Guardiões e Exu: as
múltiplas personificações
de Exu no contexto da
Umbanda, e sua inserção
no Universalismo
André de Locke Soares Peixoto
11Universidade de Brasília, Janeiro – 2015
RESUMO: Numa trajetória pelos centros um-bandistas presentes em Brasília, esse artigo depara-se com o Universalismo. Com o obje-tivo de abordar, de maneira geral, as várias personificações de Exu dentro da Umbanda, e, mais especificamente, a sua presença no chamado Universalismo. O trabalho que lhes é apresentado leitor, é um tanto quanto sol-to, nas facetas e formas de se conceber Exu. É trazido um breve relato etnográfico de sua presença no ritual litúrgico umbandista e breves considerações de cunho analítico à essas observações. Elas ressoam, por enten-der, as explicações dadas para utilização de determinados elementos nos rituais de Exu, por exemplo, as bebidas alcoólicas, charu-tos e cigarros, e de que forma se encaixam na lógica universalista.
PALAVRAS- CHAVE: Exu. Umbanda. Univer-salismo. Guardião.
OS EXUS
“Taxado de espírito atrasado, mas também considerado como agente mágico universal. Há umbandistas que distinguem inclusive o Exu pagão (espíritos ‘ainda empedermidos na prática do mal e de atos repulsivos, abje-tos, odioso etc.’) e Exu batizado (que seriam espíritos, que apesar de não ter nenhuma evolução espiritual, reconhecendo o erro que praticavam agora só praticam o bem sob orientação de um Guia de elevada lumi-nosidade.” (CONCONE, 1987, p. 140).
O Exu no contexto da Umbanda aparece de diversas formas, como “Guardiões” dos templos religiosos, entidades que estão presente desde a gênese do mundo (Exus cósmicos2). Assim como entidades
vin-culadas às “forças” tidas como das tre-vas, intercambiados, quando se refere a um sincretismo, à figura do diabo no Cris-tianismo (SILVA, 1994) etc.
No artigo intitulado Exu, de mensagei-ro a diabo, de Reginaldo Prandi, o autor faz uma perquirição, pelas múltiplas formas o qual Exu foi disposto, em contextos
religio-sos distintos. Concomitantemente, o artigo aborda o processo de transfiguração e rein-terpretação do orixá em território “fom ou ioruba3”, por parte de pesquisadores e
missionários católicos, que lhes atri-buíam preceitos dessa religião para lhes designar características analíticas. Poste-riormente no Brasil, com as manifestações religiosas de Candomblé, e posteriormente de Umbanda, tal entidade fora, e, é cons-tantemente reinterpretada, adequando-se às formas várias de se conceber a “figura do mal”, na lógica cristã, circundante em muitos terreiros, principalmente, quando se trata especificamente de Umbanda.
Se por um lado são entidades que cui-dam da proteção dos locais religiosos, e tidos como sagrados pelos adeptos da reli-gião, são espécies de guardiões, e mantene-dores da “harmonia” ali presente, no campo espiritual e material. (SARACENI, 2008)
Por outro lado, agem nas tarefas mal-fazejas, ou mesmo, pelo fato de serem entidades se desenvolvendo e “evoluindo moralmente”, não têm vinculação direta e inquebrantável com ações moralmente louváveis4, em suas intermediações com
o “mundo dos vivos”, agem dessa forma,
fazendo o “bem e o mal”. Ou mesmo, “(...) incorporam nos médiuns para serem dou-trinados e trabalharem a fim de evoluírem espiritualmente.” (SILVA, 1994, p.123)
A palavra entidade na Umbanda refere--se, assim como na acepção do dicionário, “aquilo que constitui a essência de uma coi-sa, (...), ente, ser.” (FERREIRA, 1986). Dessa maneira, a classificação desse termo refere--se à “pessoa viva do morto” (BRANDÃO, 1994), o que torna a “entidade”, e seu apare-cimento/manifestação, num culto umbandis-ta, a manifestação de um sujeito, pessoa5.
Exu como entidade, que dantes fora um indivíduo vivo/encarnado, é reconhe-cido em alguns segmentos da Umbanda como um indivíduo que quando vivo, situa-va-se entre os marginais, boêmios, malan-dros, assassinos... Sendo seu remanescente feminino, as Pomba-giras, mulheres dantes, adúlteras, cortesãs, prostitutas, donas de bordeis etc. (PRANDI, 2002). Mas, que ago-ra se manifestam, levando consigo as plu-ralidades dos “baixos afazeres mundanos”, de paixões carnais, desejos, vícios, tal qual, nas intermediações de relacionamentos correspondidos e não correspondidos etc.
Um das distinções dessa entidade
2“(...) os orixás idealizaram o
universo astral e outros espíritos construíram. Pois estes outros espíritos são chamados de Exus. São os Exus Cósmicos” (Revista Umbanda – ano 1 – n°4, 1995).
3PRANDI, 2002.
