . Qu a n d o n os en t r et em os com a p ed r a qu e es t á s ob r e n os s a ca b eça , o r och ed o d a vid a p a r ece p es a d o. Ma s , p or outro lado, nossas vidas são apenas aquilo que estamos fazendo. O m od o d e fica r m os m a is con t en t es em s ó viver n os s a vid a com o ela é, em só tornar mais leve o fardo de cada dia, é ser essa vivência de con s t a n t e a livia r . E s s a é a for m a d e con h ecim en t o qu e vem d a experiência, e o entendimento intelectual pode decorrer dela.

ALUNO: S e eu s ou b es s e qu e a p ed r a ia d es cer t od a s a s vezes eu poderia pensar: *'Bom, vamos ver com que rapidez consigo levá-la a t é o a lt o d es t a vez. Ta lvez eu p os s a m elh or a r m eu t em p o". E u t r a n s for m a r ia is s o n u m jogo ou cr ia r ia a lgu m a es p écie d e significado em minha mente.

(27)

R

ESPONDENDO ÀS PRESSÕES

Antes do serviço, recitamos o verso do Kesa: "Vasto é o manto d a lib er t a çã o, o ca m p o in for m e d e b en efícios . Vis t o o en s in a m en t o u n iver s a l, s a lva n d o t od os os s er es s en s íveis " *. A fr a s e "ca m p o

in for m e d e b en efícios " é p a r t icu la r m en t e evoca t iva ; t r a z à t ona qu em s om os e qu a l é a fu n çã o d e u m s er viço r eligios o. O p on t o d a p r á t ica d o zen é s er m os qu em s om os u m ca m p o in for m e d e b en efícios . E s s a s p a la vr a s p a r ecem m u it o b ela s , m a s vivê-la s em nossa própria vida é difícil e confunde.

Con s id er em os d e qu e m a n eir a lid a m os com a p r es s ã o ou o es t r es s e. Aqu ilo qu e p a r a a lgu ém é p r es s ã o p a r a ou t r o n ã o é. Pa r a u m a p es s oa t ím id a , p r es s ã o p od er ia s er a t r a ves s a r u m a fes t a a p in h a d a d e gen t e. Pa r a ou t r a , p r es s ã o p od er ia s er fica r s ozin h a , ou cumprir prazos. Há indivíduos para quem pressão seria ter uma vida lenta, monótona, sem nenhum prazo a cumprir. Um novo filho, u m n ovo n a m or a d o, u m n ovo a m igo p od em s er focos d e p r es s ã o. O s u ces s o t a m b ém . Há p es s oa s qu e lid a m b em com o fr a ca s s o, m a s n ã o com o s u ces s o. Pr es s ã o é a qu ilo qu e n os fa z fica r t en s os , qu e nos desperta a ansiedade.

Tem a s , d ifer en t es es t r a t égia s . p a r a . r es p on d er a p r es s ões . Gurdjieff, in t ér p r et e d o m is t icis m o s u fi, ch a m a va n os s a es t r a t égia d e "a s p ect o p r in cip a l" **. Pr ecis a m os a p r en d er qu a l é o n os s o a s

-p ect o -p r in ci-pal a m a n eir a m a is com u m d e lid a r m os com p r es s ões . Qu a n d o es t á s ob p r es s ã o, u m a p es s oa t en d e a r ecu a r , ou t r a s e es for ça p a r a s er p er feit a ou p a r a s er m a is es t r ela a in d a . Há qu em r es p on d e à p r es s ã o t r a b a lh a n d o m a is , e h á os qu e en t ã o t r a b a lh a m m en os . Algu n s fogem , ou t r os t en t a m d om in a r . Há os qu e s e ocu p a m e fa la m b a s t a n t e; e h á os qu e s e t or n a m m a is calados do que o habitual.

