Histórias em quadrinhos: um recurso didático para as aulas de Física (Braz e Fernandes)

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ISTÓRIA EM

Q

UADRINHOS

:

UM RECURSO DIDÁTICO PARA AS AULAS DE FÍSICA

Karine Martins Braz1 Simone A. Fernandes2

1

Universidade Federal de Minas Gerais/ Departamento de Física [k9mb@yahoo.com.br ] 2

Universidade Federal de Minas Gerais/ Faculdade de Educação [sifisica@yahoo.com.br]

Resumo

A física ainda é vista por muitos alunos do Ensino Médio como uma disciplina de difícil compreensão e muitos deles acabam desmotivados e sem interesse pelo conteúdo ensinado. É importante que o professor recorra a mudanças no formalismo com que é apresentada a matéria tendo em mente a preocupação com um ensino em que o aluno seja participante e tenha certa independência na construção do seu aprendizado. Mudanças que fujam da rotina utilizando variados recursos didáticos e metodologias devem ser então procuradas e aplicadas em sala de aula. Neste trabalho relatam-se os resultados obtidos na utilização da elaboração de histórias em quadrinhos como um desses recursos. A motivação para o trabalho surgiu após uma aula experimental no laboratório em que os alunos tiveram que determinar o valor da aceleração da gravidade no local através do período de oscilação de um pêndulo. Dentre as vantagens da utilização dos quadrinhos em sala de aula pode -se destacar a proximidade entre esse tipo de material e os alunos, a linguagem de fácil compreensão, a aceitação que têm por serem um material lúdico e, também, o incentivo ao uso da criatividade na construção de uma atividade nova e pouco usual. É possível, ainda, aproveitar o caráter interdisciplinar que pode ser desenvolvido nesse tipo de atividade devido às características lúdicas e lingüísticas dos quadrinhos. Aliado ao fato de, particularmente essa atividade, ter permitido estudar história da ciência – tema que é o primeiro a ser descartado quando se necessita de mais tempo nas horas de aulas programadas para a seqüência de ensino planejada.

Palavras-chave: ensino, física, história em quadrinhos.

Introdução

Atividades com “tirinhas de física” já são bem conhecidas e vários são os depoimentos a respeito do seu sucesso em sala de aula (PENA, 2003, p.20). Sua utilização pode ter diferentes objetivos, dentre eles: (i) exemplificar o que foi ensinado; (ii) corrigir distorções conceituais; (iii) criar situações problemas; (iv) complementação para o tema discutido; (v) motivação para o tema a ser discutido ou (vi) desenvolver a crítica e a criatividade através da criação de quadrinhos pelos próprios alunos (Pena, 2003, p.21). Da mesma forma, a utilização e aplicabilidade de histórias em quadrinhos (HQs) no ensino de física já tem sido divulgada e, segundo Testoni (2005, p.1), estudos mostram que algumas HQs que apresentam algum conteúdo físico em seu enredo podem,

1 A gradeço aos professores: Orlando Aguiar Junior – Professor e orientador do estágio à docência e ao professor

Douglas Henrique responsável pelas turmas acompanhadas.

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dependendo do momento e do contexto pedagógico, serem utilizadas como estratégias para a aprendizagem do tópico abordado.

O fato de as HQs serem um meio de comunicação de massa com grande aceitação popular, principalmente entre os jovens e adolescentes em idade escolar, permite que essa seja uma boa ferramenta para abordar conceitos físicos de uma forma lúdica e bem humorada.

[...] há varias décadas, as historias em quadrinhos fazem parte do cotidiano de crianças e jovens, sua leitura sendo muito popular entre eles. Assim, a inclusão das historias em quadrinhos na sala de aula não é objeto de qualquer tipo de rejeição por parte dos estudantes, que, em geral, as recebem de forma entusiasmada, sentindo-se, com sua utilização, propensos a uma participação mais ativa nas atividades de aula. As historias em quadrinhos aumentam a motivação dos estudantes para o conteúdo das aulas, aguçando sua curiosidade e desafiando seu senso critico (RAMA e VERGUEIRO, apud RITTES, 2005, p.28).

O conteúdo de física geralmente é visto como difícil pelos estudantes. Os conceitos, o formalismo matemático e a história da ciência acabam sendo trabalhados de forma desvinculada e sem significado. Nesse sentido, alguns professores procuram desenvolver ações que tornem o ensino do conteúdo mais contextualizado e prazeroso para os estudantes. A criação de HQs em uma aula de física pode ser uma atividade estimulante e facilitadora da aprendizagem. Além disso, atendendo aos PCNs, permite trabalhar os conteúdos de maneira contextualizada e interdisciplinar, pois colaboram com a leitura, escrita e artes.