4Aqui, a terminologia que
con-sidera uma ação “louvável”, ou mesmo “benfazeja”, e seus res-pectivos opostos e sinônimos, vincula-se às explicações, que considera a moralidade da Um-banda, vinculada a moralidade cristã e Kardecista (SILVA, 1994), não obstante o ideal de evolução do ser, presente no kardecismo, também aparece em consórcio com várias manifestações um-bandistas ( BIRMAN, 1985). Aqui não cabe elucidar historicamente, ou mesmo um aprofundamen-to em tais elemenaprofundamen-tos, pois tais semânticas carecem de especial atenção. Fiquemos então á cargo de considerarmos, a moralidade
para as outras, no “panteão dos orixás bra-sileiro” (PRANDI, 2001), e até mesmo a dife-renciação da abordagem da Umbanda para outras religiões é que, ao tomar um dos aspectos citados da “personalidade de Exu”, agir deforma maligna, “baixa”, ele não será em todo caso expurgado ou renegado em seu processo de manifestação em um cen-tro umbandista5. Pois, aquilo que na
Umban-da se considera mal6, não é tido como um
combate ativo às “tendências ruins que nos pertencem”. Ou tão somente, uma aversão do bem ao mal, em outras palavras duas po-laridades que se repelem ou se reprimem. Na Umbanda essa dualidade é trabalhada no âmbito do culto, seja por meio da própria aceitação dessas manifestações, seja pela confraternização que os consulentes têm com elas. Permitindo uma interação dessas duas polaridades em confraternização amis-tosa dentro do âmbito do culto.
Trabalho na Umbanda é, aos poucos, descoberta no âmbito dessa pesquisa, concomitantemente com a categoria posta neste artigo, deve-se pelo menos lhe di-recionar possíveis explicações. Trabalho se apresenta em diversos planos, tanto na relação dos sacerdotes ali presentes para
com aqueles que serão atendidos, quan-to na pluralidade que organiza os culquan-tos. Organizar um culto é empenhar trabalho, manual e espiritual, para o êxito das ativi-dades a serem realizadas. Porém, as “en-tidades que trabalham”, ou “são trabalha-das”, designam uma relação médica, um tratamento, seja ele a aplicação de pas-ses7, uma conversa fraterna, uma
mani-pulação de determinadas plantas... Enfim, expresso nas diversas formas e métodos de “curar” os doentes “vivos”, ou na “pes-soa viva do morto”, o trabalho põe-se refe-renciado com grande equivalência na lógica terapêutica do termo.
Por outro lado, existem os “trabalhos baixos”, que os Exus são conhecidos por realizarem. É nele que grande parte do sen-so comum, tal qual nas religiões de cunho protestantes e algumas vertentes do cristia-nismo, concebem tal entidade. Nas amarra-ções, nos contratempos, nas dificuldades e mazelas várias ligadas as paixões e infortú-nios, nos “caminhos fechados (e abertos)” nos vícios etc. Em suma, os trabalhos de Exu descortinam-se na religiosidade brasi-leira, revestido de nossas vicissitudes.
Em determinada visita a um centro
umbandista em Brasília, diferente do pes-quisado, observei que vários consulentes e médiuns8 do centro traziam bebidas e
presentes voluptuosos para o terreiro, que foram entregues, em determinada hora da sessão para os Exus, no caso, quando esses se manifestavam. Os consulentes procuravam soluções para suas mazelas espirituais e materiais, trazendo, com isso os presentes para bem agradá-los, e obte-rem de tais entidades um respaldo. Mas, também, a possibilidade de agradecer algo obtido. Cabe para tal relato o Ensaio Sobre a Dádiva de Marcel Mauss: “As relações destes contratos e trocas entre homens e destes contratos e trocas entre homens e deuses esclarecem todo um aspecto da teo-ria do Sacrifico” (MAUSS, 2008. p.73). Com tal observação, e valendo-se da citação, te-mos que a confraternização dos Exus para com os consulentes, em gestos de proximi-dades afetuosas, e não somente pela troca de favores, demonstra uma afetividade e admiração, que os consulentes estabelecem para com os Exus, ou como muitos prefe-rem denominar “meu Exu10”.
umbandistas, vinda das práticas/ formação moral e de crenças, dos dirigentes de cada centro.
5Uma outra acepção para o
ter-mo entidade, na sua abrangência para os tantos outros orixás, refere-se a uma “energia”. Que em seu sentido “mais puro”, não materializa-se num sujeito, ou pessoa, mas sim, uma essência, uma vibração, que se desloca en-tre várias outras dimensões. (SA-RACENI, 2013. MATTA E SILVA, 2013. Entre outros autores.)
6Optei nesse artigo, a utilização
do termo “centro”, para designar a localidade onde ocorrem os cultos umbandistas, tendo em vista a pluralidade de termos como, tendas, casas, terreiros, roça, etc. o termocentro, busca abarcar tal pluralidade.
7O que na Umbanda se considera
por “bem e mal”, leva em conta a presença de elementos católicos
UMA DOUTRINA UNIVERSALISTA
Creio que uma explicação pormenorizada do que vem a ser o “próprio Universalis-mo”, terá que conceber múltiplas acepções filosóficas, científicas e religiosas, uma vez que o próprio termo nos remete a tais cam-pos de compreensão11.
Porém, para situarmo-nos melhor, considera-se a concepção como sendo uma “doutrina” que adere a diversas acepções religiosas distintas, tais como Catolicismo, Budismo, Hinduísmo, Taoísmo, Kardecis-mo, dentre tantas outras, que se encon-tram nas religiões e dogmas do Oriente quanto do Ocidente.
Tomará uma ótica filosófica científica um tanto quanto peculiar, para conceber, in-terpretar, e mesmo reinterpretar tais precei-tos e trejeiprecei-tos religiosos. Com isso, o termo universalista, dentro do contexto religioso estudado, será aquela doutrina que parte de uma religião base (o que é pesquisado de Umbanda), mas que articula-se em outras formas de se conceber o mundo e a nature-za, situando-se em múltiplos credos religio-sos e linhas filosóficas, tais como científicas, que dialogam com o saber em questão.
