O ENXADRISTA HIPERATIVO: RELAÇÕES ENTRE O ESPORTE E O COMPORTAMENTO

56  38  Descargar (1)

Texto completo

(1)

TECNOLOGIA DE SANTA CATARINA CAMPUS JARAGUÁ DO SUL CENTRO

ANA CAROLINA FANHANI STRALIOTI ANA CAROLINA SILVÉRIO JONSSON

NATÁLIA GEOVANA HONZE THIAGO HENRIQUE GABLER

O ENXADRISTA HIPERATIVO: RELAÇÕES ENTRE O ESPORTE E O COMPORTAMENTO

(2)

ANA CAROLINA SILVÉRIO JONSSON NATÁLIA GEOVANA HONZE THIAGO HENRIQUE GABLER

O ENXADRISTA HIPERATIVO: RELAÇÕES ENTRE O ESPORTE E O COMPORTAMENTO

Trabalho de Qualificação do Projeto de Iniciação Científica do Programa Conectando Saberes apresentado ao Instituto Federal de Santa Catarina – Campus Jaraguá do Sul como parte complementar à matriz curricular do Curso Técnico em Química Integrado ao Ensino Médio.

Orientador: Roberto João Eissler

Coordenador: Selomar Claudio Borges

(3)

Ao Alessandro Silvério Jonsson, que nos ajudou na escolha do tema.

Aos nossos familiares, por sua compreensão e todo o apoio que nos foi dado durante o trajeto da realização deste.

À nossa ex-colega de turma, Wendrilly Kauany Figueredo, pela contribuição para a realização do projeto e pela parceria durante o semestre.

Aos nossos entrevistados, que nos disponibilizaram de seu tempo e tornaram a realização deste possível.

À professora Lenita, por nos proporcionar suporte e sugestões.

Ao coordenador de fase, Selomar Claudio Borges pelo embasamento que nos foi proporcionado.

À psicóloga do campus, Juliana Augustin Pereira, que nos ajudou a esclarecer pontos importantes para a nossa pesquisa.

À banca, composta por Isabel Cristina Hentz e Josué Jorge Cruz, pela ajuda e por todas as sugestões fornecidas para a elaboração do projeto.

Agradecemos ao nosso orientador, Roberto João Eissler, por sua atenção e interesse na construção, elaboração e conclusão de nosso projeto e pelo apoio e confiança depositados em nós.

Agradecemos a todos que colaboraram para tornar o desenvolvimento deste projeto possível.

“Se preto fosse paixão e branco fosse carinho, o que eu sinto por você seria

(4)

A presente pesquisa com foco em enxadristas hiperativos visa apontar as relações entre a prática do xadrez e o comportamento de crianças e jovens hiperativos, procurando, assim, analisar se é possível que, com a prática do xadrez, uma criança ou um jovem hiperativo consiga sentir uma aparente melhora nos sintomas da hiperatividade (ansiedade, dificuldade de concentração, falta de atenção, entre outras). Por essa razão, foram analisadas entrevistas com dois jovens e um adulto, visto que os indivíduos perceberam uma melhora gradativa e também um impacto significativo do xadrez em sua concentração, relacionando ainda seus relatos e experiências ao Behaviorismo Radical, elaborado por B. F. Skinner. Assim, pudemos perceber que a ansiedade é um fator que influencia no comportamento do enxadrista hiperativo.

(5)

1 INTRODUÇÃO...6

2 DESENVOLVIMENTO...8

2.1 Xadrez...8

2.1.1 História – Origem e Desenvolvimento...8

2.1.2 Xadrez no Brasil...10

2.2 Xadrez e Psicologia...11

2.2.1 Xadrez e Concentração...12

2.2.2 Xadrez e Percepção...13

2.2.3 Xadrez e Criatividade...13

2.3 Hiperatividade...14

2.3.1 Transtorno Clínico ou Social?...15

2.3.2 A hiperatividade nos períodos da vida (infância e vida adulta)...16

2.3.3 Medicalização durante a infância...18

2.4 Comportamento (Behaviorismo)...20

2.4.1 O behaviorismo no estudo do comportamento...20

2.4.2 O behaviorismo de Skinner...21

3 METODOLOGIA...25

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES...27

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS...34

REFERÊNCIAS...36

APÊNDICES...40

Apêndice A...41

Roteiro das Entrevistas...41

Apêndice B...43

Textualização da entrevista com Tarcísio C. Machado Nogueira...43

Apêndice C...52

Textualização da entrevista realizada com Karina Kanzler...52

Apêndice D...55

(6)

O xadrez é um jogo que envolve diversos fatores lógicos, cognitivos e racionais, que a princípio pode ser visto como desinteressante, mas, quando visto de perto fascina, seus jogadores por sua intensidade. Pode ser taxado como monótono ou entediante, tudo diante de uma ideia de que o jogador de xadrez não necessita de muito preparo e habilidades físicas, e também é pouco divulgado. Diante disso, esta pesquisa busca analisar se o xadrez, como esporte, melhora a qualidade de vida, principalmente no quesito relacionado ao comportamento dos seus jogadores, neste caso, os com transtorno de hiperatividade.

O xadrez, mesmo com sua origem incerta, esteve presente em diversas civilizações e culturas. Segundo Lauand (1988), jogos como o xadrez, eram de grande importância para educação medieval, principalmente nos séculos XIII e XV. Apesar de a igreja considerar o xadrez como jogo de azar e o proibir ao clero, tal ato veio a ser esquecido no século XIII e o jogo se expandiu para vários países. No século XVI, o jogo teve um grande desenvolvimento com o surgimento de torneios e patrocínio dos reis para os melhores jogadores. Em 1924, foi criada a Federação Internacional de Xadrez, que efetivou o jogo como esporte. No final do século XX, o xadrez foi adaptado aos computadores, contribuindo e auxiliando em troca de informações entre enxadristas (jogadores de xadrez), crescendo a quantidade de enxadristas novos, programação das etapas dos torneios e no aprimoramento de treinamentos.

A partir das leituras realizadas pelo grupo, o problema de pesquisa foi definido como “a prática do xadrez produz efeitos em um jogador hiperativo e, consequentemente, quais são os de maior evidência?” e para esse problema, tais hipóteses foram desenvolvidas: para enxadristas hiperativos, há maior dificuldade para calcular as variantes durante uma partida, devido à dificuldade quanto à concentração; a pressão (por vitórias) formada sobre o enxadrista aumenta o comportamento hiperativo, dificultando a concentração e atrapalhando o desempenho durante o jogo; um dos fatores que podem influenciar o comportamento do sujeito, durante uma partida, é a ansiedade; para sujeitos que fazem uso de medicação, o xadrez pode ser uma alternativa viável.

(7)
(8)

2.1 Xadrez

Jogo que envolve diversos fatores lógicos, cognitivos e racionais. De acordo com Castro (1994), o resultado de uma partida não se deve à sorte ou azar, mas principalmente ao raciocínio dos dois jogadores envolvidos. O Xadrez envolve um conjunto de 32 peças, de seis tipos diferente, o rei, a rainha, o bispo, o cavalo, a torre e o peão, que são dispostas em 64 casas, alternadas em “pretas” e “brancas”, cujo objetivo do jogo é conquistar o rei de seu adversário. Cada uma das peças possui sua importância dentro do jogo, com movimentos e possibilidades de captura específicos (CASTRO, 1994).

Assim como quase tudo em nossa sociedade, o xadrez se mantém em constante ritmo de modificações e inovação, seja por conta de movimentos, estratégias ou pelo seu crescimento em âmbito competitivo (e escolar). O Xadrez, que a princípio pode ser visto como um jogo desinteressante, possui intensidade - seja pelo vigor, tensão, alegria, elemento surpresa, divertimento -, o que fascina o jogador (ROCHA, 2009).

Em uma partida profissional, sendo optativo em partidas amistosas, é utilizado um relógio especial para a contagem de tempo. São dois relógios que marcam, revezadamente, o início de lance do competidor. Quando se aciona o dispositivo, o tempo imediatamente é interrompido, e se começa a contagem do adversário. Em algumas modalidades, há um tempo limite à cada jogador, como na “partida relâmpago”, onde todos os lances do jogador devem ser feitos em um tempo de 15 minutos, no máximo. Segundo Pelikian (2013), a possibilidade de lances no xadrez é tão variada que, em uma partida sem pausas, dois jogadores levariam, aproximadamente, 260 bilhões de anos. Ou seja, por possuir grande variedade de possíveis lances, o xadrez se torna um jogo de extrema subjetividade e dinamicidade, relativo aos jogadores.

