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História da Psicologia em Contexto: teoria, conceitos e implicações metodológicas

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Revista Sul Americana de Psicologia, v5, n2, Jul/Dez, 2017

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HISTÓRIA DA PSICOLOGIA EM CONTEXTO: TEORIA,

CONCEITOS E IMPLICAÇÕES METODOLÓGICAS

History of Psychology in Context: theory, concepts and methodological implications

Historia de la Psicología en Contexto: teoría, conceptos e implicaciones metodológicas

Paulo Coelho Castelo Branco–Universidade Federal da Bahia Sérgio Dias Cirino–Universidade Federal de Minas Gerais

Endereço para correspondência: Universidade Federal da Bahia Rua Rio de Contas, 58, Gabinete 22. Bairro Candeias, Vitória da Conquista - BA, 45029-094. E-mail:[email protected]

[email protected]

Paulo Coelho Castelo Branco Professor Adjunto do Instituto Multidisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Coordenador do Núcleo de Estudos em Psicologia Humanista.

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173 Resumo

Este artigo propõe apresentar, didaticamente, a História da Psicologia em Contexto como uma linha de pensamento que contribui para o desenvolvimento metodológico de pesquisas historiográficas. Essa perspectiva histórica circunscreve uma discussão que centra atenção nos elementos que constituem um conhecimento psicológico e possibilitam suas extensões e apropriações em outros contextos, enaltecendo suas localidades e especificidades em relação a sua matriz. Descrevemos a História da Psicologia em Contexto em relação: às fundações teóricas que definem a sua linha de pesquisa; aos conceitos que adornam os estudos de um conhecimento psicológico, a saber, geografia intelectual central e periférica, recepção e indigenização; às suas implicações metodológicas. Por fim, consideramos as potencialidades da História da Psicologia em Contexto.

Palavras-Chaves: Historiografia; Metodologia; Métodos de Pesquisa-Psicologia; Psicologia-História.

Abstract

This article presents, didactically, the History of Psychology in Context as a line of thinking that contributes to the methodological development of historiography research. This historical perspective circumscribes a discussion that focuses attention on elements that constitute the psychological knowledge and enable your extensions and appropriations in other contexts. We describe the History of Psychology in Context in relation: its theoretical foundations that define their research line; the concepts that adorn the psychological knowledge study, namely, intellectual geography of center and periphery, reception and indigenization; its methodological implications. Finally, we consider the potentialities of the History of Psychology in Context.

Keywords: Historiography; Methodology; Research Methods-Psychology; Psychology-History.

Resumen

Este artículo propone presentar, didácticamente, la Historia de la Psicología en Contexto como una línea de pensamiento que contribuye al el desarrollo metodológico de investigaciones historiográficas. Esa perspectiva histórica rodea una discusión que centra la atención en los elementos que constituyen un conocimiento psicológico e posibilitan sus extensiones y apropiaciones en otros contextos, enalteciendo sus localidades y especificidades en relación a su matriz. Describimos la Historia de la Psicología en Contexto en relación a: los fundamentos teóricos que definen su línea de investigación; a los conceptos que adornan los estudios de un conocimiento psicológico, es decir, geografía intelectual central y periférica, recepción e indigenización; a sus implicaciones metodológicas. Al final, consideramos las potencialidades de la Historia de la Psicología en Contexto.

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174 Introdução

O campo da História da Psicologia tem se organizado no Brasil conforme

diversos grupos de pesquisas que propiciam um pluralismo de pesquisas sobre os mais

variados temas (Jacó-Vilela, Jabur & Rodrigues, 2008; Campos, Jacó-Vilela &

Massimi, 2010; Lourenço, Assis & Campos, 2012; Araújo, 2013; Assis & Peres, 2016).

Atualmente, é possível identificar a institucionalização nacional desse campo em

sociedades, grupos de trabalho na Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em

Psicologia, periódicos e linhas de pesquisa em programas de pós-graduação.

