Universidade de Brasília Instituto de Ciências Humanas
Departamento de História Programa de Pós-Graduação
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Autor: Luiz Henrique de Azevedo Borges Orientador: Prof. Dr. Estevão de Rezende Martins
Universidade de Brasília Instituto de Ciências Humanas
Departamento de História Programa de Pós-Graduação
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Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação do Departamento de História da
Universidade de Brasília como requisito para obtenção do título de Doutor em História. 2o /2018.
Linha de Pesquisa: Ideias, Historiografia e Teoria
Autor: Luiz Henrique de Azevedo Borges
Luiz Henrique de Azevedo Borges
UM SÉCULO DE RIVALIDADES NAS CRÔNICAS ESPORTIVAS: ALBICELESTES E CANARINHOS NAS REDAÇÕES DOS RIVAIS
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação do
Departamento de História da Universidade de
Brasília, vinculada à Linha de Pesquisa em Ideias,
Historiografia e Teoria, como requisito para
obtenção do título de Doutor em História. 2º/2018.
Aprovado em: __________
Nota: _________________
Banca Examinadora
Prof. Dr. Estevão de Rezende Martins
Universidade de Brasília
Profa. Dra. Maria Therezinha Ferraz Negrão de Mello
Universidade de Brasília
Prof. Dr. Francisco Fernando Monteoliva Doratioro
Universidade de Brasília
Prof. Dr. Fábio Santiago Santa Cruz
Universidade Estadual de Goiás
Aos meus pais, Danilo e Zélia, as minhas irmãs, Ana
Beatriz e Ana Luiza, a minha sobrinha, Ana Paula,
ao meu cunhado Frederico Botelho, aos meus
orientadores, Estevão de Rezende Martins e André
Pereira Leme Lopes, ao Superintendente do Iphan no
Distrito Federal Carlos Madson Reis e a todos os
professores da Universidade de Brasília que me
deram as condições e o apoio necessário para galgar
mais essa caminhada.
AGRADECIMENTOS
Agradeço duplamente aos meus pais. Por um lado, enxergaram no estudo
a maior riqueza que se pode legar aos filhos, por outro, pelo esforço hercúleo
realizado por meu pai para a revisão do texto e da minha mãe ao preparar a parte
artística que embalou esse trabalho.
Às minhas irmãs, Ana Beatriz e Ana Luíza, à minha sobrinha predileta (e
única) Ana Paula, que formam, junto aos meus pais, a base para minha vida.
Ao meu cunhado, Frederico Botelho, não só pela amizade e confiança,
mas por abrir espaços nas instituições em que leciona para eu refletir com os seus
alunos sobre o futebol.
Aos meus orientadores, sempre presentes, humanos e exigentes, Estevão
de Rezende Martins e André Pereira Leme Lopes, que sempre acreditaram no meu
trabalho. Professores e intelectuais que admiro, no entanto, mais do que isso,
amigos que levarei eternamente.
À professora Thereza Negrão, presente em vários momentos da minha
formação acadêmica, emprestando o seu amplo conhecimento, amizade, carinho e
paciência para ler tão longo trabalho.
Ao professor Francisco Doratioto, importante intelectual na temática do
Prata, por dedicar o seu tempo na leitura da tese e dar ainda mais legitimidade a
banca. Infelizmente não tive a oportunidade de ser seu aluno, mas muito me
Ao colega, amigo e irmão, Fábio Santiago Santa Cruz, profissional que
conheci lecionando na Universidade Estadual de Goiás e que aprendi a admirar
como intelectual e ser humano. Com ele vivenciei algo que me faltava no mundo
do futebol, a emoção de assistir uma final de campeonato em pleno estádio
emprestando meu coração e apoio ao Santa Cruz. Fomos campeões!
À professora Eleonora Zicari Costa de Brito, que acreditou no futebol
como tema de pesquisa ainda em 2003 e me orientou com sua paciência, carinho e
competência.
Ao professor Dinair Andrade, não só pelas suas aulas que marcaram
minha formação, mas pelo incentivo e confiança de que eu poderia galgar novas
caminhadas na área.
Em nome da professora Ângela Maria Ricci Borchadt, minha eterna e
querida coordenadora do curso de História da Universidade Estadual de Goiás,
agradeço a todos os demais colegas da instituição.
Em nome do amigo, além de competente coordenador e professor, André
Luiz Oliveira, estendo meus agradecimentos aos demais gestores, professores e
servidores, da Faculdade Cambury em Formosa e Goiânia.
Aos amigos, Camila Leme Lopes; Eliete Pires Ramos e os demais
colegas de viagens; Thales e Fernanda Dili; Vivian Santa Cruz; Naomi
Maubrigades; Guilherme Vinício; Fernando César Vasconcelos; Henrique Barros e
sua esposa, Dona Lu, sempre abrindo as portas da Rádio EBC para minhas
entrevistas, sem vocês a caminhada teria sido muito mais árdua.
À Universidade de Brasília, que teceu meus caminhos desde o
nascimento, instituição na qual meu pai lecionou e que, desde menino aprendi a
admirar e almejar. Acolheu-me em duas graduações, no mestrado e no doutorado e
a ela devo grande parte de minha formação.
Ao Iphan, sempre preocupado e incentivando a capacitação profissional
de seus membros. Em especial ao Dr. Carlos Madson Reis, mesmo ciente que
desfalcaria sua equipe de trabalho, não mediu esforços para a obtenção da minha
licença, proporcionando-me o tempo necessário para o desenvolvimento da
pesquisa.
Aos colaboradores da hemeroteca da Biblioteca Marino Moreno, em
Buenos Aires, especialmente da
Sala de Publicaciones Periódicas Antiguas
Boleslao Lewin
, pela dedicação e a forma atenciosa que atenderam aos meus
pedidos durante todo o período em que passei no local.
In memorium
, ao meu tio, Antônio Mário Pinheiro de Azevedo, falecido
dias antes da seleção de doutorado em 2014, ele sempre foi um exemplo de
dedicação aos estudos e me ensinou, ainda no final da década de 70, os belos e
tortuosos caminhos da História, juntamente com a inesquecível professora Isaura.
Aos meus alunos, desde o longínquo ano de 2002, pelo incentivo ao
aprimoramento constante.
Para entender a alma de um brasileiro é preciso
surpreendê-lo no instante do gol.
(Armando Nogueira)
A camisa amarela na frente acende os jogadores
argentinos. Para não falar da gente. Se agita como
uma capa vermelha diante de um touro raivoso. São
momentos em que ninguém se sentem menos do que
ninguém.
RESUMO
Futebol é uma atividade e uma narrativa que há anos individualiza, identifica e traz orgulho a argentinos e a brasileiros, dando-lhes identidade e marcando seus lugares no mundo. Como artifício identitário é um constructo humano, demarcado no tempo e no espaço. Na busca epistemológica da construção representacional que a imprensa argentina faz do futebol brasileiro e que a imprensa brasileira faz do futebol argentino, foram pesquisados alguns dos principais periódicos dos dois países que envolvem, narram e retratam os cem anos e cem partidas que construíram a rivalidade, o respeito, a admiração entre os dois países no espaço futebolístico. Os jornalistas e os cronistas ajudaram a caracterizar o futebol brasileiro e o argentino, tendo como predicados fundamentais à prática do “futebol-arte” ou à do “futebol criollo”, a habilidade, a criatividade, a ofensividade e o inusitado em contraposição ao futebol-força, praticado pelos europeus. Apesar da origem comum e das práticas que muito se assemelham, ao ponto de serem considerados os países que praticam o mais belo futebol do mundo, eles criam, um em relação ao outro, imagens que os diferenciam. Nesse caminho, brasileiros e argentinos alteram suas narrativas, em diferentes momentos um enxerga no outro o modelo a ser seguido. São nessas construções, narrativas e imagéticas, presentes especialmente nos textos jornalísticos, fontes fundamentais para perceber os valores e defeitos que um atribui ao outro, que o trabalho se insere, lembrando que esses discursos não se circunscrevem ao espaço esportivo, adentram outros ambientes discursivos e se tornam polifônicos, dialogando e formando imagens do que é ser brasileiro e do que é ser argentino.