Descobre-s e qu a l é o a s p ect o p r in cip a l ob s er va n d o-s e qu a n do s e es t á s ob p r es s ã o. Tod o d ia qu a n d o a cor d a m os , é p r ová vel qu e h a ja a lgu m a cois a a d ia n t e n a qu ele d ia qu e ir á n os ca u s a r a lgu m a

*

Francis Dojun Cook, How to raise an ox. Zen master Dogen's Shobogenzo, including ten newly translated essays, Los Angeles: Center Publications, 1978, p. 24 e S.

**

(28)

p r es s ã o. Qu a n d o a s cois a s es t ã o d ifíceis , n ã o h á s en ã o p r es s ã o em n os s a vid a . E m ou t r a s ép oca s exis t e m u it o p ou ca p r es s ã o e en t ã o p en s a m os qu e a s cois a s es t ã o in d o b em . Ma s a vid a s em p r e n os pressiona de alguma maneira.

Nos s o p a d r ã o t íp ico d e r es p on d er a p r es s ões é cr ia d o b em n o in ício d e n os s a s vid a s . Qu a n d o en fr en t a m os d ificu ld a d es n a in fâ n cia , o m a cio t ecid o d a vid a com eça a for m a r p r ega s . É com o s e es s a s p r ega s for m a s s em u m a p equ en a b ols a qu e u s a m os p a r a es con d er n os s o m ed o. O m od o com o es con d em os n os s o m ed o es s a p equ en a b ols a , qu e é n os s a es t r a t égia p a r a d a r con t a d a situação é n os s o a s p ect o p r in cip a l. E n qu a n t o n ã o en fr en t a r m os n os s o "a s p ect o p r in cip a l" e viven cia r m os n os s o m ed o, n ã o conseguir em os s er a qu ela t ot a lid a d e con t ín u a , o "ca m p o in for m e d e b en efícios ". E m vez d is s o es t a m os t od os r ep let os d e p r ega s , d e calombos.

Ao lon go d e u m a vid a in t eir a d e p r á t ica , o a s p ect o p r in cipal d a p es s oa m u d a qu a s e qu e in t eir a m en t e. Por exem p lo, eu costumava ser tão tímida que, se tivesse de comparecer a uma sala on d e es t ives s em d ez ou qu in ze p es s oa s , p or exem p lo, ou a u m coquetel para pouca gente, eu levaria uns quinze minutos andando d e u m la d o p a r a ou t r o lá for a a n t es d e con s egu ir r eu n ir a cor a gem necessá r ia p a r a en t r a r . Hoje, n o en t a n t o, em b or a eu n ã o p r efir a gr a n d es fes t a s , s in t o-m e à von t a d e n ela s . E xis t e u m a gr a n d e d ifer en ça en t r e s en t ir t a n t o m ed o qu e m a l s e con s egu e en t r a r n a s a la e s en t ir -s e à von t a d e n es s a s it u a çã o. Nã o es t ou qu er en d o d izer qu e a p er s on a lid a d e b á s ica d a p es s oa m u d e. E u n u n ca s er ei ''a a lm a d a fes t a '', m es m o qu e viva a t é os 1 1 0 a n os . Gos t o d e olh a r p a r a a s p es s oa s qu e es t ã o n u m a fes t a e d e con ver s a r com a lgu m a s delas; esse é o meu jeito.

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podemos usar nossa pequena mente para corrigir a pequena mente. É u m p r ob lem a for m id á vel: a qu ilo m es m o qu e es t a m os in ves t iga n d o é t a m b ém o n os s o m eio ou in s t r u m en t o d e investigação. A distorção em nosso modo de pensar distorce nossos esforços para corrigir a distorção.

