Nora : do século XIX para uma jornada além do seu tempo: uma perspectiva artística-histórico-cultural para a personagem Nora em Casa de Bonecas de Henrik Ibsen
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(2) JOSÉ EDUARDO DAS NEVES. NORA: DO SÉCULO XIX PARA UMA JORNADA ALÉM DO SEU TEMPO UMA PERSPECTIVA ARTÍSTICA-HISTÓRICO-CULTURAL PARA A PERSONAGEM NORA EM CASA DE BONECAS DE HENRIK IBSEN. Dissertação de Mestrado apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção de título de Mestre em Educação, Arte e História da Cultura.. Orientadora: Profa. Dra. Rosana M.P.B. Schwartz.. São Paulo 2017.
(3) N511n. Neves, José Eduardo das. Nora: do século XIX para uma jornada além do seu tempo: uma perspectiva artística-histórico-cultural para a personagem Nora em Casa de bonecas de Henrik Ibsen. / José Eduardo das Neves. – 2017. 80 f. ; 30 cm.. Dissertação (Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2017. Orientadora: Rosana Maria Pires Barbato Schwartz Bibliografia: f. 76-79. 1. Henrik Ibsen. 2. Casa de bonecas. 3. Perspectiva históricocultural. 4. EAHC. Título. CDD 305.4.
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(5) Aos meus Pais, Lucia Alda Neves e José Antonio Neves, que nos dias de hoje, ainda que com idades avançadas e sem o total domínio da razão, servem-me como norte, sentido e luz para mais este passo em minha vida..
(6) AGRADECIMENTOS. À minha orientadora Rosana Schwartz, pelo apoio e afeto com que abraçou este trabalho, e que em curto espaço de tempo contribuiu para que o mesmo pudesse finalmente alcançar sua maturidade enquanto obra acadêmica. Ao Prof. Dr. Martin Cézar Feijó que esteve comigo no início dessa jornada contribuindo com livros e primeiras reflexões a respeito do tema desta dissertação. À Profa. Dra. Silvana Hooper que também contribuiu com sua orientação num momento crítico e de transição deste processo. À minha banca de qualificação/mestrado Prof. Dr. Carlos Rahal e Profa. Dra. Lúcia Regina Romano, cujas orientações em muito contribuíram para a forma final desta pesquisa. À Michelle Bittencourt, amiga, atriz e psicóloga, grande incentivadora neste percurso, motivando, discutindo e revisando meu texto quando do processo de qualificação. À Natália Peres que me apresentou Tom Zé, o qual me guiou musicalmente nesta obra. À Roberta Carbone por seus preciosos conselhos. Airen Wormhoudt, cujo auxílio foi fundamental para que esta fase final pudesse acontecer de forma serena e objetiva, contribuindo com reflexões, apontamentos e revisão desta obra finalizada. Aos meus professores do curso de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura que em suas aulas provocaram o despertar de minha pesquisa. Ao amigo Prof. Dr. René Piazentin, companheiro de livros e reflexões acerca de Ibsen e sua obra..
(7) “Jovem para Sempre” Que Deus o abençoe e o proteja sempre, Que você sempre ajude os outros E deixe que os outros o ajudem. Que você construa uma estrada até as estrelas E suba todos os seus degraus, Que você permaneça jovem para sempre... Que você cresça e seja justo, Que você cresça e seja autêntico, Que você conheça sempre a verdade E veja as luzes à sua volta. Que você seja sempre corajoso, Que você seja honesto e forte, Que você permaneça jovem para sempre... Que suas mãos estejam sempre ocupadas, Que seus pés sejam sempre ligeiros, Que você esteja bem firme Quando o vento da mudança soprar. Que o seu coração seja sempre alegre, Que a sua canção seja sempre cantada. Que você permaneça jovem para sempre.... Jovem para sempre. (Bob Dylan – “Forever Young”).
(8) RESUMO A presente dissertação discute a personagem Nora Helmer da obra teatral “Casa de Bonecas” de Henrik Ibsen, escrita em 1879, através de um ponto de vista artístico e histórico cultural num viés multidisciplinar, onde o desenvolvimento da personagem na referida obra aponta para um diálogo entre o Século XIX e a contemporaneidade, contribuindo na ilustração das ações das mulheres na construção de seu devir histórico.. Palavras-chave: Henrik Ibsen, Casa de Bonecas, Perspectiva Histórico-Cultural, EAHC. ABSTRACT The present dissertation discusses the character Nora Helmer of Henrik Ibsen’s play “Doll’s House”, written in 1879, through an artistic and cultural history point of view, in a multidisciplinary bias, where the character development in the mentioned work points to a dialogue between the Nineteenth Century and contemporaneity, contributing in the illustration of women’s actions in the construction of hers historical becoming.. Keywords: Henrik Ibsen, House of Dolls, Cultural History Perspective, EAHC.
(9) SUMÁRIO. APRESENTAÇÃO............................................................................................... 09 CONSIDERAÇÕES INICIAIS............................................................................ 18 1. RUMO AO SÉCULO XIX............................................................................... 28 1.1 A Noruega e a Vida de Ibsen........................................................................... 36 2. A CLASSE MÉDIA DO SÉCULO XIX: SOCIEDADE, FAMÍLIA E CULTURA............................................................................................................ 41 2.1 O Feminino em Ibsen...................................................................................... 49 3. CASA DE BONECAS....................................................................................... 54 3.1 Nora: A Jornada para além de seu tempo......................................................... 60 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................ 67 EPÍLOGO.............................................................................................................. 73 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................. 76.
(10) 9. APRESENTAÇÃO. A presente dissertação surgiu de um curso ministrado por mim que não só abordava o teatro na Europa do século XIX, como as várias “Europas” antes e depois do referido século. Intitulado História do Teatro Ocidental: um olhar feminino, era abordada toda a história do teatro ocidental enfatizando as mulheres nela envolvidas: Clitemnestra, Electra, Jocasta, Helena, Hécuba, Cassandra e Medéia serviram de ponto de partida para um estudo comparativo da história do teatro que contrapunha um possível “discurso feminino” diante de um “discurso masculino”. Na época, em parceria com a Universidade Aberta do Tempo Útil (UATU-Mackenzie), foi possível compartilhar com as alunas (em sua maioria), uma trajetória que mostrava um percurso que parecia indicar uma vigorosa trajetória histórica da mulher, a despeito da dominação histórica patriarcal. A cada obra que no tempo avançava, a personagem feminina indicava um repertório rico quanto “a fala social” de cada época e as atitudes das mulheres indicavam avanços sociais, enquanto os homens pareciam permanecer escravos perpétuos de um discurso uníssono, sem vida, sustentado pela força bruta e pela confortável condição social que o próprio patriarcalismo lhe conferira. Jasão reforça esta tese quando diz a Medéia:. Vós, mulheres, supondes ter tudo; se, porém surge algum contratempo no matrimônio, das melhores e mais belas relações fazem as mais hostis. Deviam os mortais gerar filhos de outra maneira, e não existir o sexo feminino. E assim não haveria mal para os homens. (...) Não continuemos a questionar sobre isto. Mas, se algum auxílio queres dos meus haveres, para os filhos ou para tua partida, fala, que eu estou pronto a dar com mão liberal, e a mandar senhas aos amigos que, te hão de receber bem. E, se não o quiseres, é loucura, ó mulher – cessando a tua cólera, ganharás mais. (MOLINA, 2011, p.12).. Jasão chama de contratempo o fato de ser pai de dois filhos com Medéia e ter planos para casar-se com a filha de Creonte, sem que deixe de forma clara a relação com Medéia. Para o homem grego basta o desejo que a ação se faz. Em 1879 ao escrever “Casa de Bonecas”, Henrik Ibsen, aproximadamente 2500 anos depois que Medéia mata seus dois filhos para vingar-se de Jasão, nos presenteia com a personagem Nora Helmer. Ela decide desistir de seu casamento, deixando sob a tutela do marido, os três filhos que tivera com ele. A mulher Nora não necessita vingar-se, não necessita punir, não necessita subjugar seu marido ou matar seus filhos como Medéia entendeu ser necessário. Para ela é imperioso.
