FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
TRABALHO FINAL DO 6º ANO MÉDICO COM VISTA À ATRIBUIÇÃO DO GRAU DE MESTRE NO ÂMBITO DO CICLO DE ESTUDOS DE MESTRADO INTEGRADO EM MEDICINA
MARIA ARMANDA LAUREANO SIMÕES CASTRO PEREIRA
MANIFESTAÇÕES NEUROLÓGICAS COMO FORMA
DE APRESENTAÇÃO DO CANCRO DO PULMÃO
ARTIGO DE REVISÃO
ÁREA CIENTÍFICA DE PNEUMOLOGIA
TRABALHO REALIZADO SOB A ORIENTAÇÃO DE:
PROFESSOR AUXILIAR COM AGREGAÇÃO CARLOS ROBALO CORDEIRO
Índice:
Resumo 3 Abstract 4 Objectivos 5 Introdução 6 Desenvolvimento 10 1. Cancro do Pulmão 10 2. Síndromes Paraneoplásicas 13 2.1 Achados Clínicos 14 2.2 Abordagem Clínica 153. Complicações Neurológicas do Cancro do Pulmão 18
3.1 Invasão directa do tumor primário 19
3.1.1 Plexopatia e compressão periférica neural 19
3.2 Complicações da Doença Metastática 20
3.2.1 Metástases Cerebrais 20
4. Síndromes Paraneoplásicas no contexto de Neoplasia Pulmonar 23
4.1. Síndromes endócrinas 23
4.1.2. Hipercalcémia Humoral Maligna 23
4.2. Síndromes Neurológicas 26
4.2.1 Encefalomielite 26
4.2.2 Degeneração Cerebelar 28
4.2.5. Síndrome de Stiff-man 31
4.2.6. Neuropatia Subaguda Sensitiva 31
4.2.7. Neuromiotonia 32
4.2.8. Síndrome miasténica Lambert Eaton 33
4.2.9. Polimiosite e Dermatomiosite 34
Conclusões 37
Resumo:
O cancro do pulmão, em particular o carcinoma de pequenas células do pulmão, é a principal causa maligna de síndromes paraneoplásicas. Esta revisão foca-se nos dados da literatura acerca da associação das síndromes paraneoplásicas com o cancro do pulmão. As síndromes paraneoplásicas podem ser o primeiro sinal de apresentação ou de recorrência da neoplasia subjacente. Geralmente, a síndrome paraneoplásica pode ser aliviada com o tratamento bem sucedido do tumor.
Síndromes paraneoplásicas, em particular as neurológicas, são doenças com fisiopatologia relacionada ao cancro, mas não atribuíveis a metástases ou outros mecanismos indirectos. Desenvolvem-se em menos de 1% dos doentes com neoplasias sistémicas, mais frequentemente neoplasia pulmonar de pequenas células, neoplasias da mama e ovário. Podem afectar qualquer nível do sistema nervoso e frequentemente antecedem a detecção do tumor. O diagnóstico correcto depende de um alto grau de suspeição por parte do médico, além do conhecimento de suas manifestações clínicas e dos tumores tipicamente a elas associadas. Por anteceder o diagnóstico da neoplasia, a sua importância reside na oportunidade de identificar e tratar precocemente o tumor, que muitas vezes é pequeno e por isso mesmo escapa à detecção mesmo após avaliações clínicas repetidas.
Palavras-chave: Neoplasia do pulmão, Cancro do pulmão de células pequenas, complicações neurológicas, metástases cerebrais, síndrome paraneoplásica, neuropatia,
Abstract:
Lung cancer, particularly small cell lung cancer, is the most common malignancy causing paraneoplastic syndromes. This review focuses on published literature on paraneoplastic syndromes associated with lung cancer.
Paraneoplastic syndromes could be found as presentation first sight or recurrence of an underlying cancer. Generally paraneoplastic syndrome is relieved with well success tumour therapy.
Paraneoplastic syndromes, particulary the neurologic ones, are disorders with physiopathology cancer related, but not attributable to metastasis, and presumably immunologic mediated. Developed in less than 1% of patients with systemic neoplasm, particularly small cell lung cancer, breast and ovary cancer. They can affect any part of nervous system and frequently are prior of cancer detection. The correct diagnosis depends of high levels of medical suspicion, knowledge of clinical manifestations and cancers related with them. In consequence of its early manifestations in relation with cancer diagnosis, it can lead to an important early identification and treatment of an underlying malignant process, which can be undetected even in repeatedly clinical examinations.
Keywords: Lung neoplasm, small cell lung cancer, neurologic complications, brain metastasis, paraneoplastic syndrome, neuropathy, myopathy, encephalopathy.
Objectivos:
Com este trabalho pretende-se realçar, através de uma breve revisão da literatura, as complicações neurológicas comuns dos processos neoplásicos pulmonares, descrevendo igualmente a relação das síndromes paraneoplásicas neurológicas com a neoplasia pulmonar e a importância destas no diagnóstico precoce dos processos tumorais pulmonares.
Introdução:
A nível mundial, o cancro do pulmão é responsável por mais de um milhão de novos casos em cada ano.1 A incidência de cancro do pulmão continua a aumentar (0,5% ao ano) em paralelo com o aumento de consumo de tabaco.1 A sobrevida global aos 5 anos é de cerca de 15%, sem grandes previsões de mudança. Em Portugal, relativamente à doença oncológica, situa-se em terceiro lugar, sendo a primeira causa de morte por cancro. O tabaco é responsável por cerca de 85% dos casos.
Um estudo realizado em Portugal pelo período de 3 anos, entre 2000-2002, pela Comissão de Trabalho de Pneumologia Oncológica da Sociedade Portuguesa de Pneumologia em 22 hospitais, mostrou que, de um total de 4396 doentes com cancro do pulmão, 81,8% se referem ao sexo masculino e 18,2% ao sexo feminino, com uma média etária de 64,49 ± 11,28 anos. Cerca de 70% dos doentes eram fumadores ou ex-fumadores.2
Do ponto de vista histológico, 37,5% eram adenocarcinomas, seguido do carcinoma epidermóide com 30,5% dos casos e dos tumores de pequenas células com 12,5%; carcinomas neuroendócrinos em 1,4 % dos casos; CPNPC 10,5%, mistos em 0,7%, carcinomas de grandes células em 2,3% e outros e não especificados em 4,6% dos casos.3
Classicamente, dividimos o cancro do pulmão em dois grandes tipos: o carcinoma do pulmão de não pequenas células (CPNPC), com os seus três subtipos (adenocarcinoma, carcinoma epidermóide e carcinoma de grandes células), e o carcinoma do pulmão depequenas células (CPPC).
