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Daniela B. S. Freire Andrade1

Eliza Moura Pereira Silva2

Paula Figueiredo Poubel 3

Jeysson Ricardo F. da Cunha4

Resumo

O texto refere-se ao diálogo entre três pesquisas, cujo foco se insere nas investi- gações sobre a relação da criança com a cidade e as significações infantis decorren- tes. Trata-se das seguintes produções: Representações socioespaciais da cidade de Cuia- bá-MT, segundo crianças (Silva, 2014); Representações sociais da cidade de Cuiabá: estudo com crianças em contexto de escolas particulares (Poubel, 2016) e Representações sociais de crianças sobre Cuiabá antes e depois da Copa do Mundo 2014 (Cunha, 2017). O escopo

1 Psicóloga. Doutora em Educação: Psicologia da Educação pela PUC-SP. Docente do Programa de Pós-gra- duação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Psicologia da Infância (GPPIN). E-mail: [email protected]

2 Pedagoga. Mestra em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso e coordenadora pedagógica de uma instituição educacional particular de Cuiabá. Pesquisadora voluntária do Grupo de Pesquisa em Psicologia da Infância (GPPIN). E-mail: [email protected]

3 Psicóloga. Mestra em Educação e doutoranda no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso, Grupo de Pesquisa Psicologia da Infância (UFMT/PPGE/GPPIN). Bolsista com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Brasil, sob o código de financiamento 001. E-mail: [email protected]

4 Psicólogo. Mestre em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso. Docente do departamento de Psicologia da Faculdade de Quatro Marcos, São José dos Quatro Marcos, Mato Grosso. Pesquisador voluntário do Grupo de Pesquisa em Psicologia da Infância (GPPIN). E-mail: [email protected]

teórico fundamentou-se na teoria das representações sociais (Moscovici, 2013), sua abordagem ontogenética em articulação com a Teoria Histórico-cultural (Vigotski, 2009, 2010); estudos de Sennett (2014) e Jodelet (1982) sobre sociabilidade, espaço e cidade. O debate privilegiou a análise dos significados compartilhados sobre a ci- dade por alunos e alunas de escolas públicas e particulares, considerando o espaço urbano bem como suas transformações ocorridas em função da realização da Copa do Mundo de 2014. Metodologicamente, os estudos apoiaram-se em estratégias como a produção de mapas cognitivos (Alba, 2011) e a entrevista semiestruturada, mediada pela exploração do mapa, com 120 crianças (40 por estudo). Os dados foram analisados por meio da análise de conteúdo (Bardin, 1977), do núcleo de significação (Aguiar e Ozella, 2006) e da análise lexical assistida pelo software Alceste (Reinert, 1990). A análise dos dados considerou a ideia de cidade como comunidade educa- tiva (Gómez-Granell e Vila, 2003), que se transforma em referencial identitário para as crianças, bem como objeto de representação social presente e atuante na consti- tuição dos modos de ser e estar no mundo.

Palavras-chave: representações sociais, cidade, processos identitários, infância.

Resumen

El texto se refiere al diálogo entre tres investigaciones, cuyo foco se inserta en las investigaciones sobre la relación del niño con la ciudad y las significaciones infantiles resultantes. Se trata de las siguientes producciones: Representaciones socioespaciales de la ciudad de Cuiabá-MT, según los niños (Silva, 2014); Representaciones sociales de la ciudad de Cuiabá: estudio con niños en contexto de escuelas particulares (Poubel, 2016) y Represen- taciones sociales de niños sobre Cuiabá antes y después de la Copa del Mundo 2014 (Cunha, 2017). El alcance teórico se fundó en la teoría de las representaciones sociales (Mos- covici, 2003), y su abordaje ontogenético en relación con la teoría histórica cultural (Vigotski, 1996, 2000, 2006, 2009, 2010); así como por los estudios de Senett (1988, 1990) y Jodelet (1982) sobre la sociabilidad, espacio y ciudad. El debate privilegió el análisis de los significados compartidos sobre la ciudad por alumnos y alumnas de escuelas públicas y privadas, considerando el espacio urbano, así como sus transfor- maciones ocurridas en función de la realización de la Copa del Mundo de 2014. Me- todológicamente, los estudios se apoyaron en estrategias como la producción de ma- pas cognitivos (Alba, 2011) y entrevista semiestructurada mediada por la exploración del mapa, totalizando 120 niños (40 por estudio). Los datos fueron analizados por medio de análisis de contenido (Bardin, 1977), núcleo de significación (Aguiar, Ozella,

2006) y análisis léxico asistido por el software Alceste (Reinert, 1990). El análisis de los datos consideró la idea de ciudad como comunidad educativa (Gómez-Granell, Vila, 2003), que se transforma en referencial identitario para los niños, así como objeto de representación social presente y actuante en la constitución de los modos de ser y estar en el mundo.

Palabras clave: representaciones sociales, ciudad, procesos identitarios, infancia.

