Presença e permanência do ideário da Cidade-Jardim em São Paulo: o bairro do Pacaembu

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(1)UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO. PRESENÇA E PERMANÊNCIA DO IDEÁRIO DA CIDADEJARDIM EM SÃO PAULO: O BAIRRO DO PACAEMBU. Oswaldo Antônio Ferreira Costa. Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie como parte das exigências para a obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.. Orientador: Prof. Dr. Candido Malta Campos Neto. São Paulo 2014.

(2) 1. C837p Costa, Oswaldo Antonio Ferreira. Presença e permanência do ideário da Cidade-Jardim em São Paulo: o bairro do Pacaembu. – 2014. 266 f. : il. ; 30 cm. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2014. Referências bibliográficas: f. 206-208. 1.Cidade-Jardim. 2.Pacaembu. 3.Urbanização. I. Título.. CDD 711.4098161. –.

(3) 2. À minha esposa e filhos pelo constante incentivo, apoio e colaboração na realização deste trabalho..

(4) 3. Agradecimento Ao Prof. Dr. Candido Malta Campos Neto, meu orientador, agradeço por sua paciência e, principalmente, pelo incentivo e pela ajuda durante os momentos difíceis, por ter compartilhado comigo com tanta generosidade seu conhecimento e sua experiência para a realização deste trabalho..

(5) 4. RESUMO Os graves problemas associados à urbanização acelerada, acentuados ao longo do século XIX e da primeira metade do século XX, manifestando-se inicialmente nas grandes cidades europeias e norte-americanas e, em seguida, nos maiores centros latino-americanos, mobilizaram os primeiros urbanistas a propor alternativas para o crescente congestionamento e perda da qualidade de vida nas metrópoles; e também pautaram agentes interessados em novos moldes para o desenvolvimento urbano e as oportunidades oferecidas por essa situação. Na cidade de São Paulo, a Companhia City, criada em 1911-1912 com o objetivo de lotear grandes glebas para uso residencial de bom ou alto padrão, recorreu a consultorias e projetos de urbanistas que culminaram na adoção de padrões urbanísticos derivados da experiência do Garden - City Movement inglês, com as teorias de urbanismo e de cidades-jardim discutidas e executadas por Ebenezer Howard, Raymond Unwin e Barry Parker na Inglaterra, para o uso econômico de terras para o desenvolvimento de loteamentos que hoje formam parte do cerne da cidade de São Paulo, como o Jardim América e o Pacaembu. Este trabalho propõe a realização de estudos específicos, a partir de uma revisão histórica dessas teorias e realizações, como as cidades-jardim de Letchworth e Welwyn, da atuação de Unwin e Parker e seu papel no planejamento dos novos bairros da Companhia City em São Paulo a partir de 1915-1917, tendo como principal objeto de estudo o bairro do Pacaembu, idealizado desde 1912, com projeto delineado por Parker entre 1917 e 1919, desenvolvido pelo engenheiro da City George Dodd e implantado a partir de 1925, complementado pela área do Pacaembuzinho em 1941. Durante estes estudos, a presente dissertação elucida os principais pontos que se sucederam para o desenvolvimento do Pacaembu em termos históricos e legislativos, mostrando quem eram os tomadores de decisão envolvidos, as mudanças na legislação de arruamentos e loteamentos (principalmente em 1913 e 1923) e no Código de Obras paulistano (a partir de 1934) relacionadas às propostas, exigências e restrições trazidas pelo modelo dos bairros-jardim, culminando na legislação de zoneamento implementada a partir de 1931, com destaque para o debate em torno do núcleo comercial proposto no final dos anos 1940 e para a Lei 4792 de 1955, regulamentando os bairros do Pacaembu e Pacaembuzinho, importante momento precursor da Lei de Zoneamento de 1972, a Z1-007 criada nesta última data para abranger o Pacaembu e o Pacaembuzinho, e os trechos deixados sem proteção, chegando ao tombamento do bairro pelo CONDEPHAAT em 1992. Ressalta-se que a presente dissertação foi facilitada pelas constantes pesquisas realizadas junto à Companhia City, desde a década de 1990, quando o autor era colaborador desta conceituada empresa de loteamentos em São Paulo..

(6) 5. ABSTRACT The serious issues associated with rapid urbanization, aggravated during the 19th century and the first half of the 20th century, that surged initially in large European and North American cities, and later in the largest Latin American centers, encouraged the first urban planners to propose alternatives to growing congestion and poor living conditions in metropolitan centers; those problems that had arisen also motivated those interested in implementing new urban development models and working with the opportunities offered by this situation. In the city of São Paulo, Brazil, Companhia City, a private enterprise founded in 1911-1912 with the purpose of creating middle and upper-class residential neighborhoods in large land tracts acquired in the urban expansion zone recurred to consultants, planners and designers that culminated in the adoption of urban planning standards derived from the experience of the English Garden City movement, with theories and principles discussed and implemented by Ebenezer Howard, Raymond Unwin and Barry Parker, in its commercial development of subdivisions that now lie at the heart of São Paulo, such as Jardim América and Pacaembu. This work deals with the implications of the garden city movement in São Paulo, starting from a historical revision of these theories and realizations, the garden cities of Letchworth and Welwyn, the participation of Unwin and Parker and their role in the design of new neighborhoods by Companhia City in São Paulo from 1915-1917, having as the main object of study the subdivision of Pacaembu, idealized since 1912, with its design delineated by Parker between 1917 and 1919, developed by Companhia City engineer George Dodd and implemented from 1925, complemented by the area of Pacaembuzinho in 1941. The present dissertation clears the main points in the development of Pacaembu in terms of its history and laws, showing the main decision-makers, the evolution of laws regulating new streets and subdivisions (mainly in 1913 and 1923) and of the municipal Building Code (from 1934) related to the proposals, demands and restrictions brought by the garden city / garden suburb model, culminating in the zoning legislation implemented after 1931, highlighting the debate over the commercial nucleus proposed in the late 1940s and the Municipal Law No. 4792 of 1955, which regulated Pacaembu and Pacaembuzinho, deemed to be an important moment, heralding São Paulo's first comprehensive Zoning Law in 1972; the Z1-007, then created for Pacaembu and Pacaembuzinho, and the parts left unprotected, finalizing with the neighborhood’s listing as historic patrimony by the State Historic Conservation Council CONDEPHAAT in 1992. The present dissertation was facilitated by the constant research realized at Companhia City, since the 1990s, when the author was a collaborator of this celebrated urbanization enterprise in São Paulo..

(7) 6. Sumário Sumário ........................................................................................................................................................... 6 Introdução...................................................................................................................................................... 8 1. 2. Capítulo 1 - O Garden-City Movement e as Primeiras Cidades-Jardim .......................................... 13 1.1. O livro Tomorrow: A Peaceful Path to Real Reform - 1898 .......................................................... 13. 1.2. Letchworth, a primeira "Garden-City" ...................................................................................... 24. 1.3. Welwyn Garden-City - 1920 .......................................................................................................... 47. Capítulo 2 - A legislação de arruamento e parcelamento em São Paulo até 1934 e os. primeiros bairros-jardim da Companhia City ......................................................................................... 65. 3. 2.1. Do Código de Posturas de 1875 ao Código Sanitário de 1894 ........................................... 65. 2.2. A polêmica em torno dos melhoramentos da área central ................................................... 70. 2.3. A criação da Companhia City e suas primeiras iniciativas .................................................... 94. 2.4. Os primeiros projetos da Cia City para o Jardim América e o Pacaembu ......................... 98. Capítulo 3 - O Caso do Bairro do Pacaembu ..............................................................................122 3.1. Caracterização do local ............................................................................................................122. 3.2. Barry Parker e o Pacaembu .....................................................................................................128. 3.3. O desenvolvimento do projeto de Parker para o Pacaembu por George Dodd, 1919-. 1920.... ....................................................................................................................................................134. 4. 3.4. O Estádio do Pacaembu..........................................................................................................136. 3.5. O desenvolvimento do Pacaembu e do Pacaembuzinho ...................................................141. Capítulo 4 - Dos núcleos comerciais ao tombamento do Pacaembu: 1947 - 1992................155 4.1. A polêmica em torno do núcleo comercial do Pacaembu .................................................155. 4.2. As leis de zoneamento de São Paulo e o Pacaembu/Pacaembuzinho .............................169.