2.1.1 História – Origem e Desenvolvimento

(9)

O jogo já esteve presente em várias civilizações e culturas, havendo passagens pela Pérsia, com o nome de chatrang, e após sua invasão árabe ocorrida em 641, tornou-se

shatranj. Apesar de o islamismo proibir jogos de azar, os islâmicos o assimilaram com o jogo

shatranj, que foi considerado um jogo de guerra e, incorporado pelos árabes, foi expandido para vários países e territórios conquistados, formando uma sobreposição entre as culturas persa e muçulmana (CASTRO, 1994).

No continente asiático, a disseminação do xadrez foi feita, principalmente pelos budistas, sendo adaptado à cultura chinesa, coreana, japonesa e tibetana (FRANCISCO, 2014).

O shatranj chegou à Europa no século IX, há incertezas sobre o país que deu entrada ao jogo, pode-se dizer que veio como parte de relações comerciais e do intercâmbio cultural entre muçulmanos e cristãos, sendo amplamente conhecido no ano 1000. A princípio, houve a refutação da igreja, surgindo a proibição dele ao clero, porém sendo esquecida ao século XIII (CASTRO, 1994).

Entretanto, por volta do século XIII, essa proibição foi relaxada ou esquecida, e o xadrez passou a gozar de popularidade entre várias ordens religiosas. Alguns de seus membros inclusive usaram o xadrez em alegorias conhecidas como “moralidades”, comuns na literatura europeia da Idade Média, e que tentavam dar uma explicação simbólica ou alegórica do jogo, encontrar paralelos entre a organização da vida e atividades humanas e o xadrez. Essas alegorias geralmente consideravam o jogo como emblemático da condição social da época (CASTRO, 1994, p. 3).

Os jogos, como o xadrez, tinham grande importância na educação medieval, principalmente nos séculos XIII e XV, houve uma grande difusão do xadrez (LAUAND, 1988).

Em 1200, o xadrez praticado na Europa não era diferente do jogo shatranj, somente com as inovações renascentistas que ele se aproximou da versão atual. Em torno de 1475, ocorreram significativas mudanças em peças, como a Rainha e o Bispo, e o ritmo foi acelerado. Essas mudanças modificaram o xadrez árabe e deram origem ao xadrez moderno europeu, dando origem aos primeiros livros sobre a nova forma de jogo, que foram todos escritos na Península Ibérica (FRANCISCO, 2014).

(10)

xadrez começaram a ter mais fama, os jogos aconteciam em cafés, sendo os mais famosos o

Café de la Régence, de Paris, e o Slaughter’s Coffee House, de Londres (CASTRO, 1994). Em 1739, foi lançado o livro fundador do xadrez moderno “L’analyse des échecs”, do enxadrista e compositor de músicas, Philidor (1726-95). Desde então, a teoria do xadrez foi desenvolvida de forma contínua, havendo escolas que ensinavam diferentes estilos e formas para a condução de partidas, tornando-se mais comuns clubes de xadrez e torneios (CASTRO, 1994).

Com a popularização do xadrez, o primeiro torneio com as novas regras de xadrez criadas na Itália, foi realizado em Londres, em 1851. O vencedor foi o mestre alemão Adolf Anderssen, que na época, foi considerado o melhor jogador de xadrez do mundo. Já em 1924, foi criada a Federação Internacional de Xadrez, que efetivou o jogo como um esporte, e segue até hoje promovendo campeonatos.

Durante a Guerra Fria, período histórico que determinou a paisagem estratégica e o equilíbrio de forças no mundo por volta de aproximadamente 50 anos, em 12 de julho de 1972, na série de partidas que colocou em jogo o título mundial de xadrez, aconteceu o “match do século”, a partida entre o norte americano Robert James Fischer, mais conhecido como Bobby Fischer e o soviético Boris Spassky. A partida foi considerada a “partida do século”, não por se tratar de uma final de campeonato mundial, mas sim pelos enxadristas serem de países rivais, caracterizando, de fato, como uma guerra, onde o local da batalha foi o tabuleiro (SOUZA; MARCHI JUNIOR, 2013).

Na era da informática, século XX, o xadrez foi adaptado aos computadores, entre outros, contribuindo com a troca de informações entre enxadristas, auxiliando em análises mais profundas de partidas, deste modo contribuindo, para a crescente quantidade de novos enxadristas, no aprimoramento de treinamentos, na programação das etapas dos torneios entre outros (ZAIM, 2010).

2.1.2 Xadrez no Brasil

(11)

De acordo com Zaim (2010), somente em 1808, começaram os primeiros registros brasileiros, com a vinda de D. João VI e sua corte para o Rio de Janeiro, junto a nobres negociantes europeus, trazendo uma obra impressa sobre o jogo, sobre a autoria de Lucena.

O primeiro livro brasileiro sobre xadrez foi publicado em 1850, com o nome de “ O Perfeito Jogador de Xadrez ou Manual Completo Deste Jogo ” de Henrique Velloso d’Oliveira.

Em 1876, no Rio de Janeiro, foi estreada a primeira coluna de xadrez no Brasil, na revista “Illustração Brasileira”, pelo músico da corte e renomado pianista português Artur Napoleão, que acabou durando dois anos. Após um ano, em abril de 1877, foi fundado o primeiro clube de xadrez do Rio de Janeiro, “Club Beethoven”, tendo como secretário o ilustre escritor Machado de Assis, um grande estudioso do enxadrismo, que foi o solucionista da primeira coluna de xadrez no Brasil.

Em 1880, é realizado um pequeno campeonato de xadrez na casa de Artur Napoleão, tendo como parte Machado de Assis e João Caldas Viana, primeiro enxadrista brasileiro famoso internacionalmente, e entre outros. Após a partida de Artur para Europa, o clube de xadrez é desfeito. Porém, em 1890, com a sua volta, fundou outro clube. O primeiro livro de problemas é lançado, “Caissana Brasileira”, escrito por Artur Napoleão, em 1898, junto com as regras de jogo, anotações, códigos e mais de 500 composições (BECKER, 1974).

De acordo com Becker (1974), pode se dizer que a verdadeira história do enxadrismo no Brasil, começa em 1925, com o primeiro campeonato nacional, cuja vitória pertenceu ao Dr. João de Souza Mendes, sagrando-se o primeiro campeão brasileiro de xadrez.

2.2 Xadrez e Psicologia

Lapertosa (2012) esteve envolvido em um projeto de xadrez em uma escola particular em Minas Gerais, na década de 1990. O projeto visava utilizar jogos para auxiliar crianças com dificuldades nos estudos, entendendo que muitas pessoas têm descrito o xadrez como uma ferramenta pedagógica e psicológica. Os resultados obtidos pelo projeto foram surpreendentes, foram até considerados melhores que o esperado, mas esses resultados não aconteceram de imediato, começaram a aparecer somente depois de, aproximadamente, um ano de treinamento.

(12)

em março de 2000, com a expectativa de divulgar o xadrez como ferramenta auxiliar no desenvolvimento intelectual das crianças e adolescentes, e para treinar os atletas para competições.

Muitos de seus estudos comprovam que o xadrez ajuda a melhorar a qualidade de vida, que está relacionado com a inteligência e que muitos de seus alunos conseguiram sucessos em suas atividades de trabalho, provas, concursos, entre outros. Apesar de parecer que o objetivo seja que os alunos se tornem expert em xadrez, isso não é verdade, o verdadeiro objetivo foi de aumentar o desempenho cognitivo dos alunos, para que eles tivessem mais concentração, percepção e criatividade.

2.2.1 Xadrez e Concentração

Em uma tarefa que necessita sequência lógica, como a contagem de números, ou até mesmo, a contagem de dinheiro, uma distração pode exigir o recomeço de toda a operação. Em casos como esse, devemos ter a atenção focada, e não dividida.

Pode-se conceituar a concentração, como a atividade mental dirigida a um determinado setor da atividade humana. É a capacidade de estar atento, uma das características mais importantes para o sucesso de um aluno (ZAIM, 2010).

A base do xadrez é o raciocínio lógico dedutivo. Prevendo situações futuras mentalmente, podemos avaliar se a nova situação no tabuleiro será favorável ou não. Há duas maneiras de se fazer isso. [...] A segunda maneira seria calculando o que acontece dois ou mais lances a frente [...] Esse tipo de cálculo exige um bom poder de concentração, que os mestres do Xadrez alcançam após anos de treino. Portanto quem joga Xadrez treina concentrar-se de forma lúdica. (LAPERTOSA, 2012, p.17-18)

De acordo com Zaim (2010), o jogo de xadrez, devido às suas características, auxilia muito ao nível de desenvolvimento da concentração dos alunos.

(13)

O jogador deve sempre estar pronto aos lances e mudanças estratégicas feitas pelo adversário, focalizando em implicações causadas pelos movimentos no tabuleiro, mantendo planos e imagens de possíveis jogadas do adversário e escapatórias como possíveis “planos de fuga” (GOULART, 2011).