O que se observa na lógica universa-lista é um discurso a respeito da “harmoni-zação dos diversos princípios doutrinários e religiosos”, que compõe tal e tais cultos. Por exemplo, o Hinduísmo terá preceitos não abordados, ou até mesmo não aceitos pelo Catolicismo, como a crença em outros deuses... Uma vez que, o Universalismo se propõe unificar ás várias vertentes de pen-samento, justifica as diferenças de crenças e lhes atribui importâncias distintas. Para justificá-las, diz-se que ambas tratam “de uma mesma verdade” abordada de forma diferente, ou mesmo, que cada religião, seita, doutrina, filosofia etc., está em busca da “verdade12”, e que alguns desses
seg-mentos optam por “caminhos” diferentes para chegarem a um mesmo local.
Já a importância destinada a cada doutrina religiosa, é antes de tudo vincula-da à formação religiosa dos próprios diri-gentes, ou daqueles que na casa, são pio-neiros nos trabalhos ali realizados. Dessa forma, a religião eleita como base, as-sume maior importância e representa-ção. Seja na fala, nos rituais, nas linhas in-terpretativas para determinados assuntos, segue-se na “religião base13”, os
pressupos-tos iniciais para se interpretar ou justificar, determinados assuntos e práticas rituais. É importante destacar que, no Centro Uni-versalista da Divina Luz Crística, como já dito anteriormente, parte de uma religião base. Ela irá ser tida como fonte primária do saber, cabendo aos outros princípios religioso-doutrinários “completar” o que ela não aborda. Ou mesmo reinterpretar as di-versas crenças religiosas circundantes em tal centro, a partir da lógica umbandista.
Com uma poética um tanto quanto mequetrefe concluo essa parte, afirmando que essa doutrina, ao engendrar diferen-tes mecanismos de diferendiferen-tes dogmas, complementando-se e esgueirando-se das diferenças, é tomada como: “uma roda que anda sem girar”.
CENTRO UNIVERSALISTA (CONSIDERA-ÇÕES ETNOGRÁFICAS)
Em um primeiro contato com o Centro Uni-versalista da Divina Luz Crística14,
localiza-do na Asa Sul (Brasília, DF) houve em certa medida, um estranhamento, ao compará-lo com outras “casas/tendas” umbandistas. A
e kardecistas, em sua formação. A historicidade tal qual a distin-ção pormenorizada encontra-se no artigo “Exu, de mensageiro a diabo. “Sincretismo Católico e Demonização do Orixá Exu”. de Reginaldo Prandi, 2002.
8Troca e ou doação energética
(ARMOND, 1990), ocorrida ge-ralmente, pela a imposição de mãos daquele que o realiza, para com o paciente. O aprofunda-mento explicativo e suas ramifi-cações, tem nas obras de Allan Kardec, maior respaldo. Cabe lembrar que as obras de Kardec são amplamente difundidas den-tro da Umbanda.
9Designação Kardecista para
“pessoa podendo servir de inter-mediária entre os Espíritos e os homens” e “toda pessoa que sen-te, em grau qualquer, a influen-cia dos espíritos (...) esta qua-lificação não se aplica, senão, àqueles nos quais a faculdade
começar pelo dia dos ritos públicos, segun-da-feira (20h), o ambiente se encontrava, em minha percepção, como sendo um ar-cabouço de diversas culturas, muito embo-ra o culto ainda não tivesse começado. Nas paredes, diversos quadros, com pinturas do Sheeva (Mitologia Indiana), do Ramatis (Kardecismo e Umbanda), um quadro do OM (mantra indiano), um outro quadro de São Francisco de Assis (Catolicismo), uma pequena estátua de Iemanjá. Incensos, flo-rais, essências, pomadas, e tantos outros artifícios que permeavam a própria Umban-da e outros dogmas.
Antes de iniciar o culto propriamen-te dito15, costumeiramente, um dos
tra-balhadores da casa tece comentários de cunho moral em forma de palestra para os frequentadores/visitantes (encontram--se numa média de 50 a 60 pessoas por sessão), comentários esses, baseados prin-cipalmente na doutrina da Umbanda e do Kardecismo. Geralmente esse “palestrante inicial”, lê e comenta o livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Alan Kardec.
Nesse meio tempo outro trabalhador da casa, “prepara o ambiente” passando um “defumador16” dentre os visitantes, que
ficam dispostos em cadeira enfileiradas de frente a área de realização do culto. Termi-nado esse processo conjunto, um outro tra-balhador pronúncia alguns comentários finais, mas sem utilizar nenhum livro,
trazendo tão somente a sua fala como instrumento de esclarecimento para os frequentadores do que ali será realizado. Pode ocorrer também, que aquele que pre-sidiu a curta palestra inicial já cumpra tal papel de esclarecimento, isso não é um processo que ocorre de maneira absoluta e sem modificações.
Segundo alguns trabalhadores da casa, esse primeiro momento já é um passo dentro do processo de auxílio para aqueles que ali estão procurando algu-ma ajuda ou conselho de cunho espiritual ou físico. Pois, a defumação, assim como a palestra, ou mesmo o simples fato de adentrar tal ambiente, fazem parte dos pri-meiros trabalhos realizados tanto pela “es-piritualidade”, quanto pelos trabalhadores “vivos”, para a “melhora” dos presentes.
Em seguida, forma-se um grande cír-culo dos que irão ali desempenhar ativida-des rituais, não importando uma divisão de gênero e ou idade. Os consulentes
perma-necem sentados. Os cultos, propriamente ditos, são iniciados com uma prece daquele que irá presidir os trabalhos, geralmente a dirigente da casa. Sua fala invoca diversas entidades e elementos de outras culturas, tais como as já mencionadas.
