Capítulo II Uma história possível: construindo o caminho investigativo
2.2 O desafio de embrenhar-me num marco desconhecido: o Construccionismo
La tradición positivista y sus exigencias de cuantificación y generalización han determinado durante mucho tiempo los marcos del llamado conocimiento científico, un ámbito en el que la experiencia vivida pocas veces se ha considerado más allá de lo anecdótico. Así, durante buena parte de nuestra formación académica, aprendimos que nuestro objeto de estudio debería ser un elemento continuo, abarcable y estrictamente delimitado, al que convendría aproximarnos por medio de exhaustivos procedimientos de obtención de datos. (Vanesa Giambelluca, 2006).
Ao ingressar no doutorado, uma das tantas dúvidas que me assolou, foi inserir-me num contexto epistemologicamente demarcado pelo Construccionismo Social. Até então, meus conhecimentos sobre tal epistemologia não tinham ido além de contatos superficiais como bolsista em projetos de pesquisa, enquanto graduanda.
O Construccionismo Social é uma concepção pós-moderna que deriva da crise das Ciências Sociais sofrida nos anos 70 e 80 e como posicionamento teórico situa o conhecimento como uma fonte de saber construída socialmente em que as ideias, os conceitos e as lembranças surgem a partir do intercâmbio social e que são mediados pela linguagem.
Según Kenneth Gergen (2006), o Construccionismo Social,
(…) no constituye una teoría singular y unificada, sino que cabe considerarlo más bien como un diálogo que se desarrolla entre quienes participan y tienen ideas, valores y puntos de vistas considerablemente variados. La división es tan sustancial a este diálogo que no existe ningún repertorio de afirmaciones que suscite la adhesión de todos. Y aún más, la pretensión de establecer una verdad última, una lógica fundamental, un código de valores, un inventario de prácticas sería contrario a la voluntad que el movimiento tiene de extender y liberar el sentido. (p.47).
56 Assim, o Construccionismo Social considera o discurso sobre o mundo não como uma reflexão ou mapa do mundo e sim, como um dispositivo de intercambio social em que tudo está determinado pela cultura em que estamos inseridos e que as particularidades são provenientes das construções e interações sociais.
O desenvolvimento desta investigação se desenvolveu dentro do marco epistemológico do Construccionismo Social, considerando as narrativas e histórias que se produziram nas relações de mulheres em fazeres e práticas artísticas num atelier de cerâmica.
Não restava dúvida de que investigar o trabalho de mulheres que frequentavam um atelier de cerâmica em um Centro Cívico, situado num Bairro popular da Cidade de Barcelona, onde acorriam pessoas em busca de diferentes atividades de lazer, de saber, de fazer e, muito mais, a estrutura e forma como as atividades se produziam e se construíam dentro do atelier através de Educação Não Formal, encontrou respaldo e lastro no Construccionismo Social. Esta tese foi gestada e forjada nas relações, na troca e na integração de sujeitos comuns, mas com histórias impregnadas de significados.
Ao adotar tal posicionamento, o que me pareceu importante foi buscar resposta para uma questão que me acompanhava já há algum tempo: como desenvolver esta proposta dentro deste marco epistemológico?
Ao fazer-me este questionamento, o posicionamento apresentado por Uriarte (2001), explica que na lógica da trivialidade e do lugar comum, poderia justificar esta incerteza dizendo que o mundo é uma “construção social” e que, em
decorrência, as pessoas são frutos desta construção porque foram “construídas socialmente”. Por um lado, esta explicação poderia ser considerada pouco
57 profunda, mas por outro, impulsionava um tipo de discussão em que possibilitava a articulação com alguns pontos chaves dentro de um marco construccionista.
Dentro de uma visão geral, parece-me adequada e pertinente a maneira que Uriate (2001) define seis pontos que me ajudaram a ver como é possível engendrar uma visão construccionista nos processos sociais do cotidiano. Como: o anti-essencialismo (Ibañez, 1994), o relativismo/anti realismo (Rorty, 1979, Ibañez, 1994), o questionamento de verdades (Gergen, 1999), especificidades histórica e cultural do conhecimento (Ibañez, 1994), a linguagem como condição de possibilidade (Shotter, 1987, 1993, Gergen, 1994, 1999; Edwards y Potter, 1992) e como o conhecimento é um produto social (Shotter, 1993, Ibañez, 1994), sustentam de forma muito eficaz um posicionamento dentro da perspectiva construccionista, articulando cada um destes pontos com a condição de interação das pessoas no mundo.