2.2.2 Xadrez e Percepção

De acordo com Lapertosa (2012), um aspecto próprio de cada indivíduo, é formado em etapas anteriores da vida, como gostar do tom de cor de um objeto. A percepção é uma experiência pessoal e única. Por exemplo, o gostar de certa comida ou de certa combinação de cores, o sentimento de conforto com determinado som ou determinada pessoa, estão todos ligados à maneira que percebemos o meio a nossa volta e como interagimos e reagimos a ele.

“No estudo da percepção, a visão é sem sombra de dúvida o sentido que mais se destaca (no ser humano ela parece ser, normalmente, o sentido mais complexo e mais desenvolvido)” (LOPES; ABIB, 2002, p. 130), pois é através desta que montamos grande parte da nossa realidade privada, através da Teoria da Cópia, que será comentada mais adiante, promovendo certa subjetividade à percepção.

Porém, em alguns aspectos da vida, a percepção não pode ser tão subjetiva, como no xadrez (LAPERTOSA, 2012).

2.2.3 Xadrez e Criatividade

Obras brilhantes como as de Vincent van Gogh parecem ter sido tiradas do nada, porém não foram, assim como “A Noite Estrelada” não foi sua primeira obra. Toda a genialidade de van Gogh vem de uma vida entregue a arte e a pesquisa.

O xadrez, talvez por sua expressão notadamente racional e conjunto de regras bem definidas, normalmente não é associado a processos criativos mais do que é entendido como um domínio de conhecimento onde só existe espaço para decisões estritamente lógicas e desprovidas de um elemento mais inovador. O fato é que é necessário conhecimento tanto quanto capacidade para utilizar esse conhecimento de forma totalmente criativa (KASPAROV, 2007).

(14)

memorização da posição das peças. Já um mestre de xadrez verá áreas de influência, que facilitam a percepção de uma imagem.

Esta imagem é um plano geral capaz de orientar o jogo, fazendo com que seja flexível para se manter intacto em situações imprevisíveis.

Este modelo é utilizado na análise de uma posição. A concepção de “modelos mentais” como representação do conhecimento pode ser aplicada a uma vastidão de fenômenos cognitivos, como percepção visual, memória e raciocínio (LAPERTOSA, 2012).

A criatividade no xadrez manifesta-se, pois, durante a busca por uma solução a um problema apresentado. Geralmente soluções convencionais são conhecidas e detectadas por ambos os jogadores no calor da batalha, de forma que a busca por conexões não evidentes pode transformar-se em vantagens de tempo, espaço e material (KASPAROV, 2007).

Um enxadrista com experiência terá um desempenho superior que um iniciante apenas se o posicionamento das peças sobre o tabuleiro fizerem sentido em função de uma partida. Dois aspectos diferenciam o mestre do principiante: a organização e o uso do conhecimento (LAPERTOSA, 2012).

2.3 Hiperatividade

A hiperatividade e o TDA (Transtorno de Déficit de Atenção) formam o que chamamos de transtorno, que por definição, é o que causa certo incômodo, uma desordem mental ou psíquica, que neste caso envolve instabilidade de atenção, hiperatividade e impulsividade, formando o TDAH, podendo ser encontrados de maneira avulsa ou separadamente.

Há muita confusão entre hiperatividade, distração e déficit de atenção. A hiperatividade é um dos sintomas do TDAH. Só que isto não significa que todas as crianças hiperativas tenham de fato TDAH. Fala-se em hiperatividade, em primeiro lugar, sob uma perspectiva apenas descritiva, em referência a uma criança que é bem mais agitada que as outras da mesma idade (AMORIM, 2017).

(15)

desavenças. “A escola passou a ser vista como um campo de batalha, professores de um lado, alunos de outro” (MIRANDA et al., 2011).

Podemos interpretar o ocorrido como um reflexo vindo de um preconceito, ou até mesmo uma ignorância sobre a diferença entre mau comportamento e hiperatividade. Vale lembrar que nem toda criança mal comportada é hiperativa e nem todo hiperativo é necessariamente mal comportado, já que a hiperatividade se divide em duas classes: hiperatividade física e hiperatividade mental (SILVA, 2009), fazendo com que em certos casos, ela seja mais visível (hiperatividade física), já em outros, ela nem sequer é perceptível (hiperatividade mental); há também os casos em que a hiperatividade é facilmente confundida com o costumeiro mau comportamento. De acordo com Miranda et al. (2011, p. 2) “Parece não haver um consenso entre os profissionais da educação sobre a diferença de hiperatividade e indisciplina.”

2.3.1 Transtorno Clínico ou Social?

Segundo a American Psychiatric Association (1994 apud ARGOLLO, 2003, p. 197), o TDAH (Trastorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) é um dos transtornos mais bem estudados na medicina, possuindo dados muito mais confiáveis que a maioria dos transtornos mentais e até mesmo de algumas condições médicas. Porém, Miranda et al. destaca que

[...] não está claro quais são as causas diretas e imediatas do TDA/H, apesar dos avanços científicos e tecnológicos no domínio das técnicas de imagens neurológicas e genéticas. Existe a promessa de esclarecer esta questão num futuro próximo. A maioria dos pesquisadores suspeita que a causa do TDA/H é genética ou biológica, apesar de reconhecer que o ambiente da criança, ajuda a determinar seus comportamentos específicos. (MIRANDA et al., 2011, p. 5).

Enquanto, em meio clínico e acadêmico, o TDAH possui pesquisas mais desenvolvidas, no meio comum ainda parece haver certo tipo de preconceito ou ignorância quanto a real situação de um hiperativo ou TDA, gerando as dificuldades de convivência e entendimento do comportamento de uma criança hiperativa, e aos conflitos entre pais e educadores, citados acima.

(16)

Como já citado anteriormente, a maioria dos pesquisadores acredita que a causa do TDAH seja genética ou biológica, assim como o ambiente de convivência da criança, Miranda

et al. (2011) ainda citam resultados obtidos em um estudo realizado pelo National Institutes for Mental Health, em 1996, em que se constatou que o córtex pré-frontal (parte do cerebelo) e ao menos dois aglomerados de células nervosas, são significativamente menores em crianças TDAH.

Nem todas as formas de hiperatividade tem relação com déficit de atenção – TDAH. Outras causas possíveis são alterações metabólicas e hormonais, intoxicação por chumbo, complicações no parto, abuso de substâncias durante a gestação , entre outras. Problemas situacionais, como crises familiares (luto, separação dos pais e outras mudanças) podem ser traumáticas para crianças e levarem a um quadro de hiperatividade reativa (AMORIM, 2017).

Todos estes fatores devem ser levados em conta antes de se iniciar um acompanhamento com a criança hiperativa, principalmente quando há medicação envolvida.

Ou seja, a hiperatividade pode surgir por fatores genéticos ou biológicos, ou por acontecimentos na vida social e cotidiana da criança, tanto em âmbito familiar quanto escolar, que são os mesmos onde os sintomas da hiperatividade mais se destacam e podem ser mais facilmente percebidos, devido ao convívio da criança.

2.3.2 A hiperatividade nos períodos da vida (infância e vida adulta)

A hiperatividade tende a vir acompanhada pela impulsividade (AMORIM, 2017) e, principalmente, agitação excessiva, ou seja, agir e reagir sem reflexão, obedecer ao impulso do momento, praticar ações consideradas “anormais”, como: mexer excessivamente as pernas, fala excessiva, roer unhas, entre outros (SILVA, 2009). Caso esse comportamento não seja bem administrado, tanto por parte da própria pessoa, quanto por parte dos quais o sujeito possui um convívio, podem surgir complicações oriundas deste comportamento em suas relações, como a agressividade, descontrole alimentar, uso de drogas, gastos excessivos, tagarelice incontrolável (SILVA, 2009).

(17)

diretamente pelos buracos da peneira. Então, tentaremos novamente e colocaremos mais água, porém ela continua com vazão pelos buracos da peneira, em vez de acumular. Na terceira tentativa, vedamos os buracos com um pano de um tecido qualquer. Ao analisarmos o resultado da terceira tentativa, percebemos que a água ficou retida por um curto período de tempo, porém o pano terminou o processo encharcado e pingando a água em excesso que não fora absorvida, ou seja, a água não ficará retida, novamente. O mesmo ocorre com impulsividade e a agitação em um hiperativo, ou seja, por mais que haja uma tentativa, esforço, para reprimir seu comportamento agitado, não conseguir fazê-lo pode ocasionar angústia, sofrimento e outras emoções, devido ao sentimento de falha, de descumprimento d seu papel (SILVA, 2009).