O carcinoma do pulmão de pequenas células representa 18% a 25% de todos os cancros do pulmão. Caracteriza-se por um crescimento tumoral rápido, uma disseminação metastática precoce e uma boa resposta à quimioterapia. Apesar da relativa quimio e radiossensibilidade, da alta taxa de resposta e do prolongamento significativo da sobrevivência em conjugação com a melhoria da qualidade de vida, as longas sobrevivências e a cura são muito raras4. Se não tratado, o CPCP tem uma história natural curta, com uma sobrevivência mediana de 1-3 meses para a doença disseminada e de 2-5 meses para a doença limitada. Este quadro tem sido substancialmente alterado com a terapêutica. Para os doentes, com doença limitada, a sobrevivência mediana situa-se entre os 10 e os 16 meses, com uma taxa de sobrevivência aos 5 anos de 16%. Para a doença disseminada, a sobrevivência mediana situa-se entre 6 e 12 meses, com uma taxa de sobrevivência aos 5 anos de 1 a 2%5.
As condições consideradas como primárias são as que resultam da infiltração directa das estruturas neurais pelos tumores pulmonares, ou pela doença metastática, ou ainda como resultado das síndromes paraneoplásicas (SP). Em paralelo, os doentes com cancro do pulmão desenvolvem frequentemente encefalopatias tóxicas e metabólicas em resultado da medicação, desarranjo metabólico, infecções e deficits nutricionais.
As síndromes paraneoplásicas compreendem um complexo grupo de condições que virtualmente afectam todos os órgãos. Por definição, reflectem efeitos à distância do cancro que não os causados pelo crescimento do cancro e invasão directa do mesmo, complicações do tratamento, deficits nutricionais ou complicações isquémicas.
As SP ocorrem mais frequentemente em pacientes com cancro do pulmão e do ovário. Podem representar a forma inicial de apresentação de cancro, surgindo meses a anos antes do tumor primário ser diagnosticado, podendo revelar-se um passo crucial na detecção precoce do
cancro. Os sinais e sintomas das SP resultam usualmente da produção de hormonas pépticas, estimulação da produção de auto-anticorpos e possivelmente no aumento da susceptibilidade a infecções virais. Ocasionalmente, os sintomas revertem com o tratamento do processo maligno subjacente.
As síndromes paraneoplásicas neurológicas (SPN) ocorrem em <1% dos pacientes com cancro3. Mecanismos imunológicos parecem desempenhar um papel importante na patogénese das SPN, por partilharem epítopos antigénicos com as células cancerosas e as células nervosas (Organograma 1.). Os auto-anticorpos reagem com os antigénios presentes no Sistema Nervoso Central (SNC) e tecidos tumorais, tendo sido encontrados pela primeira vez no soro e líquido cefalorraquidiano nos pacientes afectados por SPN em 19656. Mais tarde, outros auto-anticorpos contra antigénios neurais foram descobertos. Sendo demonstrado o valor diagnóstico dos auto-anticorpos na detecção das SPN.
Ainda que numa frequência reduzida no cancro do pulmão, e com uma incidência estimada em apenas 7% a 15% na totalidade dos pacientes com cancro7, a síndrome paraneoplásica deverá ser entendida como importante por várias razões:
1) Os sintomas e sinais resultantes desta podem ser confundidos com os efeitos directos da neoplasia ou como efeitos tóxicos resultantes da terapia.
2) As manifestações paraneoplásicas podem ser a pista inicial da presença de um processo neoplásico maligno oculto, e em alguns casos, direccionar para um tipo específico de cancro.
3) A actividade do tumor maligno e da síndrome paraneoplásica apresentam usualmente um curso paralelo, podendo por isso ser utilizadas como marcador da remissão ou recorrência da neoplasia.
Principais Estruturas susceptíveis de lesão no SPN
Córtex
(Sistema límbico, ínsula, gânglios da base)
Tronco Cerebral
Medula
Cerebelo
Gânglios das Raízes Dorsais
Nervo Periférico
Junção Neuromuscular
Sistema Nervoso Autónomo
Retina
Desenvolvimento:
1. Cancro do Pulmão:
Cancro do pulmão refere-se a tumores que surgem do epitélio respiratório (brônquios, bronquíolos e alvéolos). Mesoteliomas, linfomas e tumores do estroma (sarcomas) são diferentes do cancro do pulmão epitelial. Existem quatro tipos de células que dão origem a até 88% das neoplasias pulmonares, de acordo com a classificação da Organização Mundial de Saúde. Elas são o carcinoma epidermóide, o carcinoma de pequenas células, o adenocarcinoma (como o bronquioalveolar) e o carcinoma de células grandes. O restante inclui carcinomas indiferenciados, carcinóides, tumores das glândulas brônquicas e tipos mais raros de tumor.
Perante um tumor do pulmão, a distinção essencial a fazer é entre um carcinoma das variedades de pequenas células (CPCP) ou de não pequenas células (CPNCP) (epidermóide, adenocarcinoma, carcinoma de células grandes, carcinoma bronquioalveolar e versões mistas destes). Sendo menos importante a identificação dos subtipos histológicos dos CPNCP, já que as decisões terapêuticas são tomadas com base na primeira classificação.
As distinções histológicas, entre CPCP e o CPNCP consistem nas seguintes: o CPCP (Fig.1) apresenta células com citoplasma escasso, núcleos pequenos hipercromáticos com padrão de cromatina fino e nucléolos indistintos com bainhas de células difusas, enquanto as células do CPNCP (Fig.2) apresentam citoplasma abundante, núcleos pleomórficos com cromatina de padrão grosseiro, nucléolos proeminentes e arquitectura glandular ou escamosa pavimentosa).
Entre as distinções moleculares, o CPCP exibe propriedades neuroendocrinológicas ausentes no CPNCP, produção de hormonas peptídicas específicas (como hormona adrenocorticotrópica, vasopressina, factor natriurético atrial, peptídeo libertador de gastrina). Observam-se ainda diferenças nas alterações dos oncogenes e genes supressão tumoral: os CPCP apresentam mutações no gene RB em 90% e anormalidade em p16 em 10%, mas nunca possuem mutações nos genes KRAS ou EGFR, enquanto os CPNCP exibem mutações em
KRAS em 30% e em EGFR de aproximadamente 10%. Fig.1 Padrão Histológico CPCP
Fonte:www.pathology.com.br/capulmcompl.htm
Fig.2 Padrão Histológico CPNCP (adenocarcinoma)
O cancro do pulmão de células pequenas (CPCP) corresponde a cerca de 18-25% de todos os cancros primários do pulmão. Surge de uma forma agressiva e quase sempre existem metástases à altura da apresentação do mesmo. A sobrevida nos pacientes não tratados é de cerca de 3 meses após o diagnóstico, enquanto que com quimioterapia, associada ou não a radioterapia, a sobrevida prolonga-se para cerca de 1 ano.
