ELA CANTA, POBRE CEIFEIRA (outra análise) Natureza x cultura
A natureza está apresentada em alguns versos e em algumas imagens, que serão analisadas abaixo.
A primeira é a da ceifeira a ceifar, que nos traz um contexto rural e natural. Em seguida o cantar ondulando como o canto de uma ave, que aproxima a ceifeira da natureza animal, distanciando-a da humana. No verso “no ar limpo como um limiar”
a idéia de vastidão, de ausência do homem que preenche e movimenta o espaço, sugere habitat virgem e selvagem. “limiar” pode estabelecer o limite entre a cultura e o selvagem. Outro verso: “E há curvas no enredo suave”. Estas curvas, que serão reiteradas no verso “incerta voz ondeando”, são a imprecisão e a imprevisibilidade da natureza em oposição à simetria e controle do saber racional, ou seja, da cultura. A inconsciência e a ausência da razão sugerem o instinto.
Não obstante haja essa presença da natureza, e a oposição natureza x cultura, minha análise se voltará para seus desdobramentos, pois não vejo esta oposição como núcleo problemático do poema. Há uma oposição mais intrincada, profunda e produtiva: a do saber racional letrado versus o saber empírico iletrado.
Creio que também possa haver uma ilusão de idéia de natureza no poema, porque o que há é referência à “cultura campestre”, que é entendida como natureza.
(Não há natureza neste poema, porque é impossível para o homem elaborar a natureza em versos; só há cultura em versos). As possíveis relações de oposição que se pode estabelecer neste poema são a da cultura empírica, da vida prática e principalmente rural, versus à cultura letrada, armazenada em livros e transmitida através de instituições sistêmicas e metódicas. A primeira é a cultura dos
“conhecimentos empíricos, armazenados na memória e nos hábitos coletivos[2]”, transmitidos rotineiramente. A segunda é mais complexa porque “tem sua elaboração e sua expressão sujeitas a regras, que se tornam cada vez mais complexas, à medida que o saber mesmo se desenvolve”.[3] Este saber racional e instituído em universidades se encontra em crise no início do século XX.
Atentemos a estas reflexões de Vaz (1966):
...o mundo não apresenta significação para o homem senão na medida em que é assumido no movimento que opera a passagem do ser natural em ser cultural. A paisagem humana é necessariamente construída pelas obras culturais, pois só elas atestam ao homem a essência e o sentido da sua presença no mundo: a presença de um sujeito que compreende, transforma e significa.
O cientificismo do século XIX culminou sua crise com o decadentismo na arte e com o modernismo e todos os ismos europeus. O homem moderno e civilizado duvidava e passava a negar a até então consolidada significação do mundo. A sua transformação da natureza chegou aos limites; suas significações se tornaram confusas, fragmentadas ou difusas. Parece então que o homem resolve voltar aos primórdios da significação do mundo, e o resquício dessa antiguidade está ali bem perto: o homem iletrado do campo, que conserva um saber remoto, quase livre da ciência e do racionalismo.
Análise do poema e deduções
Tomando o primeiro verso, o aposto “pobre ceifeira” a adjetiva como infeliz, coitada, segundo a visão do eu lírico. Ela canta julgando-se feliz, mas o eu lírico acrescenta o advérbio talvez, que nos apresenta duas visões diante do fato e um distanciamento. Este eu não sabe o que a ceifeira sente, mas conjetura, com dúvida, pois está longe dela e de seu universo.
Sua voz é cheia “De alegre e anônima viuvez”. Detenhamo-nos no adjetivo
“viuvez”, já que o anônima é de fácil entendimento, pois trata a ceifeira não como um indivíduo, mas como integrante de um coletivo, a saber, o homem simples do campo,
sem instrução, de modesta classe social. O termo viuvez nos remete à sensação da morte/ perda e da convivência com ela; próprio de quem se acostumou com a falta, com a carência. Neste sentido reitera o adjetivo “pobre”, citado acima.
Outra passagem importante é
E canta como se tivesse/ mais razões para cantar que a vida
Esta sintaxe é interessante, pois torna ambígua e polissêmica a interpretação. A literal é a de que é como se a vida tivesse menos razões para cantar do que a ceifeira.