Finda suas considerações e prece, tem-se de fato um “mergulho na Umbanda”, apesar de não se usar atabaques, opção da própria dirigente, a voz repercutida pelo “corpo mediúnico” da casa, e pelos que ajudam no apoio aos trabalhos e aos traba-lhadores, e por muito dos frequentadores mais experientes, “firmam o ponto17”.
O Passe que ocorre logo após a “in-corporação” de alguns médiuns dispostos nesse círculo, tem seu “início” ao receber os consulentes por fileiras, (na disposição sequencial das cadeiras em que se encon-tram), sendo que cada consulente fica à disposição de um “médium/entidade”, que juntos formam um corredor por onde pas-saram os que receberão o passe. Essa de-fronte ao consulente realiza movimentos sobre seu corpo, mas sem tocá-lo. Variam, desde mãos balançando rapidamente sobre o corpo do consulente, até a mãos que se portam de maneira mais “calma”. Os
consu-medianímica, está nitidamente caracterizada, e se traduz por efeitos patentes de uma certa intensidade. (KARDEC, 2008, o338 e 135,.)
10Ordep Serra em seu artigo
“No Caminho de Aruanda: a Umbanda candanga revisita-da” (Afro-Ásia, UFBA, n 25-6, 2001, p. 215- 56), traz uma interessante análise a respeito da Umbanda e sua relação com a Quimbanda. Considerada, como nos mostra o autor, por diversos umbandistas, a “linha negra”, o lado de baixas ma-gias na Umbanda, nela se faz maior alusão à figura de Exu. Ordep Serra, relaciona os cul-tos á Exu dentro da Umbanda, como sendo um “pedaço da Quimbanda” dentro dela. Nesse ponto, o autor traz elucidativas considerações, afirmando que a visão que a Umbanda tem de “bem e mal”, não se restringe a uma lógica católica de
oposi-lentes, em pé, ficam parados, e recebem tal aplicação, geralmente de olhos fechados. Têm-se atrás desses médiuns outros não incorporados que auxiliam a movimentação dos consulentes e suas devidas posições nesse corredor. Finaliza-se o passe quando a entidade, tocando levemente o consulen-te, lhe reajusta na posição que chegou. Não obstante, a forma que se aplica o pas-se é grandemente variada, porém existem elementos que se assemelham. Por exem-plo, alguns sinais feitos com os dedos so-bre a cabeça dos consulentes, posicionar a mão na direção do abdômen dos mesmos, e seguir a retirada com estalidos de dedos. Dentro da lógica da casa, e em uma abor-dagem kardecista, os locais em que se po-siciona as mãos são nos Chacras: “(...) são pontos de conexão ou enlace pelos quais flui a energia de um a outro veículo ou cor-po do homem.” (LEADBEATER, 1968, p.19)
Finaliza-se os passes e com uma li-turgia semelhante a do início, forma-se um novo círculo, porém, com a permanência dos pontos cantados, que desde do início não findaram. Esses agora ganham mais forças, pois os que antes estavam incorpo-rados18, agora, retomam ao estado inicial
da liturgia, e cantam juntos. Agradecem às entidades que ali contribuíram para o tra-balho e se preparam com uma breve pausa nos pontos cantados, para a segunda par-te dos trabalhos. Essa segunda parpar-te, no centro em questão, é destinada para uma entidade específica, isto é, em cada reunião pública, após o passe (realizado majorita-riamente pela falange de caboclos), dedica--se à segunda parte, apenas para um grupo de entidades específicas, sendo elas, pre-tos-velhos, caboclos, ciganos, e guardiões (Exus). Vale ressaltar que a gira de Exus e ciganos ocorrem apenas uma vez por mês, salvo as festividades.
Inicia-se a segunda parte que consiste nas consultas individuais. Uma nova e, a
priori diferenciada “leva de entidades” espi-rituais, incorporam em alguns médiuns que prestaram consultas. A liturgia é a mesma do início, em forma de círculo canta-se os pontos, e aos poucos, as entidades se ma-nifestam pelos médiuns. Alguns desses trabalhadores que auxiliam na organização do rito, no direcionamento e na prestação de serviços, naquele determinado ins-tante para as entidades, denominados “canbono19”;reorganizam o espaço para as
consultas, colocando os banquinhos, arru-mando as ervas, auxiliando os médiuns que receberam entidades a se posicionarem em seus devidos locais, para assim prestarem consultas. Quando inicia-se as consultas in-dividuais os pontos cantados cessam e dão lugar à música ambiente, escolhida previa-mente. Geralmente são Cd’s de pontos de Umbanda, mantras, músicas New Age ou semelhantes.
No caminho de Aruanda: a umban-da canumban-danga revisitaumban-da20, o autor cria um
esquema analítico do processo litúrgico para “sessões ordinárias” (momento do culto, em dias de trabalho comum). Re-sumidamente, cada episódio desses aqui narrados, corresponderia a uma letra, pas-sível de subdivisões numéricas para ações específicas dentro dos episódios. Juntos, formariam um esquema, do tipo: A – B – C, sendo, A, correspondente ao processo de abertura, purificação inicial (defumação) e ritos preliminares. B, invocação, manifes-tação e celebração. C, atendimento. Com isso, o autor possibilita relacionar e compa-rar o processo litúrgico, tal qual direcioná--lo esquematicamente para formas dife-renciadas de outros processos litúrgicos
ção “Deus e Diabo” “bem eterno e mal eterno”, essa vincula-se a preceitos espiritas que relativi-zam o “mal”, tornando-o provi-sório e o bem eterno (p. 248). Porém, não adotando a causa espirita por inteiro, tão menos á católica, a Umbanda adota a presença e representatividade do “mal”, como algo passageiro, mas relacionado a nosso cotidia-no, muito próximo, em alguns casos, do “bem”. O que se cabe na Umbanda “são estratégias al-ternativas para lidar com as coi-sas situadas em outro marco de valor. Nessa perspectiva, há que aderir ao bem, mas não se pode ignorar o mal.” (p. 248).