As complicações neurológicas surgem como frequentes e importantes causas de mortalidade e morbilidade nos pacientes com CPCP. As metástases no Sistema Nervoso Central (SNC) são diagnosticadas mais frequentemente nos CPCP do que nos outros tipos de cancro do pulmão, com as metástases cerebrais como o tipo preferencial de metástases no SNC.
Taxas de Frequência, incidência ajustada para a idade e sobrevida dos diferentes tipos histológicos do Cancro do Pulmão
Tipo histológico Frequência Taxa ajustada Taxa de
de malignidade torácica % à idade sobrevida
em 5 anos
Adenocarcinoma 32 17 17
Carcinoma Bronquioloalveolar 3 1,4 42
Carcinoma Epidermóide 29 15 15
Carcinoma de pequenas células 18 9 5
Carcinoma de células grandes 9 5 11
Fonte: resumido de Travis et al.: Cancer 75:191, 1995
2. Síndromes Paraneoplásicas:
A “síndrome paraneoplásica” traduz-se em sintomas e/ou sinais resultantes dos danos em órgãos ou tecidos com localização distante do local da neoplasia primária, ou de alguma metástase resultante dessa neoplasia. As síndromes paraneoplásicas podem afectar virtualmente todos os órgãos e tecidos, algumas vezes resultando em sinais neurológicos ou sintomas, mesmo quando o sistema nervoso não é directamente envolvido. O sistema nervoso pode ser afectado de uma seguintes formas:
1. A desordem paraneoplásica pode danificar um órgão ou tecido não neural causando efeitos secundários no sistema nervoso: hipercaliémia paraneoplásica causada por tumor produtor de proteína relacionada com a hormona paratiroideia8 e Síndrome de Cushing paraneoplásica causada pela produção ectópica de corticotrofina (ACTH) pelo tumor, provocando encefalopatia e fraqueza muscular9,10.
2. A síndrome paraneoplásica afecta uma estrutura não neural levando a um dano estrutural directo do sistema nervoso. Exemplo: Síndrome Trousseau 11,12, consequência da hipercoagulação associada à neoplasia, que pode conduzir a enfarte cerebral por oclusão arterial ou venosa; infecções oportunistas decorrentes da imunosupressão provocada pela neoplasia ou pelo tratamento desta, causando leucoencefalopatia multifocal progressiva13.
3. A síndrome paraneoplásica afecta directamente o sistema nervoso sem envolvimento de outros órgãos.
2.1 Achados Clínicos:
Os sintomas e o curso das síndromes neurológicas paraneoplásicas variam de acordo com as síndromes paraneoplásicas específicas, mas existem princípios gerais verificam-se em todas:
o A maioria destas síndromes inicia-se de forma aguda ou subaguda, progredindo durante semanas a meses, com posterior estabilização. Síndromes que se caracterizam por exacerbações e remissões ou que progridem lentamente durante meses a anos são menos prováveis de serem paraneoplásicas.
o A maioria ocorre em pacientes sem neoplasia previamente conhecida. O cancro pode ser de pequenas dimensões ou indetectável até ao início da síndrome neurológica. Os sintomas neurológicos que se desenvolvem em pacientes que já apresentam doença metastática são, na maioria das vezes, causados pelas metástases e não por uma síndrome paraneoplásica.
o A maioria das SPN causa severas alterações neurológicas. Sintomas intermediários, como neuropatia periférica apenas com parestesias nas extremidades inferiores ou desordens de desequilíbrio na marcha, não são considerados como paraneoplásicos.
o As SPN envolvendo o SNC estão muitas vezes associadas à evidência de reacção inflamatória, ex. pleocitose do líquido cefalorraquidiano (que surge precocemente no curso da doença neoplásica) e elevação de IgG.
o Várias síndromes são tão sugestivas de síndromes paraneoplásicas que o cancro surge imediatamente como diagnóstico primário. Contudo, é importante reconhecer que
anormalidades clínicas, laboratoriais e patológicas idênticas podem ocorrer em pacientes sem neoplasia associada.
o Muitas SPN são acompanhadas no soro e no líquido cefalorraquidiano de auto-anticorpos contra os antigénios neurais, que são também expressos no tumor do paciente. Estes auto-anticorpos, por vezes, definem síndromes clínicas específicas e/ou cancros subjacentes específicos.
2.2 Abordagem Clínica:
Perante um paciente que apresente uma síndrome paraneoplásica clássica, ou que apresente uma incapacidade neurológica subaguda que não é explicada pelo exame objectivo ou pelos exames laboratoriais convencionais, deve suspeitar-se de uma síndrome paraneoplásica. Dependendo do deficit neurológico, a ressonância magnética, a análise do líquido cefalorraquidiano, os testes electrodiagnósticos e a medição sérica de anticorpos paraneoplásicos devem ser realizados. A presença de anticorpos paraneoplásicos é um forte indicador de estarmos perante uma síndrome paraneoplásica.
Um recente estudo descrito revelou a presença de anticorpos antineurais em apenas 553 pacientes (<1%) numa série de 60.000 pacientes rastreados, na pesquisa de síndromes paraneoplásicas4.
Na presença de uma síndrome paraneoplásica clássica com anticorpos paraneoplásicos, no soro, a pesquisa de uma neoplasia subjacente é mandatária, através da tomografia computorizada (TC) e da tomografia com emissão positrões (PET) utilizando fluorodeoxiglicose radiomarcada como marcador. O exame diagnóstico complementar mais
nenhuma neoplasia for encontrada, o paciente deve ser monitorizado atentamente e os exames repetidos em intervalos frequentes, até que surjam evidências claras de cancro. O facto de não serem encontradas evidências de cancro não significa peremptoriamente que a síndrome não é paraneoplásica. O tumor pode ser demasiado pequeno para ser detectado, ou em situações raras, o tumor pode desaparecer quando a síndrome paraneoplásica se desenvolve15.
Num paciente com cancro conhecido, uma pesquisa atenta deve ser feita para causas não-paraneoplásicas para os deficits do sistema nervoso. As metástases são a causa mais comum desses deficits. A pesquisa de metástases no cérebro, na espinhal medula e nas leptomeninges deve ser realizada recorrendo a exames de imagem bem como a análise do líquido cefalorraquidiano. Contudo, se o paciente apresentar sintomatologia clássica e anticorpos paraneoplásicos positivos, os sintomas podem ser causados pela síndrome paraneoplásica.