Com efeito, suscitam-se muitos debates teóricos e metodológicos sobre os

possíveis tipos de pesquisa que auxiliam o psicólogo historiador (Brožek & Massimi,

1998; Assis & Peres, 2016). Dentre eles, situamos a História da Psicologia em

Contexto, uma perspectiva de pensamento histórico profícua à formação de estudantes

interessados em investigar o desenvolvimento da Psicologia, segundo os seus

movimentos migratórios e suas nuances locais. Com o intuito de organizar os aspectos

metodológicos concernentes à História da Psicologia em Contexto, este artigo objetiva

servir como uma introdução dessa perspectiva de estudo, inspirada pelas variadas

produções de psicólogos historiadores interessados pela temática (Danziger, 2006;

Cirino, Miranda & Souza, 2012; Cirino, Miranda & Cruz, 2012; Lourenço et al., 2012;

Cirino, Miranda Cruz & Araújo, 2013; Pickren & Rutherford, 2010, 2012; Pickren,

2012; Brock, 2014; Castelo-Branco, Rota, Miranda & Cirino, 2016).

Apresentamos, pois, alguns conteúdos reflexivos úteis à proposição de uma

História da Psicologia em Contexto. Para isso, a primeira parte do artigo circunscreve

um entendimento sobre os aspectos fundacionais e teóricos dessa proposta. A segunda

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indigenizaçãodo conhecimento psicológico. A terceira discute as implicações da

História da Psicologia em Contexto para a pesquisa historiográfica.

Definição da História da Psicologia em Contexto

Entendemos a História da Psicologia em Contextocomo uma linha de

pensamento em História da Psicologia, inspirada e embasada pelos pensamentos de

Danziger (2006), Pickren (2012), Pickren e Rutherford (2010, 2012). Tal perspectiva

argumenta que a visão tradicional de História da Psicologia ignora o conhecimento

psicológico teórico, prático e histórico produzido fora das cercanias estadunidenses e

europeias.

É conveniente notar como, historicamente, a constituição do conhecimento

ocidental aconteceu mediante uma formulação epistemológica vinculada a saberes

oriundos de países situados ao norte da linha do equador (Santos, 2009). No caso da

Psicologia, são notórias as hegemonias epistemológicas derivadas da Alemanha, dos

EUA, da França, da Inglaterra, da Rússia (União Soviética) e da Itália. Ressaltamos que

muitas correntes de pensamento psicológico, após o seu surgimento, difundiram-se para

outros países. Isto implica duplo movimento, em que há, inicialmente, uma dependência

em relação a essa matriz (potência externa) e, posteriormente, ocorre uma polaridade

histórica que enseja uma heterogeneidade abissal em relação ao que ocorre no centro de

produção de um conhecimento psicológico (Klappenbah & Pavesi, 1998).

Obviamente, houve extensões desses conhecimentos para outros países situados

ao sul da linha do equador. Observamos, no entanto, a necessidade de uma reflexão

sobre as consequências dessa migração de conhecimento (Santos, 2009), sobretudo no

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exemplos de recepções de ideias estrangeiras de forma descontextualizada,

relativamente ao seu domínio epistemológico originário, para se combinar a novas

ideias harmonizadas às contendas locais (Klappenbach & Pavesi, 1998).

Sob a luz da Psicologia do norte, muitas dessas assimilações e elaborações

próprias a uma cultura do sul tendem a ser desvalorizadas ou atentadas com curiosidade.

Na desvalorização, rege uma lógica colonial de propagação, dominação e legitimação

dos saberes do norte. Na curiosidade, percebe-se uma lente crítica a qual argumenta que

não existem psicologias neutras, pois há práticas científicas e não científicas que criam

outras linhas de conhecimento alheias às epistemologias do norte e circunscritas em

uma forma de conhecimento autônoma e dotada de rigor (Santos, 2009). Essas teorias e

práticas psicológicas poderiam ser vinculadas a uma epistemologia do sul, entendida

como um

(...) conjunto de intervenções epistemológicas que denunciam a supressão de saberes levada a cabo, ao longo dos últimos séculos, pela norma epistemológica dominante, valorizam os saberes que resistiram com êxito e as reflexões que estes têm produzido e investigam as condições de um diálogo horizontal entre conhecimentos (Santos, 2009, p. 07).

Com efeito, a dispersão do pensamento psicológico não ocorre somente nas

formas de variação relativamente ao seu objeto de estudo, método, teoria, prática e visão

de sujeito e mundo. Acrescenta-se a isso a disseminação do pensamento psicológico em

diversos países, que assimilaram ideias oriundas de sua epistemologia do norte e as

atualizaram de forma autônoma, ganhando contornos específicos.

A História da Psicologia em Contexto, destarte, sugere uma visada

historiográfica baseada no conhecimento psicológico produzido localmente em outras

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psicológico. Essa visada não desconsidera a questão dos fatos históricos, das sucessões

temporais e suas fontes de informação, mas se distancia de uma tradição homogênea de

História Geral da Psicologia como fonte ortodoxa legitimadora de certezas que

sustentam a prática psicológica. Não se trata de invalidar outras histórias da Psicologia,

mas problematizá-las em seus limites e complementá-las (Klappenbah & Pavesi, 1998).