(8) 7. 4.3. Considerações finais sobre o Capítulo 4 ...............................................................................200. Considerações Finais ................................................................................................................................201 5. Bibliografia ........................................................................................................................................208. 6. Tabela de Figuras .............................................................................................................................213. 7. Anexos ...............................................................................................................................................224 7.1. Anexo - AN-1 ...........................................................................................................................224. 7.2. Anexo - AN-2 ...........................................................................................................................233. 7.3. Anexo - AN-3 ...........................................................................................................................235. 7.4. Anexo - AN-4 ...........................................................................................................................240. 7.5. Anexo - AN-5 ...........................................................................................................................241. 7.6. Anexo - AN-6 ...........................................................................................................................249. 7.7. Anexo - AN-7 ...........................................................................................................................250. 7.8. Anexo - AN-8 ...........................................................................................................................253. 7.9. Anexo - AN-9 ...........................................................................................................................255. 7.10. Anexo - AN-10 .........................................................................................................................259. 7.11. Anexo - AN-11 .........................................................................................................................260. 7.12. Anexo - AN-12 .........................................................................................................................263.

(9) 8. INTRODUÇÃO Este trabalho deriva, inicialmente, de pesquisas realizadas na Inglaterra sobre projetos de urbanização planejados, com características próprias que os configuram como bairros-jardim, ou em proporções maiores, como cidades-jardim, no sentido de balizar o estudo de realizações similares no Brasil, objeto da presente Dissertação de Mestrado. Para entender o significado desta configuração, inicialmente devemos nos reportar ao passado e para fora do Brasil, mais precisamente para o final do século XIX. Naquela época, em muitas partes da Europa era nítida a existência de grandes problemas ligados à insalubridade das condições de vida da maior parte da população urbana, principalmente devido ao fenômeno da superlotação das cidades industrializadas, agravado pela poluição gerada nas indústrias, oficinas e pelas fumaças oriundas da queima de carvão, principalmente para aquecimento das residências. O êxodo rural era crescente e as cidades existentes não possuíam infraestruturas suficientes para acomodar tamanha população com um mínimo de qualidade e dignidade. O impacto da urbanização acelerada, da congestão dos grandes centros, da insalubridade e do recurso para as soluções mais ou menos improvisadas de sub-habitação mobilizou uma extensa gama de pensadores reformistas e de movimentos de reforma social e urbana. Um deles adquiriu particular destaque por sua proposta ousada e inovadora para enfrentar os problemas referenciados: em 1898, o inglês Ebenezer Howard, um taquígrafo e reformador social, acreditou ter encontrado a solução para os problemas do crescimento descontrolado das cidades e da migração das pessoas do campo para as mesmas, em busca de moradias dignas e bons empregos com salários compatíveis. Reuniu suas ideias em um pequeno livro To-morrow: A peaceful path to real reform (ou “Amanhã: Um caminho pacífico para uma reforma real”), catalisando o Garden-City Movement, ou movimento pelas cidades-jardim, o qual ganhou corpo, apoios importantes; e que acabou propiciando a construção de duas cidades-jardim na Inglaterra (Letchworth Garden-City a partir de 1903 e Welwyn Garden-City a partir de 1920). Os arquitetos Barry Parker e Raymond Unwin foram os responsáveis pela elaboração do planejamento e respectivo projeto urbanístico de Letchworth Garden-City; e o arquiteto Louis de Soissons pelo de Welwyn Garden-City..

(10) 9. Enquanto no interior da Inglaterra alguns projetos pertencentes ao Garden-City Movement estavam sendo implantados; no Brasil, em São Paulo, a legislação proibia a aprovação de projetos com muitas das características pertencentes a este movimento; e um exemplo disto, é que a implantação do sistema viário estava sujeita à utilização do sistema ortogonal, com arruamentos em forma de tabuleiro de xadrez, mesmo em locais com topografia desfavorável para esse tipo de ocupação. Entretanto, desde o início do século XX, articulações e pressões no sentido de readequar a legislação urbanística, de arruamento e parcelamento em São Paulo já estavam em curso e proporcionaram a criação e a atualização das leis ao longo dos anos seguintes, o que acabou por permitir e propiciar a implantação de projetos de urbanização que traziam aportes do urbanismo moderno, como foi o caso dos bairros-jardim parcialmente pautados em princípios enunciados pelo Garden-City Movement. Uma série de importantes protagonistas do debate urbanístico local participaram desse processo, tais como os prefeitos Antônio da Silva Prado (1899-1909), Raimundo Duprat (1910-1913) e Washington Luis (1914-1918), o vereador Augusto Carlos da Silva Teles; o vereador, professor da Escola Politécnica e futuro Prefeito Luiz Ignácio Romeiro de Anhaia Mello; o Diretor de Obras Municipais Vítor da Silva Freire; seu assistente Eugênio Guilhen; o engenheiro-arquiteto Alexandre de Albuquerque; o consultor francês Joseph-Antoine Bouvard, os arquitetos ingleses, ligados ao Garden-City Movement, Raymond Unwin e Barry Parker, o arquiteto Cristiano Stockler das Neves, o engenheiro da Companhia City George Dodd; e outros. Em 1911, notícias sobre a crescente expansão do Brasil foram divulgadas no exterior e acabaram atraindo grandes investidores internacionais para a área imobiliária, que, com a colaboração de intermediários locais como Cincinato Braga e Horácio Sabino, criaram a City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Ltd, mais conhecida como Cia. City, empresa loteadora que adquiriu enormes glebas nos quadrantes Oeste e Sudoeste de São Paulo; e que eventualmente contrataria importantes profissionais para desenvolver seus projetos, como Bouvard, Unwin e, principalmente, Parker. Articulando, em sua diretoria e contatos, nomes de grande peso político e financeiro, a City passou a interferir decisivamente no processo de adequação e atualização da legislação urbanística, de arruamento e parcelamento, e posteriormente da legislação de uso e ocupação do solo em São Paulo, visando a implantação e a preservação de seus empreendimentos denominados como bairros-jardim, podendo ser citados dois casos de loteamentos implantados pela Cia. City, o Jardim América (1915-1919) e o Pacaembu (1925), que tiveram papel crucial nesse processo e dos quais escolhemos este último como objeto de estudo da presente Dissertação..

(11) 10. Concomitantemente à criação dos dois loteamentos supracitados (assim como em outros empreendimentos posteriores), a Cia. City estipulou regras próprias de uso e ocupação do solo para os lotes resultantes, gravando-as nas escrituras de venda e compra e no competente Cartório de Registro de Imóveis e, prosseguiu interferindo no desenvolvimento de legislações específicas, visando a manutenção da sua concepção inicial proposta para estes projetos, no tocante ao uso e ocupação do solo, que acabou influenciando substancialmente no desenvolvimento das legislações urbanísticas que se estenderam para o resto da cidade, principalmente, sobre os critérios para a elaboração de um zoneamento abrangente e detalhado para a cidade de São Paulo, em longo percurso que, iniciado nos anos 1930, culminaria na aprovação e complementação da primeira Lei de Zoneamento geral paulistana nos anos 1970. Visando abordar os temas até aqui mencionados, a presente dissertação transcorrerá em quatro capítulos: O Capítulo 1 aborda aspectos fundamentais, sobre a permanência e atualidade dos aportes do Garden-City Movement, com ênfase para análise do livro supracitado (To-morrow: A peaceful path to real reform), com destaque para as características físicas de uma hipotética cidade-jardim, complementado pela apresentação de explanações, análises e visitas das primeiras cidades-jardim implantadas na Inglaterra - Letchworth Garden-City, projetada por Raymond Unwin e Barry Parker a partir de 1903; e Welwyn Garden-City, projetada por Louis de Soissons a partir de 1920 - segundo a aplicação de muitos dos princípios estabelecidos por Howard. O Capítulo 2 resultou de estudos e pesquisas realizados sobre a legislação de arruamento e parcelamento em São Paulo, suas proposições e alterações até 1934; sobre os debates em torno das diferentes propostas para “os melhoramentos de São Paulo” entre 1906 e 1911, os quais propiciaram a consultoria de Bouvard, a intervenção de Vítor Freire e de outros profissionais, técnicos municipais e vereadores, buscando atualizar as referências urbanísticas em São Paulo – o que abriria caminho para a apropriação de elementos do ideário das cidades-jardim - e sobre o atribulado processo de concepção e implantação inicial dos primeiros bairros-jardim da Companhia City, com ênfase para os casos dos loteamentos do Jardim América e do Pacaembu; sendo que o primeiro dependeu de uma revisão parcial das restrições legais a arruamentos nãoortogonais em 1913; e o segundo só se viabilizou após uma completa reformulação da legislação de arruamento e parcelamento em São Paulo, aprovada após intensos debates em 1923. O Capítulo 3 é dedicado ao estudo do Bairro do Pacaembu e do loteamento que o complementou nos anos 1940, o Pacaembuzinho: como se consolidou o projeto definitivo a partir da estadia de Barry Parker em São Paulo (1917-1919); projeto desenvolvido e detalhado pelo engenheiro da.