A conduta diagnóstica tem por objectivo a confirmação da existência da síndrome paraneoplásica e a consequente identificação do tumor. Com objectivo de se afastar presença de metástases ou diagnósticos alternativos, torna-se necessária requisição de marcadores tumorais no sangue (CA-125), imunoelectroforese de proteínas séricas e urinárias, mensuração de anticorpos “específicos” (anti-Hu, anti-Yo, anti-Ri, anti-TR, e anti-NM), exame do LCR, e estudos de imagem.16
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Define SPN
1. Síndrome clássica e cancro que se desenvolve com do diagnóstico de desordem neurológico, no período de 5 anos subsequentes.
2. Síndrome não clássica que resolve ou melhor significativamente depois do tratamento anti neoplásico sem concomitante imunoterapia, informando que a síndrome não é susceptível a remissão espontânea.
3. Síndrome não clássica com anticorpos onconeurais (bem caracterizados/ou não) e neoplasia que se desenvolve num período de 5 anos a partir do diagnóstico de desordem neurológica.
4. Síndrome neurológica (clássica ou não) com anticorpos onconeurais bem caracterizados (Hu, Yo, CV2, Ri, Ma2, ou anti-amphiphysin) e sem cancro.
Possível SPN
1. Síndrome clássica, sem anticorpos onconeurais, sem cancro mas com alto risco de tumor subjacente.
2. Síndrome neurológica (clássica ou não) com anticorpos onconeurais parcialmente caracterizados e sem neoplasia.
3. Síndrome não-clássica, sem anticorpos onconeurais, e cancro presente dentro de 2 anos após o diagnóstico.
Fonte: J Neurol Neurosurg Psychiatry 75:1135-1140, 2004.
3. Complicações Neurológicas do Cancro do Pulmão
Complicações Neurológicas do Cancro do Pulmão Invasão directa do tumor primário
· Plexopatia Braquial
· Síndrome de Horner
Complicações da doença metastática · Metástases Cerebrais
· Metástases da Base do Crânio
· Compressão Epidural da Medula Espinhal
· Metástases Intramedulares
· Metástases Leptomeningeais
Síndromes Paraneoplásicas
I. Síndromes endócrinas
· Hipercalcémia Humoral Maligna II. Síndromes neurológicas
· Encefalomielite (anti-Hu, anticorpos anti-CV2)
· Síndrome Cerebelar
· Retinopatia associada ao cancro (anticorpos anti-revestimento)
· Neuropatia Autonómica
· Síndrome Stiffman (anticorpos anti-anfifisina)
· Neuropatia Sensorial
· Neuromiotonia (síndrome Isaac)
· Síndrome miasténica Lambert Eaton (anticorpos anti-canais de cálcio voltagem-dependentes)
· Poliomiosite/Dermatomiosite
· Miopatia Necrosante Aguda
Doença Cerebrovascular Complicações relacionadas com a terapia · Neuropatias Periféricas associadas a Docetaxel, Cisplatina, Navelbine
3.1 Invasão directa do tumor primário
3.1.1 Plexopatia e compressão periférica neural
Os tumores apicais do
pulmão (Pancoast)
acomodam se na proximidade da raiz dos nervos C8 e T1 e do plexo braquial (Fig.3), com a compressão destas raízes produzindo dor neuropática envolvendo o
membro superior.
Eventualmente, pode surgir entorpecimento e formigueiros na distribuição sensitiva do nervo ulnar na mão, bem como fraqueza dos músculos intrínsecos da mão. Se o tumor cresce sem ser diagnosticado pode desenvolver-se panplexopatia, síndrome de Horner (envolvimento da cadeia simpática, que se traduz no quadro clínico de enoftalmia, ptose, miose e perda ipsolateral da sudorese) e compressão epidural da medula espinhal (a partir do crescimento medial no sentido da medula espinhal). 17
O diagnóstico é usualmente feito pela realização de ressonância magnética (RM) ou tomografia computorizada (TC) do plexo braquial.
Frequentemente, a radioterapia alivia a dor e interrompe o crescimento posterior do tumor
Raízes Divisões
Cordões
Ramos
Fig.3 Plexo Braquial
Outras duas síndromes de compressão neurológica observadas no cancro do pulmão resultam da compressão do nervo laríngeo recorrente e do nervo vago intratorácico. A compressão do nervo laríngeo recorrente, ramo do nervo vago, por invasão tumoral directa ou crescimento dos nódulos linfáticos traduz-se em rouquidão e paralisia das cordas vocais. Quanto à compressão intratorácica do nervo vago, esta ocasionalmente produz dor em torno da orelha ipsilateral.17 A terapêutica antineoplásica pode estabilizar e até mesmo melhorar estes sintomas.18
3.2 Complicações da Doença Metastática
3.2.1 Metástases Cerebrais:
Metástases cerebrais são lesões cerebrais com origem em tumores de tecidos não pertencentes ao sistema nervoso, que o atingem secundariamente através da implantação de grupos celulares transportados pelo sangue ou por continuidade quando os tumores se localizam nas
proximidades dos envoltórios do sistema nervoso.
As metástases intracranianas são as complicações neurológicas mais comuns do cancro sistémico. As metástases podem envolver o cérebro, os nervos cranianos, os vasos sanguíneos, os seios da dura, a dura-máter, as leptomeninges e as tábuas ósseas do crânio. Embora o aparecimento de metástases no sistema nervoso condicione um pior prognóstico, os avanços no tratamento clínico com rádio e quimioterapia, bem como na cirurgia têm feito o possível para reverter muitos dos sintomas dos pacientes, permitindo-lhes uma vida mais
longa e com melhor qualidade de vida.
sistémico é estimada em 20 a 40% no sistema nervoso. No cérebro, as metástases são mais comummente encontradas na área de junção da substância branca com a substância cinzenta, sendo a predominância dessa localização explicada pela mudança de calibre dos vasos sanguíneos que diminuem nesse ponto, fazendo com que os êmbolos de células tumorais sejam ai retidos. Em consequência disto, aproximadamente 80% das metástases cerebrais são localizadas nos hemisférios cerebrais, 15% no cerebelo e 5% no
tronco cerebral.
A forma de apresentação mais comum nas metástases cerebrais é dor de cabeça, fraqueza de um dos lados do corpo, mudança de comportamento, convulsões, ataxia e afasia.
O diagnóstico é feito com relativa facilidade usando-se tomografia computadorizada ou ressonância nuclear magnética.