No transcurso do que foi exposto, salientamos a existência de um conjunto de

conceitos que contribuem com a fundamentação e o pensamento da História da

Psicologia em Contexto. Tal conjunto, esmiuçado em seguida, acena para algumas

articulações conceituais, organizadas pelos autores deste artigo.

Geografia intelectual central e geografia periférica do conhecimento psicológico

A História da Psicologia está organizada como o estudo de importantes

perspectivas do pensamento psicológico, como as comportamentais, as humanistas e as

psicanalíticas, entre outras. Essa abordagem tradicional tem a vantagem de organizar o

conhecimento psicológico; porém, reside o pressuposto implícito de que outros

percursos de pensamento psicológico, desenvolvidos fora do eixo geográfico onde se

originaram as mencionadas psicologias, não têm importância ou o mesmo

valorintelectual (Pickren & Rutherford, 2010).

Conforme Danziger (2006), após a Segunda-Guerra Mundial, houve um

expansionismo da Psicologia dos EUA, e acrescentamos da Europa, para outros países

da América, ocasionando a emergência de conhecimentos psicológicos periféricos mais

ou menos autônomos em relação a um centro de referência estadunidense. Nesse

processo, muitas psicologias dos EUA e da Europa ofereceram, explicita e

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eixos de referência centrais à condução de um pensamento psicológico. Formam-se,

então, as psicologias centrais, entendidas como aquelas que produziram um

entendimento teórico e prático que marcaram um posicionamento fundamental na

emergência de um conhecimento psicológico, situado geograficamente num eixo de

referência à produção desse conhecimento.

Na segunda metade do século XX, entretanto, muitos conhecimentos se

estabeleceram geograficamente à margem dessa Psicologia central (Danziger, 2006).

Com efeito, esse eixo de referência produziu uma distinção entre o que é considerado

central (homogêneo) e periférico (heterogêneo, mas com um apoio naquilo que é

central). Formam-se, pois, perifericamente ao eixo estadunidense e europeu, diversas

localidades geográficas e intelectuais de Psicologia, autônomas e distintas entre si.

Logo, para tornar o campo da História da Psicologia completo, utiliza-se de uma

perspectiva mais global que amplia o foco para o que acontece fora dos centros de

fundação do conhecimento psicológico, dado que a Psicologia não é mera continuação

desses polos (Pickren & Rutherford, 2012). Compreende-se, então, como um

conhecimento psicológico se naturalizou fora dos centros do EUA, por exemplo, e foi

incorporado segundo uma hibridização, adaptada às querelas de uma localidade.

Existem, pois, fatores sociais, culturais e políticos que afetaram essas linhas de

pensamento periféricas e minimizaram sua importância na História da Psicologia. O

desafio é abordar aquilo que não foi contado nas páginas dos manuais dessa vertente

científica. As psicologias consideradas periféricas revelam, pois, uma complexidade

histórica pouco conhecida, mas embebida de teorias e práticas que refletem um contexto

de ideias genuínas. Embora as psicologias estadunidense e europeia sejam consideradas

formas e referências universais de se fazer Psicologia, interessa atentar e historiografar a

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fora desse eixo considerado central ao pensamento psicológico. Este não deve ser

tomado com a Psicologia (Pickren & Rutherford, 2010).

Nesse sentido, Danziger (2006) denuncia que os livros tradicionais de História

da Psicologia pouco atentam para o que acontece nos países sul-americanos e africanos,

desfocando a Psicologia que se constituiu nestes locais. Muito disso acontece, talvez,

pela concepção de que o conhecimento produzido nos países periféricos não é

generalizável aos países centrais. Outro motivo possível seria a falta de recursos para

montar grandes pesquisas sobre um determinado assunto – o que não implica falta de

criatividade para abordá-los.

Destarte, uma perspectiva historiográfica da Psicologia em contexto, em cada

caso, assume, geográfica e intelectualmente, quem é o centro e quem é a periferia do

conhecimento estudado para considerar como ocorreu a recepção de ideias de um polo

para outro (Pickren & Rutherford, 2010).

