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Casos Clínicos

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Academic year: 2024

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Casos Cl ínicos

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Correspondencia: Dra. Mafalda Simões1 Via Paralela à Avenida Lusíada, 14, 4º esquerdo 1500-372 Lisboa

[email protected]

S í n d rome de Folículo Vazio e Efeito Coasting - a propósito de um caso cl í n i c o

Empty Fo l l i cle Syndrome and Coasting - a case rep o rt

M a falda Simões, Guida Gomes, Graça Pinto, Vicente Lopez, Alberto Romeo

Unidade de Pro c riação Medicamente Assistida. Mat e rnidade Dr. Alfredo da Costa, Lisboa

R e s u m o

I n t rodução: O Síndrome do folículo vazio (SFV) é cara c t e rizado pela ausência da colheita de ov ó c i t o s na punção folicular de um ciclo de fe rtilização in vitro (FIV), apesar da monitorização ecogr á fica e doseamentos de estradiol (E2) ap o n t a rem para a existência de muitos folículos. Trata-se de um fe n ó- meno ra ro e complexo, encontrando-se descritas na literat u ra dive rsas hipóteses etiológicas, entre as quais se destaca a baixa biodisponibilidade da beta hCG. Caso Clínico:R ep o rtamos o caso clínico de uma paciente com história de infe rtilidade pri m á ria de 7 anos por factor masculino, tratada com um c i clo de FIV com agonista GnRH em protocolo longo. Ao 11º dia de FSHr, a monitorização ecogr á fi- ca mostrava a presença de mais de 30 folículos e o doseamento de estradiol foi de 3852 pg/mL, moti- vo pelo qual se decidiu fa zer “coasting” (parar go n a d o t ro finas). A hCG foi administrada ao 15ºdia ( após início de FSHr) e da punção de 15 foliculos resultou apenas um ovócito em metafáse II, não o ri ginando embri ã o. Conclusão: Ap resentamos um caso de SFV e fa zemos a discussão do diag n ó s t i c o e t i o l ó gico deste fenómeno, bem como da possível associação ao efeito “coasting”.

Pa l av ras Chave: S í n d rome do folículo vazio (SFV). Fe rtilização in vitro (FIV). Punção fo- licular (PF). Efeito “coasting” (EC)

S u m m a ry

I n t ro d u c t i o n :The empty fo l l i cle syndrome (EFS) is ch a ra c t e ri zed by the lack of re t ri eved oocytes at the time of aspiration fo l l owing an in vitro fe rt i l i z ation (IVF) cy cl e, even though ultrasound and estra- diol measurements show the presence of many fo l l i cles. It is a ra re and complex phenomenon, and va- rious ethiological hypotheses have been described in literat u re, among wh i ch the low bioava i l ab i l i t y of human ch o rionic go n a d o t rophin (bhCG) is the best support e d. Case Rep o rt: We rep o rt the cl i n i c a l case of a patient with pri m a ry infe rtility for seven ye a rs who underwent an IVF cy cle using a GnRH agonist long protocol for a male fa c t o r. On day 11 of fo l l i cl e - s t i mu l ating hormone (FSH), we decided

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3 0 0 - Vol. 27- nº 4 - Ju l i o - A gosto 2010 3 0 0 -S í n d rome de Folículo Vazio e Efeito Coasting

I N T RO D U Ç Ã O

O Síndrome do folículo vazio é cara c t e rizado pela ausência da colheita de ovócitos na punção fo l i c u l a r de um ciclo de fe rtilização in vitro (FIV), apesar da m o n i t o rização ecogr á fica e lab o rat o rial (doseamentos de estradiol - E2) reve l a rem a existência de mu i t o s folículos. (1) Trata-se de um fenómeno complexo e ra ro, tendo uma incidência entre 2 e 7%. [2]

Na literat u ra, são apontadas várias hipóteses etio- l ó gicas nomeadamente a baixa biodisponibilidade da h o rmona go n a d o t ro fica coriónica (hCG) ou a dis- função ov á rica. [3] Alguns autores têm suge rido a re- lação deste síndrome com a própria causa da infe rt i l i- d a d e, outros consideram que poderá resultar de uma fo l i c u l ogénese disfuncional com atrésia ovo c i t á ri a p recoce e com resposta hormonal ap a rentemente nor- mal. [4] Outros autores ainda, acreditam que o sín- d rome do folículo vazio não existe e que ausência de colheita de ovócitos é uma falha fa rm a c o l ó gica ou técnica [5,6], sendo este fenómeno designado por SFV falso. [7] Independentemente da sua causa, a pa- ciente deve ser info rmada da pro b abilidade de re- c o rrência.

Este Síndrome não pode ser previsto com base no padrão de resposta ov á rica à indução da ov u l a ç ã o , quer ecogr á fica, quer hormonal. Consequentemente, o d i agnóstico é re t ro s p e c t ivo .

