PREVALÊNCIA DE HEMOPARASITOS EM BEZERRAS DE PROPRIEDADES LEITEIRAS DA REGIÃO SUL DO RS, BRASIL
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(2) PREVALÊNCIA DE HEMOPARASITOS EM BEZERRAS DE PROPRIEDADES LEITEIRAS DA REGIÃO SUL DO RS, BRASIL. 1. INTRODUÇÃO A atividade leiteira no Brasil é muito importante no sistema de produção, onde no ano de 2014 o País produziu 35,2 bilhões de litros de leite, sendo a Região Sul do Brasil a maior produtora, representando 46% do total (IBGE, 2015). Todavia, as infecções por hemoparasitos provocam graves prejuízos aos animais. As doenças conhecidas por Babesiose e Anaplasmose podem ocorrer de forma isolada ou concomitante, constituindo o complexo Tristeza Parasitária Bovina (TPB). Essas doenças são corriqueiras e acabam por levar o animal a morte, ou ainda reduzindo a produção de carne e leite além dos custos indiretos com medidas preventivas e tratamento dos animais (ARAÚJO et al., 1998). O estudo da epidemiologia das parasitoses de uma região é importante para verificar se há áreas de instabilidade enzoótica ou estabilidade enzoótica. Assim, é possível identificar a necessidade de adoção a práticas sanitárias frente a animais enfermos ou em surtos da doença (MADRUGA et al., 2000). O complexo da TPB é caracterizado por alta morbidade e alta mortalidade principalmente em áreas de instabilidade enzoótica (áreas epidêmicas), como é o caso do Rio Grande do Sul. Em consequência disso, alguns animais não apresentam anticorpos contra Babesia spp. e Anaplasma spp., ou ainda, o nível de anticorpos contra a doença diminui consideravelmente o que favorece a ocorrência de surtos quando os animais entram novamente em contato com o agente (ALMEIDA et al., 2006). Ao se recuperarem de uma infecção primária por esses parasitos, os bovinos acabam desenvolvendo forte imunidade se tornando portadores assintomáticos, atuando como fonte de infecção aos transmissores da doença (KESSLER et al., 1983). A Anaplasmose é uma doença parasitária causada por uma rickettsia chamada Anaplasma marginale, sendo a espécie mais importante e patogênica para os bovinos. A principal forma de transmissão se dá pelo carrapato do boi (Rhipicephalus microplus), seguida de dípteros hematófagos e também por fômites. O agente apresenta-se como um corpúsculo intra-eritrocitário que pode ser visualizado em microscopia óptica, como pequenos pontos escuros, de localização periférica quando trata de A. marginale (FARIAS, 1995). No Brasil, a prevalência da Anaplasmose varia com índices de 12,3% a 100% (RIBEIRO & REIS, 1981), sendo amplamente distribuída nas regiões tropicais, subtropicais e temperadas do mundo (PALMER, 1989). Segundo Madruga et al. (1984), é uma das principais causas de mortalidade de bezerras no país..
(3) A Babesiose é uma doença causada pelos protozoários Babesia bovis e Babesia bigemina transmitidas através do carrapato dos bovinos chamado R. microplus. A forma clínica da doença é caracterizada por febre, anemia, anorexia, letargia, ataxia, taquipneia hemoglobinúria e tremores musculares (SINGH et al., 2009). A Babesia bovis é conhecida por causar a Babesiose cerebral, doença reconhecida por provocar sinais neurológicos que se caracterizaram por transtornos da locomoção, tremores musculares, agressividade e quedas com movimentos de pedalagem, podendo levar o animal à morte em menos de 24 horas (FARIAS, 1995; SANTAROSA et al., 2013). Em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, durante 1996 a 2004 foi diagnosticado 5,4% de Babesiose cerebral em 536 necropsias de bovinos (LEAL et al., 2005). Levando em consideração a importância da epidemiologia dessas enfermidades e o seu reflexo na produção leiteira, o objetivo deste trabalho é avaliar a prevalência de hemoparasitos presentes em bezerras oriundas de propriedades leiteiras da região Sul do Rio Grande do Sul, Brasil. 2. METODOLOGIA O estudo foi realizado em sete pequenas propriedades leiteiras localizadas na região Sul do Rio Grande do Sul, Brasil. Foram coletadas 156 amostras de sangue de bezerras com aptidão leiteira, com idade desde o desmame até a primeira inseminação. O trabalho foi realizado entre o período de junho de 2013 a março de 2017. O sangue foi coletado com sistema à vácuo diretamente da veia coccígea com tubos contendo anticoagulante (EDTA). Essas amostras foram devidamente identificadas e encaminhadas para o Laboratório de Doenças Parasitárias (LADOPAR) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em caixas isotérmicas com gelo retornável. Para identificação dos hemoparasitos foi utilizado o método direto, por meio da técnica do esfregaço sanguíneo, fixado com metanol e corado com Giemsa. A leitura foi feita em microscópio óptico com a objetiva de imersão de 100x. Os resultados obtidos foram planilhados no programa Excel® para posterior análise. 3. RESULTADOS e DISCUSSÃO Neste estudo, a prevalência de A. marginale foi de 39,74%. Para B. bigemina foi encontrado 8,33%, seguido por B. bovis com 3,84% de prevalência. No estudo realizado por Almeida et al. (2006), foi encontrado 41,1% de B. bovis, 29,41% de A. marginale e em menor proporção 4,9% de B. bigemina. Os resultados da prevalência dos hemoparasitos nas 156 amostras testadas podem ser observados abaixo (Tabela 1)..