ABSTRACT
Soccer is an activity and a narrative that for years has individualized, identified and brought pride to Argentines and Brazilians, giving them identity and marking their places in the world. As an identity artifice, is a human construct, demarcated in time and in space. In the epistemological search for the representational construction that the Argentine press makes of the Brazilian soccer, and that the Brazilian press makes of the Argentine soccer, some of the main periodicals from those two countries were researched, the ones that enwrap, narrate, and portray the hundred years and the hundred matches that constructed the rivalry, the respect, and the admiration between those two countries in the soccer space. The journalists and the chroniclers helped to characterize the Brazilian and the Argentine soccer, having as fundamental predicates to the practice of the "soccer-art", or "criollo soccer", the skills, the creativity, the offensiveness, and the unusual, in contrast to the “strength-football”, played by the Europeans. In spite of the common origin and the practices that are very similar – to the point of being considered both the countries that practice the most beautiful soccer in the world – they create, in relation to each other, images that differentiate them. In this path, Brazilians and Argentines change their narratives, in different moments one sees in the other the model to be followed. It is in these narrative and imagery constructions, present especially in journalistic texts – fundamental sources to perceive the values and defects that one attributes to the other – that this work inserts itself, remembering that these discourses are not limited to the sports fields, they enter other discursive environments and become polyphonic, dialoguing and forming images of what does mean to be Brazilian and what does mean to be Argentine.
SUMÁRIO
A CONVOCAÇÃO ... 15
CAPÍTULO 1: O QUADRO TÁTICO: AS CRÔNICAS ESPORTIVAS ... 32
1.1.O ESPORTE DAS MULTIDÕES ... 32
1.2.A NARRATIVA JORNALÍSTICA ... 37
1.3.A IMPRENSA ESPORTIVA ... 41
1.4.CRÔNICA ESPORTIVA ... 56
CAPÍTULO 2: A PRELEÇÃO: O NASCIMENTO DE UMA PAIXÃO ... 68
2.1.POR QUE O FUTEBOL?... 68
2.2.OS PRIMÓRDIOS E O DESENVOLVIMENTO DO FUTEBOL NA ARGENTINA E NO BRASIL ... 73
CAPÍTULO 03: SAINDO DOS VESTIÁRIOS: O DOMÍNIO ARGENTINO ... 101
3.1.A IDEIA DO ESPORTE COMO MEIO DE APROXIMAÇÃO DOS POVOS ... 101
3.2.FORMAÇÃO DA SELEÇÃO BRASILEIRA ... 104
3.3.COPA ROCA DE 1914... 105
3.4.OS PRIMEIROS CAMPEONATOS SUL-AMERICANOS (1916-1919)... 114
3.5.OS “MACAQUITOS”: A ASCENSÃO DA RIVALIDADE ... 126
3.6.DÉCADA DE 20: O RACISMO, AS DESAVENÇAS E AS PRIMEIRAS BRIGAS CAMPAIS ... 139
3.7ONZE ANOS SEM CONFRONTO ... 165
3.8.AS OLIMPÍADAS DE 1928 E AS COPAS DE 1930 E 1934... 168
3.9.MAIS DE UMA DÉCADA DE ESPERA: A RIVALIDADE SE ACENTUA ... 178
3.10.ACOPA DE 1938... 183
3.11.OPLATINISMO: A MARCA DA DÉCADA SEM COPA ... 187
CAPÍTULO 04: SELEÇÕES PERFILADAS: A MÍSTICA DA CAMISA AMARELA... 232
4.1.A COPA DO MUNDO DE 1950... 232
4.2.A COPA RETORNA À EUROPA:SUÍÇA 1954... 251
4.3.1956: DEZ ANOS DEPOIS ... 257
4.4.SUL-AMERICANO E COPA ROCA DE 1957... 264
4.6.SUL-AMERICANOS,PAN-AMERICANO,COPA ROCA E TAÇA ATLÂNTICO:1959-1962.. 293
4.7.COPA DE 1962:“COM BRASILEIRO, NÃO HÁ QUEM POSSA !!!”... 316
4.8.SUL-AMERICANOS,COPA ROCA E TAÇA DAS NAÇÕES:1963-1965... 330
4.9.COPA DE 1966: O FRACASSO BRASILEIRO E A GARRA ARGENTINA ... 348
4.10.COPA DE 1970:PRA FRENTE BRASIL ... 363
CAPÍTULO 05: PRIMEIRO TEMPO:O MUNDO É ALBICELESTE ... 387
5.1.A COPA ROCA E A TAÇA DA INDEPENDÊNCIA ... 387
5.2.COPA DE 1974:BRASIL E ARGENTINA SE ENCONTRAM EM MUNDIAIS ... 494
5.3.COPA AMÉRICA DE 1975 E TAÇA ATLÂNTICO DE 1976... 412
5.4. COPA DE 1978: A ARGENTINA TRIUNFA, O BRASIL É “CAMPEÃO MORAL” (...) E O PERU?... 427
5.5.ACOPA AMÉRICA DE 1979, O MUNDIALITO DE 1981 E AS ELIMINATÓRIAS DA COPA DE 1982... 461
5.6.COPA DE 1982:A MALDIÇÃO OU TRAGÉDIA DO SARRIÁ ... 475
5.7.FIM DO TABU: VITÓRIA DA ARGENTINA ... 497
5.8.COPA DE 1986: A ARGENTINA É MARADONA E “LA MANO DE DIOS”... 515
5.9.DEPOIS DE 4 DÉCADAS O BRASIL RECONQUISTA A AMÉRICA ... 542
5.10.COPA DE 1990:SEM CONVENCER A ARGENTINA VAI A FINAL E O BRASIL(...)... 556
CAPÍTULO 06: SEGUNDO TEMPO: A ERA DOS RS: O BRASIL EM 3 FINAIS ... 582
6.1.AAMÉRICA É DA ARGENTINA ... 582
6.2.COPA DE 1994:ÉTETRA E O OCASO DE MARADONA ... 608
6.3.DECEPÇÕES DA ARGENTINA XCONQUISTAS E PRESTÍGIO DO BRASIL ... 631
6.4.COPA DE 1998 EM UM PALAVA:ZIDANE ... 654
6.5.“EL LOCO” BIELSA E A ESTABILIDADE ARGENTINA.A DANÇA DE TREINADORES NO BRASIL: DO FUTURO PROMISSOR À DIFÍCIL CLASSIFICAÇÃO PARA A COPA DE 2002... 688
6.6.OS OPOSTOS: A COPA DE 2002... 726
CAPÍTULO 07: O APITO FINAL: O DECLÍNIO SUL-AMERICANO NOS MUNDIAIS E A RIVALIDADE CONTINENTAL ... 757
7.2.BRASIL SACA CRACKS Y ARGENTINA, GRANDES JUGADORES ... 776
7.3.COPA DAS CONFEDERAÇÕES:“ERROR 30_06_2005”... 787
7.4.COPA DE 2006:AARGENTINA CAI INVICTA.OBRASIL DECEPCIONA ... 794
7.5. BRASIL SE ESCRIBE COM B, PERO NUNCA ES B:COPA AMÉRICA DE 2007... 821
7.6.ELIMINATÓRIAS PARA A COPA DE 2010... 834
7.7.AO CONTRÁRIO DE 1990,MARADONA E DUNGA FRACASSAM: O TIKI-TAKA TRIUNFA .. 861
7.8.AARGENTINA SEGUE SEM TÍTULOS ... 889
7.9. A COPA ROCA REBATIZADA – O SUPERCLÁSSICO DAS AMÉRICAS EM 2011 E AS ELIMINATÓRIAS SUL-AMERICANAS (2011-2013)... 901
7.10.AMISTOSO NOS ESTADOS UNIDOS E O SUPERCLÁSSICO DAS AMÉRICAS EM 2012... 907
7.11.COPA DAS CONFEDERAÇÕES OU COPA DAS MANIFESTAÇÕES?... 915
7.12.COPA DO MUNDO DE 2014: É GOL DA ALEMANHA ... 922
7.13.O CENTÉSIMO CONFRONTO ... 963
BALANÇO DO JOGO ... 967
CORPUS DOCUMENTAL ... 979
JORNAIS E REVISTAS BRASILEIRAS ... 979
JORNAIS E REVISTAS ARGENTINAS ... 979
SITES OFICIAIS ... 979 LIVROS ... 979 IMAGENS ... 981 FILMES ... 986 BIBLIOGRAFIA ... 1004 LIVROS ... 1004 INTERNET ... 1015