(11) 10. conhecer-se, encontrar seu lugar numa sociedade que chega ao final do século XIX desejosa de remodelar-se para um novo milênio. E, ao se remodelar para este novo milênio, se faz necessário trazer à discussão os discursos e anseios que estão pulsantes neste corpo feminino, neste corpo-Nora. Schwartz (2014) afirma que o entendimento do corpo como um documento que conecta a sociedade com seus valores, comportamentos, visões de mundo e expressões tanto culturais quanto de comunicação se torna causa de inquietação e indagações desde tempos remotos. A autora entende este corpo – e, o que é feito dele – uma importante chave para compreender os movimentos históricos e culturais, pois ele se torna expressão do passado e presente através dos discursos, imagens e representações que circundam uma determinada sociedade. Deste modo, claramente as relações de gênero estarão marcadas pela relação entre estes corpos masculinos e femininos. A mulher Nora não levanta nenhuma bandeira feminista, não deseja liderar nenhum movimento social. Ibsen cria a personagem para que dentro da própria sociedade possa agir como provocadora de uma crítica social que apontava para aqueles que consumiam suas peças – o público de teatro da sociedade europeia de seu tempo. Sucessivas “Noras” existiam como ideal feminino de esposa, mãe e filha. Obediente ao pai, respeitosa ao marido e zelosa com o filho, cabia à mulher da época seguir a cartilha que lhe fora entregue, como o bastão é passado de mão em mão por corredores olímpicos. Pegue, Nora! Corra, Nora! Não olhe para trás, não pense, corra Nora, corra! Porém, é na compreensão deste ideal feminino de esposa, filha e mãe que permaneceu através dos séculos que reside uma parcela desta discussão. Duarte (2006) faz uma diferenciação entre os termos de ruptura e permanência. Segundo ele, somente pode-se justificar uma oposição conceitual entre estes termos sob o ponto de vista analítico. Enquanto a ruptura indica uma descontinuidade, uma mudança súbita de acontecimentos e valores estabelecidos em uma determinada época, ela só se dará sob o pano de fundo das permanências. Ou seja:. (...) é sobre o eixo temporal da continuidade dos processos estudados que se pretende identificar e assinalar as rupturas. Uma não existe sem a outra: dialeticamente unidas, ruptura e permanência constituem um mesmo movimento, através do qual se opera a transformação dos processos em curso e que equivale, em última análise, ao próprio movimento da História. (DUARTE, 2006, p.27).. O autor vai mais além, afirmando que nos períodos de transição entre estes dois polos experimenta-se a sensação de viver em dois mundos simultâneos: “uma transição entre o que.
(12) 11. já foi e o que ainda não é. Aquilo que se encontra em processo de superação, se opõe e resiste ao novo que se anuncia”. (p.27). Ao se pensar nesta mulher do século XIX, inevitavelmente a associamos à cultura “agridoce” do lar, nos dizeres de Peter Gay (2002), historiador nascido em Berlim e professor emérito da Universidade de Yale (EUA). A representação do feminino estava inevitavelmente ligada ao seu papel de figura materna, que garantia a perpetuação da família calcada nos ideais e valores de uma sociedade patriarcal. O autor ainda cita as palavras da feminista inglesa Frances Power Cobb (1868) que, segundo ele, com amargura e exatidão descrevia a legislação de seu país que garantia que as mulheres se encontrassem essencialmente na mesma categoria dos menores, criminosos e idiotas. Esta manutenção da figura da mulher perante sua sociedade, tornando-a minorizada ante os homens e restrita somente ao seu papel de fêmea-esposa-mãe-filha, também é descrita ironicamente nos dizeres do historiador alemão Heinrich von Sybel: “(...) as mulheres eram perfeitamente capazes de fazer o trabalho dos homens, mas os homens não conseguem realizar o trabalho das mulheres; portanto, a coesão social exige que estas últimas continuem a fazer aquilo que até hoje fazem tão admiravelmente bem” (GAY, 2002, p.69).. E voilà! O estado silencioso da permanência deste admirável papel feminino que também atinge Nora Helmer é garantido! Nora, na medida em que os conflitos de sua vida na obra “Casa de Bonecas” vão se agudizando, vai tomando conhecimento, criando uma consciência de algo que não se encaixa, ou está mal encaixado em si mesmo, culminando com suas próprias reflexões que geram o desfecho final de sua personagem em conversa com seu marido, Torvald Helmer:. (...) Você nunca me compreendeu. Tenho sido tratada muito injustamente, Torvald; primeiro por papai, e depois por você. (...) Vocês jamais me amaram, apenas lhes era divertido se encantar comigo. (...) quando eu estava em casa, papai me expunha suas ideias, e eu as partilhava. Se acaso pensava diferente, não o dizia, pois ele não teria gostado disso. Chamava-me sua bonequinha e brincava comigo, como eu com as minhas bonecas. Depois vim morar na sua casa. (...) Quero dizer que das mãos de papai passei para as suas. Você arranjou tudo ao seu gosto, gosto que eu partilhava, ou fingia partilhar, não sei ao certo; talvez ambas as coisas, ora uma, ora outra. Olhando para trás, agora, pareceme que vivi aqui como vive a gente pobre, que mal consegue ganhar o seu sustento. Vivi de gracinhas que fazia para você, Torvald; mas era o que lhe convinha. Você e papai cometeram um grande crime contra mim. Se eu de nada sirvo, a culpa é de vocês. (IBSEN, 2007, p.95-96)..
(13) 12. Ibsen foi autor de minorias1, embora não estivesse focado em defender politicamente as causas que suas obras levantavam, estava interessado em falar da condição do ser humano, do indivíduo em relação a sociedade e suas idiossincrasias. Repetidas vezes reiterava seu interesse em averiguar a condição humana de seu tempo, de sua sociedade norueguesa e do homem europeu em geral. Suas personagens vão além do bem e do mal, debatem-se em conflitos existenciais à medida que a sociedade avança, colocando em xeque o próprio condutor destes avanços: o homem. Stella Adler (2002) pontua que para Ibsen, somente uma minoria estreita da sociedade era caracterizada como “Realista”, conhecia a verdade em que vivia e ansiava por mudanças. Esta fatia lutava contra a maioria e, deste modo, era encarada como traidora da sociedade. Hoje, sob a luz do século XXI, os dramas vividos pelas personagens Ibsenianas são atormentadoras para o homem: questões éticas, sociais, morais, religiosas, econômicas ainda não foram resolvidas. Ao contrário, acentuaram-se na medida em que o homem se viu diante de suas próprias construções. A questão do feminino foi somente uma das muitas questões abordadas por Ibsen. Naquele momento, no final do século XIX, se fez necessária para ele a discussão da tomada de consciência da mulher diante das leis, da moral, das crenças religiosas e dos costumes da época. Ao se colocar em foco o modelo de pensamento cristão que acometia a Noruega Ibseniana, não se pode deixar de falar no modelo feminino levado à regra, qual seja, baseado em uma estrutura patriarcal e maniqueísta que trazia em si representações ligadas aos arquétipos2 de Eva e Maria, por exemplo. De acordo com Schwartz (2014), como o corpo de 1. Por minorias entende-se as classes minorizadas que se encontravam subjugadas pelos paradigmas vigentes das classes dominantes de sua época. Schwartz (2003/2004) em seu artigo “Perspectivas de Análises Históricas” discorre que somente no cotidiano de uma sociedade é que se pode assegurar a permanência do social. É lá que jaz o conflito entre o individual e o social, o lugar de combate que irá se quebrar preconceitos. A autora, ainda, recorre a Maria Izilda S. Matos (2006) ao pontuar que ao se deslocar o olhar sob a lente da História Social, “abrese possibilidades para a investigação das ‘histórias de gente sem história’, com a preocupação de recuperar diferentes verdades, olhares e promover a descentralização dos sujeitos históricos, trazendo à tona temáticas sobre os movimentos sociais e personagens como as mulheres, cujas identidades foram ignoradas ou somente mencionadas de passagem pela história política ‘evenementielle’, centrada nas relações causais e nos estudos das elites”. (MATOS apud SCHWARTZ, 2003/2004, p.123). 2 Por arquétipos entende-se o conjunto de “imagens primordiais” originadas de uma repetição progressiva de uma mesma experiência durante muitas gerações, armazenadas no inconsciente coletivo. É um termo utilizado pelo analista Carl Gustav Jung, que foi inicialmente, discípulo de Freud. Jung aludia para a questão de que muitas vezes os arquétipos era mal compreendidos e ficavam restritos na esfera das representações conscientes, expressando-se somente por imagens ou motivos mitológicos definidos. Para ele, “o arquétipo é uma tendência para formar estas mesmas representações de um motivo – representações que podem ter inúmeras variações de detalhes – sem perder a sua configuração original. (...) O arquétipo é, na realidade, uma tendência instintiva, tão marcada como o impulso das aves para fazer seu ninho ou das formigas para se organizarem em colônias. (...) Chamamos instinto os impulsos fisiológicos percebidos pelos sentidos. Mas, ao mesmo tempo, estes instintos podem manifestar-se como fantasias e revelar, muitas vezes, a sua presença apenas através de imagens simbólicas. São a estas manifestações que chamo arquétipos” (JUNG, 1977, p.67-69)..