Recepção de conhecimentos psicológicos

O conceito de recepção de conhecimentos psicológicos tem origem na Estética

da Recepção da obra literária, postulada por Hans Robert Jauss (Dagfal, 2004). Em

linhas gerais o vocábulo recepção alude a duplo movimento de apropriação e

intercâmbio de ideias. Na acepção ora particularizada à História da Psicologia em

Contexto, Dagfal (2004) define o termo recepção como propício a uma dupla função,

pois expressa um sentido ativo e outro passivo. É um ato duplo que aponta para um

efeito produzido pela obra psicológica em um público que a recebe; e indica uma função

ativa do leitor que concretiza um sentido para a obra. O leitor seleciona o conhecimento

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sentido, segundo uma tradição que o confronta. Ele pode se apropriar do passado,

incluindo interpretações advindas de terceiros, e pode romper com o sucedido,

superando-o. Essa interação de recepção com superação concretiza um sentido para o

conhecimento – daquilo que lhe é próprio e daquilo que se dispõe a ela ultrapassar.

A recepção de um conhecimento implica, pois, uma fusão de horizontes que se

ancora em uma dada situação social carente de nexos de recepção e produção de

ciência. A recepção parte da experiência subjetiva do autor para uma relação

intersubjetiva com o leitor e, posteriormente, dos leitores entre si (Dagfal, 2004).

Por diversas razões, em cada momento histórico, em todo lugar, o interesse de

um público está mais preparado para receber certos conhecimentos psicológicos. Para

Danziger (2006), isso é um fator intersubjetivo em que um horizonte de expectativas se

articula em um interesse intelectual. Esta estrutura intencional caracteriza uma

disciplina com objetivos próprios e interesses em comum que podem se estender a

outras disciplinas e agentes sociais. Esse interesse intelectual articula fatores intra e

extradisciplinares na produção e recepção do conhecimento (Dagfal, 2004). Quando um

autor escreve uma obra de Psicologia, ele o faz por interesses idiossincrásicos e sociais,

compartilhados por uma comunidade de pares. Todo autor, entretanto, antes de tudo, é

um leitor perpassado por uma fusão de horizontes que, por um lado, intenciona honrar

uma tradição e, de outra parte, a situa para a frente, segundo novas discussões.

No esteio do pensamento de Dagfal (2004), outra categoria conceitual que

interessa à História da Psicologia em Contexto, inspirada em Bourdieu, refere-se ao

campo. Este expressa à autonomia relativa a uma comunidade científico-intelectual, que

se relaciona com outros grupos e influências sociais mais gerais. Essa comunidade tem

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propriedades próprias e posições adquiridas, que dão valor às ideias, textos e práticas

dos seus agentes, sejam estes pessoas, grupos ou linhas de pensamento.

Dentro do campo, há autoridades que acumulam um capital simbólico dotado de

competência e luta por legitimidade. Esse reconhecimento somente vem dos pares que

integram o mesmo terreno e, também, competem por igual acumulação de capital

simbólico. A noção de campo abre, pois, um caminho para abordar a complexidade das

escolas psicológicas em suas unidades e anarquismos disciplinares, pelos seus

subcampos (Dagfal, 2004).

Do mesmo modo, a categoria problemática, postulada por Danziger (2006),

complementa o exposto. Cabe distinguir essa ideia em relação ao termo problema. Este

é contingente e remete a uma dimensão individual e consciente daquilo que aparece

como um obstáculo ou dificuldade para estabelecer um conhecimento. A problemática

se refere a uma troca coletiva, de um grupo, que, por vezes inconscientemente, constitui

um marco com origem no qual os problemas individuais são possíveis. Para Danziger

(2006), as atividades que propiciam um conhecimento apenas têm lugar em um contexto

de resolução de problemas que não significam invenções individuais, mas estão

inseridos em uma problemática.

Em suma, as mencionadas reflexões conceituais são proveitosas à História da

Psicologia em Contexto, pois, conforme assinala Dagfal (2004): rompem com as velhas

antinomias entre o social e o disciplinar, o externo e o interno; compreendem os

problemas históricos em um marco transindividual e intersubjetivo; e aspiram a uma

certa objetividade, não ingênua. O exame de um conhecimento psicológico considera,

pois, seus mecanismos dialéticos de produção e recepção entre países considerados

eixos centrais e periféricos de um conhecimento psicológico. A recepção de

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ecletismo de ideias recebidas que, justapostas, exprime um horizonte de sentidos e

expectativas radicalmente distintos de seu solo originário, pois estão situados em um

novo contexto social e científico.

