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Do poema-panfleto à Mail Art o sentido de vanguarda em João Maria Vilanova

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Academic year: 2020

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GabrielRodríguezdeAlba,Cuatro movimientos

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CentrodeLiteraturaPortuguesa– UniversidadedeCoimbra,Portugal

ImpossibiliaNº7,Págs.137-150 (Abril2014)ISSN 2174-2464.

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RESUMO:João Maria Vilanova,pseudónimo de João de Freitas(1933-2005),foium autormarcante da

literatura angolana de Novecentosque optou poricarincógnito.Apesarde serconsiderado apenasum poeta,existem vários contos e outros textos inéditos.Este contributo pretende mostrar um aspeto experimentalista da obrado autor,expresso pelo uso do correio como forma dearte,pela inserção deuma prosainovadora.

PALAVRASCHAVE:João MariaVilanova,Angola,MailArt,poesiaexperimental,novelaexperimental.

ABSTRACT:João Maria Vilanova alias João de Freitas (1933-2005),was an outstanding author in

Twentieth-Century Angola,who choose to live totally incognito.Despite being considered justpoet,he wroteseveraltalesand diferenttextsstillunpublished.hispaperaimsto show an experimentalistaspectof hiswork,asheturned postinto an artform,by inserting in itan innovativeprose.

KEYWORDS:João MariaVilanova,Angola,MailArt,experimentalpoetry,experimentalnovel.

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V

ANGUARDAEVIOLÊNCIA

Ao evocaravertentevanguardistado poetaqueincendiou Angolacom vozacutilanteeprovocadora, embora ocultada pela cortina cinzenta de impecávelfuncionário do aparelho colonial,não podemosnão delinearbrevemente algumasdastendênciasque afetaram asarteslusófonasde Novecentose que foram reinterpretadasporJoão-MariaVilanova.

No Modernismo de Portugale do Brasil,corroborando uma tendência global,foipreponderante a vontade de provocarassombro e/ou estranhamento no público,perturbando asconvençõesestéticasde aproximação à obra de arte, entendida segundo determinados padrões, académicos e formais de representação,de sensibilidade e convencionados sobre o conceito de “belo”.A partir da década de cinquenta,os ideais de renovação pretendidos pelo “make itnew” poundiano tornam-se reais com o Concretismo.O grupo Noigandres,nomeadamente na componente europeia do movimento encabeçada por Eugen Gomriger,apostou na revolução produtiva e expressiva dos poemas,até estes ganharem o estatuto de autênticos objetos artísticos.A própria poesia devia sair da deinição limitativa de escrita meramenteconcebidaparaaexpressão verbal,deformaaalcançarumanovadimensão comunicativavisual.

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lexemaem questão,ποιέω–isto é,fazer–,revesteum papelsubstancialnaateão postapelosoperadores

culturaisvanguardistasnosmedia.

A vontade de fazerexplica também a reestruturação de códigoscomunicativos,tendo em vista o alcance de públicosnovose a procura de um novo cânone (constituído pelosautoresdo paideuma)a

justiicaro novo movimento.

O assalto ao verso,entendido como anacronismo literário,reduto do “arcabouço linguístico lógic o-discursivo” (Campos,2006:159)que altera a natureza essencialmente não discursiva da arte poética é operado em prolde procedimentos compositivos que secundassem essa atitude natural.Também são praticadosaconcisão dalinguagem eo aproveitamento do espaço oferecido pelafolhabranca,fazendo jusa um planeamento racionaldaobraqueabreasasatermos-chave(Bilderschrift/Schriftbilder)implicitamente ligadosàiconicidadedo texto literário.

A dialética entre Concretismo,Neo-concretismo e outras variantes surgidas do fecundo debate culturaldo Brasildesenvolvimentista,levará a considerar “fases evolutivas” com um período áureo, geométrico e minimalista,outro maisintervencionista,em que se assumirão aspoéticasparticipativasde MajakovskijeBrecht,parachegarenim àfasedo poemacomposto como obrasemiótica.

Em Portugala“Po.Ex”,animadaprincipalmenteporAnaHatherly eE.M.Melo eCastro,encorajou umaposturaesteticamenteabertaàscontaminaçõesvanguardistas,fomentando umaruturacom ospadrões vigentesnum paísculturalmentevincado pelospreceitosdo Estado Novo.A necessidadedo NÃO colocado porMelo e Castro convida à rebelião e à sedição contra o statusquovigente,a política censória,a crítica

oicialeasartesescravizadaspelo regime.É importanteressaltaraatitudedosintelectuaislusosdecontrariar a tendência a “semiotizar” uma matéria poética,reduzida a “letras” sem “palavras”,apenasliminarmente verbal(SousaeMendesdeRibeiro,2004).

A décadade60 étambém aépocaem queo pensamento deFrantzFanon,ampliicado porSartre,é divulgado em terrascoloniaise do soi-disantterceiro mundo.Em Génova(1964),Costa Andrade cita o

pensadormartinicano,airmando que a “intuição que têm asmassascolonizadasde que a sua libertação deve fazer-se e não se pode fazersenão com a violência”.No ano seguinte,sempre em Génova,Glauber Rochajáacaminho do tropicalismo enunciaasua EstéticadaFome(Rocha,1986),incluindo umaestética daviolência:

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ergueasarmas,o colonizado éum escravo:foipreciso um policialmorto paraqueo francêspercebesseum argelino.