(12) 11. City George Dodd; suas características principais de concepção e desenho; sua aprovação em 1925, já com a previsão de um estádio no fundo do vale; e como e onde ocorreu a ocupação inicial do bairro. O Capítulo 4 aborda o período de 1947 a 1992, destacando a polêmica iniciada com a proposição de um núcleo comercial no Pacaembu, de como esse caso ultrapassou os trâmites até então vigentes no tratamento dos bairros residenciais de maior renda – a aplicação dos artigos 39 (restrições de escritura), 40 e 41 do Código de Obras – e desencadeou uma discussão acirrada envolvendo os técnicos e juristas da Prefeitura, a City e os moradores do bairro, sobre os limites e competências dos agentes públicos e privados no que se referia à regulação urbanística; culminando na promulgação da Lei n o 4792 em 1955, regulamentando a zona residencial e o núcleo comercial do Pacaembu, a mais completa e detalhada legislação de zoneamento até então aprovada em São Paulo. Continua com a elaboração do PUB – Plano Urbanístico Básico, em 1967-1969; a aprovação do PDDI – Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado, em 1971; e a consequente Lei de Zoneamento de 1972, com suas repercussões no que se refere ao Pacaembu e ao Pacaembuzinho (criação da Z1-007 e dos corredores comerciais), as mudanças no perímetro da zona protegida; e finalmente o tombamento do bairro pelo CONDEPHAAT em 1992. É importante destacar que a presente dissertação foi propiciada pelas constantes pesquisas realizadas por meio de estudos e análises: . Das obras literárias pertinentes;. . Dos instrumentos reguladores, denominados como Leis, Atos e Decretos, e processos administrativos disponibilizados pelos órgãos públicos que compõem as esferas municipal e estadual de São Paulo, com abrangência entre a Assembléia Legislativa, Câmara de Vereadores, e, principalmente, as secretarias de planejamento, desenvolvimento urbano e habitação;. . Junto à Cia. City, principalmente, na década de 1990, quando eu trabalhava nesta conceituada empresa;. A partir de visitas presenciais: . No Brasil - São Paulo: principalmente aos loteamentos Jardim América e Pacaembu;.

(13) 12. . No Exterior - Inglaterra: Letchworth Garden - City (novembro de 2012 e janeiro de 2014); Welwyn Garden - City (julho de 2013) e Hampstead Garden Suburb - bairro situado no subúrbio de Londres (janeiro de 2014)..

(14) 13. 1 1.1. CAPÍTULO 1 - O Garden-City Movement e as Primeiras Cidades-Jardim O livro Tomorrow: A Peaceful Path to Real Reform - 1898. No final do século XIX, na Europa e nos Estados Unidos, os problemas do crescimento urbano acelerado, provocado pela industrialização, com condições de sobrevivência insalubres para a maior parte da população urbana residente, eram objeto de crescentes debates, propostas e iniciativas reformistas. As cidades, principalmente as industrializadas, apesar de não possuírem infraestruturas suficientes e adequadas, atraíam um número excessivo de pessoas que buscavam melhores condições de vida, muitas vezes, provenientes do campo. Os problemas supracitados, resumidamente definidos como o impacto da urbanização acelerada, da congestão dos grandes centros, da insalubridade e do recurso para as soluções mais ou menos improvisadas de sub-habitação, mobilizou uma extensa gama de pensadores reformistas e de movimentos de reforma social e urbana, entre os quais podemos destacar o inglês Ebenezer Howard, por sua proposta ousada e inovadora para enfrentar tais problemas, divulgada por meio de seu livro To-morrow: A Peaceful Path to Real Reform (que pode ser traduzido como Amanhã: Um Caminho Pacífico para uma Reforma Real), em 1898. Deve-se ressaltar que, em 1902, a nova edição do livro em referência, To-morrow: A Peaceful. Path to Real Reform, foi publicada com um título diferente – Garden-Cities of To-morrow (que pode ser traduzido como Cidades-Jardins de Amanhã). Esta edição foi uma importante fonte de extração de informações para a realização da presente dissertação.1 . Primordialmente na introdução deste livro, Howard destaca que "frequentemente, questões religiosas e políticas dividem-nos em campos hostis" 2-"tradução nossa" 3, destacando uma exceção a essa regra, ao se referir sobre a não aceitação, quase unânime, das populações americanas e europeias sobre o êxodo rural que estava ocorrendo, segundo a seguinte afirmação:. OSBORN, F. J.. Prefácio em: HOWARD, Ebenezer. Garden Cities of to-Morrow (London, 1902). Reprinted, (London: Faber and Faber, (1946)), p. 9. 1. HOWARD, Ebenezer. Garden Cities of To-Morrow. London, 1902. Reprinted, edited with a Preface by F. J. Osborn and an Introductory Essay by Lewis Mumford. London: Faber and Faber, [1946]), p. 42. 2. A partir deste momento, o termo "tradução nossa", apenas aparecerá indicado na nota de rodapé com a seguinte sigla: "Tn". 3.

(15) 14. "É quase universalmente aceito por homens de todas as partes, não apenas na Inglaterra, mas por toda a Europa, América e nossas colônias, que é profundamente deplorável que as pessoas continuem a se dirigir para as cidades já superpovoadas, e continuem portanto a esvaziar os distritos rurais." 4. Howard5 definiu que uma "Master Key" (ou "Chave-Mestra") seria a solução para o problema de como reconduzir as pessoas para o campo, segundo a seguinte consideração: "(...)a chave do portal através do qual, mesmo que apenas entreaberto, parecerá derramar-se um feixe de luz sobre os males da intemperança, do trabalho excessivo, da ansiedade incessante, da pobreza opressora , isto é, sobre os verdadeiros limites da interferência governamental, lamentavelmente, e mesmo das relações do homem com o Poder Supremo." 6. 4. Ibid., p. 42. "Tn".. 5. Ibid., p. 44.. 6. Ibid, ibidem. "Tn"..

(16) 15. O livro de Howard supracitado não faz referência à ilustração da "Master Key", porém, Miller7 apresenta a reprodução de um "diagrama rascunho" datado de 1892 que não constou de nenhuma publicação feita por Howard, contendo a reprodução da mesma, conforme pode ser observado a seguir:. Figura 1: Diagrama rascunho datado de 1892 - The Master Key. Fonte: MILLER, Mervyn. Letchworth: The First Garden City. Chichester: Phillimore § Co, 2002 (2a ed.), p. 11.. Na sequência introdutória, Howard faz as seguintes considerações: . Esclareceu que o fenômeno que determinou a migração das pessoas no passado e que continua determinando no presente, dos campos para as cidades, é proporcionado pelos "atrativos" que as cidades estão disponibilizando em relação aos campos, e que o mesmo fenômeno apenas poderá ser revertido, no momento em que o campos proporcionarem "atrativos" maiores que os das cidades; 8. 7. MILLER, Mervyn. Letchworth: The First Garden City. Chichester: Phillimore § Co, 2002 (2a ed.), p. 11.. 8. HOWARD, Ebenezer. Garden Cities of To-Morrow. London, 1902. Op. Cit., pp - 44-45. "Tn"..

