* Mestre em Comunicação Social Pelo PPGCOM/PUCRS. Professora dos cursos
de Publicidade e Propaganda da Famecos/PUCRS e FACCAT.
Resumo
Neste trabalho, aborda-se o compartilhamento de arquivos pela internet com base nas teorias empíricas e nas teorias de interação e colaboração criadas por Juliano Spyer e Raquel Recuero. A popularização das tecno-logias digitais deu aos usuários domésticos o poder de produzir conteúdo. Esse aspecto, somado à facilidade de distribuição trazida pela internet, influenciou na criação de uma cultura na qual compartilhar conteúdo é muito importante, mas também acabou por influenciar no surgimento de materiais piratas.
Palavras-chave: Compartilhamento. Internet. Tecnologias digitais. Pirataria.
Liana Gross Furini
*Cultura de
compartilhamento:
as transformações da
comunicação através das
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Introdução
De acordo com as teorias empíricas, o padrão emissor -> receptor, visto como uma via de mão única na teoria hipodérmica, dando plena autoridade ao emissor, não é mais verdadeiro. As teorias empíricas en-tendem que o fluxo de informação tem uma via de mão dupla, tirando do receptor a imagem de um ser passivo. Acredita-se, a partir de então, que o receptor também é responsável pelo conteúdo produzido.
Trazendo esse conceito para os meios digitais e, mais precisamen-te, para a internet, podemos afirmar, primeiramenprecisamen-te, que todos os pro-dutores de internet são, também, seus usuários. Eles é que alimentam a rede e “termin[ar]am por configurar a sua utilização numa relação estabelecida com base na otimização da cooperação, tanto em nível lo-cal quanto internacional” (LEITE; JANOTTI JUNIOR, 2010, p. 248). A cooperação, segundo Recuero (2009, p. 81), “é o processo formador das estruturas sociais”.
A internet possibilitou que grupos conversassem com outros grupos e obtivessem feedbacks rapidamente. Baseando-se nessa ideia, Spyer (2007) lançou a teoria de interação e colaboração nos meios digitais. Para o autor, “a internet é uma mídia diferente das outras porque possibilita a comu-nicação simultânea e de duas vias entre várias pessoas” (SPYER, 2007, p. 21). Ela carrega a possibilidade de interação do telefone e também o grande alcance da televisão. Na FIG. 1, mostra-se como a comunicação se dá no telefone (1), na televisão (2) e na internet (3).
FIGURA 1 – Processo de comunicação pelo telefone pela televisão e pela internet. Fonte: SPYER, 2007, p. 21.
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No mesmo sentido, Lemos (2002, p. 73) pontua que “as novas tec-nologias de informação devem ser consideradas em função da comu-nicação bidirecional entre grupos e indivíduos, escapando da difusão centralizada da informação massiva”.
Os próprios estudos das teorias da comunicação, muitas vezes, desdobram-se em abordagens de aspectos emergentes das indús-trias culturais focadas nas transformações dos polos da emissão/ recepção, que vêm ocorrendo, a partir das reconfigurações do consumo de bens culturais e das possibilidades oferecidas com o desenvolvimento das novas tecnologias. (LEITE; JANOTTI JUNIOR, 2010, p. 235)
Lemos (2002, p. 123) explica que a internet criou “uma revolução sem precedentes na história da humanidade. Pela primeira vez o homem pode trocar informações, sob as mais diversas formas, de maneira ins-tantânea e planetária”. A possibilidade e a facilidade de trocar informa-ções e compartilhar conteúdo criou uma cultura de compartilhamento nesse meio.
Produção e circulação de conteúdo independente
As produções audiovisuais passaram por grandes mudanças a partir do surgimento das novas tecnologias. Antes delas, a circulação das pro-duções videográficas era, em sua maioria, direcionada a locais de gran-de público, como salas gran-de cinema e festivais. Nesses espaços, o suporte usado para exibir as obras era caro e ainda havia a necessidade de pro-fissionais capacitados para operá-los. Atualmente, sites de transmissão de conteúdo audiovisual, como o YouTube, funcionam de forma muito parecida com a de um banco de imagens digitais. Da mesma forma que os bancos de imagem, eles são conhecidos pela excelência na distribui-ção desses materiais audiovisuais:
No campo da produção, a redução de custos e a facilidades de convergência entre os formatos e suportes digitais aumentaram as produções caseiras, ao mesmo tempo em que permitiu uma maior abrangência de realizadores (e consequente profissiona-lização) na área. (LEITE; JANOTTI JUNIOR, 2010, p. 245)
Desse ponto de vista, a internet é, ao mesmo tempo, tecnologia que age como base para o armazenamento do conteúdo, meio de mercado de circulação das obras e meio de interação social, entregando para os
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próprios usuários da rede a tarefa de disseminar informação. A internet, assim,
sugere um horizonte mais democrático da produção e circulação de conteúdos, além de apontar uma via alternativa à lógica do consumo, através das indústrias culturais, na medida em que esse aspecto, certamente, muda as possibilidades de oferta de conte-údo e de transversalidade entre os polos da emissão e recepção. (LEITE; JANOTTI JUNIOR, 2010, p. 241)
Esse ambiente democrático é o que Castells (2003, p. 285) chama de “comunicação horizontal, de cidadão a cidadão”. Segundo o autor, isso significa que cada usuário tem a liberdade e o poder de criar o seu próprio sistema de comunicação dentro da rede.