O emprego do conceito de recepção para o estudo historiográfico da Psicologia

em Contexto torna-se importante, ao argumentar que existe um componente

propriamente brasileiro nos conhecimentos psicológicos advindos de uma geografia

intelectual central, quando estes chegam ao país. Essa perspectiva de Psicologia

brasileira não é mera conformação de um pensamento estrangeiro, pois se trata de uma

apropriação ativa, que inclui um âmbito de experiência a impulsionar outros horizontes

de problemas, os quais estabelecem novos sentidos e formas de relação de um

pensamento com o seu público. Eis a assunção de um eixo intelectual periférico.

Entendemos que a recepção de conhecimentos psicológicos implica estudar a

história de uma corrente psicológica contemporânea e investigar as formas como esta

foi legitimada em diversos países, adentrando as condições que possibilitaram a

recepção do seu conhecimento em cada país. Indicamos alguns exemplos dessa visada

(Klappenbach, 1999; Cirino et al., 2012; Castelo-Branco et al., 2016).

O estudo da recepção de uma psicologia explora o contexto científico-cultural,

social e institucional de um país receptor para examinar como este recebeu um

determinado conhecimento psicológico e refletir o modo como esse conhecimento

circulou nele, assinalando suas diferenças e especificidades em relação ao país central.

Indigenização do conhecimento psicológico

Não raro, a visão tradicional de História da Psicologia sobre os países periféricos

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aceitação das ideias estrangeiras, em uma circulação não científica. Posteriormente,

ocorre uma propagação de instituições ianques e europeias que estimulam a formação e

a produção científica no país colonizado. Por fim, o eixo periférico começa a ganhar

maturidade e reconhecimento do país colonizador (Pickren & Rutherford, 2012).

Uma lente mais contemporânea e crítica argumenta que a visão mencionada

desconsidera a hibridização e o encontro sociocultural que um conhecimento

psicológico defronta em sua recepção nos países periféricos. Isso decorre da

naturalização desse conhecimento como uma mera reprodução das ideias estrangeiras,

desatinando para a dinâmica implícita da transformação pela qual o conhecimento

psicológico passou nesse intercâmbio cultural.

Nesse âmbito, a História Psicologia em Contexto reconhece o processo de

indigenização das ideias psicológicas. Segundo Masolo (2009), o termo indígena refere

a uma série de significados-sinônimos como aquilo que é local, nativo ou original. Em

suma, o termo define a origem de elementos de um conhecimento segundo o seu

contexto local, respeitando seus agentes locais e suas caracterizações temporais.

Nessa perspectiva histórica, o termo neológico indigenização é utilizado com

maior frequência para analisar a mobilidade de pessoas, ideias e objetos de estudo que

se configuraram de forma específica em diversos lugares, ao longo do tempo. Logo, o

processo de indigenização aponta para a “(...) construção local do conhecimento e da

práxis psicológica (é preciso ter cuidado para garantir que este termo não seja usado em

qualquer sentido que sugira que as psicologias nativas são de algum modo primitivas)”

(Pickren & Rutherford, 2012, p. 59).

A indigenização alude, também, à promoção daquilo que não é hegemônico

segundo um país central, pois é localmente produzido e instalado no topo de seu

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dos conhecimentos psicológicos que se tornam híbridos em relação a sua geografia

intelectual central e colaboram com a elaboração de uma geografia intelectual

periférica, ao serem recebidos em um dado país. Entende-se, pois, o processo de

indigenização como um movimento em que um determinado conhecimento se torna

distinto e híbrido em relação a sua matriz original (Masolo, 2009). No caso da

Psicologia brasileira, a despeito da origem epistêmica do norte, existem várias teorias e

práticas que se atualizaram de forma autônoma e ganharam contornos locais específicos

que se distinguiram de sua matriz original.

A apropriação do termo mencionado implica, pois, uma análise da assimilação

histórica de certas ideias que formam uma linha de pensamento (dotada de teoria e

prática). Esse exame evoca uma distinção entre o que é local e importado, o que é nativo

e imigrante, o que é original ou estrangeiro (Masolo, 2009).