Nã o s a b em os com o a t a ca r o p r ob lem a . S a b em os qu e a lgo em n ós n ã o va i b em p or qu e n ã o es t a m os em p a z; t en d em os a exp er im en t a r t od a s a s es p écies d e fa ls a s s olu ções . Um a d es s a s "s olu ções " é n os t r ein a r a p en s a r d e m od o p os it ivo. E s s a é a p en a s u m a m a n ob r a d a p equ en a m en t e. Qu a n d o n os p r ogr a m a m os p a r a t er p en s a m en t os p os it ivos a in d a n ã o ch ega m os r ea lm en t e a n os com p r een d er e s en d o a s s im con t in u a m os a en t r a r em d ificu ld a d es . S e cr it ica m os n os s a m en t e e n os d izem os : "Você n ã o p en s a m u it o b em , en t ã o n ã o vou for çá -la a p en s a r ", ou "Você a lim en t ou t od os es s es p en s a m en t os d es t r u t ivos ; a gor a você d eve t er p en s a m en t os a gr a d á veis , p en s a m en t os p os it ivos ", a in d a es t a m os u s a n d o n os s a m en t e p a r a t r a t a r d e n os s a m en t e. E s s e p on t o é s ob r et u d o d ifícil p a r a os in t elect u a is a b s or ver em , u m a vez qu e p a s s a r a m s u a vid a in t eir a u s a n d o a m en t e p a r a r es olver p r ob lem a s e, é n a t u r a l, in icia m s u a p r á t ica zen d o m es mo m od o. (Nin gu ém m elh or qu e eu p a r a s a b er com o é a s s im !) A es t r a t égia n u n ca d eu cer t o e n u n ca dará.

Existe uma única maneira de se escapar a esse laço fechado e n os en xer ga r com cla r eza : t em os d e d a r u m p a s s o a lém d o a lca n ce d e n os s a p equ en a m en t e e ob s er vá -la . E s s a qu e ob s er va n ã o é p en s a m en t o p or qu e o ob s er va d or p od e ob s er va r o p en s a mento. Tem os d e ob s er va r a m en t e e r ep a r a r n o qu e ela es t á fa zen d o. Tem os d e n ot a r com o a m en t e p r od u z es s es en xa m es d e p en s a m en t os a u t ocen t r a d os e cr ia , d es s a m a n eir a , a t en s ão corporal. O processo de dar um passo atrás não é complicado, mas s e n ã o es t a m os h a b it u a d os a ele p a r ece n ovo e d es con h ecid o e talvez assuste. Com persistência, torna-se mais claro.

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eficiên cia p or qu e fica m os m u it o ocu p a d os com o n os s o a b or r e-cimento e com o transtorno causado pelo aspecto principal.

Va m os s u p or qu e a lgu ém n os cr it icou . De r ep en t e s en t im os a p r es s ã o. Com o lid a r com is s o? Nos s o a s p ect o p r in cip a l a p a r ece n o m es m o in s t a n t e. Us a m os qu a lqu er t r u qu e m en t a l qu e con s e-gu im os en con t r a r : p r eocu p a ções , ju s t ifica t iva s , r ecr im in a ções . Po-d em os t en t a r es qu iva r -n os Po-d o p r ob lem a p en s a n Po-d o em a lguma cois a in ú t il ou ir r eleva n t e. Pod em os u s a r a lgu m a d r oga p a r a silenciá-lo.

Qu a n t o m a is ob s er va r m os n os s os p en s a m en t os e a ções , m a is n os s o a s p ect o p r in cip a l t en d er á a d es a p a r ecer . Qu a n t o m a is s e d es fa z, m a is s en t im o-n os d is p on íveis p a r a viven cia r o m ed o que apareceu antes de tudo. Durante muitos anos, a prática refere-se a for t a lecer o ob s er va d or . Com o t em p o, es t a r em os d is p on íveis p a r a fa zer o qu e es t iver p ela fr en t e, s em r es is t ên cia , e es s e ob s er va d or d es a p a r ecer á . Nã o p r ecis a r em os en t ã o d o ob s er va d or p a r a m a is n a d a ; p od em os s er a p r óp r ia vid a . Qu a n d o es s e p r oces s o es t iver com p let o, a p es s oa s er á u m s er p len a m en t e r ea liza d o, u m b u d a em b or a eu a in d a n ã o t en h a con h ecid o n in gu ém cu jo p r oces s o tenha ficado completo.