O efeito “Coasting” foi descrito pela pri m e i ra ve z em 1986 por Coulam e outros [8] e foi aplicado pela 1ª vez nos ciclos FIV em 1993 por Sher e outros [9].

Este método é baseado no pressuposto de que os ní- veis de E2 no momento de administração da hCG são p re d i t ivos do risco de síndrome de hipers t i mu l a ç ã o ov á rica (SHO). Consiste em parar a administra ç ã o go n a d o t ro finas ex ó genas, mantendo os ago n i s t a s GnRH e adiando a administração da hCG até a con- c e n t ração sérica de E2 da doente diminuir para um n í vel considerado “mais seg u ro”. [10] Assim, seg u n- do alguns autores, deve ser considerado quando esta- mos perante uma doente com resposta folicular ex- c e s s iva à estimulação ov á rica com go n a d o t ro fi n a s , d i m i nuindo o risco de desenvo l ver um SHO e ev i t a n-

do o cancelamento do ciclo FIV. Uma vez que o ta- manho da população de células da gra nulosa activa d e t e rmina a gravidade e incidência do SHO, a moni- t o rização plasmática da concentração de estradiol e o n ú m e ro de folículos ajudam a identificar os doentes em risco. Quando a concentração de E2 é superior a 3000 pg/mL e a ecogra fia mostra mais de 30 fo l í c u l o s o risco de SHO é muito elevado, havendo possível in- dicação para “coasting” [11]. Uma metanálise re a l i- zada em 2002 por D`Angelo e outros, concluiu que não existem estudos randomizados e controlados fa- zendo a comparação entre “coasting” e ausência de

“coasting” ou outras intervenções para prevenção do SHO como a cri o p re s e rvação de embriões e a infusão de albumina [11].

CASO CLÍNICO

Paciente sexo feminino, 28 anos de idade, sem an- tece den tes pesso ais r e l evan tes, é admitida na Consulta de Apoio à Fe rtilidade da Mat e rnidade Dr.

A l f redo da Costa por infe rtilidade pri m á ria de 4 anos;

não inve s t i gada até à data de pri m e i ra consulta na nossa instituição. Após inve s t i gação do factor mascu- lino, foi diagnosticada uma astenoterat o s p e rmia mo- d e rada (Tabela 1) com cariotipo masculino norm a l , i n s c revendo-se o casal para técnicas de pro c ri a ç ã o medicamente assistidas.

A paciente foi chamada 2 anos e meio depois, já com 30 anos de idade para realização de uma in- jecção espermática intracitoplasmática (ICSI). Iniciou indução controlada da ovulação com 150 UI/dia de FSH recombinante (Puregon(®), Lab Organon) no 3º dia da menstruação, após supressão hipofi s á ria ao 2 1º dia do ciclo an te rior co m ago nista G nRH ( D e c ap eptyl(®), Lab Ipsen Pharma Biotech). O dose- amento de estradiol no 1º dia do ciclo foi infe rior a 20 pg/mL, sendo ao sétimo dia de FSHr (150 UI/dia) 914 pg/mL. Ao 8º dia foi feita a monitorização eco- gr á fica que mostrava a presença de mais de 30 fo l í c u- los entre ambos os ov á rios, com uma concentração de E2 de 1804 pg/mL, motivo pelo qual foi reduzida a dose de FSHr para 75 UI/dia. Ao 11º dia de FSHr, o to stop go n a d o t rophins - coasting - due to the ultrasound presence of at least 30 fo l l i cles and the es- t radiol level of 3852 pg/mL. On 15 day, bhCG was administered and we obtained only one oocyte in m e t aphase II with the aspiration of 15 fo l l i cles, resulting in no embryo. C o n cl u s i o n :We present a case of EFS and discuss the ethiological hypotheses of this phenomenon, as well as the possible associa- tion with coasting.

Key wo rds: Empty fo l l i cle syndrome (EFS). In vitro fe rt i l i z ation (IVF). Follicular aspirat i o n . Coasting

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doseamento de E2foi de 3852 pg/mL decidindo-se cessação terapêutica. A monitorização ecogr á fica ao 12º dia foi sobrep o n í vel à do dia anterior e o dosea- mento E2ch egou a um máximo de 5341 pg/mL. Ap ó s 3 dias de “coasting” (14º dia após início de FSHr) a e c ogra fia revelou a existência de 15 folículos com ta- manho mínimo de 14 mm e a concentração sérica de E2 desceu para 1051 pg/mL. A hCG foi administra d a ao 1 5ºdia (Preg nyl 5 000(®), Lab Organon ) e a p un ção folicu lar fo i realizad a 36 horas dep o i s . D u rante a punção foi aspirado líquido fo l i c u l a r, tendo d e c o rrido sem nenhuma dificuldade técnica ou com- plicações como a dre n agem de sangue. Deste pro c e- dimento resultou apenas um ovócito em metafáse II que fe rt i l i zou mas sem divisão posteri o r, não re s u l- tando qualquer embrião. A beta hCG doseada no dia da punção folicular foi de 63,27. O esperm ograma no dia da punção folicular ap re s e n t ava as cara c t e r í s t i c a s d e s c ritas na Tabela 2.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