(17) 16. . Previu a possibilidade para "redistribuir a população de uma maneira espontânea e saudável" 9, por meio da consideração que "cada cidade pode ser considerada como um imã, cada pessoa como uma agulha; portanto, desta maneira, nada menos do que a descoberta de um método para construir imãs com ainda mais poder que nossas cidades atualmente possuem." 10. . Considerou que além das duas possibilidades existentes relativas "a vida na cidade e a vida no campo"11, existe uma terceira, que pode ser obtida por meio da junção das "vantagens da vida na cidade mais enérgica e agitada, com toda a beleza e alegria do campo"12, determinando que esta nova possibilidade será o terceiro imã, capaz de "produzir o efeito para o qual todos nós estamos lutando - o movimento espontâneo das pessoas de nossas cidades lotadas para o seio da nossa terra-mãe, ao mesmo tempo a fonte de vida, felicidade, riqueza e de poder." 13. . Disciplinou por meio de seu famoso diagrama dos "três imãs" ("Three Magnets", reproduzido a seguir, que "as principais vantagens da Cidade e do Campo são estabelecidas com as suas inconveniências e desvantagens correspondentes, enquanto as vantagens da Cidade - Campo são vistas como sendo livres das desvantagens de cada um dos prévios componentes." 14. 9. Ibid., p. 45. "Tn".. 10. Ibid., ibidem. "Tn".. 11. Ibid., ibidem. "Tn".. 12. Ibid., ibidem. "Tn".. 13. Ibid., p. 46. "Tn".. 14. Ibid., pp. 46-47. "Tn"..

(18) 17. Figura 2: Diagrama 1. Fonte: HOWARD, Ebenezer. Op. cit., p. 46.. Tradução nossa do diagrama 1 de Howard: "Os Três Imãs" "Cidade: -Vantagens - Desvantagens Afastamento da natureza - Oportunidade social; Isolamento das multidões - Locais de entretenimento; Distância do trabalho - Salários elevados; Aluguéis e preços altos - Oportunidade de trabalho; Jornada excessiva de trabalho - Exército de desempregados; Nevoeiros e seca - Drenagem cara; Falta de ar, céu escuro - Ruas bem iluminadas; Cortiços e bares - Edifícios palacianos; Campo: -Vantagens - Desvantagens Falta de vida social - Beleza da natureza; Desemprego - Terra ociosa; Matas-Bosques, campinas, florestas; Jornada longa, baixos salários - Ar fresco, aluguéis baixos; Falta de drenagem - Abundância de água; Falta de entretenimento - Luz do sol brilhante; Nenhum espírito público - Necessidade de reforma; Casas superlotadas Aldeias desertas; Cidade-Campo: - Vantagens - Desvantagens Beleza da natureza - Oportunidade social; Campo e parques de fácil acesso; Aluguéis baixos - Altos salários; Baixas taxas - Muito que fazer; Preços baixos - Pouco esforço; Oportunidades para empreendimento - Fluxo.

(19) 18. de capital; Ar e água puros - Boa drenagem; Lares e jardins luminosos - Sem fumaça, sem cortiço; Liberdade Cooperação" 15. Na sequência, o livro se desenvolve através de treze capítulos, porém, apenas dois (Capítulo 1 – "The Town-Country Magnet" e o Capítulo 12 – "Social Cities") serão melhor enfatizados na presente dissertação, uma vez que descrevem a visão de Howard sobre as características físicas da GardenCity. . No Capítulo 1 – "The Town-Country Magnet"16 ("O Imã Cidade-Campo") o leitor é convidado a imaginar uma propriedade agrícola com uma área de 6.000 acres (aproximadamente 2.400 hectares), que seria previamente comprada no mercado aberto por quatro personalidades (hipotéticas) influentes, que se comprometeriam a construir uma Cidade-Jardim, segundo os princípios estabelecidos para constituir um "Imã Cidade-Campo". O valor a ser pago nessa área seria obtido através de uma operação financeira, inclusive com a aplicação de juros e definindo a terra como garantia. As rendas fundiárias (lucros), obtidas a partir do aluguel do solo, deveriam ser aplicadas nas infraestruturas urbanas, tais como sistemas viários, escolas, parques, etc...17. O objetivo dessa compra seria a determinação do espaço físico para a criação de uma nova cidade, denominada Garden-City, visando proporcionar: . Aos empregados: proporcionar a regularidade por meio da oferta constante de trabalho, com aplicação de salários que possam proporcionar um poder aquisitivo superior e garantindo um ambiente saudável para os trabalhadores;18. . Aos fabricantes e empreendedores, cooperativas, arquitetos, engenheiros, construtores e mecânicos de todos os tipos, bem como para muitos envolvidos em várias profissões: a possibilidade de se oferecer um meio de assegurar um novo e melhor emprego para aplicação de seus talentos / habilidades e capital;19. 15. Ibid., p. 46.. 16. Ibid., p. 50.. 17. Ibid., pp. 50-51. "Tn".. 18. Ibid., p. 51.. 19. Ibid., ibidem..

(20) 19. . Aos agricultores presentes na propriedade, bem como para aqueles que podem migrar para lá: a abertura de um novo mercado para os seus produtos perto de suas produções;20. . Aos verdadeiros trabalhadores, independentemente da sua classe: a chance de elevar seu padrão de saúde e conforto por meio da combinação saudável, natural e econômica entre a vida na cidade e no campo.21. Ebenezer Howard determina respectivamente que a parte urbana da Garden-City deveria abranger uma área de 1.000 acres (404 hectares), ou uma sexta parte dos 6.000 acres previamente determinados; a ser construída próxima da região central e podendo ser na forma circular, com uma distância de 1.240 jardas (1.133 m) do centro para a periferia. A área rural, ou zona agrícola seria formada pelos 5.000 acres (2.023 hectares) restantes.22 Novamente através de diagramas, reproduzidos na Figura 3 a seguir, Howard23 descreve a sua hipotética cidade, por meio de seis secções ou divisões, com uma descrição física mais sugestiva que prescritiva. Os aspectos principais sugeridos por Howard para o desenho da cidade seriam os seguintes: . Presença de seis avenidas ou "Boulevards" - cada um com 120 pés (36,58 m) de largura, atravessando a cidade do centro para a circunferência, dividindo-a em seis partes iguais;24. . O centro seria definido por um espaço circular contendo cerca de cinco acres e meio (2,23 hectares), com a finalidade de acomodar um lindo jardim, e, em torno deste, posicionados em seus próprios terrenos amplos, estariam os maiores edifícios públicos - prefeitura, teatro / concerto principal e sala de aula, teatro, biblioteca, museu, foto-galeria e hospital;25. . Entre os prédios públicos, o "Crystal Palace" (ou "Palácio de Cristal") e os "Boulevards" estaria um parque público, denominado "Central Park" (ou "Parque Central"), com 145 acres (58,68 hectares), que incluiria diversos tipos de recreação e proporcionaria fácil acesso para todas as pessoas;26. 20. Ibid., ibidem.. 21. Ibid., ibidem.. 22. Ibid., ibidem. "Tn".. 23. Ibid., pp. 52-53.. 24. Ibid., p. 51. "Tn".. 25. Ibid., pp. 51 e 53.. 26. Ibid., p. 54..