Uma das perguntas iniciais de um historiador em contato com suas fontes, com outras obras, é saber quem produziu o documento, o relato, a narrativa. Coerentemente, estas palavras iniciais buscam descrever a trajetória acadêmica, as dificuldades e as motivações que me fizeram desenvolver a pesquisa ora apresentada. Finalizado o Bacharelado em Economia em 1991, cursado nos bancos da Universidade de Brasília (UnB), já envolvido no mercado de trabalho, naquele momento como empresário do ramo de alimentação, me afastei do mundo acadêmico, inclusive certo de que o futuro profissional se encontrava então delineado.
Em maio de 1998, um colaborador da empresa, solicitou sua liberação para que pudesse se inscrever no vestibular da Universidade de Brasília. Num impulso, resolvi acompanhá-lo para também fazer a minha inscrição e no caminho decidi que iria realizar um antigo sonho: cursar História, que inclusive havia sido minha segunda opção quando ingressei no curso de Economia.1 Aprovado, iniciei o novo desafio em novembro de 1998 e a partir de 1999, por incentivo do Professor Dinair Andrade, o mestrado tornou-se um objetivo a ser alcançado. A dificuldade era encontrar o tema, sempre fugidio, especialmente pelo encantamento que sentia, após cada disciplina finalizada.
Quando, já decidido a trabalhar a história da alimentação no Brasil, com algumas leituras realizadas e várias bibliografias adquiridas, ao visitar um amigo, passava um jogo de futebol na televisão. Durante a transmissão realizamos mais uma das nossas longas digressões sobre o esporte e, de supetão, ele sugeriu enfaticamente que eu deveria pesquisar sobre tal prática esportiva.
A ideia, sem dúvida alguma, me fascinou, contudo, ainda havia um problema. O recorte. Outro colega, comentou sobre um trabalho que utilizava das charges para descrever a história de Brasília. Ao ouvi-lo pensei que elas, nas páginas dos periódicos esportivos, também poderiam ser as minhas fontes. O “último passe” foi dado em uma caminhada matinal com meu pai, quando ele comentou que as charges poderiam ser utilizadas conjuntamente com as crônicas esportivas.
1 Na época, 1985, os vestibulandos que se inscreviam para as provas da Universidade de Brasília deveriam marcar três opções de curso. No meu caso, as escolhas foram: Economia, História e Contabilidade.
Abracei então o mundo das crônicas, e as charges acabaram sendo deixadas de lado. Realizei a leitura de vários cronistas e rapidamente selecionei aqueles que seriam pesquisados e que acreditei e que continuo acreditando, seriam titulares absolutos de qualquer fictícia seleção brasileira de cronistas esportivos. São eles: Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira.
No final de 2003 fui aprovado na Seleção de Mestrado na área de concentração de História Cultural com o objetivo de explicar a construção do Brasil como país do futebol nas crônicas de Nelson Rodrigues, Armando Nogueira e João Saldanha. Fui orientado pela fantástica Professora Eleonora Zicari e defendi a dissertação em setembro de 2006, ano que entrei no serviço público como historiador do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Antes de finalizar o mestrado, voltei a viver o “drama” da escolha de um tema para um futuro doutoramento. Desta feita, a solução se apresentou mais rapidamente. Como não queria me afastar do tema futebol, comecei a pensar sobre um novo recorte e em poucos dias me surgiu a ideia de trabalhar de forma comparativa a percepção das imprensas brasileira, argentina e uruguaia sobre as disputas futebolísticas que os envolviam, sobre as seleções nacionais, até sobre a profundidade, a qualidade e a parcialidade das análises efetuadas. Iniciei a busca de bibliografia e leituras tanto sobre o futebol do Prata quanto eventuais pesquisas, nas mais variadas áreas, que colocassem em diálogo os três países.
Em meados de 2008 fui convidado para assumir a Coordenação de Planejamento do Instituto, ou seja, orientar e acompanhar o trabalho do Iphan em prol do patrimônio cultural brasileiro por todo o país. Tal atividade, acrescida das aulas que leciono desde 2002 na Universidade Estadual de Goiás e na Faculdade Cambury, ambas em Formosa, inviabilizaram temporariamente o doutorado, mas que mantive em meu horizonte.
Nesse ínterim, talvez buscando por “novas táticas”, flertei com outra temática: refletir em que medida a popularização da Rádio FM, em detrimento da Rádio AM no Brasil desencadeou a decadência da chamada “música brega” ou “cafona” no país.2 No entanto, em
2 Para isso iniciei leituras relacionadas às relações entre história e música, sobre a música brega e também sobre a história do rádio no Brasil. Para aqueles que se interessarem em aprofundar a temática: Cf. ARAÚJO, Paulo César de. Eu não sou cachorro não: música popular cafona e ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2013.
meados de 2014, já sob o calor do Mundial que se aproximava, fui convidado para compor uma mesa sobre futebol no Departamento de Ciências Políticas da UnB, percebi ali que deveria me manter na temática e resolvi circunscrever a pesquisa apenas às relações entre as seleções principais de Brasil e Argentina.
Ainda em meados de 2014 me afastei do cargo, recusei outros convites com o intuito de me preparar para a seleção que ocorreria no final do ano. Fui aprovado e ainda agraciado com uma licença do Iphan para melhor desenvolver a pesquisa.
Retornando ao recorte, a partir da revisão bibliográfica, consequentemente das leituras que realizei desde que adentrei, academicamente, no universo do futebol, percebi que estudos ou artigos comparativos na temática eram mínimos. Dessa forma, vislumbrei um espaço pouco explorado, apesar dos bons trabalhos realizados pelo professor Ronaldo Helal, pela professora Simone Guedes, pelo professor Leonardo Pereira, que esteve em minha banca de mestrado e pelo prematuramente falecido Gilberto Agostino. Do lado argentino, não encontrei obras comparativas.