O tratamento deve ser adequado caso a caso. As metástases poderão ser únicas e passíveis de cirurgias e tratamento radioquimioterapêutico (se o tecido for sensível a esses meios), ou serem múltiplas impedindo a cirurgia, confinando o tratamento somente a radiação ou quimioterapia. Mas em qualquer dos casos, deve ter se a certeza do tipo histológico do tumor,
fazendo pelo menos uma biopsia.
No caso de metástases múltiplas nas leptomeninges o diagnóstico é muito mais difícil em virtude do tamanho reduzido das mesmas. Estas não irão aparecer nos exames de imagem como TC e RMN, sendo então necessário fazer punções lombares repetidas e concentrar as células do liquidocefalorraquidiano com o intuito de aumentar a probabilidade de se encontrar
Pacientes com metástases cerebrais podem ser assintomáticos ou ter sintomas não focais, como cefaleias, náuseas, vómitos, tonturas ou, então sintomas focais de hemiparésias, deficit de nervos cranianos ou perda de campo visual.19
O cancro do pulmão é responsável por 39% a 49% de todas a metástases cerebrais 20,21, e desta percentagem o carcinoma de não pequenas células do pulmão é responsável por cerca de 2/3. As metástases são diagnosticadas no decurso da doença em 20% dos pacientes com CNPCP, número que aumenta para 40% quando diagnosticadas na autópsia.22 Não existem características clínicas particulares que as distingam das metástases de outras etiologias, apesar do cancro do pulmão ser uma importante causa de hemorragia das metástases cerebrais.
No carcinoma de pequenas células do pulmão, as metástases estão presentes em 10% dos pacientes no momento do diagnóstico.19 Estas metástases são quase sempre múltiplas e tem tendência a ser extremamente radiosensíveis, pelo que a radioterapia surge como tratamento inicial e com alta taxa de sucesso.17
Outras complicações da doença metastática consistem em metástases ósseas com dor e fracturas patológicas; invasão da medula óssea com citopenias ou leucoeritroblastose; metástases hepáticas que causam disfunção hepática, obstrução biliar, anorexia e dor; metástases nos gânglios linfáticos na região supraclavicular e ocasionalmente nas axilas e virilhas; e síndromes da compressão espinhal em decorrência de metástases epidurais ou ósseas. São também comuns metástases supra-renais, mas com rara tradução em insuficiência supra-renal.19
4. Síndromes Paraneoplásicas no contexto de Neoplasia Pulmonar
4.1. Síndromes endócrinas:
As síndromes paraneoplásicas causadas pela produção de hormonas polipeptídicas são as mais frequentemente detectadas e melhor entendidas. Múltiplas hormonas polipeptídicas são produzidas pelos carcinomas do pulmão (Tabela 4), em particular pelo carcinoma de pequenas células do pulmão.
4.1.2. Hipercalcémia Humoral Maligna:
O carcinoma do pulmão é o cancro mais comummente associado a hipercalcémia humoral maligna.7 Esta é relativamente frequente em pacientes com carcinoma epidermóide, ocasionalmente ocorre em casos de adenocarcinoma, e raramente é encontrada em pacientes com carcinoma das pequenas células do pulmão.
A proteína relacionada com a hormona paratiroideia (PTHrP) tem sido identificada com um importante mediador da hipercalcémia humoral maligna. A PTHrP é homóloga da hormona paratiroideia, pelo que a primeira mimetiza o comportamento da segunda perante os tecidos ósseos e renais.7
Ralston et al.23, num estudo desenvolvido em 27 pacientes (24 com cancro do pulmão); 8
deles com hipercalcémia à apresentação da neoplasia, e 3 desenvolveram hipercalcémia posteriormente com o decorrer da doença, demonstraram que os tumores dos oito pacientes que apresentavam hipercalcémia inicial positivaram fortemente na pesquisa de PTHrP, e
dezassete dos dezanove tumores dos pacientes normocalcémicos também apresentaram resultados positivos na pesquisa de PTHrP. A evolução bioquímica dos pacientes com hipercalcémia mostrou características consistentes com a acção da PTHrP no osso e no rim, e 4 dos 19 pacientes normocalcémicos apresentavam valores elevados de AMP cíclico, sugerindo que a PTHrP pode ser libertada para a circulação nos pacientes normocalcémicos com cancro, em concentrações muito baixas para causar aumento da concentração do cálcio no soro.
Tabela 4¾Hormonas pépticas produzidas pelos Carcinomas Pulmonares7
Hormona adrenocorticotrópica Vasopressina
Hormona Paratiroideia
Proteína relacionada com hormona paratiroideia (PTHrP) Polipeptídeo vasoactivo intestinal
Hormona Estimuladora Melanócitos Gonadotrofina coriónica humana b Peptídeo natriurético atrial
Factor a de transformação de crescimento (TGF-a) Factor b de transformação de crescimento (TGF-b) Interleucina-1a
Factor de estimulação de colónia por granulócito (G-CSF) Peptídeo libertador de gastrina
Somatostatina Hormona de crescimento Calcitonina Fisalaemina Enolase neurónio-especifica Neurofisina b Endorfina Neurotensina Glucagina
4.2. Síndromes Neurológicas:
As síndromes paraneoplásicas que envolvem o SNC são relativamente frequentes no cancro do pulmão, em particular no carcinoma das pequenas células do pulmão. Vários auto-anticorpos têm sido identificados no soro dos pacientes com síndromes paraneoplásicas neurológicas (tabela 5).
4.2.1 Encefalomielite
Encefalomielite Paraneoplásica (EMP) é um distúrbio inflamatório do sistema nervoso central associado a neoplasias distantes, frequentemente acompanhado de neuropatia sensorial
Síndrome Tumor Anticorpo
Encefalomielite e CPCP Anti-Hu
Neuropatia Sensorial
Degeneração Cerebelar Cancro da mama, Anti-Yo
Subaguda ovário, CPCP
Retinopatia associada.ao cancro (RAC) CPCP Auto-anticorpos da RAC
Síndrome Lambert-Eaton CPCP Anti-VGCC
Mioclonus e Opsoclonus Neuroblastoma, Anti-Ri
CPCP, cancro da mama
Fonte: adaptado Levin KH.: Paraneoplastic neuromuscular syndromes.Neurol Clin. 1997 Aug; 15(3): 597-614.
subaguda. Cerca de 80% dos casos de EMP estão associados a neoplasias brônquicas, principalmente carcinoma de pequenas células do pulmão. Caracteriza-se por um infiltrado inflamatório e perda neuronal no hipocampo, no tronco cerebral, na medula espinhal e nos gânglios das raízes dorsais. O quadro clínico é heterogéneo, podendo apresentar-se como encafalomielite límbica, degeneração cerebelar, mielopatia e neuropatia sensorial subaguda. A encefalite límbica constitui uma apresentação atípica da síndrome paraneoplásica, que pode cursar com convulsões.