(21) 20. . Execução perimetral ao longo de todo o "Central Park" (exceto onde este é cortado pelas seis avenidas) de uma grande arcada de vidro chamada de "Crystal Palace", que se abriria para o parque, com as seguintes características: em tempo de chuva seria um dos refúgios favoritos da população e seu revestimento brilhante sempre convidaria as pessoas que estivessem no "Central Park"; bens manufaturados na própria cidade poderiam ser expostos e comercializados; boa parte do mesmo seria utilizado como um jardim de inverno; sua forma circular propiciaria a proximidade entre os moradores da cidade, cravando uma distância máxima de 600 jardas (548,64 m) do morador mais distante; o alinhamento das avenidas seria acompanhado de fileiras de árvores, com destaque para a presença abundante de arborização também nas demais vias da cidade;27-"conversão nossa". . As quadras acomodariam os lotes e, estes as respectivas casas, fazendo frente para as várias vias públicas, incluindo as avenidas, destacando-se a convergência de todo o sistema para o centro da cidade;28. . Howard estimava que a população desta pequena Garden-City alcançaria cerca de 30.000 habitantes, em seis unidades de vizinhança de 5.000 habitantes cada, na área urbana e cerca de 2.000 habitantes nas propriedades agrícolas, e que haveria na cidade 5.500 lotes para serem edificados com um tamanho médio de 20 pés (6,10 m) por 130 pés (39,62 m), com o espaço mínimo alocado para o propósito de construção de 20 pés (6,10 m) por 100 pés (30,48 m); 29. . Previa a existência de uma arquitetura muito variada, a ser obtida por meio do projeto das casas e de seus respectivos agrupamentos, com a presença de alguns jardins comuns e cozinhas cooperadas;30-"conversão nossa". . Previa ainda o controle sobre as construções das casas e outras edificações pelas autoridades municipais;31. . Além dos boulevards radiais haveria cinco avenidas perimetrais, destacando uma de grande proporção – a "Grand Avenue" (ou "Grande Avenida"), com largura de 420 pés (128 m), formando um cinturão verde com três milhas (4.828 m) de comprimento, que dividiria a parte. 27. Ibid., pp. 53-54.. 28. Ibid., p. 54.. 29. Ibid., ibidem.. 30. Ibid., ibidem.. 31. Ibid., ibidem..

(22) 21. da cidade que se encontra fora do "Central Park" em dois cintos, constituindo um parque adicional de 115 acres (46,54 hectares), com a característica de proporcionar uma distância máxima de 240 jardas (219,46 m) do residente mais afastado; 32-"conversão nossa" . Nesta avenida, seis locais segmentados, cada um com quatro acres (1,62 hectares), seriam ocupados por escolas públicas e os seus parques, e jardins circundantes, enquanto os outros locais seriam reservados para acomodação de igrejas;33-"conversão nossa". . No anel exterior estariam acomodadas as fábricas, armazéns, laticínios, mercados, pátios de carvão, pátios de madeira, etc., e todos esses usos fariam frente para a estrada de ferro que circundaria toda a cidade e que teria ramais de ligação com a linha principal da estrada de ferro que atravessaria toda a propriedade, minimizando o transporte de mercadorias via caminhões dentro da cidade.34. Howard ainda exalta alguns aspectos complementares da sua "Garden-City", com destaque para os seguintes itens: todo o lixo urbano seria utilizado nas partes rurais da propriedade (2.023 hectares); livre comércio para os produtores da nova "Garden-City" com os demais núcleos urbanos; não determinação de monopólio para execução de serviços públicos ou privados; e a presença de várias instituições filantrópicas e de caridade espalhadas pela nova cidade. 35. 32. Ibid., pp. 54-55.. 33. Ibid., p. 55.. 34. Ibid., ibidem.. 35. Ibid., pp. 55-57..

(23) 22. Figura 3: Apresentação dos diagramas 2, 3 e 5 de Howard. Fonte: HOWARD, Ebenezer. Garden Cities of tomorrow (London, 1902. Reprinted, edited with a Preface by F. J. Osborn and an Introductory Essay by Lewis Mumford. (London: Faber and Faber, 1946), pp. 52, 53 e 143.. No Capítulo 12 – "Social Cities" ("Cidades Sociais"), Howard, diante da suposição de que a sua "Garden-City", preliminarmente situada a uma distância conveniente e determinada da também hipotética "Central City" (ou "Cidade Central") com 48.000 habitantes, já haveria crescido e atingido a população máxima estimada originalmente de 32.000 habitantes, faz os seguintes questionamentos sobre a maneira pela qual esta cidade deveria continuar crescendo: Como se faria para prover as necessidades de outras pessoas que serão atraídas pelas inúmeras vantagens de.

(24) 23. se viver em uma "Garden-City"? Deveria esta crescer sobre a zona de terrenos agrícolas, e assim, destruir para sempre o seu direito de ser chamada de "Garden-City"?36 Howard prontamente nega tais hipóteses e ressalta que isto seria desastroso, uma vez que provocaria a rápida destruição da "beleza e salubridade da cidade" 37, porém, neste caso, lembra que as terras em torno da cidade (agrícolas) pertencem ao povo, uma vez que "não estão nas mãos de particulares" 38, e reitera sobre a administração das mesmas "deve ser administrada, não para atender os supostos interesses de poucos, mas para os verdadeiros interesses de toda comunidade". 39. , e apresenta seu. diagrama número 5, reproduzido na Figura 3, enfatizando as seguintes sugestões: . Criação de uma nova cidade com as mesmas características de uma "Garden-City" toda vez que for atingida a população máxima previamente determinada;40. . Criação de um sistema circular sobre o anel exterior do desenho de interligação entre as novas cidades, por meio de uma estrada de ferro intermunicipal, estipulando um percurso máximo entre cidades mais distantes de 10 milhas (16 km), que poderia ser realizado em 12 minutos. Ressaltando ainda que o percurso entre as novas cidades deveria ser realizado empregando bondes elétricos e veículos nas rodovias; 41. . Criação de um sistema de ferrovias pela qual cada cidade seria colocada em comunicação direta com a "Central City", estipulando que a distância de qualquer "Garden-City" àquela que o autor chama de "Central City" seria de apenas três e um quarto de milha (5,23 km); esta distância poderia ser coberta rapidamente em cinco minutos.42. Segundo Ottoni,43 existe uma variante da primeira edição de 1898 do livro de Howard contendo o Diagrama no 7, reproduzido na Figura 4 a seguir, no qual seis "Garden-Cities" de 32.000 habitantes ensejariam a criação de uma "Central City" (ou "Cidade Central") no âmago desse conjunto circular, com 58.000 habitantes sobre uma área de 12.000 acres (4.856 hectares).. 36. Ibid., p. 140.. 37. Ibid., ibidem. "Tn".. 38. Ibid., ibidem. "Tn".. 39. Ibid., ibidem. "Tn".. 40. Ibid., ibidem.. 41. Ibid., ibidem.. 42. Ibid., ibidem.. OTTONI, Dácio Araujo Benedicto. Cidades-Jardins de Amanhã. Introdução: Cidade-jardim: Formação e percurso de uma ideia. São Paulo: Hucitec, 2002 (2a ed.), p. 204. 43.

(25) 24. Figura 4: Apresentação do diagrama no 7 de Howard. Fonte: HOWARD, Ebenezer. Op. cit. p. 150.. Maria Irene Szmrecsányi, na edição organizada por Dacio Ottoni, observou que "Howard propõe mais do que a harmonia entre homem e natureza. Ele apresenta toda uma política para a manutenção do equilíbrio social, ameaçado pelas sórdidas condições de urbanização das camadas populares inglesas durante o século XIX." 44 É importante ressaltar que Howard planejou todos os elementos que deveriam compor uma cidade considerada por ele, como ideal, criando uma base de conceitos sobre a proposta de cidade-jardim. Segundo Monteiro de Andrade, "foi provavelmente a que encontrou maior ressonância no urbanismo moderno do século XX, tendo se difundido por inúmeros países e continentes, chegando também ao Brasil." , proporcionou grande "influência nas paisagens modernas", destacando o "caráter pragmático da proposta, ainda que ancorado na forma comunitária da propriedade e na busca da autossuficiência econômica do empreendimento." 45. 1.2 Letchworth, a primeira "Garden-City" Em primeiro de setembro de 1903 foi oficialmente aberta a empresa inglesa First Garden City Ltd., com o objetivo inicial de desenvolver a primeira "Garden-City", utilizando, primordialmente, os. SZMRECSÁNYI, Maria Irene. Introdução - Formação e percurso de uma ideia. In: OTTONI, Dácio Araujo Benedicto (ed.). Cidades-jardins de amanhã. São Paulo: Hucitec, 2002 (2a ed.). 44. ANDRADE, Carlos Roberto Monteiro. “Barry Parker: Um arquiteto inglês na cidade de São Paulo.” Tese de Doutorado, São Paulo: FAU / USP, 1998, p. 35. 45.