Devido à grande impulsividade e agitação (física e verbal) presente em se comportamento, “[...] pode-se imaginar quanto sofrimento, culpa, angústia e cansaço um impulso sem filtro pode ocasionar nos relacionamentos cotidianos dessas pessoas [...]” (SILVA, 2009, p. 17).

Para Silva (2009), certas atitudes, que geralmente são reprimidas, podem aflorar em sua personalidade e em suas ações, afetando seu convívio com a família, colegas de escola e/ou trabalho, relacionamentos amorosos e até mesmo o convívio em sociedade pode ser prejudicado, principalmente na infância, quando a impulsividade e a agitação são muito maiores.

Normalmente, crianças têm o hábito de dizer tudo que lhes vêm à cabeça (SILVA, 2009), porém com a repreensão da sociedade, aprendem a discernir, ou separar, o que deve ser falado ou não. Porém, em crianças hiperativas, a impulsividade dificulta esse processo.

Crianças hiperativas são geralmente identificadas como crianças agitadas, que pulam por todos os cantos, escalam móveis, gerando dificuldades em seu convívio com outras pessoas e às vezes, até consigo mesmo, devido aos altos níveis de repreensão, em certos casos. Neste sentido, Silva (2009, p. 17) afirma que “[...] esses comportamentos são, além de mais intensos, mais frequentes. E, é claro, isso será um dos fatores de grande influência na formação de uma autoestima cheia de ‘buracos’”.

(18)

No entanto, podemos observar a hiperatividade física naqueles que “sacodem” incessantemente as pernas, “rabiscam” com constância papéis à sua frente, roem unhas, mexem o tempo todo nos cabelos, “dançam” em suas cadeiras de trabalho e estão sempre buscando algo para manter as mãos ocupadas (SILVA, 2009, p. 19).

Em adultos, raros são os casos em que a hiperatividade física se torna incapacitante, porém há grande presença de atividade mental, principalmente quando se combina com a ansiedade (AMORIM, 2017), mas não significa que esses sintomas deixam de afetar suas vidas, muito pelo contrário.

É como se a vida dessas pessoas tivesse transcorrido, desde a infância, num redemoinho de atividades e pensamentos tão intensos que não tiveram tempo nem capacidade de sintonia para aprender a difícil arte de interpretar os outros (SILVA, 2009, p. 20).

De acordo com Silva (2009), a hiperatividade mental ou psíquica, em adultos, ocorre tal qual como um “chiado” cerebral, uma agitação da psique. Tal “chiado” leva a dificuldades no discernimento social, quanto a filtragem de falas e a interpretação dos contextos em que se envolve.

Considerando estes fatores (o “chiado” mental, agitação excessiva, repreensão durante a infância), podemos supor que grande parte dos adultos que sofreram ou que ainda sofrem com a hiperatividade possuem problemas com autoestima. Se quando crianças, estes adultos não tiveram um acompanhamento (ou um acompanhamento adequado) ou nem sequer chegaram a ser diagnosticados clinicamente, é comum que tenham sofrido repreensões em âmbito escolar e familiar, podendo assim, levá-los a crer que “seu jeito” estaria errado, sua “atuação social”, ocasionando problemas de autoestima futuros. Além dos possíveis problemas com autoestima, podemos citar a dificuldade em socializar-se, acarretando problemas à sensação de pertencimento a um grupo ou instituição social.

2.3.3 Medicalização durante a infância

A medicina se desenvolveu muito nas últimas décadas, entretanto, nesse mesmo sentido, até mesmo envolvendo problemas que antes não eram considerados médicos, conceito nomeado por Illich (1975) como medicalização da vida. Pode-se descrever medicalização como o processo em que problemas antes não considerados clínicos passaram a serem vistos e tratados como problemas médicos (BRZOZOWISK, CAPONI, 2012).

(19)

desvio envolvem relações de poder. Grupos sociais criam regras e as impõem para outros membros por meio de aprovação social e julgamento (BRZOZOWISK, CAPONI, 2012).

Grande parte dos desvios é notada na escola e descobertos quando a criança desenvolve algum problema de aprendizado. Se uma criança tem dificuldades para prestar atenção na aula, ou não aprende a ler com a idade determinada como a natural, seu comportamento pode ser considerado como um desvio, logo sendo encaminhado a um especialista. Sendo assim, os desvios são aqueles relacionados com o descumprimento de regras impostas socialmente, como a agitação e falta de atenção em sala (BRZOZOWISK, CAPONI, 2012).

A medicalização em processos de aprendizagem pode resultar em uma sala com alunos tranquilos e concentrados. Caso haja alguma suspeita confirmada de transtornos mentais, não só a escola se responsabilizará pela criança, mas também profissionais de saúde.

O campo da saúde se incorporou na vida familiar e escolar, em uma tentativa de normalização de condutas e resolução de situações socialmente indesejáveis. Sendo assim, a medicalização, desvio e controle social estão diretamente ligadas.

Desde a emergência da hiperatividade como um diagnóstico, ocorreram algumas mudanças na definição e nas características desse transtorno, o que revela a elasticidade das categorias médicas aplicadas a condutas previamente consideradas moralmente problemáticas. (BRZOZOWISK, CAPONI, 2012, p. 212)

De volta ao comportamento, a imaturidade durante a infância é um fato biológico, pois a criança está em formação, embora isso, a sua imaturidade não é compreendida. Espera-se uma criança atenciosa e calma, logo, a criança que não se encaixa nesta descrição tem seu comportamento tachado como um desvio. Para Illich (1975), uma vez que não se adaptam com o comportamento de uma criança, a diagnosticam com um transtorno, tentando explicar a não adaptação do indivíduo na sociedade. Não verificando suas condições, seja de família, escola e vida.

(20)

2.4 Comportamento (Behaviorismo)

O Behaviorismo se dedicou ao comportamento e sua relação com o ambiente onde ele ocorre, sendo estes termos demasiadamente amplos, psicólogos estudiosos da área chegaram as ideias de resposta e estímulo, que são os pontos básicos do estudo do comportamento (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 1992).

2.4.1 O behaviorismo no estudo do comportamento

Em 1913 surgiu o famoso artigo “Psychology from the stand point of a Behaviorist” (“Psicologia: como o behaviorista a vê”), de John B. Watson, onde ele expunha que a psicologia deveria desprender-se do estudo de eventos mentais que não eram diretamente palpáveis, tais quais, a memória, a consciência entre outros, e enfatizar o estudo do comportamento (ROEDIGER, 2012).

Certamente a posição a qual eu advogo é neste momento suficientemente fraca e pode ser atacada de vários pontos de vista. Mesmo reconhecendo tudo isso, ainda sinto que as considerações pelas quais argumentei devem ter uma ampla influência sobre o tipo de psicologia que será desenvolvida no futuro. O que nós precisamos fazer é começar a trabalhar sobre a psicologia, fazendo o comportamento, não a consciência, o ponto objetivo de nosso ataque (WATSON, 2008, p. 300).

Utilizando o comportamento como objeto de estudo, Watson deu à psicologia uma estabilidade que há muito vários psicólogos vinham procurando, sendo reconhecido como algo observável que poderia ser utilizado em indivíduos e em qualquer condição.

No entanto, o behaviorismo passou por transformações, a partir das quais passou a ser considerado como uma interação entre sujeito e ambiente e não somente a ação isolada de um indivíduo.

De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (1992), o behaviorismo faz uso de duas formas de comportamento, o respondente ou reflexo e o operante (voluntário agregando uma consequência), sendo o comportamento respondente automático, ou seja, involuntário que se dá a uma mudança no ambiente, e o comportamento respondente pode caracterizar-se a partir das seguintes “respostas”:

(21)

arrepio da pele quando um ar frio nos atinge, as famosas “lágrimas de cebola”, etc. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 1992. p. 46)

Já o comportamento operante inclui todas as formas de movimento de um indivíduo nas quais pode dizer-se que, em algum instante, possam ter efeito no mundo ao redor. Esse comportamento acaba operando, assim como o próprio nome diz, no mundo tanto direta quanto indiretamente.

2.4.2 O behaviorismo de Skinner

Entre as mais diversas propostas de entendimento do que a Psicologia enseja, encontra-se o behaviorismo radical. A expressão “behaviorismo radical” veio de um texto introduzido em 1945, de Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), reconhecido como o principal autor desse estudo. Para a compreensão do behaviorismo radical, é necessário compreender inicialmente a proposta de Skinner à psicologia.