As possíveis etiologias para o síndrome do fo l í c u- lo vazio incluem: 1)Fo l i c u l ogénese disfuncional, em que ocorre uma at resia ovo c i t á ria precoce com re s- posta hormonal ap a rentemente normal, 2) Altera ç ã o b i o l ó gica na disponibilidade de ovócitos maduro s , apesar de normal biodisponibilidade de hCG, 3) Fa c t o res genéticos, 4) Causas relacionadas com fár- macos, como alterações da actividade biológica in vi- vo de alguns lotes comerciais de hCG ou ago n i s t a GnRH, erros no timing de administração de hCG ou rápida eliminação de hCG pelo fígado, e 5) Enve l h e-

cimento ov á rico com consequente alteração da fo l i c u- l og é n e s e.

O risco de re c u rrência permanece um enigma [13]

e m b o ra alguns autores rep o rtem um risco próximo dos 20% e um aumento com o avanço da idade. Está d e s c rita uma taxa de re c u rrência de 24% para mu l h e- res entre os 35 e os 39 anos e 57% para mu l h e res com mais de 40 anos. [14 ] Pa ra mu l h e res com id ade avançada, a doação de ovócitos pode rep resentar uma boa hipótese de conseguir a gravidez desejada.

Como já foi re fe rido anteri o rm e n t e, o efe i t o

“Coasting” consiste em parar a administração de go- n a d o t ro finas na indução controlada da ovulação, com o intuito de diminuir o risco de SHO. Nesta paciente, o nível de estradiol foi subindo exponencialmente ao l o n go da indução controlada da ovulação, ultrap a s- sando os 3000 pg/mL ao 11º dia de FSHr. A monito- rização ecogr á fica também foi concordante com a avaliação hormonal, mostrando um elevado nu m e ro de folículos (mais de 30 folículos) pelo que se deci- diu parar a administração de FSH re c o m b i n a n t e, fa c e ao elevado risco de SHO. Em relação aos 4 dias de

“coasting”, pensamos que poderá ter sido um período de tempo ex c e s s ivo uma vez que a gra nulosa do fo l í- culo fica despro t egida do efeito anti-apoptótico da F S H r, resultando em apoptose ou dege n e re s c ê n c i a a c e l e rada do ovócito, muito dependente nesta fase do ap o rte vital da gra nulosa.

A concentração de beta hCG no dia da punção fo- licular permitiu, neste caso clínico, asseg u rar que a a d m i n i s t ração de hCG foi realizada pela doente, ex- cluindo um erro técnico ou fa rm a c o l ó gico como etio- l ogia do SFV. Contudo não podemos ex cluir a hipóte- se da baixa biodisponibilidade da hCG, uma vez que esta tem sido rep o rtada como sendo a ori gem mais p rov á vel do SFV.

Não devemos esquecer a pro blemática do risco de re c o rrência deste síndrome em futuros ciclos ofe re c i- dos à paciente. To rna-se desta fo rma essencial, discu- tir a situação clínica com a doente, para que esta este- ja consciente das ex p e c t at ivas e dos riscos inere n t e s . No entanto alguns autores consideram que a causa deste síndrome é a baixa actividade de alguns lotes c o m e rciais de hCG [15-19] pelo que se consegue a

“ c u ra” [20] at ravés da administração de hCG prove- niente de outro lab o rat ó rio. Assim, o risco de re- c u rrência não ex i s t e.

E m b o ra não existam dados na literat u ra científi c a , este caso clínico suge re-nos uma possível associação com o coasting, associação esta que apenas seria pos- s í vel de comprovar em estudos clínicos ra n d o m i z a- dos, pro s p e c t ivos e de qualidade.

Tabela 1

Espermograma obtido na investigação do factor masculino.

Espermograma

Volume (mL) 3,3

Concentração 22,4 X 106

Mobilidade (I-II-III) (%) 0-40-10 Morfologia - Formas Normais (%) 10

Tabela 2

Espermograma obtido no dia da punção folicular.

Espermograma

Volume (mL) 4,0

Concentração 19,2 X 106

Mobilidade (I-II-III) (%) 0-30-10

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Fi g u ra 1

Esquema de tratamento e evolução dos níveis de estradiol durante o ciclo FIV. Legenda: [ ] - concentração

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Referencias

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