A produção histórica brasileira e argentina que se dedica às práticas corporais institucionalizadas, dentre elas o futebol, normalmente trata de “estudos locais ou regionais, relacionados a cidades ou estados, clubes, personalidades, fatos ou temas específicos”.3 Tal conjunto de pesquisas contribuem, indubitavelmente, para a construção de um panorama nacional do objeto em estudo, todavia:
A despeito da importância dessa produção, algumas questões devem ser levantadas. Não estaríamos abandonando a possibilidade de um olhar mais global em função da fragmentação das abordagens? Como ampliar nosso olhar acerca da realidade nacional sem crer que essa é simplesmente o resultado da soma dos entendimentos locais? Como construir hipóteses mais amplas, pensando em contextos nos quais estamos inseridos por relações históricas, como a América Latina e os países de língua oficial portuguesa?4
CABRERA, Antonio Carlos. Almanaque da música brega. São Paulo: Matrix, 2007. DIAS, Márcia Tosta. Os donos da voz: indústria fonográfica brasileira e mundialização da cultura. São Paulo: Boitempo, 2008. FACINA, Adriana (org.). Vou fazer você gostar de mim: debates sobre a música brega. Rio de Janeiro: Multifoco, 2011. MOREIRA, Sonia Virgínia. O rádio no Brasil. Rio de Janeiro: Rio Fundo Editora, 1991. NESTROVSKI, Arthur (org.). Lendo musica: 10 ensaios sobre 10 canções. São Paulo: Publifolha, 2007. PRADO, Magaly. História do rádio no Brasil. São Paulo: Editora da Boa Prosa, 2012.
3 MELO, Victor Andrade de (et. al.). Pesquisa histórica e história do esporte. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013, p. 97.
As relações e análises entre o futebol brasileiro e uruguaio, por exemplo, são ainda mais escassas, exceto quando se fala da Copa de 1950 e 1970. Tal carência se acentua se tratarmos de outros países do continente americano e também europeu. Dessa forma, entendo que há um vasto campo de pesquisa comparativa sobre o qual o historiador do futebol pode se debruçar, pois tal esporte é um elemento identitário que reverbera as mais diferentes tensões, disputas, de um povo ou de uma sociedade.
O historiador do futebol, subárea da História do Esporte, lida, em suas reflexões e pesquisas, com uma das manifestações culturais contemporâneas mais influentes e que se encontra presente nos mais distintos países e marcado pela transnacionalidade. Desta forma, uma abordagem histórica comparada é um dos caminhos alvissareiros para as investigações relacionadas não apenas ao futebol, mas aos esportes.
Como foi ressaltado por Victor Andrade de Melo, apesar da história comparada apresentar suas peculiaridades e riscos, ela pode ser genericamente definida como a investigação “de dois ou mais fenômenos em perspectiva, buscando semelhanças e diferenças”.5 A comparação pode ser de grande utilidade na formulação de conceitos e construção de explicações mais amplas e complexas, afinal ela colocará em diálogo “objetos/ temas no tempo e/ou espaço”6 distintos.
A história comparada induz os pesquisadores a extrapolarem as fronteiras nacionais, esforço que foi realizado na atual pesquisa no momento em que ela se preocupou em perceber como a imprensa argentina representa historicamente o futebol brasileiro e vice-versa. Tal esforço exige do historiador um processo de desreferenciação, uma vez que ele enfrentará algo menos familiar.
Frequentemente historiadores se concentram na história de seu país ou região. Por causa disso, a comparação pode ter um efeito desprovincializante, libertador, abrindo perspectivas, com consequências para a atmosfera e estilo da profissão. Essa é uma contribuição da comparação que não deveria ser subestimada.7
5 Idem, ibidem, p. 96. 6 Idem, ibidem, p. 100.
Além do processo de desreferenciação, o historiador deve compreender o cenário histórico de cada país, identificar as fontes adequadas para cada realidade, esforço que buscou-se atingir na pesquisa ora desenvolvida.
Finalmente:
Os estudos de história comparada podem contribuir para aumentar nossa inserção no cenário internacional, na medida em que abre oportunidades de passarmos de nossos importantes estudos locais para apreensões mais amplas, abrindo diálogo do local e do nacional com o global.8
O futebol suscita paixões e discussões muitas vezes acaloradas e é ingenuamente classificado como desconexo dos assuntos ditos sérios, no entanto é um elemento marcante da identidade argentina e brasileira. No dizer de Fatima Antunes, o futebol “é uma espécie de língua franca”, no qual são remotas as possibilidades de encontrar um interlocutor que não saiba, minimamente, falar sobre ele.9 Nos dois países ele cumpriu importante papel na formação da consciência de identificação, de diferenciação, na emergência de discursos identitários, na demarcação de “nós” e os “outros”.
A identidade é uma construção simbólica de sentido que produz coesão social, permitindo a integração, o reconhecimento da parte com o todo. A identidade é relacional, marcada e sustentada pela diferença, como nos lembra David Campbell, ao tratá-la como base de legitimação do Estado: “(...) identidade é construída em relação à diferença. (...) Diferença é constituída em relação à identidade”.10 Em suma, a alteridade é fundamental na construção identitária, como ressaltou Bhabha: “a demanda da identificação implica a representação do sujeito na ordem diferenciadora da alteridade”.11
No processo de construção da identidade nacional, além da língua, dos costumes, entre outros, os símbolos nacionais tornam-se elementos centrais na construção do sentimento de pertencimento e o futebol, dentre outros esportes, permite que a população estabeleça um contato mais íntimo com esses símbolos.
8
MELO, Victor Andrade de (et. al.). op. cit., p. 106.
9 ANTUNES, Fatima Martins Rodrigues Ferreira. Com brasileiro, não há quem possa!: futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: UNESP, 2004, p. 18.
10 CAMPBELL, David. Writting security: United States foreing policy and the politics of identity. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1998, p. 193.
É pelo futebol, então, que se permite à massa uma certa intimidade com os símbolos nacionais. (...) Nestes momentos de “carnaval cívico”, criados pelo futebol, os símbolos sagrados da pátria (que, no Brasil, são cercados de regras em termos do seu uso), deixam de ser propriedade das camadas dominantes e, sobretudo, do “governo” e das “autoridades”, para se disseminarem pelo meio da massa anônima, que com eles celebra uma relação de franca e desinibida intimidade.12
Segundo o sociólogo Richard Giulianotti:
O futebol é uma das grandes instituições culturais, como a educação e os meios de comunicação de massa, que formam e consolidam identidades nacionais do mundo inteiro. A difusão internacional do futebol durante o final do século XIX e o início do século XX ocorreu quando a maior parte das nações na Europa e na America Latina estava negociando suas fronteiras e formulando suas identidades culturais. (...) Uma linguagem compartilhada, um sistema educacional e meios de comunicação de massa tornaram-se instrumentos culturais vitais para disseminar sentimentos de nacionalidade. Cada nação produziu uma “história oficial”, celebrando figuras heróicas que haviam lutado para defender “o povo” contra forças hostis. De maneira mais influente, a cultura popular fornecia esses recursos com componentes estéticos e ideológicos. Eventos esportivos, principalmente partidas de futebol, tornaram-se os colaboradores mais importantes. Times de futebol de diferentes partes do país podem representar localidades rivais, mas dentro de uma estrutura unificadora de um sistema de liga nacional. Nos internacionais, o time incorpora a nação moderna.13
Seguindo e concordando com o pensamento de Giulianotti, os embates internacionais foram fundamentais para o fortalecimento das identidades de cada país: “a dimensão nacionalista de identidade dos torcedores intensificou-se nas partidas realizadas no exterior”.14 As imprensas, no caso, do Brasil e Argentina, desde o primeiro embate, buscavam elementos que pudessem caracterizar o futebol de seu adversário, construindo, dessa forma, discursos identitários.