Abel C.G. et al.24 descreveram um caso clínico de uma mulher de 69 anos que desenvolveu uma manifestação neurológica infrequente de encefalite límbica como sintoma de apresentação de um carcinoma pulmonar de pequenas células. Foi avaliada por status epilepticus parcial não convulsivo e perturbações neuropsiquiátricas. A radiografia e tomografia computorizada do tórax mostraram linfadenopatia do mediastino e nódulos pulmonares. Subsequentemente, diagnosticou-se cancro do pulmão de pequenas células por biopsia do nódulo pulmonar. O estudo do líquido cefalorraquidiano foi normal. O electroencefalograma crítico mostrou registo ictal, enquanto o electroencefalograma intercrítico e a ressonância magnética sugeriram uma disfunção temporo-límbica A determinação de anticorpos anti-Hu foi negativa. Os sintomas neuropsiquiátricos melhoraram significativamente após quimioterapia sistémica e radioterapia adjuvante. Os estudos seriais de controlo por ressonância magnética (RM) não revelaram metástases após 3 e 6 meses do diagnóstico do cancro.
A EL pode representar uma manifestação inicial de cancro do pulmão. Considera-se a encefalite límbica paraneoplásica um efeito remoto, frequentemente associado a anticorpos antineuronais (anti-Hu) e CPCP.
Concluindo, o status epilepticus pode ser uma forma precoce de apresentação de encefalite límbica e a ausência de anticorpos anti-Hu não exclui a presença de uma neoplasia subjacente do pulmão em doentes com diagnóstico clínico de encefalite límbica. O reconhecimento do espectro clínico de apresentação desta entidade e o tratamento precoce do tumor primário oferecem a melhor possibilidade de melhoria em doentes com tumor do pulmão e encefalite límbica.24
4.2.2 Degeneração Cerebelar:
A Degeneração cerebelar caracteriza-se pela presença de sintomas de disfunção cerebelar (tonturas, alterações visuais, disartria, ataxia), de início subagudo e curso rapidamente progressivo, levando eventualmente à estabilização, deixando o paciente incapacitado por uma síndrome pancerebelar. A intensidade dos sintomas varia entre os pacientes, mas é relativamente constante entre pacientes com o mesmo tipo de tumor e/ou o mesmo tipo de anticorpos anti-neuronais no soro e/ou LCR.25
Pode ser associada com qualquer tipo de cancro, porém o mais comum é o cancro pulmonar, particularmente o carcinoma de pequenas células. Podendo também estar associado ao cancro do ovário ou uterino e aos linfomas (particularmente ao de Hodgkin’s).
Os sintomas neurológicos normalmente precedem na sua maioria o diagnóstico do cancro nos pacientes, e estes procuram um médico pelos sintomas neurológicos. Histopatologicamente, verifica-se destruição quase completa das células de Purkinje e astrogliose, podendo haver alterações desmielinizantes no cerebelo e colunas posteriores da medula.25
Tipicamente, a doença inicia com alguma descoordenação para caminhar evoluindo rapidamente por semanas ou meses com ataxia progressiva para caminhar, descoordenação
dos braços, pernas e tronco, disartria e frequentemente movimentos irregulares nos olhos. Após alguns meses a doença atinge o seu pico e então estabiliza. A esse tempo a maioria dos pacientes não pode caminhar sem serem ajudados e inclusive não se conseguem sentar sozinhos, não conseguem escrever, não são independentes para comer e a fala é bastante difícil.
4.2.3 Retinopatia associada ao cancro:
A Retinopatia associada ao cancro é caracterizada por uma rápida perda da visão binocular, resultante da degeneração dos fotoreceptores. Esta síndrome paraneoplásica ocorre predominantemente nos pacientes com carcinoma das pequenas células do pulmão7,26,porém é relativamente rara enquanto manifestação clínica inicial do CPCP.26
Kornguth et al. reconheceram a presença, na circulação, de anticorpos contra as células ganglionares da retina como a base da perda da visão binocular, na retinopatia associada ao cancro.26
Jacobson et al.7 sugeriram uma tríade clínica constituída por fotossensibilidade, escotoma periférico com perda do campo visual, e calibre das arteriolas retinianas diminuído, como patognomónica da retinopatia paraneoplásica.7
Assim como nas outras síndromes paraneoplásicas, esta tríade pode ser a apresentação inicial da neoplasia, sendo por isso importante a pesquisa minuciosa da possível presença de CPCP. Devendo ser retido na mente, que carcinomas extrapulmonares de células pequenas podem ainda apresentar esta síndrome paraneoplásica.26
4.2.4. Neuropatia autonómica:
A neuropatia autonómica paraneoplásica é uma complicação relativamente rara da doença neoplásica, mas encontra-se frequentemente associada com CPCP.26
O paciente apresenta-se com hipotensão postural, não consegue estar de pé, tem dificuldade em evacuar, existem anormalidades das pupilas e uma bexiga neurogénica. A síndrome é geralmente progressiva, mas pode estabilizar ou melhorar com o tratamento do tumor que a está a causar.
Nesta condição, a dismotilidade gastrointestinal severa manifesta-se como pseudo obstrução intestinal recorrente ou crónica. Como noutras síndromes paraneoplásicas, a presença de pseudo obstrução pode preceder a evidência clínica de cancro e requer uma distinção entre a pseudo obstrução idiopática.26
Sodhi et al.27 descreveram um caso clínico de uma mulher de 60 anos com história de um ano de disfagia, azia, desconforto epigástrico, náuseas, vómitos, distensão abdominal e obstipação. Apresentava nos antecedentes pessoais, história de tabagismo, 10 cigarros/dia durante 40 anos. Nenhum diagnóstico foi concluído à altura. Sendo posteriormente prescrito um tratamento sintomático, durante o qual era reavaliada pelos sintomas persistentes. Sendo de referir a ausência de perda peso, anorexia e astenia durante o ano seguinte (já sob terapêutica sintomática). Cerca de um ano depois, a doente apresentava-se com história de 3 semanas de tosse, expectoração, dores torácicas e agravamento dos sintomas iniciais, já referidos. Após estudo detalhado foi lhe diagnosticado carcinoma pequenas células do pulmão, já metastizado. A paciente morreu 6 meses após o diagnóstico.