Parte-se, portanto, da suposição inicial de que qualquer psicologia que teve

sucesso em um determinado país deve isso ao seu processo de recepção e

indigenização, beneficiando-se dos aportes cultuais de sua época. Danziger (2006)

entende que a indigenização de um conhecimento psicológico expressa uma consciência

de si que atenta para o desenvolvimento de variações do fazer profissional, mais

sintonizadas com as contendas regionais do que as estrangeiras. Essa perspectiva atenta

para as tradições de cada contexto. Em alguns casos, a indigenização promove

mudanças superficiais em relação às psicologias centrais, ao passo que, noutros, envolve

mudanças radicais que rompem ou reestruturam com o que era central. O mencionado

autor utiliza a palavra indigenização, ainda, para referir a um fenômeno relativamente

novo da História da Psicologia moderna. Consoante esse historiador, as raízes da

Psicologia moderna se encontram nas tradições psicológicas e filosóficas europeias dos

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francesa e na Fisiologia experimental alemã. Todas essas tradições foram importantes

na formação da Ciência psicológica e, ao se dispersarem para outros países, foram alvo

de modificações em relação as suas teorias e práticas originais. Mesmo os países

centrais que receberam essas ideias, a exemplo dos EUA, foram marcados por um

processo de indigenização. Logo, é na dispersão e recepção das ideias psicológicas que

a indigenização faz sentido para contrapor uma universalidade da Psicologia.

Assim, a História da Psicologia em Contexto trabalha com uma tensão entre o

ocorrente nos centros de produção do conhecimento psicológico e o acontecido na

periferia desses centros, em termos de recepção e indigenização. Reconhecemos a

existência de histórias contextuais diversas que revelam uma multiplicidade de

perspectivas policêntricas sobre um objeto de estudo, práticas, imposições, resistências,

adaptações e incorporações de valores locais e estrangeiros (Brock, 2014).

Há, portanto, um construcionismo social que permite entender essa mudança de

foco como não resultante no equívoco de desconsiderar o passado, e que essa visada

produz um novo objeto de estudo. Os psicólogos elaboram os objetos que eles querem

estudar e o mesmo se aplica aos historiadores da Psicologia. Com efeito, o campo da

História da Psicologia em Contexto não é homogêneo e estático, dado que existem

correntes de Psicologia fora do circuito das psicologias entendidas como centrais.

Implicações metodológicas da História da Psicologia em Contexto

Compreendemos historiografia como uma abordagem de pesquisa que

empreende uma (re)construção do passado, de modo a identificar os vestígios de um

dado conhecimento psicológico, para coletá-los, descrevê-los, organizá-los e analisá-los

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historiográficas da ciência psicológica se encontram em trabalhos publicados,

instrumentos elaborados e práticas difundidas em centros de formação do psicólogo

(Araújo, 2012).

Situamos, destarte, a História da Psicologia em Contexto como um conjunto de

elaborações conceituais que oferece apoio e inspiração para historiógrafos organizarem

uma intelecção própria de coleta e análise de dados concernentes à contextualização de

um conhecimento psicológico, em sua passagem de um eixo geográfico central para um

eixo geográfico periférico, mediante suas recepções e indigenizações.

Como toda perspectiva de pesquisa, a História da Psicologia em Contexto

enfrenta obstáculos em seu cumprimento, pois existe um grande fragmento de

informações distintas e dispersas em vários períodos e países fora do eixo estadunidense

e europeu. A motivação para investigar materiais de acesso restrito ou difícil e em

outras línguas são disposições a serem consideradas no início da pesquisa.

Algumas questões norteadoras úteis para desencadear a pesquisa são: como esse

conhecimento psicológico se desenvolveu em um eixo central e migrou para um eixo

periférico? Que novos aspectosdo passado e do presente poderíamos enxergar, se

lançássemos nova luz sobre eles?

Torna-se necessário, ainda, inicialmente destacar o país, o período e a linha de

conhecimento psicológico que serão estudados em contexto (Pickren & Rutherford,

2010). O motivo da delimitação de tal período merece uma justificativa. Após esta

demarcação inicial, que circunscreve o objeto de estudo a ser visado

historiograficamente, urge se voltar para o surgimento do conhecimento psicológico em

questão. Nesse momento, descreve-se o plano de consistência que embasa e fundamenta

o conhecimento psicológico em uma perspectiva internalista aos seus autores e

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contexto sociocultural, pois não se pode supor um prosseguimento unilateral da

influência de um pensador sobre os seus fatores contextuais e vice-versa. O contexto

intelectual do conhecimento psicológico estudado é abordado com atenção a suas

circunscrições sociais e culturais (Hilgard, Leary & McGuire, 1998).