Deumamoral:essaviolência,contudo,não estáincorporadaao ódio,como também não diríamosqueestá ligada ao velho humanismo colonizador.O amorque esta violência encerra é tão brutalquanto a própria violência,porque não é um amorde complacência,masum amorde ação e transformação (Buarque de Hollanda,Gonçalves,1986:44).

Uma constatação de Costa Andrade proferida em Génova em 1964,a de que a “nossa violência é umaforma decultura.Uma formadeculturaeasuaexpressão” (CostaAndrade,1980:32-42)introduzo conceito de“violentaclandestinidade”quecaracterizaapoesiadachamada“angolanidade”,queidealmente abreasasao nosso autor,cujaprodução nuncafoiassociadaaumaimagem físicado mesmo.

Das obras editadas, Caderno de um guerrilheiro1 demonstra a receção de processos criativos

declaradamente experimentais,com a valorização do aspeto icónico até chegarà transformação do poema em Schriftbilddecarizpanletário.

O poema OHCIVILIZAI(ig.I)apresenta um uso exasperado do espaço branco e em seguida uma

alteração do conceito canónico do acróstico,quedeveriaapenasutilizaraprimeiraletradecadapalavra.Os lexemasusadospertencem todosao mesmo domínio semântico,evocativo da repressão cruele aleatória aplicadaem largaescalaem todo o território ultramarino;apalavraquesurgeéumainvetivadura,um grito que ecoa talcomo um slogan,à maneira dosагитплакаты soviéticos,namesma ótica de leitura e

aproveitamento postuladapelosconcretistas(Campos,A.,PignatariD.eCampos,H.,2006:134).

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Fig.I

No poema ILHA(ig.II)é possívelassociara criação icónica de Vilanova com o poema símbolo do

primeiro Concretismo,BebaCocaColadeDécio Pignatari(ig.III).2

Em ambosospoemasdecorre um processo de degradação doslexemasque compõem o título,o imaginário edénico ligado à imagem duma ilha tropicalesvazia-se na enumeração de termosconcretos evocativosdo degredo,da prisão,da segregação em que a aliteração esteira/estoira abre para o côup de

théatre,a enunciação da palavra-chave afecharo poema,uma palavra eicazporevocarum nome,terrível, do maiorcampo deconcentração dosopositoresdo regimeeporisso “gritada”em maiúsculo.

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No poemadeDécio Pignatari,umadasfrasesmaisfamosascriadapelapublicidadeédesmembrada, diluída,derretida,reduzida a mera expressão escatológica até ao desfecho inal,com outra palavra emblemática,que reúne todasasletrasdo nome do famoso refresco globale que exempliica um valor semântico oposto ao dacélebrepublicidade.

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Um terceiro poema O GUERRILHEIRO(ig.IV),remete para uma forte emergência da prática da

oralidade;nestecaso o termo éevocado efuncionacomo suporteanafórico ecomo refrão.

Fig.IV

A palavra poética torna-se slogan,num processo onde lexemas agrupados em módulos curtos, enunciadosritmicamente,prevalecem sobre a estrutura segmentaldo discurso,conforme as tendências aplicadaspelasideologiasdemassado século XX.3O poemadepropagandaassim concebido épensado para

um uso oral,aberto a todasascamadassociaisdo país,dos“brancosde primeira” até aos“indígenas” não assimilados.

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OSTAISEESPERIMENTALISMOFICCIONAL

Uma faceta da grande criatividade do nosso autor,que bem mereceria uma maior atenção dos investigadores,dizrespeito aumacertatendênciaparautilizarsuportesinsólitosparaaprodução deescrita artística.Na década de noventa,aparecem no intercâmbio epistolarcom amigosmaischegadoscuriosos postais de espaços emblemáticos da cidade do Porto,reconvertidos em locais ultramarinos a serem introduzidosem icçõesligadasàatualidadedo tempo.A título deexemplo,vem aquiapresentado o postal escrito desde “A Rep.Popularde Gaia” (ig.V),em Janeiro de 1995,assinado porum apócrifo Abílio ManueldeGuerraJunqueiro edirigido aPiresLaranjeira.4

Fig.V

A estrutura representada é a do Castelo do Queijo,mastodasasindicaçõesreferentesa um espaço bem radicado na paisagem portuense desaparecem,poisuma nova localização é indicada:Fortaleza em Ceilão.Essa informação,geradora de um irónico Verfremdumgseffekt,permite apagarqualquerreferência à

imagem representadaeconvidao leitorafruirdeumaefabulação inspiradanum evento decrónica,avisita do Santo PadreJoão Paulo IIao Sri-Lanka.5

4 DocentedaUniversidadedeCoimbra,responsávelpeladisciplinadeLiteraturasAfricanasdeexpressão Portuguesa. 5 Visita apostólica para a beatiicação do Padre Joseph Vaz,ocorrida em Colombo,no Galle Face Green” a 21 de

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Fig.VI

Uma longa faixa de papel,colada na parte inferiordo postaldesenvolve uma narrativa em verso e anotações.