11Para mais informações http://
www.terreirotioantonio.com.br/ index.php?option=com_content &view=article&id=68:universalis mo&catid=34:documentos&Item id=55 ) ou para o centro pesqui-sado: http://www.divinaluzcristi-ca.com/#!universalismo/cxz
dentro da mesma religião. Cabe notar, que após o atendimento (C), segue-se a lógica B* - A* (B*: Despedida, Retirada, Celebra-ção; A*: Purificação final, encerramento, Ritos Pós-Liminares) para o encerramen-to das atividades. Quando, numa mesma sessão outras falanges se manifestam, o esquema muda após C, mas a construção inicial é sempre mantida. Como o centro analisado cada sessão é específica de cada entidade, podemos dizer que o esquema se faz de forma análoga, sem alterações. Em suma, encontra-se da seguinte forma: A-B--C-B*-A* (SERRA, 2001, p. 241).
Por fim, cabe ressaltar que nos dias de culto destinados aos Exus, não se altera os horários de celebração, nem mesmo, o esquema litúrgico para recebê-los. A dife-rença se faz nos meandros e performances desses em relação às outras falanges.
NOS MEANDROS DE EXU (GUARDIÕES)
A gira de Exu, denominado também “guar-dião”, em justaposição ao centro universalista, apresentam certas características que pare-cem destacar-se do restante das outras giras
(prioritariamente, Preto-Velho e Caboclo). A primeira é que no dia da gira, em uma das observações, os médiuns demons-travam, seja de forma discreta, certa anima-ção e ansiedade. Essa distinanima-ção dos outros dias de trabalho se confirmava pelos co-mentários que volta e meia se ouvia em cur-tas entreviscur-tas antes do culto começar, “eita hoje é dia de guardião.” O palestrante, antes do início da gira, esclareceu aos presentes o fato de preferirem o termo guardião, ao in-vés de Exu, ao passo que tais entidades:
“diferentemente do que muitos pen-sam, não são agentes de forças malignas, ou agem para o mal, muito pelo contrário, são protetores dos locais religiosos e dos cemitérios. As pombas-gira, não são mu-lheres de vida fácil, ou ligadas a baixas paixões, são na verdade, exímias conhece-doras das paixões humanas. As vestimen-tas pavorosas que os Exus(guardiões) apre-sentam no astral, são as ferramentas que lhe possibilitam, andar em locais densos, em verdadeiros infernos. Ou vocês acham que um espirito todo cheio de luz, apresen-tando características angelicais, consegui-ria andar por entre essas zonas do baixo astral, sem desperta atenção? E até serem
atacadas. Os Exus(guardiões) apresentam essas formas, para poderem trabalhar sem serem notados.” (Depoimento de um dos dirigentes)
Decorrido a palestra, e passando os momentos após o passe que de certa for-ma ocorre como todos os outros dias, após iniciar-se o momento da gira, as mulheres demonstravam certa “sensuali-dade” muito discreta. Diferente de tantos outros relatos que trazem a imagem das in-corporações de pomba-gira, sempre muito festivas e espalhafatosas21. As
“incorpora-ções” iniciadas se dão com as conhecidas gargalhadas por parte de alguns que “re-ceberam” as entidades. Vale ressaltar que as gargalhadas são tidas, segundo um dos trabalhadores, “para dissipar as emanações energéticas daqueles que nos querem fa-zer mal.” E, são quase sempre sobrepostas pelos pontos cantados, em uma altura que sobressai ao som das gargalhadas e alguns bater de pés. Termina-se as primeiras, e mais visíveis incorporações dos Guardiões. Feito isso, inicia-se a adequação do ambien-te para o trabalho dos médiuns já incor-porados para receber os consulentes. Mas dessa vez, com ascendimento de charutos,
12Em suma, a noção de verdade
observada, aplica-se a trejeitos religiosos, como é o caso bíblico de “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.
13Ou “religiões bases”, no plural,
uma vez que o processo de for-mação religiosa dos dirigentes de centros podem ser transpas-sados por outras religiões, como é o caso estudado. Onde a diri-gente, antes kardecista, se con-verteu a Umbanda.
14Ultimamente o nome fora
alte-rado para Fraternidade Universa-lista da Divina Luz Crística.
15Aqui atribuo fatos observados
outras vezes.
16Uma espécie de incenso,
utili-zado para dissipar as energias negativas e densas que os que ali adentram trazem consigo, de-vido às interações ordinárias do dia a dia, nos ambientes de
tra-colocação de champanhes em taças, e a distribuição destes para os médiuns. Feito esses procedimentos, os trabalhadores que “receberam essas entidades” sentam-se ou permanecem alguns de pé, e recebem os consulentes por ordem de fichas numéri-cas, e numéricas preferenciais, que foram entregues antes do início da palestra.