(26) 25. princípios estabelecidos por Howard (então diretor desta empresa), em uma área previamente adquirida com cerca de 3.822 acres (1.547 hectares)46 de terras agrícolas distribuídas nas três aldeias adjacentes, denominadas como Letchworth, Willian e Norton (o nome Letchworth Garden City foi escolhido, pois a maior parte da cidade pertencia à aldeia de Letchworth), distantes aproximadamente 35 milhas (56 km) de Londres.47 Da área total de 3.822 acres, aproximadamente 1.250 acres foram incluídos no setor urbano da nova cidade e o restante (2.572 acres) constituiu o setor rural (cinturão agrícola). Posteriormente, em várias etapas, foram adquiridas terras adicionais, totalizando em 1949 uma área aproximada de 4.598 acres para a implantação da primeira "Garden-City" - Letchworth, dos quais foram destinados aproximadamente 2.416 acres para compor a zona rural. Para compor a área urbana bruta da cidade foram atribuídos aproximadamente 2.182 acres, segundo a seguinte composição: 48 . 158 acres para o sistema viário;. . 306 acres para espaços abertos (áreas verdes, praças, etc.);. . 1.718 acres para desenvolvimento restante da área urbana da cidade, dos quais 1.319 acres foram destinados para acomodação dos terrenos residenciais, e o saldo para a acomodação do setor comercial, industrial e institucional.. Antecedendo a elaboração de qualquer plano, desenho ou projeto, algumas premissas pontuais foram definidas e/ou oficialmente autorizadas; destacando-se a existência da liberação prévia para construção de uma estação ferroviária provisória dentro da nova "Garden-City" e a necessária compatibilização das vias (rodovias) existentes com o novo projeto, uma vez que importantes rodovias cortavam a área adquirida. 49 Os primeiros passos dados pela companhia foram os de assegurar que as áreas tivessem suprimento de água e drenagem e preparar o plano mestre. A gestão de Ebenezer Howard não foi continuada na nova companhia, embora não houvesse dúvidas de seu trabalho pioneiro; ele também demonstrou sua inabilidade como administrador. Ele era viciado em escrever relatórios. 46. Um acre equivale a 4.047 m2, ou a 0,4047 hectare.. 47. PURDOM, Charles Benjamin. The building of satellite towns. J. M. Dent & Sons Ltd., 1949 (2a ed.), p. 54.. 48. Ibid., pp. 90-91.. 49. Ibid., pp. 90-91..

(27) 26. extensos em aspectos que tinha interesse, os quais seus colegas não estavam dispostos a ler e ficou claro que a necessidade de seus serviços em tempo integral havia terminado.50 Bonfato destacou que: "Ebenezer Howard jamais projetou ou recomendou um desenho urbano ideal para as suas cidades, prevendo, nos seus diagramas, que o desenho deveria ser adaptado aos diversos tipos de terreno, de modo que cada um dos planejadores das cidades-jardins estivessem livres para utilizar-se de sua criatividade na formatação final desse desenho" 51. e reiterou que a preocupação de Howard: "era a questão da sustentabilidade social das cidades. Pela própria natureza e pela forma extremamente minuciosa de articulação da cidade, entendia que a cidade - jardim nasceria a partir do sítio não edificado; o que pode nos conduzir a uma interpretação errônea: entender o conceito de cidade nova como originária do conceito de cidadejardim. O contrário mostra ser mais verdadeiro." 52. Por meio de um concurso público foram escolhidos os arquitetos Barry Parker e Raymond Unwin para elaborar o projeto urbanístico e as características da nova cidade, mediante a adoção dos princípios de Howard estabelecidos no livro de sua autoria, To-morrow: A Peaceful Path to. Real Reform; almejando que ali se instalaria uma população socialmente mista, cujo plano foi aprovado em 1904 e está reproduzido adiante.53 Quando o plano urbanístico foi adotado, Unwin e seu parceiro, Barry Parker, também se tornaram os consultores em arquitetura para a companhia, e tinham a responsabilidade de desenvolver projetos específicos. Eles tinham uma participação no controle da construção, e na preparação do conjunto de normas regulatórias da mesma, e também na aplicação de seu plano ao desenvolvimento concreto e gradual, da cidade.54 Unwin, porém, dedicou pouco tempo a Letchworth, passando a concentrar esforços na realização de Hampstead Garden Suburb – projeto de novo bairro ao Norte de Londres que partilhava algumas características com o modelo da cidade-jardim, embora adaptadas a um subúrbio de alto padrão inserido numa grande cidade - a partir de 1907; e retirou-se até mesmo da conexão. 50. PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 57.. 51. BONFATO, Antônio Carlos. Ressonâncias do modelo cidade-jardim. São Paulo: Senac, 2008, p. 38.. 52. Ibid., pp. 38-39.. 53. MILLER, Mervyn. Letchworth: The first garden city. Chichester: Phillimore & Co., 2002 (2a ed.), pp. 38-39.. 54. PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 91..

(28) 27. nominal que ele tinha com Letchworth em 1914, e assim, o trabalho foi continuado por Barry Parker, até sua aposentadoria em 1943 (interrompido nos períodos que esteve em Portugal e no Brasil - São Paulo, entre 1917 e 1919). A companhia, prosseguiu então com seus próprios colaboradores. Barry Parker faleceu em fevereiro de 1947. 55. Figura 5: Plano original de Letchworth Garden-City - 1904. Fonte: MILLER, Mervyn. Op. cit., p. 23.. Devido à baixa resolução da Figura 5, anteriormente apresentada e visando um melhor entendimento do planejamento adotado pelos arquitetos responsáveis pela presente urbanização, foi produzida uma ampliação do plano original em referência, com destaques obtidos por meio de símbolos coloridos, sempre correspondentes às respectivas legendas, para fácil identificação da designação formal proposta para ocupação dos locais resultantes no respectivo projeto, conforme pode ser observado na figura a seguir reproduzida:. 55. Ibid, ibidem..

(29) 28. Figura 6: Ilustração realizada sobre o plano original de Letchworth. Fonte: MILLER, Mervyn. Op. cit., p. 23. Ilustração e grifo nosso.. A leitura das figuras anteriormente reproduzidas, aliada principalmente às considerações constantes na obra de Purdom,56 permite destacar a presença das seguintes características na urbanização da primeira "Garden-City":. 56. Ibid., pp. 110-135.

(30) 29. . A cidade foi implantada de ambos os lados da estrada de ferro Great Northern Railway, ramal de Cambridge (via de ligação com Londres), que dividia a propriedade na diagonal de sudoeste para nordeste, segmentando-a em duas partes principais, denominadas como norte e sul (deve-se ressaltar que neste caso, a ferrovia dividiu a propriedade, em vez de cercar, como Howard tinha previsto em seu livro);. . Zonas residenciais, previstas para acomodar uma população de 35.000 habitantes, correspondendo a 25 habitantes por acre = 1 habitante por 163 m2 (integradas com comércios e serviços), e industriais foram cuidadosamente separadas;57. . A zona industrial ocupou os dois lados da ferrovia (facilitando a sua utilização), no lado leste da cidade, para que os ventos predominantes levassem a fumaça para longe das habitações; numa posição não visível para a maior parte da cidade; 58. . As zonas agrícolas ocuparam a maior parte das áreas adquiridas inicialmente (porém, foram reduzidas nas expansões ocorridas posteriormente) e formaram um grande cinturão verde envoltório sobre a área urbana;. . As áreas institucionais destinadas para a acomodação dos edifícios públicos, em boa parte, foram mantidas próximas da região central urbana.. Em Letchworth, Unwin e Parker deram continuidade à ideia de Horward de "criar unidades de vizinhança com 5.000 habitantes, dotadas de infraestrutura de atendimento diário (lojas, correio, salas comunitárias, escola, etc.) e programam quatro delas para Letchworth".59. 57. PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 110.. 58. Ibid., ibidem.. 59. OTTONI, Dácio Araujo Benedicto. Op. cit., p. 47..