[...] de forma consciente e clara, disciplinas da área de Linguagens e Códigos devem também tratar de temáticas científicas e humanísticas, assim como disciplinas da área científica e matemática, ou da humanista, devem também desenvolver os domínios da linguagem (BRASIL, 2002, p.16).

Com base na possibilidade de diálogo entre as diferentes disciplinas este trabalho apresenta uma atividade de criação de HQs que integrou a física, história da ciência, artes e linguagem.

O contexto

A atividade apresentada nesse trabalho foi desenvolvida durante o período de estágio e docência em duas turmas de segundo ano do ensino médio de uma escola pública estadual. Essa escola desenvolve o modelo de currículo recursivo proposto pela Secretaria de Estado de Educação e por isso é denominada “escola referência”.

Cada uma das turmas tinha aproximadamente 40 alunos e estes com um notável comprometimento com o ensino e dispostos a fazerem as atividades propostas. Nas aulas de física, mantêm uma relação dinâmica com o objeto de estudo, no sentido de que não querem estar passivos em relação ao conteúdo ensinado e sim, participar ativamente de toda a seqüência da disciplina. Durante o ano letivo, por exemplo, estes estudantes realizaram – sob a orientação do professor – mini-feiras de física, experiências em sala de aula e extra-classe e tiveram, também, aulas demonstrativas e com recurso áudio-visual. A maioria participava das tarefas e tinham muita disposição para fazer atividades que exigissem deles algo mais do que simplesmente serem espectadores das aulas. Com base nisso, foi desenvolvida uma atividade que tratasse assuntos referentes ao conteúdo de física e, ao mesmo tempo, envolvesse leitura, escrita e artes.

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deveu-se ao fato da proximidade entre essas e os alunos, uma vez que esta é um objeto de leitura bastante popular e de grande difusão entre os diversos tipos de leitores, abordando de maneira lúdica e descontraída variados assuntos.

Metodologia

Em uma das turmas a atividade foi desenvolvida em grupos de cinco ou seis alunos. Ficou combinado que os grupos formados por meninas deveriam escrever histórias em quadrinhos a respeito de Isaac Newton enquanto os meninos escreveriam a respeito de Galileu Galilei. Na outra turma os trabalhos se resumiriam a Galileu e os alunos trabalhariam individualmente.

O tempo disponível para o trabalho foi de uma semana e foi dada total liberdade para criarem da maneira que quisessem – usando computador, recortes de revista, de jornais, de revistinhas em quadrinhos, desenho à mão livre, etc – tendo atenção ao fato de que podiam fazer inferências, mas sem distorcer a possível veracidade dos fatos.

Na semana seguinte, os alunos levaram seus trabalhos para a apresentação sendo que cerca de 80 % deles fizeram a atividade. Na turma em que os trabalhos foram desenvolvidos em grupos os estudantes se reuniram e trocaram as histórias em quadrinhos entre si, uma vez que tinham temas diferentes – vida de Galileu e Newton.

A primeira etapa foi que corrigissem os erros gramaticais dos trabalhos uns dos outros e depois foi realizada uma breve discussão sobre os físicos abordados e a importância de suas teorias para a ciência hoje. Ao final da aula foram eleitas as histórias mais criativas e que melhor contaram os fatos pesquisados.

Na turma em que o trabalho foi realizado individualmente tivemos uma discussão a respeito do pensamento científico, baseando-nos na intensa atividade da ciência na

época da Renascença de Galileu. Surgiram várias perguntas como: porque os estudantes

da época descobriam tantas teorias?; Como eles descobriam tantas coisas sem terem o

respaldo teórico que temos hoje?; Será que temos distrações demais para não

produzirmos tantas descobertas como na época?; entre outras.

As questões levantadas suscitaram a discussão de outros temas como a idéia e o papel dos modelos científicos. Até mesmo as escolhas que os alunos terão que fazer como, por exemplo, a opção de curso no vestibular foi tema de debate.

Ao final do estágio foi entregue um questionário para que os alunos respondessem anonimamente e dentre as questões eles deveriam avaliar a atividade.

Resultados

Analisando as respostas do questionário ficou evidente que a maioria dos alunos gostou da atividade, admitindo-se o fato de que não tiveram apenas que copiar uma pesquisa feita na internet, mas recontar numa linguagem diferente aquilo que leram e entenderam.