[...]Skinner aponta dois caminhos alternativos para a psicologia na definição de seu objeto de estudo e dos métodos apropriados para estudá-lo: o caminho que conduziu ao que genericamente podemos chamar de '‘mentalismo’' e o caminho que foi trilhado pelo behaviorismo. O caminho behaviorista insere a psicologia entre as ciências que estudam a vida ou, mais precisamente, os organismos vivos [...] e, ao fazê-lo, já está indicando as dimensões de seu objeto de estudo e de onde os psicólogos deveriam partir para encontrar seus métodos de estudo, de pesquisa (SERIO, 2005, p. 248).

A teoria que envolve o mentalismo, explica a existência de uma dualidade na formação do comportamento e percepção, ou seja, a existência de processos que acarretam o comportamento ou a percepção do ser humano, sendo estes processos de origem psicofísica (LOPES; ABIB, 2002). Podemos exemplificar o ocorrido da seguinte maneira: ao sofrermos alguma fratura ou ferimento, impulsos elétricos são enviados ao cérebro através dos neurônios e chegando a uma região do cérebro conhecida como tálamo. A partir desta região do cérebro, os impulsos elétricos são identificados e dirigidos às outras áreas do cérebro que farão melhor análise dos impulsos (FRANCO; MENDONÇA, [20--]), chegando então à mente do indivíduo, que seria como uma outra realidade, diferente da que o indivíduo vivencia.

(22)

Representação Mental, não suportava a ideia de uma dualidade (Skinner, 1945/1961, 1953/1966, 1957, 1968, 1969, 1974 apud LOPES; ABIB, 2002).

A Teoria da Representação Mental pode ser exemplificada através da ideia de uma “cópia mental” (LOPES; ABIB, 2002). Quando percebemos algo, o nosso cérebro cria uma espécie de cópia do objeto percebido, que é logo armazenada em nossa memória, podendo posteriormente ser utilizada. Ou seja, nesta teoria, o sujeito pode ser considerado de duas formas:

a)o percebedor: de acordo com essa proposta, toda a percepção resulta em uma cópia do ambiente. Nessa concepção, o sujeito é o que “captura” percepções no sentido de “tomar posse delas” (LOPES; ABIB, 2002);

b) o que recebe percepções: nesta concepção, o sujeito tem um papel mais passivo, sendo estimulado pelo ambiente. A realidade passa a existir independentemente da pessoa que a percebe, deixando de ser questionada. (LOPES; ABIB, 2002).

Nesta teoria, o sujeito cria uma “cópia” do ambiente em que se encontra, criada à maneira que seu organismo age em relação ao ambiente; as interpreta e cria uma imagem, uma representação mental. Esta percepção pode ser aplicada ao tabuleiro de xadrez, onde uma imagem criada seria montada por meio das interpretações das jogadas e do posicionamento das peças; por sua vez, esta imagem pode ser interpretada de diferentes maneiras, devido à percepção de cada indivíduo, e também influenciar de diferentes modos, tanto o desenvolvimento da partida quanto o comportamento pessoal.

(23)

Dessa perspectiva, os behavioristas radicais admitem todos os eventos naturais -passíveis de serem acessados - incluindo eventos públicos e privados e excluem os eventos fictícios - que não podem ser acessados. A mente e todas as suas partes e processos, como causas mentais do comportamento, são considerados fictícios e, portanto, constituem termos que devem ser evitados. [...] Os behavioristas radicais assumem, dessa forma, que as causas do comportamento encontram-se na hereditariedade e no ambiente passado e presente (TERRA, 2003).

O behaviorismo Radical de Skinner usava o esquema estímulo-resposta para definir o que chamamos de comportamento operante, que pode ser representado pela relação: R→S, em que R é a resposta e S (do inglês Stimuli) é o estímulo reforçador que tanto interessa ao organismo, e a flecha significa “levar a” (SKINNER, 1989 apud TERRA, 2003), podendo ser relacionado ao que chamamos de reflexo, muito embora Skinner não admitisse tal associação.

Podemos ainda trazer o conceito de reforço, podendo ele ser positivo ou negativo. Para Bock, Furtado e Teixeira (2008, p. 63), “reforço positivo é todo evento que aumenta a probabilidade futura da resposta que o produz. O reforço negativo é todo evento que aumenta a probabilidade futura da resposta que remove ou atenua”. Para exemplificar esta pauta, Skinner faz uso de um experimento que veio a se chamar “caixa de Skinner”.

Bock, Furtado e Teixeira (2008), trazem a “caixa de Skinner”, um experimento formulado por Skinner, que representa a teoria comportamentalista formulada pelo mesmo. De acordo com os autores, o experimento consiste em um ratinho influenciado por estímulos associados às necessidades biológicas, presentes em seu habitat (o interior da caixa), representando assim a ideia de reforço positivo e reforço negativo. Para exemplificar a ideia de reforço positivo, Skinner teria explorado a necessidade biológica básica de um ser vivo, a

sede, deixando o ratinho privado de água por 24 horas. Após este período, o ratinho, ao analisar o interior da caixa, pressiona acidentalmente uma alavanca, a qual libera uma gota de água. Tendo obtido água ao encostar na barra, é provável que, ao sentir sede novamente, venha a pressionar a barra mais uma vez.

Nesse caso de comportamento operante, o que propicia a aprendizagem dos comportamentos é a ação do organismo sobre o meio e o efeito da resultante – a satisfação de alguma necessidade, ou seja, a aprendizagem está na relação entre uma ação e o seu efeito. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 62)

E quanto ao reforço negativo? Bock, Furtado e Teixeira (2009) trazem uma nova situação relacionada ao rato da caixa de Skinner, que pode exemplificar e clarear a noção de

(24)

quando os choques retornarem, e em maior frequência, há grande probabilidade de o ratinho vir a buscar a barra que virá a cessar os choques.

Chama-se de reforço negativo ao processo de fortalecimento dessa classe de respostas (pressão à barra), isto é, a remoção de um estímulo aversivo controla a emissão da resposta. É condicionamento por se tratar de aprendizagem, e também reforçamento, porque um comportamento é apresentado e aumentado em sua frequência ao alcançar o efeito desejado. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p.63-64)

De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (2008), o reforço positivo vem a oferecer algo ao organismo, neste caso, o pressionar da barra que libera gotas de água, enquanto o

(25)

Para a realização deste trabalho, optou-se por realizar uma pesquisa qualitativa, visando à interpretação de dados obtidos através dela, porém procurando dar certo apreço aos processos nela envolvidos.

A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis (MINAYO, 2001, p. 21-22).

A presente pesquisa foi realizada a partir da História Oral Temática. Muito utilizada em trabalhos científicos, esse modelo de história oral busca esclarecer e responder hipóteses com base em um tema, como o próprio nome já diz. Ela traz a “verdade” de quem presenciou tal acontecimento. Segundo Evangelista (2010), os roteiros que serão usados para a realização das entrevistas são definidos de antemão e então são utilizados com todos os participantes.

O relato oral, obtido por meio de entrevistas, constitui-se como núcleo da investigação, ou seja, o trabalho investigativo leva em conta as trajetórias individuais, eventos ou processos que não poderiam ser compreendidos de outra maneira. Ele permite o resgate do indivíduo como sujeito no processo histórico e constitui-se como documento gerado no momento da entrevista, legítimo tanto pelo seu valor informativo quanto pelo seu valor simbólico (GAERTNER; BARALDI, 2008, p. 52).

Sabendo-se da existência de um atleta de xadrez que possuía sintomas de hiperatividade quando criança (FIER, 2016) e que ele frequentava o Clube de Xadrez de Jaraguá do Sul no final da década de 1980 e início da década de 1990, fomos ao Clube verificar se havia algum atleta hiperativo. Localizou-se, então, uma pessoa para a entrevista. Fazendo uso do critério de rede, localizaram-se outros possíveis entrevistados, mas nem todos puderam ser contatados.

Entre os entrevistados, havia um conhecido de um dos membros da equipe, e outro, coincidentemente, frequenta a mesma instituição (IFSC Campus Jaraguá do Sul). “Ao adotar-se a História Oral como metodologia de pesquisa, trabalha-adotar-se com o relato oral de indivíduos ligados por traços comuns” (GAERTNER; BARALDI, 2008, p. 51).

(26)

Destaca-se o uso de um roteiro de pautas, previamente elaborado, o qual gerou maior facilidade em manter o foco no tema. O roteiro fora baseado nas hipóteses (elaboradas no projeto), sempre mantendo respeito com a fala, interação e disponibilidade de informações do entrevistado. Vale destacar que, durante o percorrer da entrevista, novas indagações ou segmentações do roteiro prévio podem vir a surgir após alguma fala do entrevistado que possa gerar novas curiosidades ou relações com o tema.

Segundo Meihy e Holanda (2007), um bom roteiro é essencial para se pensar no desdobramento do trabalho. Definir os passos da história oral e estabelecer os cinco momentos principais de sua realização: elaboração do projeto; gravação; estabelecimento do documento escrito e sua seriação; sua eventual análise; arquivamento; e devolução social.