A vida estaria personificada. A segunda, e mais lógica, é a de que a ceifeira tem mais razões para cantar do que para viver. Esta interpretação atropela a sintaxe e é negada pelo verso seguinte:
Ah, canta, canta sem razão!
Ou o contrário, podemos interpretar que o imperativo “canta” pede para que cante sem razão, mesmo que tivesse reais razões para tal.
A terceira interpretação é a de que a vida, que seria a maior razão para se cantar, não é a razão principal, há outras razões além dela. Talvez estas razões tão íntimas, não as possa entender o letrado, e disto derive uma dor. “Derrama no meu coração” esta tua incerta voz, pede o eu lírico, pois sua razão não pode compreendê- la.
As três interpretações possíveis atestam a crise do racionalismo posta no poema, e a busca de uma outra forma de compreender e sentir a realidade.
A divisão e indecisão do eu lírico, que corta todo o poema
Permeia o poema a presença de um sujeito dividido entre a razão, o saber racional e letrado, e a inconsciência intelectual e o saber empírico do homem simples do campo. Há muitas evidências desta incerteza do eu lírico. Por exemplo, quando diz que a ceifeira talvez julga-se feliz, ou quando seu cantar alegra e entristece, há a simultaneidade desses dois vieses. E ainda, ao mesmo tempo que o eu lírico quer ser o outro, quer sentir como a ceifeira, quer continuar sendo si próprio - isto demonstra que está dividido. As exclamações “Ó céu!/Ó campo! Ó canção!” expressam a dor deste sujeito de não ser o outro e poder ter a consciência de si próprio ao mesmo tempo.
Ambos os viveres possuem dores e alegrias. Pela razão de o letrado ter aprendido a ver o mundo pelo crivo da razão científica, da lógica, está impossibilitado de sentir o real “verdadeiramente”. O que ele sente é projeção das lentes pesadas que adquiriu. Por outro lado, o homem simples do campo não teve seu olhar corrompido pelas lentes da ciência, e por isso sente e lê de outra forma a realidade. Sua vida é dura, é infeliz, mas sua inconsciência alivia seu viver, o torna “naturalmente” alegre;
ele sente, e não pensa o que sente.
Outra passagem bastante intrigante deste poema é a seguinte:
A ciência/ Pesa tanto e a vida é tão breve!
O viés racionalista, lógico e intelectualista pesam porque está sempre em ação a tentativa de entender e explicar a realidade. Dada a complexidade da realidade, o exame intelectual se torna deveras laborioso. Mas a vida é breve. Se não se abandona o viés mencionado, não se pode gozar a vida; por exemplo, não se pode cantar, e, sem razão, ser alegre. Diante do peso da ciência que me leve consigo a ceifeira, diz o eu lírico.
Saber racional X saber irracional Ah, canta, canta sem razão !
O que em mim sente `stá pensando.
Nesta passagem se nota a oposição que se estabelece entre o saber racional e o saber irracional. Para o eu lírico a ceifeira canta sem razão, e ao dizer que sua voz é incerta depreendemos que também considera seu saber como o não permeado pela razão.
O letrado não pode sentir sem pensar; a lógica e a razão atrofiaram seu coração. Talvez aqui também se deposite a dor da poética de Pessoa: poder sentir sem pensar, a sensação pela sensação, sem o crivo da razão, do pensamento.
Pessoa então queria ser este outro, que sente sem pensar, que é desgraçado, mas, por inconsciência, é alegre, julga-se feliz, talvez.
Mais que sentir sem pensar e ser o outro, não que perder a consciência que tem da realidade. Para esta façanha, só mesmo rogando ao céu!
A dor de não ser o outro ou “el querer-ser frente al haber-sido”[4]também é uma constante na obra de Jorge Luis Borges, presente principalmente no conto “El sur” e no poema “Poema conjetural”. Ser o letrado, mas, por necessidade de completude, anelar ser o homem da vida prática, o gaúcho ou o compadrito, o homem que vê o campo com olhos puros e que tem a felicidade de, por ventura, morrer com uma adaga no pescoço.