Por exemplo, se parto do princípio que uma construcção é algo que necessita ser feito, é o produto de um processo e por isso nega qualquer natureza essencialista, quer dizer que também nega a condição de que existam objetos que sejam naturais e que nós somos como somos. Aqui existe a ideia de uma mútua construção, em que o objeto nos constrói enquanto nós os construímos.
De hecho, el construccionismo se presenta como una postura fuertemente des-reificante, des-naturalizante, y des- esencializante, que radicaliza al maximo tanto la naturaleza social de nuestro mundo, como la historicidad de nuestras prácticas y de nuestra existencia. Desde esta perspectiva, el sujeto, el objeto y el conocimiento, se agotan plenamente en su existencia sin remitir a ninguna esencia de la que dicha existencia constituiría una manifestación particular, como tampoco remiten a ninguna estabilidad subyacente de la que constituirían una simple expresión particular. En definitiva, el carácter literalmente construido del sujeto, del objeto y del conocimiento arranca estas entidades fuera de
58 un supuesto mundo de objetos naturales que vendrían dados de una vez por todas (Ibáñez, 2001, p. 254-255). Ao questionar a cerca da realidade e como ela pode ser vista a partir do Construccionismo Social percebe-se que em um entendimento restrito poderia-se entender que uma postura “construccionista tiene um carácter estático y
reificante, em el sentido de que las construcciones pueden ser vistas como algo
permanente y produciendo el mismo tipo de efecto que producen las cosas”
(Uriarte, 2001, p.47). Esta seria uma concepção limitante e sobre este aspecto Ibáñez (1996) clarifica a questão dizendo que:
(…) una construcción social no participa de la metáfora arquitectónica de un edificio que, una vez construido, se mantiene por sí solo. Lo socialmente construido no sólo ha sido construido por determinadas prácticas sociales, sino que esas prácticas lo mantienen de forma dinámica, incesantemente. Si cesan las prácticas, la construcción se esfuma (Ibáñez, 1996, p.67).
Dentro desta perspectiva situo-me porque foi a maneira como vislumbrei esta investigação, uma vez que as práticas sociais criam estruturas e influenciam as práticas cotidianas.
Em determinado momento, durante minhas idas ao atelier, enquanto realizava as observações e posteriormente ao chegar a casa as transformava em relatos, questionava qual o sentido de realizar este trabalho, já que em relação às problemáticas que possuem um maior destaque e parecem ter mais relevância no mundo acadêmico atual, minha observação em um atelier de mulheres parecia tão desbotada, com tão pouco a contribuir em um cenário efervescente.
Neste sentido, a tese de Ana Isabel Garay Uriarte (2001) foi contributiva porque a partir dela resgatei os textos trabalhados logo no início do doutorado Ibáñez (1994, 2001); Gergen (1991, 2006); Burr (1995); proporcionando-me
59 assim, recobrar o fôlego, estabelecer um diálogo, agora, mais amadurecido e relacionado ao contexto investigado, fazendo-me perceber que todo e qualquer contexto pode contribuir à sua maneira, mesmo que modestamente para a construção social. Segundo a autora:
Toda práctica social entonces, aunque pequeña o insignificante, trivial o cotidiana, contribuye de manera directa a la construcción de lo social. Las estructuras e instituciones sociales constituidas constriñen, condicionan y enmarcan también dichas acciones e interacciones. Si no fuera así, basta pensar sólo un momento qué pasaría con nuestro mundo y nuestra vida si, por un instante, se paralizaran todas las acciones sociales, completamente. No hay pues mundo ni vida social sin la existencia de las prácticas que los constituyen de donde se muestra el enorme valor de su capacidad constitutiva. (Uriarte, 2001, p.48).
Neste entendimento de mundo, em que se considera todo e qualquer espaço potencialmente relevante, uma investigação baseada no Construccionismo Social, que segundo Gergen (2009), ocupa-se de explicar os processos descritivos, explicativos das pessoas e que, de alguma forma, dão conta do mundo em que eles estão inseridos e em que vivem, veio ao encontro desta investigação.
Os processos pelos quais as pessoas descrevem, explicam, ou, de alguma forma, dão conta do mundo em que vivem (incluindo-se a si mesmas). Busca articular formas compartilhadas de entendimento tal como existem atualmente, como existiram em períodos históricos anteriores, e como poderão vir a existir se a atenção criativa se dirigir neste sentido (Gergen 2009, p. 3).
Com isso, busquei vincular modos compartilhados de entendimento, de vivências sem arestas entre investigadora e investigadas, entrelaçando fragmentos de minha trajetória de vida, meus olhares, meus saberes, minhas experiências com todo o universo das mulheres do atelier, construindo uma trama
60 que permeia o sentido que encontrei para o Construccionismo Social nesta pesquisa.