Argumentamos que, nesse momento inicial de pesquisa, devemos atentar para as

histórias emergidas e moldadas pelas pessoas e culturas que desenvolveram o enfocado

conhecimento psicológico em seu país central. Este momento é importante para

salientar os vieses, pressupostos e planos de coerências, explícitos e implícitos, de uma

corrente psicológica. Há, entretanto, uma limitação em reconhecer que essa perspectiva

histórica é fraca no concernente aos seus questionamentos reflexivos e a sua propagação

além do seu solo originário (Pickren & Rutherford, 2012).

Consideramos que os procedimentos intelectivos dissertados, até então,

figuram-se como a primeira parte da pesquisa historiográfica da Psicologia em contexto. Essa

parte serve para descrever o panorama que fundamenta e circunscreve o conhecimento

psicológico em questão, para possibilitar melhor visualização de como ele se ampara em

um eixo geográfico central. Não é o caso de escrever um tratado amplo ao surgimento

do conhecimento psicológico estudado, mas é importante possibilitar para o leitor o

entendimento assertivo desse conhecimento e do contexto matricial em que ele emerge e

se difunde. Cabe ressaltar que o historiógrafo pode se valer de algumas fontes, como

artigos, livros, comentadores de um assunto, boletins, folhetins etc., para fundamentar a

assunção do conhecimento psicológico.

Posteriormente, na segunda parte da pesquisa, aprofunda-se a unidade cultural

em que o conhecimento psicológico se estendeu, de modo a entender como a recepção

de suas ideias se relaciona com a cultura do país periférico receptor, segundo suas

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histórias compostas pelas pessoas e culturas que desenvolveram o enfocado

conhecimento psicológico em seu país periférico. As fontes elaboradas por aqueles que

participaram desse movimento, em um dado recorte temporal, serão dados de pesquisa e

entendimento para organizar uma compreensão acerca dessa recepção.

Nesse momento, demarcam-se as condições que possibilitaram a recepção do

conhecimento psicológico em outro país distinto ao seu solo epistêmico original. É

importante identificar que conhecimentos de Psicologia se estabeleceram

geograficamente à margem de uma Psicologia central, com suporte em eventos

nacionais e internacionais, circulação de artigos em periódicos científicos, tradução e

produção de livros, intercâmbio de estudantes, criação de grupos de pesquisas e contatos

formais e informais entre estudiosos de uma determinada psicologia – seja pela troca de

cartas ou visitas presenciais (Danziger, 2006).

Conforme foi mencionado, a recepção de um conhecimento psicológico engloba

um momento passivo e outro ativo em que sua transmissão acontece mediante

assimilações e apropriações. O que possibilita essa passagem é o processo de

indigenização. Cabe ao pesquisador pontuar os momentos em que ocorrem essa

transição e instauração de um conhecimento diacrônico e descontínuo ao seu eixo

central. Para tanto, é preciso haver familiaridade com o conhecimento psicológico

estudado seja em suas manifestações em relação a sua geografia central seja em relação

a sua geografia periférica. Sem esse horizonte, torna-se difícil tal apontamento.

Ressaltamos que é profícua ao estudo historiográfico da recepção e

indigenização de um conhecimento psicológico, a aproximação com outros métodos de

coleta de dados, como, por exemplo, a análise documental. Os documentos podem ser

compostos por cartas, fotos, folhetins, boletins, relatórios e anotações. Existem

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estudado, e secundários, provenientes de pessoas que não participaram dele. Em ambos,

o documento desvela um contexto social que retrata alguma difusão de conhecimento ou

de um evento que propaga uma ideia.

Outro método que, também, pode ser utilizado é o de entrevistas, preferivelmente

semiestruturadas ou não estruturadas, que propendam à apreensão das narrativas dos

psicológicos que vivenciaram a recepção do conhecimento psicológico estudado e

contribuíram com a sua indigenização. Isso possibilita a (re)constituição de alguns

aspectos dessa recepção e indigenização, segundo a narrativa daqueles que a

vivenciaram, atentando para os fatores socioculturais relevantes ao transcurso dos

eventos narrados. Métodos de história de vida, igualmente, são uteis para analisar o que

foi coletado. Análises bibliométricas de artigos concernentes à circulação do

conhecimento psicológico recebido e indigenizado e análise de como esse conhecimento

se difunde nas matrizes curriculares de ensino superior são outras possibilidades de

investigação historiográfica em contexto.