Os Guardiões atendem um por um os consulentes e conversam o necessário que cada consulente impõe, ou seja, ficam a dispôr das perguntas a serem feitas, na maioria dos casos, os consulentes pro-curam uma cura de suas mazelas, ou até mesmo o porquê de tais e as devidas pro-videncias a serem tomadas para os males que afligem o emocional de cada um. A en-tidade, por sua vez, aconselha o consulente de forma um pouco enérgica e de curtas frases (característica dos Guardiões, na lógica local). Não sendo rude, mas sendo (segundo algumas entrevistas) “direto”. Se o consulente não tiver mais nenhuma per-gunta ou inquietação, e se a entidade não tiver mais nada a acrescentar à conversa, é terminado o atendimento com um abraço, que a princípio parte da entidade/médium que estende o braço para tal. Esse abraço
é de curta duração, acompanhado por um “tapinha” nas costas, que equivale a uma “dissipação das energias más que o con-sulente traz em si” (informação obtida por iniciados na doutrina). Feito isso, a entida-de recebe um novo consulente, e inicia-se a uma nova conversação. Já o recém-saído está “livre” da sua ligação ritualística, fi-cando a cargo de si mesmo se vai para sua casa ou permanece no próprio centro, mas o “meio” não o impulsiona a ficar ou a sair, fica a cargo de cada um. Visto que é co-mum uma maioria se retirar.
OS GUARDIÕES MUDAM
Sendo a Umbanda uma religião que não de-tém um livro base de sua doutrina, somen-te livros que ainda não foram compilados de forma geral e categórica (uma base para a Umbanda que fora majoritariamente acei-ta). Os centros e seus dirigentes são pe-ças fundamentais nesse processo. Se num centro, como esse que está em pesquisa, o dirigente (sendo ele quem doutrina e en-caminha inicialmente os que se interessam por tal credo) tem certa carga de leitura
e tradição cultural diferente dos “outros”, por consequência, as manifestações e per-formances dos arquétipos representados serão distintas. Isso está muito bem posto nas “Formas Elementares da Vida Religiosa” de Durkheim “ (...) a unidade e a diversida-de da vida social é que produzem, ao mes-mo tempo, a unidade e a diversidade dos reses e das coisas sagradas”.(DUEKHEIM, 1996, p.455).
Concomitantemente a dirigente e fun-dadora da casa, onde se encontra a pesqui-sa (que adveio de uma linha de penpesqui-samento kardecista e de estudos de outras múltiplas religiões), propicia um enorme campo de apoio à construção teórica de sua relação com o meio religioso em que fortemente se apoia, a ponto de fundar seu próprio centro, onde utiliza-se do Universalismo para bem expressar essa expansão de fato-res religiosos, cunhados e anexados numa mesma doutrina base, no caso a Umbanda. A presença da nomenclatura guardião ao invés de Exu, no centro em questão, lhes atribui uma semântica que lhes rela-ciona a seus “afazeres no astral”, e não a seu “peso” histórico (e algumas vezes po-lêmico), no sentido plural do termo que o
balho, na rua, algumas vezes em seus lares, etc. Segundo a lógica local.
17“Ponto”, numa explicação
sim-plificada, cabe nesse contexto, como as músicas de devoção, cantadas, para proporcionarem ao ambiente, o equilíbrio neces-sário para o êxito das atividades a serem realizadas. Como nos apresenta Prandi, “As cantigas de Candomblé e os pontos--cantados da Umbanda são ins-trumentos de identidade das entidade.”(PRANDI, 1996, p. 144)
18Termo que utilizo com certo
desdém, uma vez que os inicia-dos na doutrina não o utilizam com frequência, pois preferem utilizar outro termo, “recebem”. Pois consideram que incorporar é o “espíritos tomar o corpo do médium.” Eles afirmam que o que ocorre, é uma parcial mani-pulação por parte dos espíritos.
nome Exu traz consigo. A escolha de um nome, ou termo, em relação a outro, entre tantos aspectos, refletem, também, uma forma de balancear os preconceitos advin-dos de fora da umbanda para com as ma-nifestações que ali serão realizadas. Dessa forma, quando se fala que “hoje é gira de guardião”, não se tem a mesma carga se-mântica ao se dizer “hoje é gira de Exu”. Concomitantemente, se o viés interpretati-vo do que essa entidade realiza ou repre-senta “no astral” lhe diz respeito a ser um guardião, chamam-no dessa forma, pois as-sim lhes valoriza e respeita, ao passo que ameniza os estranhamentos vindouros por parte “dos vivos” e principalmente daqueles que lhes “endemonizam”.
Os guardiões e ou Exus são com isso, dentro da Umbanda, uma mesma universalidade de opções a “mercê” das construções “ideológicas espirituais” dos dirigentes de cada centro. Não obstante, os guardiões demonstram ser essa “viga flexível” nas manifestações afro-brasileiras, porque são neles onde se mais observa es-sas mudanças doutrinárias. Fumar ou não fumar, beber ou não beber, a utilização de palavras baixas (na lógica do senso
co-mum), os conselhos e performance corpo-ral, são todos elementos a se observar para traçar as mudanças de um terreiro para o outro, ou para um centro universalista umbandista. As semelhanças encaixam--se no plano dos aspectos comuns para se identificar tal entidade, mas, as diferenças propiciam a singularidade de cada espaço e as relações históricas que constituíram as características várias dos Exus, e dos locais em que se manifestam.