4.2.5. Síndrome de Stiff-man:
Síndrome também designada por síndrome de pessoa rígida, que se caracteriza por rigidez muscular flutuante e progressiva, associada a espasmos musculares doloroso intermitentes por vezes desencadeados por um ruído repentino ou movimento. Na electromiografia as unidades motoras, aparentemente normais, apresentam actividade na ausência de contracção voluntária dos grupos musculares. Não se observando descargas patológicas. Esta condição parece ser imunomediada, pois anticorpos contra descarboxilase do ácido glutâmico (GAD) verificam-se presentes em 60% dos pacientes.28 Esta desordem pode, portanto, ser relacionada com a perda da inibição GABA-mediada dos neurónios motores no SNC, pois a síntese de GABA requer GAD.28
Os pacientes com síndrome de pessoa rígida e neoplasia do pulmão apresentam no soro e LCR um anticorpo que reconhece una proteína sináptica de 128 kDa de peso molecular ¾ anfifisina.29,30
Existem casos clínicos descritos da coexistência de Síndrome Stiff-man e CPCP, bem como de outros com associação a outras neoplasias malignas.
4.2.6. Neuropatia Subaguda Sensitiva
A neuropatia periférica é a forma mais frequente de desordem neurológica paraneoplásica associada aos auto-anticorpos nucleares antineurais tipo1 (ANNA-1, anti-Hu).
Na sua maior parte, as pessoas que apresentam esta síndrome não tem diagnóstico de cancro quando procuram um médico.
Os sintomas iniciais são dor e dormência que usualmente começam nas extremidades distais, porém podem alcançar os braços e/ou a face. Os sintomas evoluem durante dias ou várias semanas envolvendo os membros, o tronco e algumas vezes a face condicionando uma severa alteração sensorial. Os reflexos profundos desaparecem, mas a função motora é preservada. O líquido cefalorraquiano é tipicamente inflamatório. A electromiografia é frequentemente normal e os potenciais de acção dos nervos são frequentemente baixos ou ausentes.
4.2.7. Neuromiotonia:
A Neuromiotonia é uma desordem caracterizada por uma actividade motora involuntária excessiva com actividade contínua das fibras musculares. Ocasionalmente encontra-se associada a neoplasias malignas, em particular cancro do pulmão e do timo.28
É caracterizada, electromiograficamente, por descargas únicas ou múltiplas na unidade motora. Os pacientes descrevem rigidez e cãibras multifocais ou difusas, que em alguns doentes se traduzem em incapacidade física marcada. Alguns pacientes demonstram associações imunológicas. A neuromiotonia pode sobrepor-se clínica e electrofisiologicamente à mioquimia, outra forma de actividade contínua das fibras musculares caracterizada pela actividade muscular contínua involuntária (mioquímia clínica), atraso do relaxamento muscular, rigidez e aumento da sudorese31, mas sem neoplasia associada.
4.2.8. Síndrome Miasténica Lambert Eaton:
A Síndrome Lambert-Eaton (SLE) caracteriza-se por fraqueza muscular e fadiga pronunciada na cintura pélvica e na musculatura proximal dos membros inferiores, bem como uma marcada dificuldade em subir escadas ou em levantar-se de uma cadeira. A disfunção nervosa autonómica, em especial secura da boca, obstipação, retenção urinária e impotência, são observadas maioria dos casos.32,33 Por outro lado, a hipotensão postural é rara.33
Na SLE os reflexos tendinosos, ao contrário da Miastenia Gravis, encontram-se diminuídos ou ausentes, mas respondem a activação tónica.32,34 Na estimulação repetida dos nervos observa-se o incremento da resposta, padrão que é oposto ao da Miastenia Gravis. O primeiro potencial evocado é de baixa amplitude, porém com velocidades de estimulação acima de 10Hz ocorre um grande aumento na amplitude do potencial, resposta que resulta da facilitação da libertação do neurotransmissor em elevadas frequências de estimulação.33
A imunidade humoral desempenha um importante papel patogénico na SLE.35 Estudos sugeriram que auto-anticorpos IgG inibem a libertação da acetilcolina através do bloqueio funcional dos canais de cálcio dependentes da voltagem pré-sinápticos no neurónio motor terminal.36 Enquanto o número de vesículas de acetilcolina pré-sinápticas e o seu conteúdo se mantém normal, a libertação de acetilcolina é reduzida porque o influxo de cálcio é dificultado nas junções neuromusculares.34
Os auto-anticorpos parecem também induzir o excesso de produção de acetilcolinesterase, com adicional redução da activação muscular após a despolarização da junção neuromuscular.37,38
Apesar de ser amplamente aceite que a imunossupressão e o tratamento agressivo do processo maligno têm uma acção benéfica, existem poucos estudos da relação entre a resposta do tumor e a melhoria da síndrome.39 A resolução dos deficits neurológicos verificou-se nos pacientes com carcinoma das pequenas células do pulmão sujeitos a tratamento com quimioterapia combinada.39
Os tumores pulmonares usualmente associados à SLE são o carcinoma das células pequenas, o carcinoma epidermóide e o adenocarcinoma (diagnóstico histológico). Contudo pode ainda surgir noutros tipos histológicos.
Demirer et al39 descreveram o caso clínico de uma mulher de 66 anos, com historial de tabagismo (100 maços/ano), sem astenia, anorexia ou perda de peso, que apresentava sinais clínicos de Miastenia Lambert-Eaton, sem evidências de processo neoplásico, após investigação detalhada. Quinze meses depois, foi detectado carcinoma de células grandes do pulmão. Após quimioterapia sistémica e radioterapia ocorreu regressão do tumor com melhoria da função neurológica.
Este caso ilustra a necessidade de investigação periódica detalhada de um processo neoplásico oculto, em pacientes que apresentem esta síndrome, e apoia a associação dos processos neoplásicos pulmonares com a SLE.