(31) 30. A tipologia adotada para o sistema viário em Letchworth está ilustrada nas figuras seguintes:. Figura 7: Tipologia adotada para o sistema viário em Letchworth - (Avenida) Broadway - North End. Fonte: PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 132. Conversão nossa.. Figura 8: Tipologia adotada para o sistema viário em Letchworth - (Avenida) Broadway. Fonte: PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 132. Conversão nossa..

(32) 31. Figura 9: Tipologia adotada para o sistema viário em Letchworth - (Avenida) Leys Avenue. Fonte: PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 132. Conversão nossa.. Figura 10: Tipologia adotada para o sistema viário em Letchworth - (Rua secundária) Norton Way. Fonte: PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 132. Conversão nossa..

(33) 32. Figura 11: Tipologia adotada para o sistema viário em Letchworth - (Rua local) Sollershott E. Fonte: PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 132. Conversão nossa.. Figura 12: Tipologia adotada para o sistema viário em Letchworth - (Rua local) Hillshott. Fonte: PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 132. Conversão nossa..

(34) 33. A cidade de Letchworth apresenta muitas características importantes, mas segundo o pesquisador Purdom: "A principal característica de Letchworth é o layout aberto das estradas e casas, para que toda a cidade preserve algumas das características de um parque. Árvores são plantadas em todas as vias, juntamente com os gramados que as acompanham, exceto nas avenidas mais movimentadas e nas ruas residenciais mais estreitas. As árvores, arbustos e flores nos jardins sempre dão à cidade uma aparência rural. As árvores de rua acrescentam muito para a atratividade da cidade e, em geral elas foram bem escolhidas." 60- (Figura 13 e Figura 14). Figura 13: Registro fotográfico da visita realizada a Letchworth em novembro de 2012. Fonte: Acervo Nosso.. Figura 14: Registro fotográfico da visita realizada a Letchworth em novembro de 2012. Fonte: Acervo Nosso.. 60. Ibid., p. 91..

(35) 34. Segundo Ottoni, em 1905 foi realizada em Letchworth a "Cheap Cottages Exhibition", na qual "experimentos de arquitetos e construtores e outros interessados foram divulgados." 61 Letchworth se tornou depois dessa exposição um centro para o estudo intensivo para planejamento das "cottages" pelos arquitetos e muitos outros profissionais que, segundo Purdom, "mais tarde ganharam reputação nacional por seus trabalhos como projetistas de casas operárias de baixo custo, e obtiveram sua experiência, quando jovens, em Letchworth." 62 Para se entender os princípios utilizados na criação da cidade de Letchworth, deve-se recorrer a Raymond Unwin, que delineia, em seu livro Town Planning in Practice,63 conceitos básicos de projetos de loteamentos, arruamentos e cidades, utilizando como exemplos, a própria cidade de Letchworth e os bairros-jardim de Hampstead e Earswick. Neste livro, o autor trata daquilo que considerava boas práticas para o desenvolvimento de cidades e de bairros-jardim, objetivando proporcionar melhorias para a qualidade de vida, principalmente, para os trabalhadores, por meio da aplicação de conceitos pertencentes ao Garden City Movement. Com relação específica à cidade-jardim de Letchworth e também com relação aos bairros-jardim de Hampstead e Earswick, destacam-se duas partes deste livro que são intimamente correlacionadas à presente dissertação: (1) "Of Site Planning and Residential Roads (Sobre o planejamento do sítio e ruas residenciais)" 64; e (2) "Of Plots and Placing of Buildings (Sobre os lotes e o posicionamento das edificações)".65 No capítulo "Sobre o planejamento do sítio e ruas residenciais", o autor trata da gestão dos custos para construir e gerenciar as ruas que serão abertas nos projetos residenciais, dissertando sobre as variáveis envolvidas na gestão desses custos e sobre a questão de projeto acerca do tamanho das ruas, conforme segue excerto: "Esta questão do aporcionamento dos custos de construção e de manutenção das ruas e de seu caráter deve ser investigado e é de se esperar que haja interesse público nestas questões que devem ser levantadas e debatidas pelo movimento de planejamento de cidades. Esta questão foi endereçada ao Hampstead Garden Suburb Trust de acordo com os tópicos que haviam sido debatidos - o Trust, então, obteve um Ato do Parlamento que limitava a construção das ruas com largura máxima de 40 pés e, caso a rua seja feita com mais de 40 pés, o espaço extra deveria ser dedicado a uma faixa com grama na qual árvores pudessem ser plantadas entre a rua e a calçada.. OTTONI, Dácio Araujo Benedicto. “Introdução: Cidade-jardim: Formação e percurso de uma ideia.” In: HOWARD, Ebenezer. Cidades-jardins de amanhã. São Paulo: Hucitec, 2002 (2a ed.), p. 53. 61. 62. PURDOM, Charles Benjamin. (2a ed.). Op. cit., p. 110.. 63. UNWIN, Raymond. "Town Planning in Practice". London: Routledge, 1909.. 64. Ibid., pp. 307-313.. 65. Ibid., pp. 343-351. "Tn"..

(36) 35. Quando este Ato do Parlamento foi fixado, os governos locais fixaram 40 pés como a largura mínima para todas as ruas, porém também havia emendas que diziam que 50 pés seriam a largura mínima. Uma outra cláusula também limitava o comprimento máximo das ruas em 500 pés." 66. As duas figuras a seguir ilustram o debate realizado acerca da largura das ruas, tal como Unwin descreveu:. Figura 15: Exemplo de rua com dimensões superiores a 50 pés aplicado em Letchworth. Fonte: UNWIN, Raymond. Op. cit., p. 308.. Figura 16: Exemplo de rua com dimensão de 50 pés aplicado em Letchworth. Fonte: UNWIN, Raymond. Op. cit., p. 308.. 66. Ibid., p. 308..

(37) 36. No capítulo intitulado "Sobre os lotes e o posicionamento das edificações",67 Unwin trata do posicionamento das residências com face para o sul e para o leste ou oeste com o intuito de aumentar a atratividade dessas casas, uma vez que as fachadas para o sul tenderiam a maximizar a quantidade de luz do sol que a residência recebe durante o inverno e fachadas viradas para o leste ou para o oeste tendem a receber uma quantidade razoável de luz durante a maior parte do ano na Inglaterra. De acordo com estas observações, portanto, o planejamento das residências poderia ser feito de maneira a maximizar a área frontal virada para o sul e uma boa prática seria deixar os quartos das residências virados para o leste e para o oeste. Sobre isto, as figuras a seguir, ilustram modelos de junções de ruas e posicionamentos de residências irregulares que se encaixam nestas práticas:. Figura 17: Exemplos de planos de edificações para junções de ruas e disposições de casas irregulares aplicados em Letchworth. Fonte: UNWIN, Raymond. Op. cit., p. 343.. Figura 18: Exemplos de planos de edificações para junções de ruas e disposições de casas irregulares aplicados em Letchworth. Fonte: UNWIN, Raymond. Op. cit., p. 343.. Outra prática adotada por Unwin neste capítulo foi agrupar casas no que ele se referia a um "cottage compartilhado" no qual uma edificação daria lugar a duas casas separadas por uma parede,. 67. Ibid., pp. 343-351..

(38) 37. de maneira a diminuir os espaços que deveriam ser percorridos por pedestres. Esta prática também tinha um caráter estético e Unwin também propôs o agrupamento desses cottages de 2 em 2 ou de 3 em 3.68 A figura abaixo ilustra a questão estética desses agrupamentos e retrata a visão que Unwin tinha do posicionamento dessas residências:. Figura 19: Exemplos de Agrupamentos de cottages compartilhados 3 a 3 segundo a proposta de Unwin para Letchworth. Fonte: UNWIN, Raymond. Op. cit., p. 351.. Segundo Ottoni, "a ideia de jardim e campo permeando a cidade é parte do pensamento Arts § Crafts, 69 especialmente enfatizado na cidade por Howard." 70 Para Purdom, Unwin desenvolve "a ideia de jardim e campo permeando a cidade" 71 no livro supracitado "Town - Planning in Pratice",72 seguindo também o pensamento de Camillo Sitte (1992) 73 quando. 68. Ibid., p. 349.. Arts and Crafts foi um movimento estético e social inglês, da segunda metade do século XIX, que defendia o artesanato criativo como alternativa à mecanização e à produção em massa. 69. 70. OTTONI, Dácio Araujo Benedicto. Op. cit., p. 50.. 71. PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 71.. 72. UNWIN, Raymond. Op. cit.. 73. SITTE, Camilo. A construção das cidades segundo seus princípios artísticos. São Paulo: Ática, 1992..