CHARUTOS E BEBIDAS DE EXU
Em outro terreio que frequentei por cur-to período de tempo, também localizado na Asa Sul (Centro Espírita Raio de Sol), deparei-me com uma diferente concepção de Exu. Nela se destacava um caráter mais festivo, os Exus eram visto com uma maior proximidade às relações humanas, a va-riedade de bebidas alcóolicas era maior, a proximidade dessas entidades para com os consulentes se dava de maneira mais joco-sa. Os médiuns/entidades consumiam com mais frequência tais bebidas, ofereciam-na algumas vezes para os visitantes. Por outro
lado, os charutos e sua utilização não se distinguiam do outro centro.
Diferentemente do centro universa-lista, a própria organização dos horários e rituais, tal qual dos dias de atendimento ao público, se dava de maneira distinta. A construção litúrgica obtém grande seme-lhança com aquela disposta por Ordep Ser-ra, ao enunciar o culto à falanges distintas, num mesmo dia de culto22.
Ao questionar um dos membros do Raio de Sol sobre o porque de tais entida-des consumirem bebidas alcoólicas obtive: “Essas entidades ainda estão evoluindo, a gente da bebida para elas, esperando elas mudarem para melhor cada vez que elas vem aqui. Então hoje elas bebem. Mas di-minuiu bastante do que era. O que a gente quer é que elas larguem o vício e evoluam.” A explicação dos charutos atuam na mes-ma esfera do centro universalista, “limpe-za dos consulentes pelas baforadas sobre os mesmos”. Em ambos os centros afirma--se que os charutos não são tragados são postos da “boca pra fora”, com a função única de limpeza.
No centro universalista o uso de bebi-das é mais contido, sendo sua variedade um
19A função de um canbono, diz
respeito ao auxilio e prestação de serviços ás entidades, no momento do culto, lhes trazem, as ervas quando essas lhes pe-dem, acendem os charutos os cachimbos, trazem o café dos pretos vehos, e fazem anotações e algumas vezes interpretações, quando preciso, daquilo que a entidade recomenda ao consu-lente, quando este não intende, ou quando a recomendação é de suma importância, para ser seguida á risca, ou mesmo, um agendamento qualquer de retor-no ao centro. Podem ser equipa-rados a enfermeiros que auxilia um ”médico de outro mundo”.
20Ordep Serra, “No Caminho de
Aruanda: a umbanda candanga revisitada”. Afro-Ásia, UFBA, n 25-6, 2001,p. 241.
21Para maiores
esclarecimen-tos, PRANDI, Reginaldo. Exu, de mensageiro a diabo. Sincretismo
vinho e um espumante. Interrogando um dos trabalhadores, ou melhor, num diálogo com a “própria entidade” que estava segun-do a linguagem própria segun-do centro, “utilizan-do o aparelho físico” daquela que é a diri-gente da casa, ao interrogar sobre a bebida e o charuto, obtive a seguinte resposta:
“O Álcool é algo “volátil23”, com isso ele atua no campo físico e no campo espiritual, a gente bebe é para poder ter meios para ajudar aqueles irmãos que são muito “den-sos24”, onde somente a palavra não irá fazer ele mudar, por isso utiliza-se a bebida, para poder afeta-los e ajuda-los. O cigarro a mesma coisa, sua fumaça atua nos dois campos. Nós somos formados pelos reinos, mineral, vegetal, animal, e como alguns já dizem, hominal. O que nós fazemos é ma-nipular esses fluidos, principalmente os das plantas, para ajudar os irmãos que preci-sam. Tudo é energia, mais densa ou menos densa. (pegou um copo de álcool de cozinha no chão) Veja esse aqui não é pra tomar, é somente para limpar o ambiente, e as pesso-as carregadpesso-as.”
Na perquirição dessas visitas e
dife-rentes acepções surgiu tal questionamento: Por que o álcool em dado local é maligno às Entidades, e deve ser expurgado aos poucos, e no outro ele é instrumento de auxílio para os Exus, para seus trabalhos de ajuda aos consulentes igualando-se aos charutos, que em ambos os locais recebem uma mesma função.
Pois bem, há certa semelhança que lhes aproximam. Nesse caso, o álcool, seja bebida, ou seja puro, é posto em todo caso como mecanismo de auxílio, seja de forma direta ou indireta. Isso é, para auxi-liar os consulentes ou para auxiauxi-liar os espí-ritos. Ou seja, os consulentes por meio das entidades são auxiliados, porém, o mesmo ocorre de maneira quase contrária no “Raio de Sol”. Os “vivos” são quem prestam “auxí-lios” aos que estão sendo postos como fa-tor chave no ritual como um todo, no caso, as entidades. As diferenças são aquelas já postas, quantidade de bebidas e o porquê do uso. O porquê do uso, como se pode perceber é o foco.
Se em um centro o uso está no âmbi-to do auxílio dos “vivos para os morâmbi-tos”, consumem-na para ajudar as entidades a se libertarem do vício, ou mesmo como um
convite com ar “celebrativo” para direcio-ná-las a um melhoramento íntimo. Já no outro, além de ser ao contrário, a bebida toma parâmetros de acrisolar os fluídos dos pacientes e espíritos ali presentes. Nesse caso, é oferecer ao consulente um auxílio, não pelo consumo, mas como uma espécie de objeto de depuração das “ener-gias não visíveis” que costumam acarretar prejuízos aos indivíduos.
É curioso notar que, o álcool, é um aliado para os trabalhadores e para os tra-balhos, muito embora não seja menciona-do nem direcionamenciona-do o seu uso (bebidas) para os consulentes, em seus dia a dia, muito pelo contrário, prega-se o afasta-mento do mesmo, uma vez que “para os médiuns, ele atrapalha a comunicação com os espíritos” e para qualquer outro indiví-duo, seja trabalhador, seja consulente, ele é nocivo. Porém, com a incorporação, ele é tido (uso bastante moderado, ou não) como ferramenta de auxílio aos problemas individuais tanto no “lado de cá, como no lado de lá”.