Introdução

A Cuiabá5 sobre a qual se reflete nestas páginas é fruto do diálogo entre pesqui-

sas de mestrado (Silva, 2014; Poubel, 2016; Cunha, 2017) desenvolvidas no contexto de produção do Grupo de Pesquisa em Psicologia da Infância (GPPIN), inserido no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil. Tais pesquisas, embora apresentem pequenas adaptações decorrentes das condições geradas no processo de produção de dados, como a autorização para a inserção do pesquisador no contexto, foram construídas sob a mesma orientação teó- rico-metodológica e propõem discussões em torno das representações socioespaciais da cidade de Cuiabá, Mato Grosso. Esses estudos consideram as crianças como sujeitos legítimos de pesquisa, refutando, portanto, visões adultocêntricas que desconsideram as perspectivas infantis.

A opção por trabalhar com crianças, e não sobre elas, pretende contribuir para reforçar os movimentos que buscam dar visibilidade social, sobretudo cívica e cientí- fica, à infância. Nesse sentido, consideram-se as crianças como atores sociais, que têm direito à expressão, à mobilidade urbana e que constroem sua identidade e condição cidadã no contato com os conhecimentos e as representações sociais que circulam em seu entorno, permeando as relações.

No que se refere à importância da cidade para o campo da educação, é necessário pensar sua relação com as crianças por caminhos que a destacam como aspecto fun- damental no desenvolvimento e na construção do modo de ser e estar no mundo de- las. A cidade, na sua dimensão simbólica, histórica e social, é reconhecida como lugar de coexistência, das singularidades que constituem os atores sociais, espaço público

5 Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso, estado localizado na região centro-oeste do Brasil. Região de cerra- do, próxima do Pantanal e da chapada dos Guimarães, com clima tropical. Fundada em 1719 por bandeirantes paulistas movidos pela busca do ouro após travarem luta contra os índios Boés (Bororós) que ocupavam a região.

onde se forja a cidadania e o projeto civilizatório. Para tanto, a cidade é caracterizada a partir da ideia de comunidade educativa (Gómez-Granell e Vila, 2003), portadora de potencial identitário e objetivação de redes de significados socialmente compartil- hados. A cidade pode assim ser considerada objeto de representação social; estudos decorrentes desse fenômeno são anunciados como estudos sobre representações so- cioespaciais (Jodelet, 1982).

Os pressupostos que embasam as três pesquisas articulam a Teoria Histórico-cul- tural (Vigotski, 1996, 2000, 2006, 2009, 2010) e a Teoria das Representações Sociais (Moscovici, 2013), e estão no diálogo com os estudos de Jodelet (1982, 2001, 2002) so- bre os Mapas Sociais de Paris, e com a abordagem ontogenética proposta por Duveen (2013). O estudo sobre o desenvolvimento e a ocupação da cidade de Cuiabá desenvol- vido por Romancini (2005)6 também auxilia na análise e na compreensão da relação

da criança com o espaço urbano ao levar em consideração a memória social. Além disso, também contribui o estudo de Sennett (2014) sobre a construção das sensibili- dades contemporâneas na relação com o espaço da cidade.

No que se refere à abordagem metodológica, destaca-se que a apreensão das representações socioespaciais se deu pela recolha de desenhos da cidade, inspirados na proposta dos mapas cognitivos (Alba, 2011), contando com a participação de 40 crianças em cada pesquisa, totalizando 120 participantes, de escolas públicas (N=80) e particulares (N=40). Os registros iconográficos foram analisados segundo a técni- ca da análise de conteúdo (Bardin, 1977), sendo a categorização por meio de acordo entre juízes.

Os resultados em diálogo delineiam um campo representacional caracterizado por informações sobre Cuiabá que apresentam ligação com a rotina das crianças, orientada pelos adultos que possibilitam e/ou restringem itinerários infantis, regu- lando, assim, estruturas de oportunidade para sua aprendizagem e desenvolvimen- to. Observou-se maior repertório nos mapas coletados em escolas públicas, cujos trajetos infantis são realizados por meio de transporte público ou a pé, enquanto nos mapas produzidos por crianças em contexto de escolas particulares, nota-se uma percepção mais restrita pela janela do carro, com destaque para grandes aveni- das, vias públicas e logomarcas; contudo, em ambos os grupos, há a recorrência de espaços privatizados como shoppings, lojas e lugares domésticos. Assim, conteúdos representacionais identificados sobre Cuiabá indicam a influência das diferentes posições sociais dos grupos, de acordo com os espaços que vivenciam e com a me- diação exercida pelo adulto.

6 O referido estudo anuncia o processo de urbanização de Cuiabá a partir de dois eixos organizados: eixo I (re- giões Porto e Goiabeira), primeiros núcleos identificados, e eixo II (regiões Coxipó e CPA), núcleos mais recentes.

As representações sociais das crianças sobre Cuiabá podem ser evidenciadas a partir do sentido de cidade “moderna” simbolizada emblematicamente pelas novas edificações inauguradas pela cidade (shoppings, franquias multinacionais e viadutos). Neste contexto, nota-se a tendência das crianças em assumir a configuração da di- mensão física do espaço como referência para se pensar a qualidade do espaço pú- blico, ao mesmo tempo que compreendem que a sua privatização dificulta o acesso tendo em vista o pressuposto implícito : consumo.