Reconhecemos, pois, que a História da Psicologia em Contexto suscita diversas

possibilidades de intelecções metodológicas historiográficas, respeitando as duas partes

mencionadas em seus momentos. Situamos, finalmente, três implicações metodológicas

dessa perspectiva no uso dos seus conceitos.

Primeira. Trata-se de uma atitude crítica concernente à oportunidade de pôr

novamente em discussão aquilo que parece óbvio a uma corrente psicológica, ao

repercorrer o caminho que conduziu a difusão do conhecimento de um lugar para outro

e suas incorporações locais. Nesse sentido, a História da Psicologia em Contexto

proporciona a recapitulação de algumas reflexões concernentes à historiografia da

Psicologia, a saber (Hilgard et al., 1998): continuidade-descontinuidade;

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história legítima-história crítica. Estes versos e reversos não são independentes uns dos

outros e devem ser considerados em uma pesquisa de rigor.

Segunda. A História da Psicologia em Contexto abaliza um diálogo entre o eixo

originário ao conhecimento psicológico estudado e o seu eixo local, sendo possível

assinalar suas (dês)continuidades e hibridizações. Essa perspectiva: reforça a ideia de

mudança do conhecimento a partir da sua dispersão de uma cultura para outra e das

condições que possibilitaram a sua apropriação;explana uma história periférica que não

é mera extensão de um centro, pois elucida um horizonte de ideias distintas e singulares

ao seu pensamento de origem.

Terceira e última. Como medida contra o esquecimento (Araújo, 2012), a

História da Psicologia em Contexto se ocupa da compreensão de um horizonte de

emergência e propagação de conhecimentos psicológicos. Longe de ser exercida como

mecanismo avaliativo de um conhecimento em detrimento de outro, uma historiografia

contextual reconhece os elementos presentes em tal propagação e apropriação, sejam

eles esquecidos ou naturalizados nas contendas atuais.

Considerações finais

A análise da História da Psicologia em Contexto permite evidenciar um campo

de estudos, ainda, em desenvolvimento no Brasil. Procuramos elencar uma introdução

sobre os aspectos teóricos, conceituais e metodológicos que permeiam essa linha de

pesquisa. Na narrativa aqui tecida, destarte, é possível estabelecer algumas

considerações relacionadas às potencialidades da História da Psicologia em Contexto

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A primeira concerne à aceitação dos vocábulos indigenização e geografia

intelectual periférica por parte do público brasileiro. Conquanto tenham sido

explicados, convém salientar que esses conceitos surgiram nos EUA, como uma

tentativa de historiadores da Psicologia entender o que está acontecendo além das terras

ianques, procurando historiografar e estabelecer diálogos. Incorre, pois, uma postura de

abertura ao conhecimento – e não um fechamento dele. Essa atitude não precisa ser uma

via de mão única, cabendo aos historiadores brasileiros utilizar tais conceitos,

situando-os em uma linha de pesquisa maior, para estabelecer diálogsituando-os e investigações.

A segunda consiste em evidenciar uma série de características resultantes da

aplicação dessa lente historiográfica, a saber: (1) todo conhecimento psicológico é

contextual; (2) por vezes, é comum ocorrer um “historicídio”, uma supressão do

conhecimento local em relação a uma história da Psicologia dominante; (3) todo

conhecimento científico pode ocultar o contexto sociopolítico de sua produção e

validação; (4) não negativar a Psicologia desenvolvida em um eixo geográfico central,

pois dela incorre uma variedade histórica no mundo que foi fundamental para a

emergência de conhecimentos diversos; (5) as geografias intelectuais periféricas não são

versões reduzidas das geografias intelectuais centrais.

A terceira acena para a construção conjunta de diversas histórias da Psicologia

no mundo, saindo da lógica hegemônica de naturalização de uma única História da

Psicologia. Quantas vezes se realizar a visada historiográfica em tela, novas histórias

irão surgir e adornar um conhecimento psicológico. Essa mirada permite, pois, uma

orientação que vai além de um só ponto de vista unilateral e estreito. Não se trata,

portanto, de integrar a Psicologia em uma História unitária, mas reconhecer e adentrar

suas histórias específicas e espalhadas em diversos contextos, abdicando de encontrar,

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Finalmente, recomendamos que a perspectiva histórica da Psicologia em

contexto seja utilizada em diversas pesquisas historiográficas nos mais múltiplos

domínios da Psicologia brasileira, com o intento de ampliar o conhecimento do contexto

em que trabalhamos e estudamos.

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Submissão: 22/03/2017

Última revisão: 17/11/2017

Referencias

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