A realização de eventos esportivos internacionais, em particular o futebol, normalmente é acompanhada de uma valorização nos sentimentos de identificação nacional, realidade privilegiada para a mobilização de signos que exaltem os sentimentos patrióticos
12 DaMATTA, Roberto (et. al.). Universo do futebol: esportes e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982, p. 34.
13 GIULIANOTTI, Richard. Sociologia do futebol: dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. São Paulo: Nova Alexandria, 2002, p. 42.
fortalecendo a comunidade imaginada,15 no caso da pesquisa desenvolvida, do Brasil e da Argentina.
Uma vez que as identidades nacionais, assim como outras, não podem ser percebidas como estruturas estáveis, monolíticas e concluídas, afinal elas são, em maior ou menor grau, mutáveis, dinâmicas, abertas, elaboradas e reelaboradas, as identidades construídas no espaço futebolístico não estão circunscritas apenas na forma com que os brasileiros ou os argentinos se veem ou se definem, mas o processo perpassa também o olhar do “outro”.
As crônicas esportivas exemplificam tal percurso identitário, pois as formas como representamos a nós mesmos e aos outros, assim como fomos representados por nossos rivais, sofreram várias alterações no decorrer do tempo, como será explanado nos diferentes capítulos que compõem a pesquisa.
Os jornais, suporte essencial para as crônicas e divulgação das opiniões dos jornalistas, desempenharam e até hoje cumprem a função de informar e formar a opinião pública. Os periodistas esportivos, ao emitirem suas interpretações das partidas, construíam afirmações sobre a forma de jogar de cada um dos rivais, assim como, consciente ou inconscientemente, elaboravam discursos sobre as próprias nações, uma vez que as reflexões acerca do futebol eram também portadoras de projetos dos países.
No projeto inicial, a pesquisa iniciaria na década de 1950. Porém, alguns aspectos me chamaram a atenção e me fizeram alongar tal período. Inicio com o aspecto menos importante: em 2014 havia uma coincidência, jogava-se o centésimo jogo oficial após cem anos de confronto entre as seleções da Argentina e do Brasil, logo percebi um apelo no recorte. Outras questões me eram mais caras, permanecendo no que foi proposto inicialmente deixaria de abordar um período fundamental, no qual o futebol argentino predominou no continente, entre as décadas de 1910 e 1940, quando era considerado como um dos modelos a ser seguido pela imprensa brasileira.
15 ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Deixaria de abordar a raiz da rivalidade entre os dois países, lembrando que o nascimento do futebol no Brasil e na Argentina são bastante parecidos, apesar de um lapso temporal de praticamente 3 décadas, 1867 na Argentina e 1895 no Brasil.16 Os ideias elitistas e europeizantes, do sportman, da civilidade, do progresso, da aproximação dos povos,17
predominavam quando do primeiro confronto entre as equipes em 1914. É facilmente perceptível no relato do jornal La Nacion que a programação da então recém fundada Seleção Brasileira na semana que passou em Buenos Aires, em 1914, tinha um caráter mais festivo, diplomático, de aproximação de elites que deveriam compartilhar os mesmos valores, do que propriamente esportista. Contudo, tal realidade não perduraria por muito tempo e em 1920, em virtude de uma publicação no jornal Crítica, do periodista uruguaio Antonio Palacio Zino, de claro cunho racial e repleto de preconceitos em relação aos brasileiros, que marcou o acirramento da rivalidade entre os dois países, apesar das inúmeras tentativas, naquele momento e mesmo posteriormente, de superar tal desentendimento.
É claro que a rivalidade entre os dois países não se estabeleceu apenas em virtude do artigo do citado jornalista, o futebol se tornou um esporte popular, afastando-se dos valores apregoados pelos sportmen,18 também passou a ser capaz de demarcar identidades e de trazer orgulho para uma determinada comunidade, independente de sua extensão. Os novos valores se encontravam intimamente vinculados aos resultados das partidas.
Durante a década de 20 percebe-se claramente que os confrontos entre dois dos principais rivais da América do Sul perderam o seu caráter de cordialidade, ao ponto do El Gráfico sugerir, em 1922, o fim das disputas dos campeonatos sul-americanos, pois eles já não cumpriam com sua missão primordial, que era a de aproximar os povos. Nessa época também ocorreu a primeira luta campal generalizada entre as duas seleções, em 1925. As
16 Datas que ocorreram as primeiras partidas oficiais nos respectivos países.
17 Tal discussão pode ser aprofundada, não só para o futebol, mas também para as práticas esportivas desenvolvidas no país a partir do século XIX, em vários capítulos da obra “História do esporte no Brasil”. Cf. PRIORE, Mary del; MELO, Victor Andrade de. História dos esportes no Brasil: do império aos dias atuais. São Paulo: UNESP, 2009.
18 Victor Andrade de Melo ressalta que a palavra atleta quando da introdução da prática esportiva no Brasil, no século XIX, era utilizado como sinônimo de lutador e não poucas vezes era empregado na política para designar os antimonarquistas. Sportsman era o termo utilizado para designar todos os envolvidos nas atividades esportivas: praticantes, dirigentes e até aqueles que compareciam para assistir regularmente as competições. Cf. MELO, Victor Andrade de. “Corpos, bicicletas e automóveis: outros esportes na transição dos séculos XIX e XX”. In: Idem, ibidem, p. 75.
desavenças se tornaram muito comuns nas disputas a partir de 1937, inclusive com invasão de torcedores e atuação da polícia, no sentido de intimidar a seleção visitante.19
Para além da rivalidade, o novo recorte proporcionou, por um lado, a discussão e os efeitos da profissionalização ocorrida nos dois países na década de 30, por outro, a possibilidade de abordar a geração fantástica apresentada pelo futebol argentino, especialmente na década de 40, denominada de “Década Sem Copa” e que legou aos brasileiros um sentimento de inferioridade e identitário, em relação ao rival, que ficou denominado como “Platinismo”. Nele, havia a certeza de que o sucesso brasileiro passaria por adotar o modelo de futebol praticado por argentinos e também por uruguaios, não só no que tange ao selecionado nacional, mas também nas próprias agremiações. Passou-se a acreditar que um clube brasileiro só seria vitorioso se contasse com algum argentino e/ou uruguaio em seu elenco.
No final da década de 30 e a primeira metade da década seguinte, os periódicos argentinos e os brasileiros passaram a enumerar características que representavam e forneciam a identidade ao futebol de cada um dos países. O argentino, com o “estilo criollo”, marcado pela habilidade, pelas trocas de passes rápidas, pela garra e pela preocupação com o conjunto, algumas vezes se aproximando do que será denominado futuramente de “futebol força”. Já o futebol brasileiro seria marcado também pela habilidade, pela criatividade e pela individualidade. Os argentinos afirmavam que o Brasil jogava um futebol bonito, o que foi denominado e reconhecido internacionalmente como o “futebol arte”. Os dois estilos, as duas identidades, destacavam métodos corporais consideradas singulares de brasileiros e argentinos na prática futebolística.