(39) 38. este examina a estrutura das cidades clássicas e medievais, distinguindo três princípios principais: "a) a informalidade e irregularidade deliberadas de suas construções /residências, b) o agrupamento destas construções de acordo com os princípios da informalidade que envolvem o reconhecimento das relações entre as construções /residências; c) o reconhecimento das partes da cidade como unidades." 74 Com o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, foi criada uma enorme demanda por moradia da classe trabalhadora em cidades por toda a Grã Bretanha. Em 1919, o Parlamento aprovou uma ambiciosa Lei de Urbanismo e Habitação, o "Housing & Town Planning Act", que prometia subsídios do governo para ajudar a financiar a construção de 500 mil casas em três anos. Com o enfraquecimento da economia no início de 1920, o financiamento teve que ser cortado, e apenas 213 mil casas foram construídas perante as disposições desta Lei. 75 Segundo Ottoni: "A companhia de Letchworth, em continuidade a seu programa bem organizado de construção de habitações, logo após a aprovação da lei de 1919, foi uma das primeiras entidades no país a ter um programa de habitações aprovado. A execução do programa apresentou as melhores construções, maiores do que as casas construídas antes da guerra." 76. Coincidentemente, em 1919 foi criado o distrito urbano de Letchworth, separando-o do distrito rural, que determinou através de um conselho, o planejamento da ampliação da cidade sob a Lei de Urbanismo e Habitação de 1919, conforme parte reproduzida na Figura 20 e, deu continuidade ao acompanhamento das obras em função do manual de orientação e das normas de drenagem e construções formulados após a elaboração do primeiro plano da cidade. 77 No tocante às dimensões dos lotes / terrenos, deve-se ressaltar que não existe uniformidade ou mesmo um padrão estabelecido, pois, de maneira geral, os blocos das edificações eram mais importantes. Pode-se dizer que existem muitas residências acomodadas em terrenos com dimensões aproximadas de 7 metros de frente por 28 metros de fundo - também não constituindo um padrão, pois inúmeras dimensões foram utilizadas (maiores e menores).. 74. PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 71. "Tn".. 75. Ibid, ibidem.. 76. OTTONI, Dácio Araujo Benedicto. Op. cit., p. 55.. 77. PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 102..

(40) 39. Figura 20: Plano de Lechtworth ampliado conforme a Lei de Urbanismo e Habitação de 1919. Fonte: PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 70.. A Figura 21, a seguir reproduzida, exemplifica claramente a preservação, em 2009, do plano original do trecho de Letchworth, ampliado sob a Lei de Urbanismo e Habitação de 1919, em relação ao acompanhamento das obras em função do manual de orientação e das normas de drenagem e construções anteriormente descritos.. Figura 21: Vista aérea de 2009 da parte referente à ampliação realizada sob a Lei de Urbanismo e Habitação de 1919. Fonte: Google Earth. Acesso contínuo em 2013, em: https://maps.google.com. Em novembro de 2012 e em janeiro de 2014 estive em Letchworth, visitando as áreas que a compõem, incluindo seus comércios, serviços, áreas institucionais (edifícios públicos, parques e jardins), a zona industrial e o cinturão verde / agrícola. Ao contrapor os elementos observados no próprio local, aos princípios de Howard expostos em seu livro, ficou evidenciado que muitos.

(41) 40. destes princípios foram utilizados na medida do possível, devendo-se destacar, a presença das seguintes características: . Presença de um grande cinturão verde envoltório em torno da área urbana;. . O projeto está acomodado sobre as curvas de nível, propiciando a acomodação direta sobre o terreno natural, o que facilita o escoamento das águas pluviais e a mínima agressão ao relevo natural; não há presença de taludes;. . Observa-se grande quantidade de árvores delineando o alinhamento das ruas e avenidas e também nos fundos de muitos terrenos / lotes (Figura 22);. Figura 22: Registro fotográfico da visita realizada a Letchworth em janeiro de 2014. Fonte: acervo nosso.. . Presença de sistemas de ruas locais de acesso em cul-de-sac, ou seja, ruas sem saída, com predominância de balão de retorno em sua extremidade (Figura 23);. Figura 23: Registro fotográfico da visita realizada a Letchworth em janeiro de 2014. Fonte: acervo nosso..

(42) 41. . Nota-se a determinação da limitação da ocupação dos lotes pelas edificações, de maneira ordenada e segundo os princípios estabelecidos por Unwin em seu livro "Town Planning in Practice" (Figura 24);78. Figura 24: Registro fotográfico da visita realizada a Letchworth em janeiro de 2014. Fonte: acervo nosso.. . A maioria dos terrenos / lotes é destinada para implantação de residências para os trabalhadores locais, em forma de blocos, nos quais os recuos frontal e de fundo quase sempre são respeitados, ou melhor, sempre acomodam jardins, porém, os recuos laterais são liberados e a presença de construções nos mesmos é notada com frequência (edificações geminadas);. . Presença de jardins posicionados junto aos terrenos / lotes de maneira anexa, formando espaços intermediários, muitas vezes no interior das quadras, que podem ser privados, públicos, ou mesmo, semipúblicos, podendo estar ocupados por um equipamento urbano, como um playground;. . O sistema viário foi planejado através de uma hierarquização, entre vias locais, de distribuição e de interligação externa, contrapondo-se ao sistema cartesiano ortogonal tradicional, uma vez que, na maior parte, é composto por vias sinuosas.. Purdom destacou que em 1924 foi realizada a peça gráfica denominada como mapa oficial, mostrando o estado de desenvolvimento de Letchworth Garden-City até então, observando que o. 78. UNWIN, Raymond. "Town Planning in Practice". London: Routledge, 1909..

(43) 42. cinturão agrícola foi devidamente reformulado, para se adequar às necessidades daquela época, e destacando em escala conveniente a situação das áreas comerciais e industriais.. Figura 25: O Letchworth Town-Plan, mostrando o desenvolvimento até 1924, com destaque para a presença do cinturão verde envoltório das demais zonas (residencial, comercial e industrial). Fonte: PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 143.. Segundo Purdom, a evolução do número de residências em Letchworth se deu na seguinte maneira: em 1904 existiam 36 residências acomodando 450 habitantes; em 1924 existiam 3.349 residências acomodando 13.500 habitantes (4,03 hab./residência), em 1939 existiam 5.282 residências acomodando 18.223 habitantes (3,45 hab./residência) e em 1947 a população era de 20.027.

(44) 43. habitantes. 79 Na visita que realizei em janeiro de 2014, o Centro de Informações local revelou que em 2011 (último censo realizado) a população local foi estimada em 33.249 habitantes, vivendo em 13.990 residências (2,38 hab./residência).. Figura 26: Situação da zona comercial em 1924. Fonte: PURDOM, Charles Benjamin. Ibid., p. 105.. Figura 27: Situação da zona industrial em 1924. Fonte: PURDOM, Charles Benjamin. Fonte: Ibid., p. 112.. 79. PURDOM, Charles Benjamin. Op. cit., p. 71..

(45) 44. Segundo Miller, em 1946 a empresa First Garden City Ltd. apresentou o plano de expansão para Letchworth, ilustrado na Figura 28, a seguir reproduzida, com previsão de ampliação da área urbana nas partes destacadas em vermelho (norte e sudeste), juntamente com um cinturão industrial ligando Letchworth à cidade vizinha de Baldock.. Figura 28: Expansão para Letchworth em 1946. Fonte: MILLER, Mervyn. Op. cit., p. 156. Grifo nosso.. Na visita que realizei, ficou evidente que tanto o plano original de Letchworth, como a sua expansão, foram realizados com grande sucesso, respeitando e acompanhando muitos dos princípios formulados por Howard através do desenvolvimento projetual de Unwin e Parker e,.

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