As entrevistas foram gravadas (com a autorização dos entrevistados) e depois transcritas, posteriormente foi feita uma textualização. A textualização seria o feito de transformar uma entrevista transcrita em um texto “comum”, deixando de ter o formato de falas para transformar-se em um texto narrado, mas sem perder a originalidade e a ideia inicial da história oral.

A textualização, segundo a concebemos, compõe-se de vários momentos, indo desde a simples “limpeza”, retirando os “vícios” de linguagem, podendo passar pela reorganização das informações transcritas – visando a uma sistematização cronológica ou temática (a narrativa, especialmente aquela dos depoentes mais fluentes, tende a entrelaçar tempos e temas) – até uma reelaboração mais radical – a chamada transcriação – para o que podem ser chamados à cena elementos e estilos teatrais, ficcionais, recursos inusitados de estilo etc (GARNICA, 2005, p. 126).

De acordo com Meihy e Holanda (2007), a prática da transcrição, textualização e transcriação segue um padrão; na fase um, em que ocorre a transcrição absoluta: nessa etapa as palavras ditas foram colocadas em estado bruto. Na fase dois, as perguntas são eliminadas, os erros gramaticais são retirados e os sons e ruídos também são eliminados. Já na fase três, o texto é apresentado em versão final e depois de autorizado pela colaboradora deve compor a série de outras entrevistas do mesmo projeto.

(27)

Três entrevistas foram feitas para a realização do projeto, para as quais tivemos os seguintes entrevistados: André Jordí Volkmann, Karina Kanzler e Tarcísio Cura Machado Nogueira, todos os três atletas enxadristas, de 17, 30 e 15 anos, respectivamente, sendo dois destes (Tarcísio e Karina) diagnosticados com hiperatividade, tendo feito uso de medicamentos receitados por médico, enquanto um dos entrevistados, André, segundo ele, perdia facilmente a concentração, além de ser impaciente em diversas situações, características marcantes de crianças hiperativas.

Mas de uma forma geral, [...] o xadrez [...] pode ser coadjuvante de outras terapias ou medicamentos. Uma criança com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) tomando Ritalina [...] e seguindo os treinos do esporte [...], sendo acrescidos os benefícios tanto do medicamento, quanto da utilização do jogo de xadrez como terapia (LAPERTOSA, 2012, p. 15).

Ainda crianças, em uma faixa de 6 a 8 anos, os entrevistados foram introduzidos ao xadrez, porém, de acordo com Lapertosa (2012), a idade ideal para ser introduzido ao xadrez é pelos 5 anos, embora muitos comecem antes ou até mesmo depois dessa idade. André e Tarcísio iniciaram a prática de xadrez durante projetos escolares, enquanto Karina buscava “imitar” seu irmão mais velho e, com o tempo, sua mãe percebeu os efeitos positivos da prática do xadrez.

Sempre gostei muito de competir, sempre tive várias atividades, minha mãe me ocupava o máximo possível, já que eu sempre fui muito elétrica, então não conseguia ficar muito parada e, quanto mais atividade eu fazia, mais tranquila eu ficava no final do dia. Então quanto mais eu gastava energia, melhor era pra minha mãe (KANZLER, 2018).

Quando falamos em xadrez nos vem à cabeça a imagem de um jogador intelectual, introvertido, usando camiseta social e gravata, porém Karina comenta que por trabalhar com xadrez, é comum ver pais com filhos agitados e/ou hiperativos colocando-os para treinar xadrez logo cedo, visando uma “diminuição” do comportamento hiperativo.

(28)

[...] quando a criança tem 8 anos, ela só pensa em brincar. A criança não vai com um objetivo específico no xadrez. Então quando eu me deparei pela primeira vez com o xadrez, eu achei um jogo inteligente, um jogo cativante. Veja, ele tem um rei, ele tem um bispo, tem a torre, eles são peças, que chamam nossa atenção, chamam a atenção das crianças. A minha primeira impressão com o xadrez foi magnífica, foi maravilhosa [...] poder tocar, poder jogar com as peças [...] (NOGUEIRA, 2018).

Hoje, para os três, o xadrez não é apenas uma brincadeira de criança, ou algo para se ocupar o tempo, mas sim uma paixão, algo mais pessoal. Para Karina, o xadrez foi bem-vindo pelo fato de ser muito competitiva, ela via o esporte como algo cativante, gostava de ir para torneios e ser premiada.

Além do xadrez, os entrevistados praticavam outras atividades, como futebol (André e Tarcísio), karatê (Tarcísio), natação e basquete (Karina), porém, por falta de tempo (André), por não ter se adaptado (Karina) ou ainda por ter tido melhor desempenho no xadrez (Tarcísio), acabaram deixando essas atividades e, consequentemente podendo dedicar-se mais ao xadrez.

Tarcísio teve um intervalo na prática do xadrez de aproximadamente três anos, tendo sido um momento crucial em sua jornada, o que acabou fazendo com que perdesse o ritmo dos treinamentos, porém não vê essa pausa de maneira prejudicial, pois de acordo com ele, pôde amadurecer em outros pontos, contudo, teve seus pontos negativos, segundo ele, agora sua mente já não é mais tão ativa para jogar quanto era antes desse tempo, atualmente ele acredita que está encontrando alguns problemas de raciocínio dentro do jogo.

O xadrez, que a princípio pode ser visto como um jogo desinteressante, ele possui intensidade - seja pelo vigor, tensão, alegria, elemento surpresa, divertimento -, o que fascina o jogador (ROCHA, 2009), consequentemente o jogador necessita de maior atenção, precisando calcular os possíveis movimentos e lances, seus e de seu adversário.

Esse cálculo pode vir acompanhado de certos problemas, já que há um total de 1∙10120

possíveis lances (Número de Shannon), tornando o jogo muito mais heterogêneo e dinâmico. Porém, por ser possíveis grandes quantidades de lances, o jogador pode encontrar problemas para decidir os melhores lances a serem feitos, principalmente quando falamos de uma criança hiperativa, muito agitada.

(29)

opção familiar para evitar estereótipos, afinal, era algo “novo” na década de 1990. Nesse sentido, Karina nos conta algo sobre o papel do treinador:

[...] Nunca recebi nenhuma orientação a respeito disso. [...] Não tive nenhuma orientação, “ah no xadrez tu tens que respirar”. Nunca foi trabalhado assim. [...] sempre tive um técnico muito firme. Então, eu o respeitava muito, se ele me falasse pra: “Ah para de chorar!” Eu parava na hora, sempre aceitava o que ele falava, entendeu? Não é que eu sempre tive medo, era respeito mesmo, então ele falava alguma coisa, eu já “opa, tenho que parar”. Ele falava “Tu tens que ganhar” e eu fazia o máximo para ganhar (KANZLER, 2018).

No início do seu treinamento de xadrez, Tarcísio relata que sua professora sabia que ele era um dos alunos agitados, tratando-o de maneira diferente dos outros alunos, tendo em mente que, mesmo sendo agitado, não possuía menos aptidão para aprender xadrez. Sendo assim, Tarcísio comenta que

[...] ela me deixava do lado dela, e as vezes dava uns “beliscãozinho”, brincando. Ela sempre teve um jeito amoroso de tratar os alunos, mas as vezes ela era implicante, mas ela sempre me ensinou a olhar, eu jogava, ficava no lado e ela falava, “Tarcísio, tá vendo isso aqui?” Ela falava, “Isso aqui é o que você precisa viver agora, o que tá pra lá não te interessa, você tem que viver esse momento”. [...] eu não era defasado, eu conseguia calcular muito mais rápido do que todos, só que às vezes eu perdia o meu cálculo, ela sabia disso, então ela me tratava de uma forma diferente, ela tinha um olhar a mais, prestava mais atenção, porque eu tinha um cálculo mais apurado do que antes (NOGUEIRA, 2018).

Ou seja, uma criança hiperativa não tem necessariamente problema de aprendizado, apenas certas dificuldades em controlar seu comportamento, inclusive nos seus primeiros torneios de xadrez, a professora de Tarcísio acreditava que, mesmo com suas dificuldades de manter o foco e controlar a ansiedade, por calcular mais rápido, Tarcísio teria a capacidade de competir com jovens de faixa etária maior.

Inclusive, uma tática muito utilizada por jogadores mais experientes ao jogarem com jogadores mais ansiosos e impacientes, de acordo com Tarcísio, é provocar um aumento nesta ansiedade, deixando-os mais nervosos, tendo se encaixado nesse grupo de “jogadores nervosos”; hoje, mais amadurecido, tendo adquirido uma postura mais séria, conseguindo controlar sua ansiedade, tentando não deixá-la atrapalhar-lhe durante as partidas, porém ainda é de praxe se perder em seus pensamentos. Mas será que o xadrez pode auxiliar nessa questão de comportamento e ansiedade?

