Existe evidente influência das línguas já dominadas na aprendizagem de léxico de uma LE, Meara (1980:11) afirma que:
“When some kind of cognitive operation other than simple recall of the phonetic form is called for, it does become extremely difficult to keep two languages apart. In this sense, forms in one language clearly evoke the corresponding related forms in the other language, a finding which would be very difficult to explain if the independent lexicons claim were true” (Meara,1980: 11).
O autor assinala que o vocabulário da LM e o da LE tende a constituir-se como um “todo”, mais do que como sistemas separados, funcionando independentemente e potenciando a transferência entre as línguas. Considera também que pode, de alguma maneira, ficar “fossilizado” porque, segundo Meara, os alunos relacionam sempre o significado já adquirido na ou nas línguas em que têm maior domínio linguístico-comunicativo.
Todas as línguas derivadas do latim partilham, em maior ou menor medida, léxico e estruturas linguísticas, sendo o parentesco entre o Português e o Espanhol um dos mais estreitos. O chamado coloquialmente de portunhol surge
da semelhança formal e da compreensão mútua entre o Português e o Espanhol e do facto de, em muitas circunstâncias, as necessidades de comunic ação serem satisfeitas sem o estudo da outra língua. Fernández (2003) é da opinião que os alunos portugueses, na aprendizagem do Espanhol são, como a autora denomina, “falsos principiantes”, porque iniciam o estudo da língua num nível que não é de desconhecimento total. No Quadro Europeu Comum de Referência para
as Línguas (QECR) advoga-se que: “Especialmente entre línguas vizinhas – pode dar-se uma espécie de osmose, que permite uma transferência de conhecimentos e de capacidades” (QECR, 2001: 232).
Ao ser o Português uma língua tão próxima do Espanhol, há uma tendência natural para a transferência positiva, entendendo-se que esta “facilita el
aprendizaje, y puede darse cunado la lengua nativa y la lengua meta tienen la misma forma” (Richards et al.,1997: 420). A transferência entre o Português e o
Espanhol, e vice-versa, “(…) dará origen a una mayor cantidad de transferencia
positiva y a menor incidencia de interferencia grave, o sea, que afecte gravemente la comprensión. No hay duda, dado que el material lingüístico compartido es amplio. Por esa razón los alumnos se acercan al español convencidos de que su estudio le requerirá un esfuerzo menor” (Ainciburu, 2008: 52). Fica claro que a
“transferência lexical” não é um processo passivo mas ativo, constituindo-se como uma “estratégia de comunicação e de aprendizagem” (Andrade, 1987: 293) que implica um mecanismo cognitivo que permite realizar hipóteses sobre o funcionamento das línguas, suprindo carências linguísticas (Santos Gargallo, 1993: 148).
Bem sabemos que, no espaço de sala de aula, há lugar para acolher o vocabulário espontâneo e não só o selecionado antecipadamente. No entanto, a pensar numa aprendizagem mais eficaz, pode tornar-se premente delimitar o léxico alvo de maior ou menor atenção, quando duas línguas são próximas, como é o caso do Português e do Espanhol. A título de exemplo, quando se prepara o ensino do vocabulário referente ao campo lexical de ‘la alimentación’, o docente poderá identificar prontamente quais as unidades léxicas que apresentarão mais dificuldades ao aprendente que tem o Português como LM e para as quais terá de dispor de mais tempo. Assim, o professor pode conceder para cada unidade
léxica a estudar um período temporal diferente, de acordo com a existência ou não de semelhanças entre o Espanhol e o Português. Com certeza que o esforço do aluno não será o mesmo ao aprender as palavras ‘arroz’ ou ‘carne’ e ‘plátano’ ou ‘galleta’. Assim sendo, a probabilidade de encontrar correspondentes lexicais com a mesma forma e o mesmo significado em Português e em Espanhol é muito elevada, chegando Almeida Filho (1995: 15) a afirmar que cerca de 85% do vocabulário Português tem cognatos em Espanhol.
Seguramente será mais complicado estudar uma língua onde não se encontra nenhum tipo de intercompreensão natural, no entanto esta proximidade pode converter-se num problema que gera erros e incompreensões quando o aluno perde o limite ou a consciência da distância entre as duas línguas. A questão da transferência negativa é pertinente e identifica-se com o conceito de interferência, definindo-se como “el uso de una construcción o regla de la lengua nativa que
conduce a un error o forma inapropiada de la lengua meta” (Richards et al.,1997:
303). Como já referimos, no que diz respeito ao léxico, o aluno possui, sem demasiado esforço, um património prévio que lhe dá a possibilidade de comunicar em situações diversas, no entanto deve ter em linha de conta certo tipo de palavras opacas e falsos amigos. A nível lexical, a interferência entre o Português e o Espanhol faz com que surjam erros, como explica Benedetti, citando Siqueira, “(…) en muchas palabras no se puede considerar identidad lo que es mera
semejanza, lo que puede inducir a errores tanto en la grafia como en el uso de muchos vocábulos análogos” (Siqueira,1990, citado por Benedetti, 2001: 28).
Síntese
Ao longo deste capítulo, tentámos compreender o papel do léxico nas distintas metodologias didáticas, por meio de uma análise diacrónica. A temática do conhecimento léxico motiva algumas considerações conceptuais, tais como unidade léxica, palavra, vocabulário e léxico mental. Posteriormente são referidas estratégias de aprendizagem de léxico de LE que, por reconhecimento ou por consolidação, potenciam o desenvolvimento da competência lexical e da comunicativa e que se ajustam perfeitamente à abordagem por tarefas. Neste contexto de estudo, também considerámos pertinente fazer uma referência à transferência lexical entre a língua portuguesa e a língua espanhola.
No capítulo seguinte, apresentaremos uma série de princípios e orientações sobre a abordagem por tarefas na aprendizagem de léxico de LE.