(4) Tabela 1: Número de amostras positivas e prevalência de A. marginale, B. bigemina e B. bovis em 156 bezerras de aptidão leiteira da região Sul do Rio Grande do Sul A. marginale B. bigemina B. bovis 62. 13. 6. 39,74%. 8,33%. 3,84%. Para Santana (2000) o exame direto possui uma baixa sensibilidade em infecções subclínicas, o que pode dificultar a visualização do parasito por esse método. Entretanto, em portadores assintomáticos a frequência de animais positivos (21,6%) é maior entre 31 e 60 dias de idade. No trabalho realizado por Silva et al. (2007) foi observado maior frequência de animais positivos após 30 dias, contudo o número de animais positivos abaixo dessa faixa etária também foi significativo. A prevalência dessas hemoparasitoses pode ser considerada relativamente alta, visto que, em diversas propriedades da região Sul do Rio Grande do Sul se faz presente. O fato de que bovinos jovens recebam anticorpos colostrais, possuindo rápida resposta celular e maior atividade eritropoética, fazem com que apresentem uma maior resistência à infecção geralmente com quadros menos severos (RISTIC, 1960). A avaliação diária dos animais permite a detecção de enfermidades precocemente. Isso favorece que medidas preventivas necessárias possam ser aplicadas. Para isso, tornase importante saber a prevalência dos hemoparasitas e as condições que favoreçam a enfermidade (SILVA et al., 2007). Os surtos de TPB são frequentes em bovinos a partir dos 12 meses de idade, sobretudo naqueles nascidos na primavera (outubro a dezembro) pois não são infectados nos primeiros meses de vida (até o outono do ano seguinte), e acabam adoecendo ao serem inoculados durante o outono e verão do ano seguinte (KROLOW, 2002). Em condições favoráveis, esses surtos podem ocorrer mesmo em bezerros de vacas que já sofreram a infecção e, portanto, receberam imunidade colostral (SILVA et al., 2007). Os títulos de anticorpos estudados por Madruga et al. (1985), são mais baixos no soro dos bezerros entre os 28 e 56 dias para B. bigemina, 56 a 84 dias para B. bovis e em torno de 60 dias para A. marginale, tornando-se necessário um contato gradual com quantidade moderada de carrapatos infectados para que desenvolvam imunidade própria (KESSLER, 2001). A dinâmica da infecção depende da interação entre o agente, o vetor e o hospedeiro. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS.