(14) 13. Eva surgiu da costela de Adão, esta é considerada dependente do homem. Em função da tentação que provocou em seu companheiro ao se alimentar do fruto proibido, tornou-se menos confiável e suscetível a desregramentos e rebeldia. Em oposição a esta figura, a autora prossegue pontuando sobre a figura de Maria – a Virgem pura, casta e dedicada. Deste modo, o comportamento masculino se pautava, conscientemente ou não, por este viés ao assumir seus papéis enquanto pai, irmão ou marido. No início de sua trajetória, Nora estava pautada dentro dos ideais de pureza e dedicação ao lar, uma figura de Maria devotada ao seu esposo e filhos. Com o desfecho de sua história, Maria vai cedendo lugar aos impulsos de Eva: à medida em que vai transitando entre sua vida de bonecas e uma realidade que se revela silenciosamente, vai comendo seus caramelos tal qual o fruto proibido. Eva a leva aos portões de saída do pseudoparaíso vivido com Torvald Helmer. Eva a conduz para mergulhar profundamente em si mesma e, desta maneira, romper com seu próprio estado de permanência. É importante salientar que concomitantemente com a trajetória de Ibsen, Sigmund Freud (1856-1939) dava início em 1896 à psicanálise (psico-análise): “método particular de psicoterapia (ou tratamento pela fala) proveniente do processo catártico (catarse) de Josef Breuer e pautado na exploração do inconsciente”. (ROUDINESCO e PLON, 1998, p.602). Porém, um ano antes, em 1895, Freud publicava sua obra em conjunto com Josef Breuer intitulada “Estudos sobre a Histeria3”. Considerado o livro inaugural da psicanálise, ele discorre sobre conflitos psíquicos inconscientes que se exprimem de maneira teatral e sob a forma de simbolizações através de sintomas corporais. Para efeito de entendimento, haja visto que o presente trabalho não pretende se aprofundar na teoria psicanalítica, Freud teorizou duas principais formas de histeria:. (...) histeria de angústia, cujo sintoma central é a fobia, e a histeria de conversão, onde se exprimem através do corpo representações sexuais recalcadas. A isso se acrescentam duas outras formas freudianas de histeria: a histeria de defesa, que se exerce contra os afetos desprazerosos, e a histeria de retenção, onde os afetos não conseguem se exprimir pela ab-reação4. (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 337).. Roudinesco e Plon (1998) afirmam que a histeria permaneceu não somente como a doença que inaugura a teoria psicanalítica, como também, a que permitiu um novo olhar sobre. 3. Histeria, palavra derivada do grego hystera que significa matriz, útero. Termo introduzido por Sigmund Freud e Josef Breuer em 1893 para definir um processo de descarga emocional que, liberando o afeto ligado à lembrança de um trauma, anula seus efeitos patogênicos. (ROUDINESCO e PLON (1998, p. 03). 4.
(15) 14. a feminilidade, haja visto que remetia aos sofrimentos psíquicos das burguesas ricas 5 da sociedade vienense – sociedade povoada por muitas mulheres que se sentiam excluídas.. As histéricas podem ser consideradas mulheres que ousaram tomar o palco cotidiano para mostrar sua condição de vida. Talvez tenha sido essa a grande descoberta de Freud: as mulheres de carne e osso. (MOLINA, 2011, p.24).. São estas mulheres retratadas por Molina (2011) que se encaixam no perfil também delineado por Peter Gay (2002) quanto ao ideal da moça vitoriana ser um anjo assexuado em função de inconfessada ansiedade. De acordo com o autor, os instintos primários (incluindo os femininos) são desinibidos e insaciáveis em seu estado primitivo, sendo a sua transformação em satisfação civilizada e afável parte do treinamento moral para os burgueses respeitáveis: “os vitorianos acreditavam firmemente naquilo que os psicanalistas chamam de sublimação, conversão do impulso erótico em atividade artística, intelectual ou artesanal” (p. 101). Kraft-Ebbing (1890), psiquiatra alemão reitera este ponto de vista vitoriano ao afirmar que o pouco interesse das mulheres nas atividades sexuais é consequência de seus processos físicos e não fruto de restrições sociais: “se ela tiver um desenvolvimento mental normal e for bem-educada, seu desejo sensual será reduzido”. Se as mulheres não fossem passivas, se não fossem submissas, “o mundo inteiro seria um bordel e o casamento e a família seriam impensáveis”. (GAY, 2002, p. 104). Ainda no século XIX encontra-se uma preocupação maior por parte da medicina em enfocar as diferenças corporificadas entre masculino e feminino. Matos (2007) pontua que o processo de urbanização em ávido crescimento nesta época histórica em conjunto com o processo de industrialização fez com que os corpos adquirissem um novo entendimento. Deveria-se focar num perfil homogêneo e hegemônico de masculinidade e feminilidade. Neste prisma, Igreja, Estado e Medicina convergiam interesses a fim de disciplinar os corpos de mulheres e homens. Os discursos médicos explicitavam aspectos de normatização de um imaginário social urbano em transformação, ordenando e classificando o real por meio de categorias que se transformaram em universais e em exemplo de objetividade e racionalidade, impondo uma ordem dualista, com rígidas classificações, que desembocavam no binômio permitido/proibido, na desqualificação de uns e na supremacia de outros (MATOS, 2007, p. 17).. 5. Aquelas que possuíam meios para frequentar os consultórios psicanalíticos e, assim, tornar público suas angústias e ansiedades..