(30)

dificuldade em manterem o foco durante as partidas, seja em torneios, treinos ou em partidas casuais, alegando nervosismo, e não era incomum terem dificuldades em administrar o tempo disponível em uma partida, assim, André relata seu problema inicial com o “tempo”:

[...] eu gostava só de jogar rápido, basicamente não tinha paciência para esperar o adversário jogar. Eu era realmente bem apressado nesse sentido, o que é uma coisa bem normal para um iniciante. [...] eu terminava partidas pensadas, que deveriam durar duas ou três horas, em 20 minutos, muitas vezes perdendo por causa disso. Apesar de, às vezes, eu ainda ganhar. Acho que só em 2014 mesmo que eu comecei a entender melhor a utilizar meu tempo. Hoje eu posso dizer que, dos três tipos de xadrez [...] eu tenho uma ideia de que o tempo é um fator muito importante. Que se eu tenho duas horas no relógio, eu tenho que utilizar bem. Se eu tenho três minutos, eu tenho que utilizar os três minutos de maneira correta (VOLKMANN, 2018).

Ao interpretar o ocorrido com André de um ponto de vista behaviorista, podemos perceber que ter um desempenho ruim em suas partidas o fez entender a real importância do tempo no xadrez. Era preciso controlar seus impulsos de simplesmente mover as peças, sem perceber e analisar a situação, administrar de maneira mais sensata o tempo que lhe é dado (reforço negativo).

Associando o experimento da caixa de Skinner à situação narrada por André, podemos considerar que as derrotas em suas partidas de xadrez foram percebidas por André como resultado de problemas em controlar o tempo que lhe é disponibilizado durante a partida, logo, o tentar administrar o tempo disponível, ou seja, buscando extinguir algo indesejável (as derrotas), logo esta tentativa de lidar com o tempo é o seu reforço negativo. Deve-se lembrar de que para tais relações acontecerem, é necessário que a criança perceba os reforços e o impacto do mesmo, o que pode ser difícil quando a criança é muito agitada.

Tarcísio, enquanto criança, era extremamente agitado, uma criança explosiva, não medindo suas palavras. Apesar de nunca ter se sentido afetado por isso socialmente, ele sentia que o nervosismo aumentava durante as partidas, porém, ele acredita que o xadrez o ajudou a controlar esses seus impulsos (como falar o que quer quando quiser), compreendendo então que, para crescer dentro do xadrez teria de ter um comportamento diferente, um olhar mais minucioso, paciente, sempre analisando, focado e se concentrando em seu objetivo, tendo em mente que há várias etapas a serem seguidas por ele.

(31)

de que “os mais novos não são tão bons”. Em certos momentos, sua professora tentava acalmá-lo, ajudando-o a retomar o foco; dessa maneira, Tarcísio relata que:

Já aconteceu de, por exemplo, no meio de uma partida, no primeiro torneio, queria ganhar o primeiro lugar, e calculei um lance errado, e comecei a chorar no meio da partida, fiquei nervoso, “será que é aquilo?”, eu tava com 10 segundos, ai eu fiquei nervoso, comecei a chorar, mas são coisas que as crianças têm. [...] Já tentou acompanhar uma sala de crianças de 8 anos, primeiro, segundo ano, alguma coisa assim? Se você der alguma coisa para outro coleguinha e não der para outro, é uma agitação do caramba, pra falar a verdade, ou fica olhando com a cara feia, começa a brigar, porque criança é sensível, ainda mais se tiver criança agitada (NOGUEIRA, 2018).

Atualmente essa pressão se mantém segundo ele, porém antes de um lance sempre olha, analisa e pondera quais as melhores variáveis, ao invés de simplesmente fazer jogadas.

A concentração, percepção e a criatividade, são fatores decisivos para a prática do xadrez, que podem ajudar a visualizar as jogadas possíveis, e são exercitados constantemente no xadrez, assim como o foco e a paciência para tomar as decisões.

Para André, sua melhora no xadrez ocorreu gradativamente, tendo sentido impacto do xadrez, principalmente em sua concentração, lhe “ensinando” a focar em alguma coisa, contudo o impacto não foi 100% efetivo, ainda se desconcentrando com muita facilidade.

[...] me prejudica no sentido de que acontece algum barulho fora e eu paro, parece que eu paro o que eu tô fazendo e olho pro que tá acontecendo lá e isso acaba me prejudicando ali. Melhorou muito, mas diria que melhorou uns 70 ou 75%, mas 100% não chegou ainda. Dificilmente vai chegar também (VOLKMANN, 2018).

Karina menciona ainda que sua ansiedade e impaciência ainda a acompanham, não apenas no xadrez, lhe atrapalhando ainda em certos aspectos, não em grande escala, porém consegue controlar sua impulsividade, diferentemente de quando era criança, vendo hoje a sua hiperatividade não como um problema ou uma doença, mas algo com qual consegue conviver normalmente.

(32)

que o aluno foque em uma determinada peça e tente analisá-la (movimentos, probabilidades, entre outros), principalmente se tratando de alunos muito agitados/hiperativos.

Tem uma menina de 7 anos que às vezes é quase impossível de dar aula, tem que deixar ela do meu lado para ela ficar mais quieta, pra eu ter um controle dela sabe, mas, de longe, ela é a que mais consegue calcular, só que como ela é muito agitada, a mente dela processa rápido, então ela não tem a escolha certa, ou seja, ela processa muito rápido mas não tem escolha. Pessoas assim tendem a jogar bem, [...] quando ela não consegue, eu não brigo com ela, eu sento e jogo com ela, mostro pra ela, faço ela analisar. [...] quando ela tá muito ansiosa eu faço umas atividades com ela, como: ‘Tenta usar o cavalo para capturar essa peça, quantas vezes o cavalo vai precisar andar pra tentar capturar ela? Você tem, digamos, 3 segundos”, e fazemos assim, umas atividades relacionadas ao xadrez, onde ela se cativa, foca, olha, presta atenção naquele segundo, porque é uma dinâmica pra ela, uma brincadeira (NOGUEIRA, 2018).

Podemos perceber que Tarcísio repete o mesmo comportamento com sua aluna que

sua professora teve com ele. Ou seja, percebendo que o comportamento que sua professora

tinha para com ele gerava resultados positivos, acabou por implicar um comportamento

parecido e, ao ver que tal comportamento gera resultados positivos com sua aluna, há maior

probabilidade de continuar aplicando tal metodologia (reforço positivo).

Associando a Teoria da Representação Mental de Skinner ao xadrez, a criança cria uma cópia mental do tabuleiro e da disposição das peças no mesmo, desempenhando o papel do percebedor, analisando seus possíveis lances e movimentos, estando diretamente ligada à percepção do indivíduo, a qual possui extrema subjetividade. Ou seja, a maneira que cada um interpreta um determinado lance ou jogada pode ser diferente.

Segundo Lapertosa (2012) os benefícios da prática do xadrez tendem a aparecer com cerca de um ano de prática. É claro que um jogador iniciante não teria capacidade de identificar e calcular muitas das variantes possíveis, diferente de um jogador mais experiente, que consegue vê-las e, consequentemente, ponderar quais as mais adequadas e identificar como aplicá-las ao seu jogo. Porém, ao acertar algum lance ou jogada, ou por conseguir controlar sua ansiedade/comportamento hiperativo, ao receber um sinal de aprovação (reforço positivo), tem esse comportamento reforçado, ou seja, há mais chances de o mesmo ocorrer novamente, mesmo que de maneira inconsciente.

(33)

Porém, devemos sempre ter em mente que tal acontecimento não é regra, devido à subjetividade encontrada na maneira que a criança percebe o ocorrido, sendo necessário que a criança realmente perceba a influência de tais fatos, logo, a pressão social formada sobre uma criança hiperativa/agitada para mudar seu comportamento pode ser, à maneira que for ministrada, prejudicial para uma criança que não consegue perceber esta relação entre suas derrotas e seu comportamento.

(34)

As entrevistas e análises foram realizadas com enxadristas que, durante a infância levavam consigo aspectos da hiperatividade, ou que até mesmo foram diagnosticados com ela. Os três foram introduzidos ao xadrez ainda durante a infância, tiveram bom desempenho em torneios e hoje apresentam apenas vestígios da hiperatividade, como a ansiedade, por exemplo.