Os capítulos foram produzidos a partir de fontes primárias encontradas principalmente nas obras compiladas de jornalistas brasileiros e argentinos, das pesquisas em jornais realizadas, tanto em arquivos em bibliotecas físicas, quanto pela internet. Para a contextualização dos períodos foram utilizadas obras de apoio sobre a história dos dois países de autores e trabalhos reconhecidos dentro de suas respectivas historiografias, assim como o
19 Como será explanado no capítulo 03, brasileiros e argentinos passaram 11 anos sem se enfrentarem, entre 1926 e 1937, dentre as múltiplas razões para tal afastamento há a desavença e o conflito ocorrido na final do sul-americano de 1925 em partida disputada no dia de Natal.
excelente trabalho comparativo realizado por Boris Fausto e Fernando Devoto.20 Também se lançou mão de autores argentinos e brasileiros que pesquisam sobre futebol, fato que permitiu perceber que as obras comparativas da prática futebolística entre os dois países atraiu alguma atenção da historiografia brasileira e em muito menor escala dos argentinos. Ainda assim, historiadores e outros estudiosos brasileiros, que se debruçaram sobre o assunto, há um pouco mais de uma década, com algumas exceções como, Ronaldo Helal, estão mais preocupados em tratar da chegada e desenvolvimento do futebol em suas décadas iniciais.
Newton César de Oliveira Santos é o único autor que elaborou uma obra de caráter panorâmico, abordando os confrontos entre brasileiros e argentinos entre 1908 e 2008. A obra serviu de guia em vários momentos da pesquisa. Contudo, apesar de ambas as obras, a de Newton César e a pesquisa ora apresentada, utilizarem-se especialmente das fontes jornalísticas, a primeira não mostra a mesma preocupação em buscar a opinião da contraparte para compor a imagem, seja do futebol brasileiro, seja do argentino.
Os jornais brasileiros mais consultados, Folha de São Paulo e Jornal do Brasil, estão disponíveis na Internet, assim como parte significativa do Jornal dos Sports e Revista Placar. O periódico paulista permite a consulta em seu próprio site. O Jornal do Brasil e o Jornal dos Sports podem ser pesquisados na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional. A Revista Placar encontra-se disponível pelo Google Books. Indubitavelmente, tal realidade deixou o trabalho do pesquisador mais confortável.
Para o La Nacion, Critica, Clarín, El Gráfico, dentre outros periódicos argentinos, a pesquisa na Biblioteca Nacional Mariano Moreno se tornou essencial. Os documentos de interesse para este trabalho, ou não se encontram disponíveis na internet, ou o fazem somente para publicações a partir de meados da década de 90. Para sanar essa dificuldade, pesquisei no ano 2016 em Buenos Aires, na citada biblioteca. Lá, questionei sobre a digitalização do material e fui informado que eles estão apenas começando a realizar tal atividade e que os recursos para isso ainda são muito escassos. Porém, o trabalho foi agilizado em virtude da possibilidade de se fotografar o material. No retorno ao Brasil, contabilizei aproximadamente três mil fotos dos artigos publicados nos periódicos argentinos.
Os jornais argentinos foram selecionados observando certos aspectos: Buenos Aires é o principal centro urbano da Argentina, seus periódicos são distribuídos por todo o país e neste sentido foram escolhidos os dois de maior tiragem o Clarín e o La Nacion. Outro ponto de interesse e que influenciou a escolha, é que após suas respectivas fundações, 1945 e 1870, ambos continuam sendo publicados.
Além dos jornais, o semanário, tido como a bíblia esportiva argentina, El Gráfico foi fartamente utilizado até 2002, quando perdeu seu caráter semanal e se tornou mensal, o que acarretou perda da qualidade das informações para o modelo de pesquisa aqui adotado.21 O Olé, primeiro diário esportivo argentino, fundado em 1996, foi outra fonte consultada.
No caso brasileiro, duas regiões se sobressaem como centros de difusão cultural para o país: o Rio de Janeiro e São Paulo. Nesse sentido também se buscou por jornais com grandes tiragens e com reconhecimento nacional, como o Jornal do Brasil e os jornais publicados pelo grupo Folha (Folha da Manhã, Folha da Noite e posteriormente Folha de São Paulo), além dos diários esportivos, dentre os quais destaco o Jornal dos Sports e o Lance!.
Outro cuidado tomado foi realizar, previamente à pesquisa de campo, o levantamento das datas relativas aos confrontos entre as duas seleções e a partir daí pesquisar os jornais nas datas próximas aos jogos.
Realizei uma primeira leitura do material coletado na Biblioteca nacional Mariano Moreno e procedi a sua catalogação e classificação. A partir daí percebi que era possível, por contar com os documentos argentinos e ter acesso aos periódicos brasileiros, trabalhar cada uma das partidas das seleções principais de Brasil e Argentina.
Paralelamente ao cuidado com cada uma das partidas, entendo que determinadas competições, com destaque para as Copas do Mundo, servem como grandes construtores da percepção em relação ao adversário, pois elas definem, para cada quadriênio, a melhor seleção do planeta. Nas palavras de Fatima Antunes:
21 A empresa Torneos y Competencias, proprietária da mítica revista esportiva, fundada em maio de 1919, anunciou em janeiro de 2018 que, após 98 anos de existência, suspenderia a versão imprensa da revista em decorrência do consumo decrescente dos meios impressos. A empresa ainda afirmou que analisava outras possibilidades para que o El Gráfico continuasse gerando conteúdos e informações para além do seu formato tradicional em papel.
Para aqueles que fizeram do futebol seu esporte nacional, a Copa do Mundo, no entanto significa, no nível simbólico, o momento em que se estabelece uma hierarquia entre as próprias identidades nacionais. É uma questão de vida ou morte, e o que acaba sendo colocado em jogo, por vezes, é a própria honra.22
Sem querer adiantar as conclusões, o efeito das Copas do Mundo na construção discursiva, representativa e identitária do adversário teve um impacto acentuado na maneira do argentino reconstruir sua narrativa sobre o futebol brasileiro (mais do que o inverso). Percebe-se de modo claro, especialmente no que denominei de “Era dourada do futebol brasileiro”, ou seja, entre 1958 e 1970, que o Brasil tornou-se o modelo a ser seguido. Neste sentido, utilizando-se da dupla conceitual desenvolvida por Reinhart Koselleck,23 a partir do espaço de experiência vivenciado, em que o Brasil venceu três das quatro Copas do Mundo disputadas, apresentando um futebol criativo, habilidoso e que os argentinos denominaram, em português, de “jogo bonito” criou-se um horizonte de expectativa de que a Seleção Brasileira sempre deveria apresentar tal estilo de jogo e que, quando não ocorre, gera um sentimento de frustração entre os seus periodistas.
Apesar do caráter fugaz presente no futebol, ou seja, os resultados imediatos dos confrontos tendem a acarretar um apagamento temporário em virtude da euforia ou tristeza que os envolvem, ainda assim, a continuidade dos embates cria um espaço de experiência que por sua vez reverberará em um horizonte de expectativa, tanto para si, quanto para o seu adversário e, mais uma vez, as crônicas fornecem tais construções.