(16) 15. Deste modo, as mulheres por se enquadrarem num perfil fisicamente débeis em função de seus processos naturais de menstruação e gravidez deveriam ser protegidas dos perigos públicos, e, portanto, teriam de depender física e economicamente do homem e ser por ele tuteladas. Já a ele caberia a esfera pública assumindo a figura de um indivíduo forte que imporia o desenvolvimento da civilização urbana a partir de sua agressividade e inteligência, relegando à mulher o papel de perpetuar essa civilização por meio da maternidade, haja visto sua natureza passiva e fecunda. (MATOS, 2007). É neste cenário vitoriano criado de “natureza passiva e fecunda” para o corpo-mulher que surgem os primeiros casos de histeria que foram documentados. Ida Bauer ou “Caso Dora” como ficou mundialmente conhecido, foi o primeiro grande tratamento psicanalítico realizado e documentado por Sigmund Freud, nos idos de 1900. Dora era então uma jovem virgem de 18 anos que apresentava quadro de dispneia, dificuldade de respirar em caráter asmático, afonia, crises de apendicite pélvica que lhe resultou em sequelas na perna direita (passou a arrastar o pé direito) e episódios de nevralgia facial. (BORCH-JACOBSEN, 2011). Dezenas de artigos, diversos livros, uma peça teatral e um romance foram criados a partir desta experiência documentada por Freud. Roudinesco e Plon (1998) afirmam que o Caso Dora é um drama burguês, tal como encontrado nas comédias ligeiras do final do século XIX e que a entrada de Freud em cena o transforma numa verdadeira tragédia do sexo, amor e doença, assemelhando-se a um romance moderno digno de Arthur Schnitzler ou até mesmo Henrik Ibsen:. Um marido fraco e hipócrita engana sua mulher; uma dona de casa ignorante, com a esposa de um de seus amigos, conhecida numa temporada de férias. A princípio enciumado, depois indiferente, o marido enganado tenta, de início, seduzir a governanta de seus filhos. Depois, apaixona-se pela filha de seu rival [Ida Bauer] e a corteja durante uma temporada em sua casa de campo. Horrorizada, esta o rejeita pespega-lhe uma bofetada e conta a cena a sua mãe, para que ela fale do assunto com seu pai. Este interroga o marido da amante, que nega categoricamente os fatos pelos quais é recriminado. Preocupado em proteger seu romance extraconjugal, o pai culpado faz com que a filha passe por mentirosa e a encaminha para tratamento com um médico que, anos antes, prescrevera-lhe um excelente tratamento contra sífilis [Freud]. (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 51).. De acordo com os relatos de Freud, Ida Bauer ao longo de suas sessões mergulhou progressivamente em sua introspecção, “nas profundezas de uma subjetividade que se oculta de sua consciência” (p.51). Ela optou por interromper seu tratamento conforme Freud avançava.
(17) 16. em suas análises e associava a bofetada dada no homem que a assediava com seu desejo inconsciente por ele. Em sua narrativa sobre o fato, Freud escreveu:. (...) em seguida voltou e, em vez de sair pela porta aberta, estreitou subitamente a moça contra si e depôs-lhe um beijo nos lábios. Era justamente a situação que numa mocinha virgem de quatorze anos, despertaria uma nítida sensação de excitação sexual. Mas Dora sentiu naquele momento uma violenta repugnância, livrou-se do homem e passou correndo por ele em direção à escada, daí alcançando a porta da rua. (...) O comportamento dessa menina de quatorze anos já era totalmente histérico. Eu tomaria por histérica, sem hesitação, qualquer pessoa em quem uma oportunidade de excitação sexual despertasse sentimentos preponderante ou exclusivamente desprazerosos, fosse ela ou não capaz de produzir sintomas somáticos. (FREUD, 1996, p.1718).. Este pensamento de Freud coaduna com os parâmetros de pensamento propostos pela sociedade vitoriana acima mencionado – um estado de permanência que apesar de propor voz ativa ao feminino, ainda se mostrava descrente com relação aos seus desejos e vontades: como uma jovem de quatorze anos sente desprazer ao ser desejada? Obviamente o legado da psicanálise ainda estava sendo construído, assim como o manejo psicanalítico de Freud para lidar com as vozes das mulheres que preencheriam seu consultório. Ele mesmo admite que o Caso Dora não foi um caso em que obteve o sucesso desejado e, apesar da mentalidade da época, no decorrer de sua análise conseguiu encontrar os gatilhos emocionais para os sintomas de Ida Bauer. Para a presente dissertação, o importante é salientar o viés pelo qual estas mulheres de “carne e osso” conforme apontadas por Molina (2011) passaram a dar vazão à sua singularidade e subjetividade, aos seus corpos inseridos num contexto histórico e social. Hoje, aos olhos de nosso tempo, vemos mulheres que são “ouvidas” e, por isto, começam a falar sobre sexualidade, desejos e sonhos, passam a ter “voz” no “corpo” de carne e osso. Ibsen dá voz a Nora, e assim passa-se a conhecer os motivos que muitas mulheres da época tiveram para buscar novas soluções para suas questões e necessidades pessoais..
(18) 17. Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mas do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo. (AGAMBEM, 2009, p.58-59 )..
(19) 18. CONSIDERAÇÕES INICIAIS. Muito se escreve ainda hoje sobre Ibsen. Muito se encena Ibsen ainda hoje. Realista, naturalista, impressionista, simbolista e modernista são algumas das definições dadas às suas obras. (VOLOBUEF, 2008). Nelas, suas ideias de espírito humano na busca de seus direitos contra as adversidades do ambiente que o cerca, dos coletivos sociais e da hipocrisia legal surgem representadas de diversas maneiras. Bjørn Hemmer (1994, p.68) nos situa quanto aos ideais de Ibsen ao mencionar que em 1871 o crítico dinamarquês Georconsiderg Brandes, mobilizado por uma carta recebida de Henrik Ibsen, escreve um poema cujo conteúdo descreve o momento em que se encontram e, segundo ele, somente quando os intelectuais lançassem sua revolta conseguiriam romper com as forças hipócritas e autoritárias em que a sociedade se encontrava: (...) ele levantou a bandeira da liberdade e do progresso com os dizeres: “a verdade e a liberdade são uma e a mesma coisa”. Conforme os anos se seguiram, Ibsen levantou esta mesma bandeira revolucionária – com a verdade e a liberdade sendo palavras-chave de seu discurso. Posteriormente, esses conceitos soariam abstratos e ambíguos; entretanto, no contexto histórico serviram como grito de guerra na luta contra a situação prevalecente. Somente a “Verdade” – verdade da nova era como Brandes e Ibsen a enxergavam – poderia alcançar a libertação. Sem verdade não poderia haver nenhuma possibilidade, nenhuma liberdade genuína. Esta foi a base ideológica para o quarteto de peças sociais realistas que Ibsen publicou nos anos de 1877 a 1882.6. Deste modo, os personagens de Ibsen sejam protagonistas, ou coadjuvantes, lutam contra todo um coletivo social e buscam na sua luta o encontro da ética e da moral, mesmo que para isso, transgridam a própria ética e a moral de uma época. De aspectos trágicos transitam entre o bem e o mal. Em seu trabalho, muito além de criar personagens, ele imaginava as condições e eventos os quais pessoas comuns7 contribuíam com descobertas acerca do comportamento humano e,. (…) he raised the banner of freedom and progress with the words: “truth and freedom are one and the same”. Time after time in the years that followed, Ibsen was himself to raise this same revolutionary banner - with the truth and freedom as the central watch-words. In later years these concepts could sound both abstract and ambiguous; nevertheless, within their storical context, they served as a battle cry in the struggle against the prevailing situation. “Truth” alone - that truth of the new age such as a Brandes and a Ibsen saw it - could achieve liberation. Without truth, there could be no chance, no genuine freedom. This was the ideological basis for that quartet of realistic social plays which Ibsen publish in the years of 1877 and 1882. 6. 7. Em entrevista sobre Henrik Ibsen, a diretora do Festival Ibsen 2006 em Oslo, Ba Klemetsen, disse que o autor “cria um universo próprio que transcende o tempo e o espaço. E nesse universo fala às pessoas comuns, com problemas comuns e segredos comuns. A forma como o descreve abre-nos os olhos para.