(5) Com base neste estudo conclui-se que houve maior prevalência de Anaplasma marginale, seguido de Babesia bigemina e, por último, Babesia bovis nas bezerras analisadas. Visto que há pouca bibliografia para estudo da prevalência dos agentes causadores dessas doenças na região, torna-se importante a realização deste levantamento de dados para maior conhecimento das espécies presentes, dessa maneira auxiliando no controle das hemoparasitoses, e assim, contribuindo para progresso da atividade leiteira regional. 5. REFERÊNCIAS ALMEIDA, M. B.; TORTELLI, F. P.; CORREA, B. R.; FERREIRA, J. L. M.; SOARES, M. P. S.; FARIAS, N. A. R.; CORREA, F. R.; SCHILD, A. L. Tristeza parasitária bovina na região sul do Rio Grande do Sul: estudo retrospectivo de 1978-2005. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 26, n 4, p. 237-242. 2006. ARAÚJO, F. R.et al. Frequência de anticorpos anti-Anaplasma marginale em rebanhos leiteiros da Bahia. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 50, n. 3, p. 243246. 1998. FARIAS, N. A. R. Diagnóstico e controle da tristeza parasitária bovina. Guaíba, Porto Alegre: Agropecuária. 80p.1995. IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Produção Pecuária Municipal ± 2015. Disponível em: https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/ppm/2015/. Acesso em: 25 set. 2017. KESSLER, R. H. et al. Babesiose cerebral por Babesia bovis (Babés 1888 Starcovici 1893) em bezerros, no Estado de Mato Grosso do Sul. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 18, n. 8, p. 931-935. 1983. KROLOW R.C.P. Imunidade passiva e ativa contra Babesia bovis e Babesia bigemina em terneiros nascidos na primavera em área marginal para o vetor Boophilus microplus. Dissertação de Mestrado em Medicina Veterinária. Faculdade de Veterinária, UFPel, Pelotas, RS. 75p. 2002. LEAL J.S., RAYMUNDO D.L., SPAGNAL C., SEITZ A.L., COLODEL E.M. & DRIEMEIER D. Diagnósticos de babesiose cerebral bovina realizados no SPVUFRGS entre 1996 e 2004. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia. 57(Supl.):75. 2005 MADRUGA, C. R.; AYCARDI, E.; KESSLER, R. H.; SCHENK, M. A. M.; FIGUEIREDO, G. R.; CURVO, J. B. E. Desenvolvimento de uma prova de imunoadsorção enzimática para.
(6) detecção de anticorpos contra Babesia bovis. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 20, n. 4, p. 167-170, 2000. OLIVEIRA, M.C.S; ALENCAR, M. M; CHAGAS, A. C. S; SCHIAVONE, D. C; GIGLIOTI, R; GIGLIOTI, C; FERREZINI, J; OLIVEIRA, H. N. Estudo da susceptibilidade e sazonalidade da infecção por nematódeos gastrintestinais em bovinos de corte. In: Artigo em anais de congresso (ALICE) - Embrapa Pecuária Sudeste; DEZEMBRO 2007; Peru. Embrapa Sudeste; 2007. PALMER, G.H. Anaplasma vaccines. In: WRIGHT, I.G. Veterinary protozoan and hemoparasite vacines. Boca Raton, Flórida : CR, 1989. Cap.1, p.1-29. 1989. RIBEIRO, M.F.B., REIS, R. Prevalência da anaplasmose em quatro regiões do estado de Minas Gerais. Arquivo Escola Veterinária UFMG, v.33, n.1. p.57-62. 1981. RISTIC, M. Anaplasmosis. In: RISTIC, M., McINTYRE, I. Diseases of cattle in the tropics economic and zoonotic relevance. Current topics in veterinary medicine and animal science. The Hague/Boston/London, 1981. V.6, p.327-344. 1960. SANTAROSA B. P.; Dantas, G. N.; Ferreira, D. O. L.; Rocha, N. S.; Gonçalves, R. C.; Amorim, R. M.; Chiacchio, S. B. Infecção neurológica por Babesia bovis em bovino neonato ± Relato de Caso. Veterinária e Zootecnia. 2013 set.; 20(3): 9-14. 2013 SANTANA, A. P. Dinâmica da infecção natural por Babesia bigemina (Smith & Kilborne, 1893) em bezerros a partir do nascimento, avaliada pela reação em cadeia da polimerase (PCR), esfregaço sanguíneo e imunofluosrescencia indireta. 2000. 75f. Dissertação (Mestrado Ciência Animal). Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2000. SILVA, R. A; CORRÊA, F.N.; BOTTEON, R.C.C.M.; BOTTEON, P.T.L. Infecção natural por hemoparasitos em bezerros submetidos à quimio-profilaxia aos 30 dias de idade. Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, v. 16, n.3, p. 163-165, 2007 SINGH, H. et al. Comparison of indirect fluorescent antibody test (IFAT) and slide enzyme linked immunosorbent assay (SELISA) for diagnosis of Babesia bigemina infection in bovines. Tropical Animal Health and Production, v. 41, n. 2, p.153-159, 2009..
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