4.2.9. Polimiosite e Dermatomiosite:
A dermatomiosite inclui um grupo heterogéneo de doenças inflamatórias que afecta a pele e os músculos esqueléticos.40 O quadro clínico clássico é definido por comprometimento
cutâneo característico e fraqueza proximal progressiva, associado ao aumento das enzimas musculares, assim como uma electromiografia e biopsia muscular sugestivas.44
As manifestações cutâneas incluem o heliotropo (rash de coloração eritemato-violácea com distribuição simétrica periorbital) e as pápulas de Gottron (pápulas ou máculas violáceas dispostas nas superfícies extensoras das articulações metacarpofalangianas e interfalangianas proximais e distais). Outras manifestações como as mãos de mecânico ou o rash cutâneo em "V" na região anterior e posterior do tórax podem estar presentes.41,42,43 A biopsia de pele pode mostrar inflamação crónica perivascular e perianexial com depósitos de mucina44 e células CD4+ podem ser encontradas na derme.43
Suspeita-se de comprometimento muscular diante do relato de uma fraqueza simétrica, proximal e progressiva, manifestando-se como uma incapacidade de subir escadas ou elevar os braços.42,43,45 As enzimas musculares geralmente estão elevadas, sendo a mais específica a creatinoquinase, a qual guarda relação com a gravidade da doença.43 Com a evolução, é comum a presença de disfagia e disfonia pelo comprometimento da musculatura estriada da faringe e do esófago proximal, o que denota um pior prognóstico pela maior incidência de complicações broncoaspirativas.42,43 Na biopsia muscular encontra-se um infiltrado inflamatório perto dos vasos, das fibras musculares, bem como e atrofia das fibras na periferia
dos fascículos.43
A pesquisa de auto-anticorpos mostra um FAN geralmente positivo, porém o resultado não guarda relação com o diagnóstico ou o prognóstico.43 O anti-Mi2 é específico para dermatomiosite, porém pouco sensível (positivo em 25% dos casos). 40,43
A associação da dermatomiosite com a neoplasia é conhecida, porém ainda pouco compreendida.45-48 A neoplasia pode preceder a miosite, surgir conjuntamente ou ser
diagnosticada após a sua manifestação clínica, com maior frequência nos três primeiros anos após o diagnóstico.41,45,47-50 Em alguns casos, a dermatomiosite segue o curso clínico da neoplasia subjacente, sendo que ambas se manifestam conjuntamente e a primeira melhora com o tratamento da segunda, o que sugere uma associação paraneoplásica entre ambas.40,42,45,46,49,50 A pesquisa de uma neoplasia oculta deve fazer parte da investigação de todo paciente com diagnóstico de dermatomiosite.45,47
Numa análise retrospectiva de 618 pacientes com diagnóstico de dermatomiosite foram relatados 198 cancros (32% dos pacientes), sendo que em 83 (7%) dos pacientes o diagnóstico das duas doenças foi feito concomitantemente.49 A investigação de uma possível neoplasia deve ser direccionada segundo a epidemiologia local, os factores de risco, a idade (maior risco
acima dos 50 anos) e o sexo.42,45,47,48
Num trabalho que estudou 153 casos de cancro de pulmão associado a doença do tecido conectivo, 21 (13%) tinham dermatomiosite e 3 (2%) polimiosite. Na análise epidemiológica do grupo em questão observou-se um predomínio de homens (79%) com idade média de 57 anos. Quanto ao tipo histológico, houve uma maior prevalência de carcinoma de pequenas células (29%) e carcinoma epidermóide (20%), sendo que somente 8,3% dos cancros relatados eram adenocarcinoma.47,48 Na maioria dos pacientes, a dermatomiosite ou a polimiosite foi diagnosticada um pouco antes ou conjuntamente com o cancro do pulmão.48
Conclusões:
Perante o facto inquestionável do carcinoma do pulmão ter vindo a aumentar, principalmente nos países mais industrializados, devido a factores de ordem socioeconómica e cultural, esta patologia impõe-se indubitavelmente com uma forte magnitude no contexto médico actual.
Assim sendo e dado o facto desta neoplasia maligna se caracterizar pelo seu diagnóstico tardio e de se perspectivar em respostas terapêuticas bastante limitadas, o conhecimento das síndromes paraneoplásicas poderá ser mais uma “arma” do pensamento médico que permita um grau de suspeição relativamente elevado. Aumenta-se assim a possibilidade de um diagnóstico precoce, com a detecção da doença na fase assintomática, ainda com ressecabilidade do tumor e ausência de metastização a distância, o que se poderá associar a um aumento da esperança de vida e a uma maior oportunidade de cura.
Na prática, mediante uma síndrome paraneoplásica, o diagnóstico correcto depende de alto grau de suspeição por parte do médico, além do conhecimento de suas manifestações clínicas e dos tumores tipicamente a elas associadas. Por anteceder o diagnóstico da neoplasia, a sua importância reside na oportunidade de identificar e tratar precocemente o tumor, que muitas vezes é pequeno e escapa à detecção mesmo após avaliações clínicas repetidas.
As síndromes paraneoplásicas neuromusculares representam uma minoria das situações do foro neurológico surgidas em doentes oncológicos. A causa mais frequente de sintomas e sinais neurológicos em doentes cancerosos é devida ao efeito de metástases do tumor primitivo.
neurológicos precedem em vários meses as manifestações respiratórias. Em 35% dos casos
precede as manifestações radiológicas.
Contrariamente ao que acontece com outras síndromes paraneoplásicas, a sintomatologia
regride de forma diminuta com a remissão completa do tumor.52
A fisiopatologia não está ainda bem esclarecida, mas a grande maioria dos estudos recentes, apontam para mecanismos auto-imunes. Outras síndromes poderão ser explicados pela
secreção de peptídeos cerebrais.
A Degeneração Cerebelosa Subaguda é, de entre as alterações paraneoplásicas do SNC, a
mais comum.
Além das já referidas, existem ainda muitas outras situações clínicas enquadradas nas síndromes neuromusculares, sendo de referir a Mielopatia Necrotizante Aguda, a Esclerose Lateral Amiotrófica, a Miastemia Gravis, a Miopatia Caquéctica, a Miopatia Endócrina e Metabólica, entre outras.
Do ponto de vista neurológico, o diagnóstico da SPN é difícil porque o quadro clínico apresenta-se de forma inespecífica, não havendo um padrão típico, e os sintomas neurológicos ocorrem alguns meses antes da manifestação clínica do cancro.
Contudo, a detecção dos auto-anticorpos que reagem, quer com os antigénios neurais, quer com as células tumorais, podem direccionar a pesquisa de um processo maligno subjacente e ajudar a estabelecer o diagnóstico clínico correcto, sendo que a presença de qualquer um destes anticorpos implica a pesquisa minuciosa com o intuito de localizar uma neoplasia subjacente (oculta ou não).
É de salientar, por fim, que esta revisão teve como finalidade rever algumas das Síndromes Paraneoplásicas associadas ao Carcinoma do Pulmão, as consideradas major pela sua
frequência e repercussões, não tendo a pretensão de abranger todas, pela sua multiplicidade e raridade, o que tornaria esta revisão impraticável. Sabendo que muitas outras serão melhor estudadas no futuro, esta revisão pretende sobretudo sublinhar a importância das referenciadas já conhecidas, para que estejam presentes no pensamento médico, na esperança de que uma vez perante as mesmas, o diagnóstico diferencial mais facilmente perspectivado.
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