(20) 19. ao serem observadas coletivamente, permitiam sua amplificação e consolidação como hipótese (JOHNSEN, 2011). É preciso ter em mente que o século de Ibsen, século XIX, foi marcado por revoluções em vários países (Alemanha, Itália, Hungria e França). Os ideais da Revolução Francesa já se mostraram perversos na prática e a Europa se encaminha para duas grandes guerras no século XX. O próprio Ibsen denuncia sua decepção:. Liberdade, Igualdade e Fraternidade não são mais o que eram no tempo da defunta guilhotina. Os políticos se obstinam em não compreender e é esse o motivo pelo qual eu os odeio. Querem revoluções particulares, revoluções de superfície, de ordem política, etc. Tolice tudo isso. O que importa é a revolta do espírito humano. (IBSEN, 1976, p.13-14).. Neste viés, todo o material proveniente de sua escrita nos fornece um retrato do momento histórico, da Noruega de Ibsen: uma época em que não havia dramaturgia nacional e a tradição teatral europeia estava agonizante, calcada num modelo de drama romântico, feitos para serem lidos e não encenados. Anteriormente às suas peças, sempre era possível ao espectador classificar quem era o herói e identificar-se com ele. Porém, conforme Adler (2002, p.20) pontua, Ibsen transforma este universo da literatura que se apoiava nas heranças do romantismo:. (...) [ele] abriu inteiramente o drama, sendo esta a maneira mais poderosa de se fazer uma declaração necessária. Era tempo de encontrar uma maneira mais eficaz, e foi Ibsen quem a descobriu. (...). Não há escritor importante, depois de Ibsen, que não utilize seu senso de artesanato e sua habilidade para analisar o caráter humano. Pois é o caráter humano que encontramos em suas peças.. Este caráter humano é ilustrado com maestria em sua obra “Casa de Bonecas”, na qual a personagem Nora Helmer transita de um estado de “inanição” pessoal, sobre o seguro abraço de seu casamento com Torvald Helmer para uma tomada de consciência da necessidade de estudar a si mesma. Neste caso, Nora representa uma mulher que para os padrões da época toma uma atitude impensada. O abandono do lar, marido e três filhos pela busca de conhecer-se a si mesma. A situação de Nora ilustra, conforme Bjørn Hemmer (1994), o padrão central dos dramas realistas de Ibsen: o indivíduo em oposição a uma sociedade hostil.. os dilemas da vida”. E a vida, lembra o dramaturgo, a vida real “é o que sentimos”, nota Klemetsen. (...) “Ibsen chega ao nosso coração e torna-se parte de nós, se o deixarmos entrar”..
(21) 20. Imediatamente após ser apresentada, esta obra suscitou na Europa severas críticas e manifestações explícitas de apreço. Essa dualidade em si, além de fornecer uma polêmica substancial a questões femininas na sociedade, atesta quanto a seu conteúdo, a capacidade de interagir com o humano, comunicando, expressando, e concomitantemente, lança um olhar histórico ao seu próprio tempo. Desta forma, se eterniza como obra de arte na medida em que possibilita diversas interpretações, roupagens e discussões dentro de um olhar estético a cada momento que é encenada e assim, dialeticamente, a cada apresentação fornece um ponto de vista crítico daquele que a produz e daquele que a analisa, pois, conforme Kuspit (2010), uma obra de arte deve ser aquela que fala a sua existência não apenas a si mesma, mas que leva em consideração o ponto de vista sobre sua própria existência. Movido pela repercussão da obra, Ibsen cuidou de escrever outro final para “Casa de Bonecas” em 1880 onde Nora não abandona o lar, a fim de evitar que seu texto fosse mutilado por outrem e, em 1881, escreve uma peça espelho, “Os Espectros”, onde seu desenrolar aponta para a possibilidade do mesmo final da personagem Nora, porém, este não acontece – o que não determina uma melhor relação social de suas personagens, ao contrário, enfatiza o trágico do ser humano ao ser impedido de buscar conhecer-se a si mesmo. Nessa preocupação com a necessidade de se rebelar do homem, Ibsen criará em suas obras uma gama de personagens que representam essa busca, que se revolucionam, que se agitam ante o que lhes oprime. Observa-se que esta luta não se dá na esfera pública – ainda que política – mas sim dentro dos ideais pessoais de cada personagem. As questões em que as personagens de Ibsen são confrontadas levam-nas a busca de uma própria revolução pessoal ante a sociedade do século XIX. A partir da documentação detalhada deste período, Peter Gay (2002) introduz a questão da grande ansiedade que permeava as camadas sociais e como esta ansiedade estava intrinsicamente ligada a esta necessidade de rebelar-se do homem vitoriano. Para ele, este estado interno possuía um subtexto tão elementar quanto banal – a mudança:. Os historiadores consideram um lugar-comum dizer que o passado é um duelo entre permanência e mudança. A mudança individual ou cultural grava suas marcas sobre um terreno de permanência. No passado, porém, a grande maioria da humanidade deve ter percebido a permanência como sua principal realidade. (GAY, 2002, p. 160).. Deste modo, ao investigar os movimentos histórico-culturais do referido século, podese observar uma gama de manifestações artísticas decorrentes de uma efervescência de pensamentos e movimentos que levaram ao processo de entendimento do sujeito.
(22) 21. contemporâneo que caminha para o século XX: a noção de indivíduo como entidade independente. Garcia e Coutinho (2014) traçam o caminho da concepção de indivíduo mapeando o campo teórico relativo a este conceito. Segundo as autoras, falar sobre o individualismo pressupõe o entendimento de diversas questões: as raízes do paradigma individualista oriundas tanto no romantismo quanto no iluminismo, que remetem ao humanismo e racionalismo renascentista ao se pensar sob o ponto de vista filosófico; e sob o ponto de vista das transformações sociais ao considerar a manifestação da ideologia moderna instaurada pela cultura individualista do Ocidente, sendo seus aspectos econômicos, políticos e religiosos fruto da Revolução Francesa:. A ideia do homem como centro do universo, que usufrui de autonomia do espírito, liberdade da razão e exercício da vontade, é central na passagem do mundo medieval ao mundo moderno, e torna possível a afirmação do indivíduo como princípio e valor. O indivíduo moderno reúne traços iluministas e românticos na medida em que é definido sobretudo pela razão e pela vontade humanas, diferenciando-se bastante do indivíduo pré-moderno, orientado fundamentalmente por uma ordem transcendente. (GARCIA e COUTINHO, 2014, p.127).. Os demais questionamentos que surgiram no decorrer do século XIX com as investigações de Darwin, Marx e Freud abriram espaço para a exploração de novos territórios deste indivíduo. A teoria evolucionista de Charles Darwin (1809-1882) enfoca dois conceitos muito simples: a variação genética e a seleção natural. Conforme Scarr (1993), a seleção vai atuar sobre fenótipos8 individuais que irão contribuir para a próxima geração, afetando assim, os genes de maneira indireta. Sem variação genética não há evolução. De acordo com a autora o princípio central da teoria é que em populações reprodutoras a frequência genética somente muda de geração para geração em função do ambiente que cerca estes indivíduos e, portanto, influenciam seu sucesso reprodutivo.. A próxima geração se assemelha mais aos criadores bem-sucedidos e criadores da geração precedente porque seus genes são mais frequentes na geração descendente. As mudanças geracionais nas distribuições de genes levam a mudanças na distribuição do fenótipo comportamental através das Fenótipo é o “conjunto dos caracteres que se manifestam visivelmente em um indivíduo e que exprimem as reações de seu genótipo, diante das circunstâncias particulares de seu desenvolvimento e em face de seu meio”. (CIVITA, 1999, p.427). Por genótipo se entende o “conjunto de fatores hereditários que conferem aos indivíduos seus caracteres transmissíveis; conjunto de genes dos indivíduos” (Idem, p.464). 8.