Um dos entrevistados cita que, durante a infância, a ansiedade era muito presente durante as partidas de xadrez, principalmente quando jogava contra crianças mais novas, adentrando no estereótipo de “os mais velhos serem melhores”, ou seja, caso perdesse haveria zombaria por parte de seus colegas, e com isso se indagava se o lance a fazer era o certo, deixando-o mais ansioso e inquieto, ou seja, podemos dizer que com o aumento da pressão sobre o jogador, há sim o aumento do comportamento hiperativo, caracterizado principalmente pela ansiedade e inquietação.

Com o aumento do comportamento hiperativo há, de fato, o aumento da ansiedade, característica muito comum para qualquer jogador, porém é um fator muito mais frequente em pessoas hiperativas, gerando complicações durante a análise e seleção das variáveis, ou até mesmo em controlar o tempo, levando-os às prováveis derrotas, devido à inquietação gerada. Logo, com base nos relatos, podemos dizer que sim, a ansiedade é um fator que influencia o comportamento durante a partida, principalmente quando o jogador já tem de a ser muito ansioso.

Dos entrevistados, dois deles vieram a fazer uso de medicamentos, usando remédios receitados e/ou naturais. Ambos foram crianças muito agitadas durante a infância, porém foram ensinados com diferentes metodologias; um calculava as variantes com muita velocidade, porém tinha dificuldade em se concentrar para escolher a mais correta, sendo assim sua professora utilizava exercícios mais didáticos, visando manter a atenção e o foco, enquanto outro não recebera nenhum treinamento diferenciado. Depois de terem sido introduzidos ao xadrez há bastante tempo, já não fazem mais uso de quaisquer tipos de medicação relacionada à hiperatividade, além de darem aulas em seus respectivos clubes e escolas.

(35)

relatam é que o xadrez, de alguma forma, os auxiliou a amenizar os sintomas da hiperatividade.

Ao associarmos a Teoria da Representação Mental de Skinner ao xadrez, verificou-se que a maneira que cada criança interpreta um determinado lance ou jogada pode ser diferente, pois a análise de possíveis lances e movimentos está diretamente ligada à percepção do indivíduo, relacionada ao organismo e aos reforços recebidos por este.

Neste contexto, temos as derrotas como algo a ser superado, logo, o perceber o motivo de suas derrotas e exercitar seus pontos fracos vem a ser o reforço negativo, já que o mesmo remove ou atenua algo (as derrotas), fazendo parte do processo de aprendizagem do xadrez, reforçando determinado comportamento, que hoje reflete na vida dos jogadores.

Neste sentido, os entrevistados se encontravam com certas dificuldades em relação ao jogo; mostrando complicações para selecionar a melhor variável para seu jogo; demonstrando ansiedade, tendo também chorado em certas partidas; ou encontrando problemas para administrar o tempo que lhe é dado. As complicações citadas são marcadas pelas características de um hiperativo, sendo estas a ansiedade, dificuldades em se manter parado e em manter o foco e a concentração, logo, podemos dizer que há sim maiores dificuldades de, talvez não necessariamente de calcular, mas de selecionar as variáveis mais adequadas para um jogador hiperativo.

É visto que, através dos relatos obtidos, o xadrez, aliado a uma metodologia adequada, proporcionou mudanças no comportamento dos jogadores hiperativos, podendo ter acrescido benefícios quanto à percepção, redução da ansiedade e concentração, mas “[...] cabe apontar que não há benefícios com a prática em períodos curtos, os benefícios começam a aparecer com aproximadamente um ano de treinamento” (LAPERTOSA, 2012, p. 11).

(36)

AMORIM, Cacilda. Hiperatividade: O que é ser hiperativo?. Disponível em: <https://dda-deficitdeatencao.com.br/hiperatividade/>. Acesso em: 03 nov. 2017.

ARGOLLO, Nayara. Transtornos do déficit de atenção com hiperatividade: aspectos neurológicos. Psicologia escolar e educacional, v. 7, n. 2, p. 197-201, 2003.

BECKER, Idel. Manual de xadrez. 1. ed. NBL Editora, 1974. 314 p.

BOCK, Ana; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 1992, 2008. p. 38-368.

BRZOZOWSKI, Fabíola Stolf; CAPONI, Sandra Noemi Cucurullo de. Medicalização dos Desvios de Comportamento na Infância: Aspectos Positivos e Negativos. Psicologia Ciência e Profissão, v. 33, n. 1, 2013.

CASTRO, Celso. Uma história cultural do xadrez. Cadernos de Teoria da Comunicação, Rio de Janeiro, v.1, nº2, p.3-12, 1994.

EVANGELISTA, M. B. 2010. A transcriação em história oral e a insuficiência da entrevista. In: Revista de História Oral Oralidades. São Paulo. NEHO/ LEI – USP. p. 169 – p. 181. FERREIRA, Aurelio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 5. ed. Curitiba: Editora Positivo, 2014. 2272 p.

FIER, Alexandr. ESPN, 25 set. 2009. Entrevista concedida a Juca Kfouri.

FRANCISCO, Sérgio Perales. Cibercultura, Jogos, e Aprendizado Textual: O RPG em Jogo. 2014. 328 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) - Curso de doutorado em Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2014.

FRANCO, Norma S.; MENDONÇA, André R.. Diencéfalo. Rio de Janeiro: Pontifícia

Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2014, [20--]. 20 slides, color. Disponível em: <http://bio-neuro-psicologia.usuarios.rdc.puc-rio.br/assets/08_diencefalo.pdf>. Acesso em: 18 nov. 2017.

GAERTNER, Rosinéte; BARALDI, Ivete Maria. Um Ensaio Sobre História Oral e Educação Matemática: pontuando princípios e procedimentos. Bolema, Rio Claro (SP), v.21, n.30, p.47-61, 2008.

GARNICA, A. V. M. Um tema, dois ensaios: método, história oral, concepções, educação matemática. 2005. 204 f. Tese (Livre-Docência) – Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista, Bauru, 2005. Disponível em:

<http://www2.fc.unesp.br/ghoem/trabalhos/30_4_livredocencia_garnica.pdf>. Acesso em: 04 nov. 2017.

(37)

GOULART, Edson; FREI, Fernando. O Jogo de xadrez como ferramenta para o ensino da Matemática à Crianças do Ensino Fundamental. IN: PINHO, SZ de, p. 722-727, 2011. ILLICH, Ivan. A expropriação da saúde: nêmesis da medicina. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1975.

KASPAROV, G.K. Xeque-mate: como a vida e os negócios são um jogo de xadrez.

(Fonseca, T.F., Trad.). Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

LAPERTOSA, Julio. Psicologia e Xadrez: Usando o Xadrez para uma Mente mais Saudável. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna Ltda., 2012.

LAUAND, Luiz Jean. O xadrez na idade média. Perspectiva, 1988.

LOPES, Carlos Eduardo; ABIB, José Antônio Damásio. Teoria da percepção no behaviorismo radical. Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, v. 18, n. 2, p. 129-137, Aug. 2002 . Disponível em:

<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722002000200003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 19 Nov. 2017.

MATOS, Maria Amélia. Behaviorismo metodológico e behaviorismo radical. In: Rangé, Bernard. (Org.). Psicoterapia comportamental e cognitiva: pesquisa, prática, aplicações e problemas. 1. ed. Campinas: Editorial Psy II, 1995, v. I, p. 1-12.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom; HOLANDA, Fabíola. História Oral: como fazer, como pensar. São Paulo: Contexto, 2007.

MINAYO, Maria Cecília de Souza (org.). Pesquisa Social. Teoria, método e criatividade.

18 ed. Petrópolis: Vozes, 2001.

MIRANDA, Carlos Teles de et al.Questionário SNAP-IV: a utilização de um instrumento para identificar alunos hiperativos. 2011.

PELIKIAN, Jefferson. Astronomia e Xadrez estão ligados por números gigantescos. 2013. Disponível em: <http://www.fernaogaivota.com.br/fala-fernao/-/blogs/astronomia-e-xadrez-estao-ligados-por-numeros-gigantescos/

maximized;jsessionid=BDB473918183E3DAE82B84D96C12DE48>. Acesso em: 17 de mar. de 2018.

ROCHA, Wesley Rodrigues.O Jogo e o Xadrez: Entre Teorias e Histórias. 2009. 411 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de História, História, ciências Sociais e Relações Internacionais, Universidade Católica de Goiás, Goiânia, 2009. Disponível em:

<http://tede2.pucgoias.edu.br:8080/bitstream/tede/2252/1/Wesley Rodrigues Rocha.pdf>. Acesso em: 10 maio 2018.

ROEDIGER, Henry L. Roddy. O que aconteceu com o behaviorismo. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, v. 1, n. 1, p. 1-6, 2012.

SERIO, Tereza Maria de Azevedo Pires. O behaviorismo radical e a psicologia como ciência.

Figure

Actualización...

Related subjects : Forma E Comportamento