As empresas e a sustentabilidade (Iniciação Científica)

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revista

ecopolítica

ago - nov 2011

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Uma breve observação nas práticas

de divulgação das grandes empresas

evidencia que “sustentabilidade”1 é a

palavra recorrente. Nos mais diversos

setores – da mineração ao sistema

bancário – as empresas se esforçam

para que sejam vistas e conceituadas

como sustentáveis.

Nesse contexto, a primeira

pergun-ta que emerge da análise da relação

das empresas com a sustentabilidade

é: “como elas procedem?”. A

ra-pidez na resposta por elas

emiti-da relaciona-se à “sustentabiliemiti-dade”

como um conceito “frouxo”, tratado

de forma rápida e paradigmática.

Explica-se esse tratamento pelo

fato dos líderes empresariais

pre-tenderem se apresentar como leigos,

reforçando o senso comum e dando

a impressão de criarem tal gestão

de maneira compartilhada com os

empregados. Assim o fazem porque

a sustentabilidade se tornou um fator

estratégico para os negócios

vincula-dos a uma respeitável reputação. A co-municação da sustentabilidade passou

a ter um papel fundamental para essas

empresas, impelindo-as a aderir ao

discurso sustentável, mesmo que de

forma esquemática, rápida ou

retóri-ca. Enfim, a construção histórica do

conceito de sustentabilidade ocorreu

de forma a não permitir uma

defini-ção exata, conclusiva e consensual a

seu respeito, até mesmo nos meios

acadêmicos e especializados.

O que impulsiona uma empresa a

ser sustentável? O movimento

empre-sarial sustentável objetiva responder

às demandas sociais, culturais e

eco-nômicas que se desenvolveram de

forma global durante as últimas

dé-cadas. A resposta a essas demandas

não exige que as empresas discutam,

ou levem ao limite, efetivamente, o

que seja sustentabilidade e o que isso

exige delas; basta serem constituídas

formalmente como tal para benefi-

ciarem-se dessa condição a curto prazo2

As empresas e a sustentabilidade

Felipe Carvalho de Oliveira Costa

Estudante de Ciências Econômicas na PUC-SP; bolsista iniciação científica com

o projeto “Como as empresas pensam a sustentabilidade ambiental”, vinculada ao projeto temático FAPESP Ecopolítica.

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e contornarem qualquer outro

pro-blema estrutural que possa lhe ser

colocado. Em outras palavras, é

útil às empresas que o conceito

permaneça “frouxo”.

O movimento das empresas em

prol da sustentabilidade, também

passou a retro-alimentar as

deman-das sociais, culturais e econômicas.

Com a ascensão do movimento

ambientalista, a partir de 1960, a

percepção da sociedade quanto à

incompatibilidade do sistema

capi-talista com o meio ambiente ganhou

força, visibilidade e importância a

ponto de provocar constantes

ajus-tes, mudanças e redirecionamentos

empresariais visando preservar a

imagem, e, portanto os lucros. As

empresas vistas como prejudiciais,

ao meio ambiente e às pessoas,

viram-se forçadas a reagir,

incor-porando, ainda que minimamente,

práticas de “responsabilidade

cor-porativa” e “gestão ambiental”.

Como a intenção das empresas

é primordialmente parecer susten-tável, mesmo que isso não

signi-fique efetivamente ser sustentável, as práticas de divulgação de suas

ações ganharam força na medida

em que se converteram em

me-lhoria de imagem, ganho de ativos

e, consequentemente, em vantagem

competitiva por se apresentarem

sus-tentáveis. Assim, por meio do

meca-nismo tradicional de competição, as

empresas são forçadas a se tornarem

sustentáveis e a divulgar seus

resul-tados.

Em suma, pelo processo de

retro-alimentação sistêmico, no qual

práti-cas sustentáveis geram mais prátipráti-cas

sustentáveis, difundiu-se o conceito

de “sustentabilidade” no meio

em-presarial e, também, no cotidiano, a

ponto de torna-se pré-requisito para

as grandes empresas. Estas aprimoram

programas “educacionais”3, foram e

reafirmam a “exigência” crescente aos

cidadãos para que ajam de maneira

sustentável.

Desta forma, inúmeros órgãos,

ONGs, mecanismos, premiações, selos

e certificações configuram nichos modu-

láveis de mercado muito lucrativo,

ao qual interessa a manutenção e

expansão do que se pode chamar de

“esverdeamento” da sociedade.

Uma breve análise das modulações

de produção e consumo predominan-

tes no planeta evidencia como é

incompatível a sustentabilidade

efe-tiva, pois a constante expansão de

produção e do consumo necessários

ao sistema capitalista é inconciliável

com a capacidade de regeneração

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combinações entre a retórica da

con-servação e a da precon-servação.

Uma sustentabilidade real exigiria

uma reformulação das noções de

progresso, desenvolvimento, produção

e consumo que predominam,

pratica-mente, em todo o planeta. As

empre-sas, obviamente, não estão dispostas

a enfrentar ou mesmo participar de

mudanças que levem à derrocada

do modo pelo qual toda sua

exis-tência se fundamenta. No máximo,

dispõem-se a adotar tecnologias

me-nos dame-nosas ao meio ambiente e a

otimizar processos com a finalidade

de reduzir o impacto ambiental

ma-léfico de suas ações.

O objetivo das empresas continuará

sendo a maximização de seus lucros

e a expansão de seu poder

eco-nômico. Entretanto, ajustam-se aos

tempos em que se veem obrigadas,

ou impulsionadas, a convencer seus

acionistas a concordarem com uma

mudança de paradigmas de

desen-volvimento e a assimilar a partici-pação cada vez mais colaborativa de seus empregados.

Empresas sustentáveis desejosas

da construção de um planeta

susten-tável anunciam a “onda empresarial

sustentável” para soluções de curto

prazo, criadas pelas práticas

capita-listas diante de um conflito sempre

iminente que ultrapassa a oscilação

entre preservação e conservação

am-biental.

Notas

1 Em suas publicações, as empresas não

costumam diferenciar sustentabilidade de

desenvolvimento sustentável, de forma que no presente texto esses termos também podem ser vistos como sinônimos.

2 Entenda-se curto prazo no sentido em que

essa resposta das empresas, ao contrário do que divulgam, parece não ser uma solução definitiva para o problema ambiental, mas sim uma possibilidade para o meio ambiente nos próximos anos/décadas ao meio ambiente, e para elas, imediatamente.

3 Entenda-se como práticas educacionais,

a publicidade tradicional e os programas

educacionais específicos, como a Valer –

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