Também se buscou entender, ou perceber como verdadeira, no espaço futebolístico, uma afirmação do sociólogo Pablo Alabarces: “O argentino odeia amar os brasileiros e os brasileiros amam odiar os argentinos” e quais os motivos que levaram com que tal “amor” se diluísse nos primeiros anos do século XXI.
Em virtude do padrão desenvolvido na fase inicial da escritura, de descrever cada um dos jogos entre as duas seleções e ainda detalhar as partidas das Copas do Mundo, fundamentais para a criação, afirmação, questionamento e até desconstrução de identidades, a pesquisa caracterizou-se por ser mais descritiva e com discussões teóricas mais disseminadas.
22 ANTUNES, Fatima Martins Rodrigues Ferreira. op. cit., p. 41.
23 KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto: PUC-RJ, 2006.
Em decorrência do trabalho exaustivo realizado pelo pesquisador, especialmente no levantamento e análise das fontes primárias, amplamente utilizados ao longo dos capítulos, permite afirmar que, a partir dos mesmos periódicos pesquisados, a substituição de uma fonte por outras que não foram utilizadas ao longo da pesquisa estará mais vinculada ao caráter estilístico, de identificação ou gosto do pesquisador do que fundamentalmente ao sentido dos artigos, mesmo consciente das múltiplas interpretações presentes no trabalho do historiador.
Como decorrência das análises acima mencionadas e consciente de que os objetos não se esgotam em uma, ou em poucas abordagens, vejo que um dos caminhos a ser seguidos futuramente é o do entrelaçamento mais profundo entre os aspectos teóricos e o caráter mais descritivo que foi fundamental para a elaboração de um quadro mais amplo e geral para analisar os confrontos entre os dois países no espaço futebolístico.
Em relação à descrição das partidas é fundamental realizar alguns esclarecimentos metodológicos. O pesquisador se utilizou inicialmente das próprias narrativas jornalísticas para compor o seu discurso, no entanto, a partir da década de 50 e de forma mais intensa para os anos recentes, há filmes disponibilizados na Internet em canais próprios o que tornou “mais fácil a comunicação direta entre os atores do campo (atletas, entidades, etc.) e o público”.24 A
partir desse material, as partidas passaram a ser narradas levando em conta não somente as narrativas jornalísticas, mas também da percepção que o próprio pesquisador vivenciou ao assistir as jogadas de perigo ou aquelas que resultaram nos gols e, sempre que possível, das partidas na íntegra, quando disponibilizadas.
Houve a preocupação por parte do pesquisador de apresentar os fatos curiosos, singulares e que marcaram o primeiro século de confrontos entre duas das maiores escolas de futebol do mundo. Para além das curiosidades, são disponibilizadas todas as escalações dos jogos em que brasileiros e argentinos se defrontaram e, nas Copas do Mundo, contra os demais adversários. Finalmente, buscou-se fazer breves biografias dos principais jogadores do Brasil e da Argentina. Tal esforço se circunscreveu aos atletas que já “aposentaram suas chuteiras”. Certamente algumas omissões foram cometidas nestas escolhas.
24 MELO, Victor Andrade de (et. al.). Pesquisa histórica e história do esporte. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013, p. 124.
A tese foi dividida em 7 capítulos, todos formatados a partir de critérios temporais. Levaram-se em consideração as modalidades de enfrentamento: Copa Roca, Copa América, Taça Atlântico e principalmente as Copas do Mundo. Os amistosos, por serem partidas de menor importância, foram tratados dentro dos períodos entre as competições mais importantes.
O primeiro capítulo busca situar o leitor em relação à crescente importância do futebol, especialmente em termos acadêmicos e como isso se agrega à utilização dos jornais e das crônicas esportivas como fontes históricas. Buscou-se discutir questões relacionadas à narrativa jornalística e do seu distanciamento quanto à objetividade. Como a pesquisa se insere nas práticas esportivas, abordou-se ainda a história da imprensa esportiva que, mesmo sendo, em muitos casos, a âncora de vendas do jornal, apresentava o editorial menos favorecido. O capítulo se encerra tratando da crônica, como gênero literário e, mais especificamente, das características que são inerentes à crônica esportiva.
O capítulo seguinte, denominado de “O nascimento de uma paixão”, tratou das origens, extremamente comuns, do futebol na Argentina e no Brasil. A partir daí discute-se como o futebol ganhou importância nos dois países, a formação dos respectivos selecionados nacionais e os primeiros intercâmbios entre combinados brasileiros e argentinos. O capítulo se encerra em 1914 quando, pela primeira vez, as seleções irão se enfrentar. É o início da Copa Roca.
O terceiro capítulo está circunscrito ao período entre 1914 e 1950. Nessas décadas, o futebol platino – uruguaio e argentino – foi dominante não só na América do Sul, mas também surpreendeu o mundo, afinal a Seleção Uruguaia foi bicampeã olímpica em 1924 e 1928 e campeã mundial em 1930, tendo inclusive disputado as duas últimas finais exatamente contra o grande rival do continente, a Argentina. Foi construído, dessa forma, um discurso da superioridade futebolística desses dois países denominada de “platinismo”. A imprensa brasileira, em vários momentos, deixará clara a necessidade de buscar inspiração e até de copiar os métodos utilizados pelos rivais.
Sem dúvida alguma, os argentinos contavam com uma geração espetacular, como afirmam os estudiosos sobre o tema e os jornalistas esportivos dos dois países. Eles inclusive acreditam que, se na década de 40, conhecida como a “Década sem Copa”, os campeonatos
mundiais de 1942 e 1946 tivessem ocorrido, provavelmente a Argentina teria conquistado pelo menos um deles, em virtude da qualidade de seus jogadores e do futebol apresentado. Apesar disso não ter acontecido, acabou por influenciar o discurso brasileiro em relação ao seu rival, fato que começou a se alterar apenas no final da década de 1940.
O quarto capítulo é simultaneamente a “Era de Ouro” do futebol brasileiro e de grave crise no futebol argentino, que se inicia na Copa de 1950, disputada no Brasil, quando o país vizinho se nega a dela participar, adotando a mesma posição em 1954. A realidade em nada melhora para os albicelestes na Copa seguinte, 1958. Acreditando ainda possuir o melhor futebol do mundo, são desclassificados na primeira fase do torneio disputado na Suécia, após sofrer uma vexatória goleada para a seleção da Tchecoslováquia.25 Tal resultado foi considerado pelos cronistas argentinos do período como o maior desastre da história do futebol local.
Além da desastrosa derrota, os argentinos ainda assistiram ao êxito do futebol brasileiro, que apresentou uma safra de jogadores que encantaria o mundo por vários anos: Garrincha, Pelé, Nilton Santos, Didi, dentre outros. Se, até então, a imprensa brasileira defendia que deveríamos copiar o modelo de futebol argentino, agora o discurso se inverteu, era a albiceleste que se encontrava um passo atrás em relação ao futebol de seu adversário e tal sensação se reforçou com a conquista brasileira do bi-campeonato mundial no Chile (1962).
O capítulo será encerrado com o último grande fracasso do futebol argentino: a primeira e única vez que o selecionado do país foi desclassificado para a fase final da Copa do Mundo disputando as eliminatórias. Simultaneamente, assiste-se à consagração do futebol brasileiro com a conquista do tricampeonato. Percebe-se, acompanhando as reportagens jornalísticas argentinas, que havia uma simpatia e grande admiração pelo futebol praticado pela seleção canarinho.