(23) 22. histórias das espécies. A seleção comportamental genética pode prosseguir muito rapidamente, de uma a quatro gerações, e produzir mudanças importantes nas distribuições dos fenótipos, como agressividade e atividade, que também estão abertas à variação no momento das experiências. A variação no desenvolvimento comportamental depende, então, das distribuições genotípicas, das oportunidades ambientais e do momento das experiências. (SCARR, 1993, p.1334).9. Seguindo esta linha de pensamento, Peter Gay (2002) aponta que no século XIX, os mais tendenciosos a Darwin confirmaram a aspereza em política, negócios, diplomacia e política social:. A assistência filantrópica aos pobres, doentes, débeis mentais e idosos não era mais do que uma ilusão humanitária sentimental! Ideólogos severos interpretaram a evolução darwiniana como dando apoio à tese de que as guerras entre as grandes potências ou entre raças diferentes são predeterminadas (p. 118).. Já a teoria elaborada por Sigmund Freud – fundador da psicanálise, conforme dito anteriormente – vai trazer para a sociedade novas concepções acerca do ser humano que extrapolavam a maneira pela qual a sociedade estava acostumada a lidar com os problemas decorrentes do funcionamento de seu psiquismo. Em “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, livro publicado por ele em 1921, rejeitou a distinção clássica entre a psicologia individual e a psicologia das massas. Segundo ele, há sempre um outro – seja ele modelo, objeto ou rival – na vida psíquica do indivíduo e, consequentemente, o entendimento do psiquismo individual é sempre social. Diz, ainda, que as relações amorosas constituem a essência da alma das massas e direciona seu olhar para os líderes desta.. (...) uma massa organizada é produto de um processo duplo: por um lado, da instalação, por diversos indivíduos, de um mesmo objeto externo no lugar de seu ideal de eu. (...) por outro, da identificação recíproca entre esses mesmos indivíduos (...) assimilados por Freud a um vínculo amoroso cuja dimensão sexual teria sido sublimada. (ROUDINESCO e PLON, 1998, p.614). 9. “The next generation more closely resembles the successful breeders and nurturers of the preceding generation, because their genes are more frequent in the offspring generation. Generational changes in gene distributions lead to changes in behavioral phenotype distributions across specie’s histories. Genetic behavioral selection can proceed very rapidly, over one to four generations, and produce important changes in phenotype distributions, such as aggression and activity, which are also open to variation in the timing of experiences. Variation in behavioral development depends, then, on genotype distributions, environmental opportunities, and the timing of experiences”..
(24) 23. Nestes termos, o psicanalista passa a apontar um caminho que vai da análise de um indivíduo para a compreensão de sua sociedade. Já os ideais propostos por Karl Marx (1818-1883) iam ao encontro da necessidade de revolucionar a sociedade burguesa vitoriana. Um dos pontos de sua teoria residia na crítica radical do capitalismo, no qual a exploração do trabalhador pela burguesia era predominante. Para Marx, a Educação era parte da superestrutura de controle utilizada pela classe dominante. Como corrente teórica, o “marxismo” – termo que passou a ser utilizado somente após a sua morte – pautou uma maneira específica para análise social de alguns aspectos da sociedade moderna quanto aos conflitos de classe, a organização da produtividade e tinha por objetivo uma radical transformação da ordem socioeconômica. Em 1883, Michel Chevalier10 resumiu em uma frase a visão política de sua época: “Hoje se reconhece universalmente que a classe média governa a França” (GAY, 2002, p.36). Alexis de Tocqueville11 dizia que:. (...) o triunfo da classe média foi definitivo e tão completo que o poder político, todos os privilégios, todas as prerrogativas, o governo como um todo, se viram encerrados, pode-se dizer empilhados nos limites estreitos dessa classe. (GAY, 2002 p.36).. A necessidade por mudanças nessa organização social, de acordo com o pensamento de Marx, só passava a se justificar quando se compreendia a forma como os seres humanos, em um determinado momento histórico, produziam o que lhes era primordial para viver. Somente desta forma é que se poderia compreender a maneira pela qual as classes se organizavam e, consequentemente, as injustiças sociais se sobressaíam (BOTTOMORE, 2001). No decorrer deste século, tudo passou a ser questionado. Stella Adler (2002, p.48) afirma que tudo era questionado, com exceção da moral – sempre a vida social estaria à frente da vida pessoal. Porém, a moral dos indivíduos começava a se fragilizar, tanto quanto sua crença na religião: “O novo homem da história teria de fiscalizar a sua moral. As estruturas sociais desmoronavam por toda a parte”. Ela vai além, sinalizando a nova configuração da família burguesa, fruto de uma sociedade que se tornara competitiva em função da industrialização:. 10 11. Funcionário público, escritor de crônicas de viagens e conselheiro de Napoleão III. Comentarista político do século XIX..
(25) 24. Após a idade da Razão e após Darwin, o espírito do homem ficou dividido. Desse tempo em diante, traduziu o amor a Deus para o amor ao seu vizinho, pelo menos em teoria. Mas viveria numa sociedade altamente competitiva e não podia amar o seu vizinho, porque ele também estava tentando passar-lhe a perna. Não é fácil amar. O marido de classe média não está em paz consigo mesmo. Ele diz que ama seu vizinho, sua família, mas está sob tensão. (...) Entre os deveres que a sociedade e suas instituições exigem está o conformismo. Este resulta em imaturidade e infantilidade. Ibsen diz que não existe nenhuma maturidade quando o dever não é em primeiro lugar para consigo mesmo. (...) Se, no fim de uma peça, o marido diz: “Você não sabe que seu primeiro dever é como esposa e mãe? ”, e a moça responde: “Não, creio que meu primeiro dever é para comigo mesma e depois para com o meu marido e meu bebê”, essa é uma extraordinária mudança na maneira de pensar. (ADLER, 2002, p.44.45).. Mudança esta tão extraordinária que em “Casa de Bonecas”, Nora Helmer inicia claramente sua revolução pessoal ao abandonar marido e filhos. Como personagem, ela é a primeira que, na literatura teatral ocidental da época, sugere no seu íntimo o desejo de mulher em almejar espaço: social, emocional, cultural, individual, para viver numa sociedade que se prepara para um novo século. Nora, no transcorrer do espetáculo, renasce, redescobre, reavalia sua trajetória. De mulher fútil e obediente, esposa submissa, mãe protetora, para uma mulher carente de liberdade e que toma consciência deste fato. Nora não se reconhece como mulher, como mãe e esposa. Nora não se reconhece como alguém e, nesse “espanto”, se reconhece mulher, impelindo-se a rebelar:. HELMER: Como você é injusta, Nora, e ingrata! Não foi feliz aqui? NORA: Nunca. Julguei que sim, mas nunca fui. HELMER: Não foi... nunca foi feliz?! NORA: Nunca; era alegre, nada mais. Você era tão amável comigo! Mas a nossa casa nunca passou de um quarto de brinquedos. Fui sua boneca-esposa, como fora boneca-filha na casa de meu pai. E os nossos filhos, por sua vez, têm sido as minhas bonecas. Eu achava engraçado quando você me levantava e brincava comigo, como eles acham engraçado que eu os levante e brinque com eles. Eis o que foi o nosso casamento, Torvald. HELMER: Descontando o exagero, há alguma verdade no que você diz. Mas para o futuro tudo mudará. O tempo de recreio passou, agora chegou o da educação. NORA: A educação de quem, a minha ou a das crianças? HELMER: Uma e outra, querida Nora. NORA: Ah, Torvald, não, você não é o homem indicado para me ensinar a ser uma verdadeira esposa. HELMER: E é você quem diz isso? NORA: E eu... de que maneira estaria preparada para educar meus filhos? HELMER: Nora! NORA: Não é o que você dizia ainda há pouco... que essa tarefa você não ousaria me confiar? HELMER: Disse num momento de irritação. Você não deve dar atenção a isso..