S en t a r p a r a a p r á t ica é com o n os s a vid a d iá r ia : o qu e a p a r ece qu a n d o n os s en t a m os é o p en s a m en t o a qu e qu er em os n os a p ega r , o n os s o a s p ect o p r in cip a l. S e gos t a m os d e fu gir d a vid a , en con t r a r em os em n os s a p r á t ica s en t a d a u m a m a n eir a d e n os es qu iva r d o s en t a r . S e gos t a m os d e n os p r eocu p a r , fica r em os p r eocu p a d os ; s e gos t a m os d e fa n t a s ia r , ir em os fa n t a s ia r . Aqu ilo qu e fa zem os em n os s a p r á t ica s en t a d a é com o o m icr ocos m o d o r es t o d e n os s a s vid a s . Nos s a p r á t ica s en t a d a m os t r a -n os com o es t a m os leva n d o n os s a vid a e n os s a vid a m os t r a -n os o qu e fa ze-mos quando nos sentaze-mos para a prática.

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ALUNO: Meu "a s p ect o p r in cip a l" p a r ece m u d a r con for m e a s i-t u a çã o. S ob p r es s ã o em ger a l s ou con i-t r ola d or , d om in a d or e Fico com r a iva . E m ou t r a s it u a çã o, n o en t a n t o, p os s o t or n a r -m e r et r a í-do e calaí-do.

JOKO: Mes m o a s s im , p a r a ca d a p es s oa , com p or t a m en t os diferent es em r es p os t a à p r es s ã o a d vêm d a m es m a a b or d a gem b á s ica d ia n t e d o m ed o, em b or a p os s a m p a r ecer d ifer en t es . E xis t e um padrão intrínseco que está sendo expresso.

ALUNO; Qu a n d o m e s in t o p r es s ion a d o em es p ecia l qu ando m e s in t o cr it ica d o , d ou d u r o e t en t o fa zer b em a s cois a s ; t en t o n ã o s om en t e r evid a r , m a s s en t a r -m e n a a n s ied a d e e n o m ed o. No a n o p a s s a d o, p or ém , ch egu ei à con s t a t a çã o d e qu e, qu a n d o m e s in t o cr it ica d o, p or t r á s d e m eu s es for ços p a r a a gir d e for m a cor r et a es t á u m a r a iva en or m e. O qu e r ea lm en t e qu er o é a t a ca r ; sou um tubarão assassino.

JOKO: E s s a ir a es t eve a li o t em p o t od o; s er u m a b oa p es s oa e u m b om p r ofis s ion a l é s eu d is fa r ce. E xis t e u m t u b a r ã o a s s a s s in o em t od o m u n d o. E é o m ed o qu e n ã o s e viven ciou . S eu m od o d e encobri-lo é p a r ecer s er t ã o b oa p es s oa , fa zer t a n t a s cois a s e s er tão maravilhoso que ninguém jamais consiga ver quem você de fato é a lgu ém m or t o d e m ed o. Con for m e va m os d es en t er r a n d o es s a s ca m a d a s d e fú r ia , é im p or t a n t e n ã o d eixá -la va za r p a r a n os s a s con d u t a s ; n ã o d evem os in fligir n os s a fú r ia a os ou t r os . Na p r á t ica gen u ín a , n os s a fú r ia é a p en a s u m es t á gio qu e p a s s a . Por ém , p or a lgu m t em p o, s en t im o-n os m u it o m a is in com od a d os d o qu e qu a n d o com eça m os . Is s o é in evit á vel; es t a m os n os t or nan d o m a is h on es t os e n os s o fa ls o es t ilo s u p er ficia l es t á com eça n d o a s e d is s olver . O p r oces s o n ã o d u r a p a r a s em p r e, m a s com cer t eza é m u it o d es a gr a d á vel en qu a n t o d u r a . De vez em qu a n d o p od em os a t é exp lod ir , m a s is s o é m elh or d o qu e fu gir ou m a s ca r a r n os s a reação.

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