Apenas dois alunos manifestaram -se insatisfeitos com a atividade. Seus argumentos foram principalmente com relação ao tempo gasto para fazer o trabalho.

Não gostei, pois gastei muito tempo para fazer a história e deu muito trabalho (Depoimento 1).

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Os argumentos mais freqüentes disseram respeito a aprender de uma forma divertida e irreverente e ao fato de sair da rotina de aula teórica e com muitos exercícios. Isso evidencia a opinião da maioria dos alunos em achar o cotidiano em sala de aula maçante e cansativo. Dentre as respostas encontradas podemos destacar:

Achei interessante porque deu para brincar com a física (Depoimento 1).

Eu adorei , pois acho uma ótima idéia trabalhar com histórias em quadrinhos e desse jeito a gente aprende mais do que fazendo um trabalho escrito (Depoimento 2).

Excelente porque saímos um pouco da rotina de matérias e exercícios e ainda aprendemos de uma maneira divertida ( Depoimento 3).

O relato de resultados positivos de trabalhos com HQs ou tirinhas não é novidade. A atividade aqui apresentada serviu como complementação para o tópico estudado e, principalmente, para que os alunos: (i) compreendessem como se desenvolvem os conceitos e teorias em ciências e (ii) percebessem as dificuldades encontradas pelos cientistas, rompendo com a idéia de que as teorias são definitiva s e que surgem de mentes privilegiadas.

Os livros didáticos c ostumam fazer menção aos físicos e filósofos que contribuíram para o desenvolvimento da física de forma destacada do texto, como mera ilustração ou objeto de curiosidade. No trabalho com os quadrinhos os alunos puderam vincular conceitos trabalhados no conteúdo ao contexto histórico nos quais surgiram.

Por último, a atividade proporcionou um trabalho interdisciplinar envolve ndo artes e linguagem.

Conclusões

A disciplina de física no ensino médio é tida por muitos alunos como algo difícil, sendo assim, a maioria deles acaba se desmotivando na aprendizagem de novos tópicos. Cabe ao professor, na abordagem dos conteúdos, recorrer a diferentes metodologias e recursos didáticos como, por exemplo: vídeos, demonstrações, reportagens, atividades investigativas, entre outras.

A atividade de histórias em quadrinhos mostrou-se eficiente diferentemente do que ocorreria no modelo tradicional de ensino em que o professor daria uma aula teórico-expositiva e o aluno permaneceria como um simples expectador aprendendo e apreendendo pouco sobre o tema. Além do fato de que esse aprendizado provavelmente teria curta duração em suas memórias. Permitiu também abordar a história da ciência que é uma parte do conteúdo pouco ensinada e de grande importância no ensino, já que conecta o conhecimento científico à realidade da época em que iniciou-se o seu desenvolvimento.

Ao final da atividade conclui-se que os resultados foram bons pois, através de uma pesquisa sem orientação docente, os alunos demonstraram conhecimentos sobre os temas propostos e puderam fazer uma leitura crítica sobre os acontecimentos históricos discutidos no trabalho.

Referências

BRASIL, Ministério da Educação, Secretaria de Educação Média e Tecnológica.

Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares nacionais: Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília: Ministério da

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IANNONE, Leila Rentroia; IANNONE, Roberto Antonio. O mundo das historias em quadrinhos. São Paulo: Moderna, 1994. 87p.

LUYTEN, Sonia Maria Bibe. O que e historia em quadrinhos. 2a ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. 88p.

PENA, Fábio L. Alves, Como trabalhar com “TIRINHAS” nas aulas de Física. Física na Escola, v. 4, n. 2, 2003

RITTES, André L. M. Ferreira. As histórias em quadrinhos na escola : a percepção de professores de ensino fundamental sobre o uso pedagógico dos quadrinhos. Dissertação de Mestrado. Disponível em:

http://biblioteca.unisantos.br/tede/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=41 Acesso: setembro de 2008.

TESTONI, Leonardo André; ABIB, Maria Lúcia V.S. A utilização de histórias em

quadrinhos no ensino de física: uma proposta para o ensino de inércia. Enseñanza de lãs ciências, 2005. Número Extra. VII Congresso

VERGUEIRO, Waldomiro. A atualidade das histórias em quadrinhos no Brasil: a busca de um novo público História, imagem e narrativas.No 5, ano 3, setembro/2007 – ISSN 1808-9895 – Disponível em: http://www.historiaimagem.com.br Acesso:Setembro de 2008

Anexos: Recortes de quadrinhos criados pelos estudantes

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Fig. 02: Capa de história a respeito de Newton

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Referencias

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