(26) 25. NORA: Ah, mas você estava absolutamente certo. É uma tarefa superior às minhas forças. Primeiro quero cumprir uma outra. Devo tentar educar a mim mesma. E você não é o homem indicado para me ajudar nessa tarefa. É algo que eu devo empreender sozinha. E para isto eu vou deixá-lo. (IBSEN, 2007, p.96-97).. E, deste modo, levando seus espectadores do século XIX a entrarem em contato com o turbilhão de novos pensamentos que invadiriam a cena do século seguinte e que se faz presente até hoje. No século XX, por exemplo, o universo das personagens femininas do dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues (1912-1980) continua ecoando os resquícios deste discurso masculino que encontramos em Torvald Helmer:. A intuição ficcional levou Nelson a pintar, permanentemente, a frustração feminina, consequência da sociedade machista brasileira. Ele não fez proselitismo, não levantou bandeira das reinvindicações feministas: limitouse a fixar o fenômeno, e o espectador que tirasse suas conclusões. Até em entrevistas o dramaturgo referiu-se ao tema, de maneira polêmica, provocando ondas de reconhecimento ou de protesto. À revista Manchete, Nelson declarou certa vez, que “em todos os tempos a mulher é menos realizada que uma cutia da Praça da República”. (MAGALDI apud SEBA, 2006, p. 65). Peter Gay analisou de maneira brilhante o retrato desta sociedade em que a personagem Nora foi criada. A partir do relato da vida do dramaturgo e romancista austríaco Arthur Schnitzler, Gay nos apresenta uma análise sobre a vida da classe média burguesa do século XIX – ou “classes médias” como costumava se referir a elas – e o surgimento da noção de privacidade como um valor típico deste período histórico, contribuindo para o desenvolvimento da cultura burguesa. Segundo ele, o padrão de vida que se era esperado viver era o de indivíduos livres, que “determinassem seu próprio rumo, embora no âmbito de uma moldura preexistente de família, sociedade e Estado”. (GAY, 2002, p.53). Neste contexto, somado aos compromissos religiosos é que jazia o espaço de autonomia individual. Porém, esta autonomia individual estava atrelada à determinados padrões de comportamentos que eram esperados da família do século XIX. A imagem de um herói familiar residia na figura do homem que pensava em seus negócios e sua família:. O novo herói era um homem de capa simples, talvez calçando galochas, portando uma pasta de documentos e certamente um guarda-chuva, e que pensava em seus negócios e sua família. Era, ou pelo menos dizia ser, esposo devotado, pai prestimoso, sócio honesto nos negócios, moderado em política e no consumo de vinho, amigo de prazeres pouco dispendiosos. Lia o jornal à.
(27) 26. mesa do café da manhã e provavelmente ia a Igreja, fosse ou não religioso. A esposa era presença indispensável nesse autorretrato. Ela tinha, no entanto, sua própria história. Se não houvesse aceitado integralmente o papel que lhe era destinado, de colaboradora, dona de casa e mãe – e um número crescente de mulheres de classe média não aceitava – certamente seria mais inquieta e mais rebelde do que o esposo. (...) a família era o ícone adorado pela classe média do século XIX, e a felicidade doméstica era o lema que, por assim dizer, pendia sobre o leito conjugal. (GAY, 2002, p.54).. Certamente o casamento de Nora e Torvald Helmer se apresentava desta maneira ao abrir das cortinas e, conforme os fatos vão se revelando, esta concepção familiar vai ruindo até a “cotoviazinha”12 bater asas e voar para longe da felicidade conjugal. Mais uma vez cabe salientar que embora o discurso de Nora, que será analisado cuidadosamente posteriormente, acabe por penetrar profundamente nos anseios de uma possível e desejada emancipação feminina para a época, Ibsen não o coloca como uma questão política. Ibsen quer falar do humano, das contradições sociais, do ambiente opressor do meio contra as individualidades. Seu foco, em geral a fatia minorizada da sociedade, acaba por insurgir contra a sociedade como um todo. Deste modo, ao longo do próximo capítulo, a presente dissertação se propõe a analisar o século de Ibsen, tendo em vista a transformação das relações e papéis sociais a partir da voz da personagem Nora Helmer em “Casa de Bonecas” e, assim, traçar uma perspectiva histórica cultural do final do século XIX. Estaria o discurso desta personagem ecoando ao longo destes dois séculos e se fazendo presente nos dias de hoje?. 12. Maneira pela qual o personagem Torvald Helmer chama sua esposa, Nora, ao longo da peça..
(28) 27. (...) A liberdade individual não é um bem cultural. Ela era a maior possível antes de qualquer cultura; contudo, naqueles tempos, ela em geral não tinha valor, pois o indivíduo dificilmente era capaz de defende-la. (FREUD, 2010, p.98)..
(29) 28. 1. RUMO AO SÉCULO XIX. Em seu tempo, Henrik Ibsen foi um dramaturgo controverso que escreveu peças sobre assuntos tabus. Desde o banimento (Peer Gynt), até crianças ilegítimas (O Pato Selvagem), à sífilis e eutanásia (Espectros), ao suicídio (Hedda Gabler), os personagens de Ibsen ocuparam identidades que poucos na educada sociedade vitoriana se atreveriam a mencionar. (BRUNNEMER, 2011, p.91).13. A cisão entre o sujeito sensível e o racional é a característica principal de Ibsen. Nascido na Noruega em 1828 na cidade marítima de Skien, o dramaturgo aborda em suas produções artísticas uma “realidade psíquica”, ou seja, o mundo interno de suas personagens deixando visível o que o ser humano teima em não enxergar: “toda obra de Ibsen é povoada por personagens atormentados por algo que os faz rever sua postura de vida, a reencontrar-se com o passado que tentaram negar”. (MENEZES, 2006, 73). Neste contexto, Tereza Menezes (2006) em sua obra se dedica a contextualizar Ibsen dentro dos movimentos históricos, artísticos e culturais em seu século, e, principalmente, investigar o porquê de suas ideias terem surgido da maneira como surgiram. Esta análise proposta pela autora nos incentiva a estudar uma nova complexidade do sujeito através da expressão artística de sua época, qual seja, o século XIX. Peter Burke, professor emérito de História da Cultura na Universidade de Cambridge e membro do Emmanuel College, se dedicou em suas pesquisas a compreender e redescobrir de modo peculiar os momentos históricos a partir do que ele chama de “virada cultural”:. A emergência dos aspectos culturais do comportamento humano como centro privilegiado do conhecimento histórico vincula-se (...) à virada cultural: uma guinada sofrida pelos estudos históricos, abandonando um esquema teórico generalizante e movendo-se em direção aos valores de grupos particulares, em locais e períodos específicos. (CAMPANTE apud BURKE, 2008, orelha do livro).. Sob este prisma da História da Cultura, conforme nos pontua Burke (2008), o entendimento de uma obra artística somente acontecerá se nos posicionarmos à luz do nosso tempo. E, tal como uma via de mão dupla, não podemos nos propor a analisar o passado se não levarmos em consideração o imaginário que faz parte dele. “In his time, Henrik Ibsen was a controversial playwright who wrote plays on taboo subjects. From banishment (Peer Gynt), to illegitimate children (The Wild Duck), to syphilis and euthanasia (Ghosts), to suicide (Hedda Gabler), Ibsen's characters occupied identities onstrange that few in polite Victorian society would dare to mention”. 13.