O quinto capítulo tratará, especialmente, da organização e vitórias conquistadas pela Seleção Argentina, dessa forma, seria um novo momento de consagração do futebol
daquele país. A albiceleste sagrou-se bicampeã do mundo em 1978 e 1986 – Argentina e México respectivamente – e ainda alcançou o vice-campeonato em 1990 – Itália.
O Brasil, por sua vez, após a geração de 1970, não apresentava jogadores tão talentosos, porém continuava sendo extremamente respeitado por todos os seus adversários e pela imprensa mundial. Os periodistas argentinos mostravam, em vários momentos, grande frustração com o futebol apresentado pela seleção canarinho, distante daquele que foi praticado nas duas décadas anteriores e incapaz de reproduzir o denominado “jogo bonito” que, segundo eles, nos identificava. A exceção, para essa fase sem brilho, foi a equipe montada por Telê Santana para a Copa da Espanha.
Por isso, neste capítulo, ganha importância a Copa de 1982. Por um lado, para muitos jornalistas brasileiros, ela foi um momento de inflexão no futebol tricampeão do mundo. Apesar das discussões sobre o Futebol Arte X Futebol Força serem comuns na imprensa, entre os jornalistas, os técnicos e os torcedores brasileiros, pelo menos desde 1966, a derrota na Copa teria deixado claro que o Brasil, para voltar a ser campeão, teria que jogar um “futebol de resultados”, mais próximo do praticado pelos europeus. Porém, os analistas argentinos percebiam uma geração talentosa do futebol brasileiro.
Apesar dos argentinos não terem apresentado um bom futebol na Copa de 1982, fato que alguns jornalistas atribuem à Guerra das Malvinas, afinal o conflito havia terminado com uma humilhante derrota frente às forças inglesas em 14 de julho, ou seja, um dia após a estreia de seu selecionado no Mundial, eles ofereciam um novo “Rei” para o futebol: Diego Maradona. E aqui não se objetivou discutir quem era melhor: Pelé ou Maradona. Tal discussão fica para os aficionados. Porém, Maradona foi, indiscutivelmente, como Pelé havia sido, o fio condutor do futebol mundial nos seguintes doze anos. Ele capitaneou a Argentina ao título de 1986 e ao vice-campeonato quatro anos depois. O capítulo também demonstra que a imprensa brasileira sempre se mostrou mais arredia quando se trata de tecer loas ao futebol do selecionado rival, assim como percebê-lo como um modelo a ser seguido.
O sexto capítulo centrou-se no retorno do Brasil aos locais mais altos do futebol internacional. O tetracampeonato em 1994 nos Estados Unidos, o vice-campeonato, com grandes doses de “teoria da conspiração”, em 1998, na França e finalmente o pentacampeonato conquistado em 2002 no Japão. A Seleção Brasileira apresentou uma
geração bem qualificada e com inúmeros jogadores que tinham como letra inicial de seus nomes o “R”, o que deu origem ao título do capítulo.26
Retornando à Copa de 1994, além da vitória brasileira, também se abordará o ocaso de Maradona. O excepcional jogador argentino foi acusado, durante um exame antidoping ocorrido durante o evento, de ter utilizado substâncias proibidas, dentre elas a efedrina, para emagrecer. Após a punição sofrida pelo seu grande astro, a Seleção Argentina, que em virtude do futebol apresentado era tida como a grande favorita do torneio, sucumbiu diante da Seleção Romena, equipe que tinha como grande protagonista Hagi, chamado de “o Maradona dos Cárpatos”. A Argentina, a partir do ocaso de Maradona, passou a apresentar boas seleções, porém, por muito tempo, segundo seus próprios relatos, sem a presença de um jogador “extra-classe”.
O último capítulo discute o possível declínio do futebol sul-americano, afinal as seleções dos dois países, cada vez mais exportadores de mão-de-obra para o futebol globalizado, fracassaram nas Copas de 2006 (Alemanha), 2010 (África do Sul) e mesmo no Brasil (2014), quando os argentinos alcançaram a final, mas foram derrotados pelos alemães na prorrogação e apresentaram um futebol distante da identidade que historicamente construíram.27 Em várias reportagens brasileiras, nas vésperas da final, ocorrida no Maracanã, os alemães foram representados como os portadores, naquele momento, do “futebol-arte” e os argentinos, que atuaram mais defensivamente, do “futebol-força”.
No decorrer do capítulo percebe-se ainda, na albiceleste, a angústia pela falta de títulos. O último conquistado foi o sul-americano de 1993 e tal realidade se transformou em um peso para os seus jogadores, em particular para o “extra-classe” Lionel Messi. O capítulo se encerra com uma justificativa para o seu título, no entanto, antes disso, relata a última partida entre os dois selecionados para o período analisado, no centenário dos confrontos, ocorrido na China, pós Copa do Mundo.
26 Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos e Rivaldo, foram protagonistas dos títulos do Brasil no período.
27 Fora do escopo temporal do trabalho, as seleções sul-americanas também fracassaram na Copa de 2018, disputada na Rússia.
1.1.O ESPORTE DAS MULTIDÕES
O futebol é o esporte mais popular do nosso planeta. Para se ter uma ideia da sua dimensão, existem mais países filiados à FIFA (Federation International of Football Association) do que associados à ONU (Organização das Nações Unidas)1. No Brasil, ele passou a ser jogado cotidianamente há pouco mais de um século e na Argentina sua introdução se deu algumas décadas antes. A primeira partida em solo platino teria ocorrido em 20 de junho de 1867 e no Brasil em 14 de abril de 1895. Sua introdução vincula-se à influência britânica e também à construção de ferrovias nos dois países.
Para dinamizar o processo de comunicação e integração do país por meio dos transportes terrestres, surgiu a ideia de se construírem ferrovias. Para tanto, foram trazidos técnicos e investidores britânicos. Muitos desses trabalhadores, juntos com os marinheiros que já batiam bola nos arredores dos portos de Buenos Aires e Rosário, foram os que começaram a introduzir e popularizar o futebol no país.2
Ou então:
Ainda em meados do século aconteceu a segunda revolução industrial inglesa. Com isso, entre 1850 e 1880 quase sete milhões de britânicos, de uma população total de 26 milhões, decidiram emigrar em busca de novas oportunidades. Parte deles foi à Argentina; outro tanto veio ao Brasil. Contudo, diferentemente dos demais imigrantes europeus, que em sua maioria chegaram para trabalhar nas fazendas de café, os britânicos vieram ao Brasil para ajudar a desenvolver e consolidar a São Paulo Railway Company e outras ferrovias, assim como para trabalhar em usinas, indústrias têxteis, empresas de fornecimento de gás e de energia elétrica [...].3
Os dois países se transformaram, a Argentina mais cedo que o Brasil, em grandes potências futebolísticas no âmbito não apenas regional, mas também mundial, e rivalidades já existentes em outras esferas se transferiram para o “relvado”.
1 Para muitos países, a luta pelo reconhecimento internacional passa pelas entidades esportivas e as competições funcionam como um importante cenário para que certos grupos possam ampliar a visibilidade de suas lutas e reivindicações. Cf. AQUINO, Rubim Santos Leão de. Futebol: uma paixão nacional. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002, p. 11.
2 SANTOS, Newton César de Oliveira. Brasil X Argentina: histórias do maior clássico do futebol mundial (1908-2008). São Paulo: Scortecci, 2009, p. 34.