É importante destacar que em am-bas as casas, em entrevistas, afirmam que “quem bebe são os espíritos/entidades, católico e demonização do orixá
Exu” Revista USP, nº 50, 2001.
22Ordep Serra, No Caminho de
Aruanda: a umbanda candanga revisitada. Afro-Ásia, UFBA, nº 25-6, 2001, p. 215- 56. Vale res-salta que nesse mesmo trabalho, as características dos Exus, se assemelham ás observadas.
23“Que pode ser reduzido a gás
ou vapor” – Novo Dicionário AURÉLIO BUARQUE, 2ªed. Nova Fronteira 1986.
24“Densos”- Espirito ainda muito
ligados a matéria (segundo visão local, advindo de uma lógica Kardecista).
os aparelhos (médiuns) não ficam com ne-nhum resquício”. Os charutos, de fato, não acarretam tanta polêmica. Nas explicações atuam tão somente na limpeza.
No caso da bebida alcoólica, seu uso era justificado argumentando-se que esse tinha uma ação e “vibração anestésica e fluídica” devido á sua evaporação, o que propiciava as descargas (limpeza) das pessoas(...) No caso da fumaça do fumo ou dos incensos, explicava-se que, sendo esta um gás, pode-ria destruir um fluido mau ou nocivo presen-te no ambienpresen-te. (Segundo SILVA, Citado por cf. Ortiz, 1978, p. 155)
Em ambos os centros os Exus são conselheiros para muitas das mazelas que se apresentam nos conflitos íntimos de cada um, valendo-se de elementos que per-meiam os ataques e condenações de outras religiões (no caso as bebidas, e charutos), ao passo em que reinterpretam tais utiliza-ções com conceitos fundados numa lógica que abarca outras e “mais aceitáveis” reli-giões, como o Kardecismo (ORTIZ, 1978). Dialogam com o distanciamento das vi-cissitudes, ao passo em que trabalham
esses elementos demaneira parcialmente aceitável para as curas individuais, tanto “no lado de cá”, quanto no “lado de lá”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
“O conceito alcançado entre nós pelo Espiri-tismo de Umbanda nestes últimos vinte anos de sua prática, deu motivo à fundação nesta capital de elevado número de associações destinadas especialmente a esta modali-dade de trabalhos, cada qual procurando desempenhar-se a seu modo, para atender a um número sempre crescente de adeptos. Sua prática variava, entretanto, segundo os conhecimentos de cada núcleo, não haven-do, assim, a necessária homogeneidade de práticas, o que dava motivo a confusão por parte de algumas pessoas menos esclareci-das, com outras práticas inferiores de espi-ritismo.” (Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda: Trabalhos apresen-tados ao 1° Congresso Brasileiro do Espiritis-mo de Umbanda, reunido no Rio de Janeiro, de 19 a 26 de Outubro de 1941 - Federação Espirita de Umbanda, 1942, p.4)
É com essas palavras, advindas do primeiro congresso de Espiritismo de Umbanda, que demonstro as inquietações que permeiam este trabalho. Sendo até mesmo um dos primeiros questionamentos a serem postos e ainda buscados ao longo da pesquisa: onde se encontra as similitudes da Umban-da, para definir as suas diferenças, ou me-lhor, para definir as diferenças de Exu. Pois como já demonstrado, tal entidade é “al-tamente maleável” dentro da cultura afro--brasileira, ou restringindo-nos a análise, sua maleabilidade se expressa nesses dois centros, e até mesmo altamente maleável para os adeptos de outras crenças religio-sas, que permeiam o assunto da crença no “outro lado”.
Não ignoro a necessidade de reconhe-cer como tal entidade é vista por outras religiões, como no caso do Protestantis-mo. Assim como as perspectivas sobre tal pesquisa não se abstém as já formuladas neste pequeno trabalho, pois é importante levantar questões sobre o contexto univer-salista de forma geral, saber como ele se dá no contexto social em que está inserido. Questionar as opiniões daqueles que estão dentro desse meio, no âmbito de sua visão
das outras religiões, enfim, estabelecer uma “ponte” da visão nativa para o censo comum e articulá-la em uma ótica de cunho acadêmico.
Já no âmbito dos elementos de Exu as elucidações ainda muito devem ser pes-quisadas, pois, descobrir as proximidades e as diferenças, é uma tarefa de muito empenho, pois o que está no discurso dos “envolvidos” muitas vezes não demonstra-rá o que realmente permeia em tais meios. Assim como já citado, assimilar tais ques-tionamentos na lógica do senso comum, e valer-se dessas opiniões para uma maior elaboração no campo teórico da figura de Exu. Por fim, saber demonstrar a imensi-dão dessa “flexibilidade” de Exu e as opini-ões que o rodeiam, para inseri-lo dentro de uma análise pormenorizada da Umbanda nos dias atuais, tornando-o parâmetro de análise para o imenso panorama das múlti-plas possibilidades na Umbanda que cada vez mais se multiplica, e torna a figura de Exu, desde um demônio católico, até um guardião dos locais sagrados.
Essa perspectiva, de guardião, se en-contra difundida em obras literárias, um-bandistas, como é o caso do autor Robson
Pinheiro25, que reformula a acepção tradi-cional da entidade, dantes demonizada.
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