Transcrição:

a)Versodopostal,àesquerdaefaixadepapel.(fig.VIefig.VII)

FORTALEZAEMCEILÃO

SARILHONOSRILANKA

Ao chegarao SriLanka Oscingaleses*

Não queriam deixaro papapassar E queriam mesmo

Lançá-lo Aoscaimões**

Porhaverinsultado A religião budista E virpediralpista Valeu-lhe

Nacircunstância

*A maioria da população do SriLankaé cingalesa.Numa população de 15 milhões,10 milhõessão cingalesesde

maioriabudistaeminoriacatólica,sendo oscinco milhõesrestantesdereligião hindu eetnia“tamil”.Imagine-seum território em formadeabacateou manga,com aextensão do continenteportuguêsmenoso Minho eTrás-os-Montes. Eram 7 osreinos(erelativamenteavançados)quando Portugalalichegou àcatadeespeciarias,àilha.

**Aliásgavial(Gavialgangeticus)quechegaaatingir7 m decomprido com umaprotuberâncianapartedo focinho o

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Camõesque

Lembrando queosportugas (catolicíssimos

Sebem queferocíssimos) Lograram

Passaralém daTapobrana***

Lhespediu Com bonsmodos Depalanosolhos O joelho porterra Em bom cingalês Com sotaqueaalfama Deixem lápassaro papa Faço-lhepr'aquium epigrama Um vilancete

Umarimacruzada Umarimaemparelhada O quequiserem

Ó genteremotaqueviajaisdeelefante Masdeixaisó passaro papa

E falou

E insistiu o tratantetaletanto Queeleso deixaram passar

Porum buraco ou canto ou recanto Do aeroporto decolombo

Reservado àcandonga

Co'o lombo inteiramentecurvado O sobrolho carregado

Sem poderapostrofar Contrao aborto Contraacontracepção

Contrao casamento dospadres Que

Generosamente

Continuaram acontribuir

***Taprobanaé identiicada com o Ceilão (actualSri-Lanka)masdevera sê-lo também ou,preferentemente,com

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Parao aumento danatalidadeX

Fim!****

Abílio Manuel(há quem me chame de Inácio) de GuerraJunqueiro,o deFreixo (apócrifo)– Jan.95 –

P.S.A revista“Discursos”chegou bem eagradece-se.A propostacapciosadum talProf.Laranjeiraestáaser consideradaemereceráarespostaadequada.

b)Versodopostal,àdireita:(fig.VI)

“Oh essesvenenosorientais!”

(de“A velhicedo PadreEterno”,um livrinho meu quefezapadralhada treparpelasparedes)

“EsseS.Pedro andesdevirar banqueiro”

(idem) asfpass (parcoeur)

Espaço paraafotograia do papa,daqualnão disponho demomento... sorry!

Rep.Pop.deGaia/Jan./1995

XAquilino erailho depadre,Jo Batistaerailho depadree,um amigo meu,daAlemanha,éilho defreiraepastor

alemão (+ oicialainda).

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É interessante salientara evocação de doisdosmaisemblemáticosexponentesda literatura que elevaram aexpansão portuguesaaprotagonistadassuaspoéticas,citando ailhadeCeilão nosseuspoemas, quernaépicado apogeu,cantadapelasLusíadas,quernasfasesdasdialéticasgeradaspelaquestão do Mapa

corderosa,inspiradorado poemaPátria.

A ironia iconoclasta do autorbrinca no io dasaliteraçõescom o nome do bardo da Nação e os crocodilosdasÍndias[Camõesecaimões],com a cidadecapitaldo paísasiático eumaparteanatómica do bispo de Roma,obrigado a aceder de forma quase clandestina ao país do Índico.O uso do termo “candonga”(“decontrabando”)6evocaapereneperteaidealdeVilanovaàÁfrica,apesardelocalizarasua

terranaimagináriana“repúblicaPopulardeGaia”.

Nessa carta panletária a ironia afeta a imagem do intelectualdiplomata que a assina e que fecha a missivaabandonando-seaumaspouco diplomáticasfrasespolémicasdecarizanticlerical.

Nessa mesma ironia,nos relembra Lola Geraldes Xavier,“revela-se um processo ao serviço do desencanto do escritorcontemporâneo” (2008:312),a evidenciara oscilação do autorentre conforto e desconforto dapertençaaumapátriadeinida.A ironiadessacralizadoraque“evocao passado,põeem causa asverdadescomummente aceitese subverte osdiscursosoiciaispossibilitando ao leitora reavaliação das ‘certezas’” (313).Talcomo a ironia trágica do incendiário autor de imagensconstruídascom palavras sinónimasda dore da morte,patentesno Cadernodoguerrilheiro,pertence ao mesmo olharprofundo do africano João-MariaVilanova,último representantedaRepúblicaPopulardeGaia.

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