(30) 29. Ao direcionarmos nosso olhar para o indivíduo do século XIX e sua subjetividade em transformação, é necessário entendermos a herança que lhes é cabida. Este indivíduo passa a demonstrar seus sentimentos e dominar seus instintos naturais através da ciência, porém, sua herança que culmina com a transformação de seu pensamento tem origens no Renascimento, no Classicismo, Romantismo e Realismo. Menezes (2006) pontua que ao se destacar da natureza e se livrar do ideal medieval, o homem adentra na fase renascentista de pensamento. Arte e vida aconteciam em duas dimensões na cultura medieval e o homem espelhava o divino. Porém, com o surgimento do drama no Renascimento, o homem se viu mergulhado na pluralidade de seu entorno e em sua própria particularidade. Ela cita Szondi ao explanar sobre esta nova realidade interpessoal:. O drama nasceu na Renascença como resultado do audacioso esforço intelectual do novo ser autoconsciente que, após o colapso da visão de mundo medieval, procurou criar uma realidade artística na qual ele poderia se firmar e se espelhar baseado apenas em uma realidade interpessoal. (...) Ao decidir separar-se do mundo em que vivia, o homem transformou seu ser interior em uma presença dramática palpável. (MENEZES, 2006, p.04).. Desta maneira, abre-se espaço para que o mundo do outro, da diversidade existente entre os homens seja pensada de maneira consciente. O drama coloca a relação do homem para com ele mesmo e não mais para com o divino. A autora continua seu raciocínio apontando Shakespeare como o dramaturgo que expõe ao mundo a possibilidade de se lidar com uma realidade multifacetada e dinâmica. Hamlet, por exemplo, não é incentivado por nenhuma força sobrenatural ou divina. Ele toma suas decisões por si mesmo. Não abole a existência de mistérios “entre o céu e a terra” maiores do que sonha nossa vã filosofia, porém, a subjetividade humana é colocada em foco e se liberta das amarras medievais. Bernard Shaw14 em seu livro “A Quintessência do Ibsenismo” faz um paralelo entre a obra Ibseniana e a Shakespeareana. Segundo ele, Ibsen desafia a suficiência de Shakespeare como preeminente entre os dramaturgos mundiais, a partir de sua excelência técnica e por ser um dialético intelectual e realista moderno:. Ibsen preenche o desejo deixado por Shakespeare. Ele não somente nos dá a nós mesmos, como nos coloca em nossas próprias situações. O que acontece com suas personagens acontece conosco. Uma das consequências é que suas 14. George Bernard Shaw (1856-1950) foi dramaturgo, romancista, contista, ensaísta e jornalista irlandês. Em 1925 ganhou o Nobel de Literatura..
(31) 30. peças passam a nos ser mais importantes do que as de Shakespeare. Outra é que ambos são capazes de nos ferir cruelmente e nos encher de esperanças em conseguir escapar de tiranias idealistas e visões mais intensas de futuro. (SHAW apud DURBACH, 1994, p. 236-237).15. A partir da citação acima, percebemos que apesar do processo de auto-observação dramática ter se perdido após o Renascimento pelos séculos seguintes, como será dito a seguir, suas raízes são fortes o suficiente para atravessar as novas formas do pensamento e encontrar nos personagens de Ibsen a possibilidade do indivíduo retomar sua postura reflexiva para se responsabilizar por si mesmo. Conforme Menezes (2006, p.06), a riqueza de pontos de vista que Shakespeare nos brinda ao fazer com que seus personagens resolvam eles mesmo o que fazer, não permanece:. A possibilidade de se dividir internamente, de se distanciar de si próprio pelo processo de auto-observação dramática se perde, ou fica muito obscuro, nos séculos seguintes. (...) Mas, de outra forma e em um outro elo da espiral do tempo, estas qualidades são retomadas pelos personagens do “novo drama” da época de Ibsen. É neste momento de busca da verdade externa e internamente, que a cisão do sujeito volta a ser sentida de um modo mais dramático, mais igualmente rico.. Esta obscuridade que a autora aponta em sua retrospectiva diz respeito ao racionalismo exacerbado que passa a nortear os questionamentos e pensamentos do século XVII, com as propostas de Descartes, Newton e Galileu. O pensamento de Galileu (1564-1652) apresenta aspectos que permanecem até hoje arraigados no modo de pensar: a abordagem empírica da ciência e o uso de uma descrição matemática da natureza, pensamento este que também será retomado por Newton (1643-1727) posteriormente. Descartes (1596-1650) tornou-se o fundador da filosofia moderna ao propor um sistema de pensamento que se baseia na dúvida universal. Behrens e Oliari (2007) afirmam que na proposta cartesiana todo o conhecimento passa a ser aceito a partir da certeza absoluta e inquestionável. O fundamento do conhecimento passa a ser garantido pela certeza e objetividade, revolucionando a história do pensamento, na qual a natureza se torna reduzível a partes mensuráveis e observáveis: O paradigma cartesiano prega a crença na legitimidade dos fatos que são perfeitamente conhecidos sobre os quais não se têm dúvidas, devendo-se para “Ibsen supplies the want left by Shakespeare. He gives us not only ourselves, but ourselves in our own situations. The things that happen to his stage figures are things that happen to us. One consequence is that his plays are much more important to us than Shakespeare’s. Another is that they are capable both of hurting us cruelly and of filling us with excited hopes of scape from idealistic tyrannies, and with visions of intenser life in future”. 15.
(32) 31. isso dividir e estudar a menor parte, partindo destas para o entendimento do todo. (...) Separa-se o corpo da mente, privilegiando sempre a mente como sendo superior aos aspectos do corpo. (...) O universo material e os seres vivos são reduzidos a uma visão de máquina com funcionamento e engrenagens perfeitas. (BEHRENS e OLIARI, 2007, p.58).. Desta maneira, fé, tradição e conhecimento sensível deixam de ser dignos de crédito absoluto. O foco reside na razão e, com isto, múltiplas fragmentações passam a fazer parte da visão de mundo do indivíduo: materialidade e espiritualidade, corpo e mente, filosofia e ciência, objetivo e subjetivo, ciência e fé. Ao se adotar este método analítico como a única abordagem válida de um conhecimento, calcado especialmente na valorização dos aspectos externos das experiências, as vivências internas dos indivíduos são totalmente ignoradas ou reduzidas a algo sem importância. Em consequência desta visão racionalista, obras de autores como Corneille, Racine e Molière entram em cena, fazendo com que as conquistas de Shakespeare com os diálogos vivos e naturais de suas personagens desaparecessem por completo.. A excessiva preocupação com a perfeição formal distanciou os personagens da realidade e da linguagem cotidiana. Os heróis são enaltecidos a tal extremo que, mesmo em momentos em que a ação deveria ser uma resposta rápida a uma situação desesperadora, eles vão se preocupar com a beleza retórica e com as imagens estilísticas mais apropriadas à sua condição social. (MENEZES, 2006, p.07).. Adentrando no século XVIII, Imannuel Kant (1724-1804) coloca o indivíduo como ser autônomo. Ainda com os fundamentos da razão espreitando a concepção de sujeito, a liberdade de expressão das ideias propostas pelo filósofo iluminista se torna o veículo de comunicação da subjetividade. Todos os atos do indivíduo devem se sujeitar às leis que ele mesmo formula. Esta maneira de se comportar e, consequentemente, se relacionar com o externo configuram o conceito Kantiano de “imperativo categórico”, proposta que transforma o comportamento do indivíduo em lei universal. O pensamento cartesiano não é destituído, porém, se adapta aos novos princípios da humanização da cultura. Deste modo, nasce o melodrama e a “novela moderna”, destacando o universo, o mítico e o sentimento humano. Menezes (2006) afirma que o maior empenho dos iluministas se delineava na razão e no livre-pensamento, o caráter do indivíduo poderia e deveria ser cultivado através da ação coerente com seus próprios valores. Com o surgimento do melodrama e da novela moderna, o drama clássico se distancia da cena:.
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