A internet e a cibercultura
As tecnologias digitais e, principalmente, a internet foram grandes influenciadoras na criação de uma cultura na qual compartilhar conteú-do é muito importante. Tietzmann e Pase (2008), dizem que a internet alterou a forma como o conteúdo era publicado e difundido, haja vista que, nesse ambiente, cada indivíduo faz parte do diálogo e é participante ativo de cada etapa do processo. Partindo desse pressuposto, receptores de conteúdo se tornam também emissores no momento em que com-partilham seu conteúdo, convergindo com o que diz a teoria empírica. Lévy (2007, p. 62) pontua que o uso da informática comunicacional como meio social ajuda as pessoas a “reunir suas forças mentais para constituir coletivos inteligentes e dar vida a uma democracia em tempo real”. Nesse sentido, Castells (2003, p. 255) acredita que a internet “é mais que uma tecnologia. É um meio de comunicação, de interação e de organização social”.
Para falar da cultura de compartilhamento e o espaço onde isso acontece, é importante definir conceitos de cibercultura e ciberespaço. Rüdiger (2011, p. 291) define “cibercultura” como o “conjunto de práti-cas e representações que surge e se desenvolve com a crescente mediação da vida cotidiana pelas tecnologias de informação e, assim, pelo pensa-mento cibernético e a civilização maquinística, apareceu como termo nos anos 1960”. O mesmo autor define o “ciberespaço” como
espaço criado artificialmente pela convergência entre o mundo online gerado pelas redes telemáticas e as projeções digitais e imaginárias dos sujeitos que, direta ou indiretamente, interagem
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por seu intermédio, deve seu nome à obra do escritor William Gibson. (RÜDIGER, 2011, p. 291)
O conceito de cibercultura surge em meio à popularização das tecno-logias digitais e da internet, porém “o surgimento da cibercultura não é só fruto de um projeto técnico, mas de uma relação estreita com a sociedade e a cultura contemporâneas” (LEMOS, 2002, p. 28). Nicholas Negro-ponte, Fundador do Laboratório de Mídia do Massachusetts Institute of Technology (MIT), entra em acordo com a ideia de Lemos. Segundo Rüdiger (2011, p. 25), Negroponte acredita que o desenvolvimento das novas tecnologias de informação “acarreta o surgimento de uma nova forma de vida, muito mais do que uma mera revolução tecnológica”.
Compartilhamento de conteúdo e pirataria
Atualmente, é impossível falar de compartilhamento de arquivo sem remeter à questão da pirataria. A digitalização dos processos envolvidos, somada à difusão da internet apontada por Gilder (2001) e Castells (2008), facilitou a circulação das obras e fomentou um meio alterna-tivo. Gerbase (2007, p. 2) destaca que “o espectador atua à margem do sistema e obtém o que quer baixando conteúdos disponíveis na rede, ou comprando uma cópia clandestina [...]”. Essa comunicação de muitos para muitos – bem diferente das mídias tradicionais, nas quais a comu-nicação acontecia de um para muitos –, em que se criou um espaço no qual qualquer pessoa podia ser um produtor de conteúdo, caracteriza a
Web 2.0. (TIETZMANN; PASE, 2008)
Pirataria é definida por Segrave (2003) como o uso ou a reprodu-ção e distribuireprodu-ção não autorizada de uma obra. A internet, ao mesmo tempo que trouxe um repositório infinito de atrações, também pode ser apontada como um espaço de prática de atividade ilícitas favoreci-da pela tecnologia. Autores como Lessig (2005) e Yar (2008) apontam que a indústria do copyright tenta criminalizar as práticas de pirataria a partir das leis de direito autoral. Essas leis desafiam e criminalizam práticas de pirataria e roubo de direitos autorais, principalmente com re-lação ao uso da internet (YAR, 2008, p. 605). Segundo Mattelart (2009, p. 313), alguns autores consideram que a pirataria foi muito importante na apropriação do vídeo na sociedade. Desse ponto de vista, foi a co-mercialização informal que fez com que a tecnologia se tornasse cada vez mais acessível.
O conceito de pirataria se refere à apropriação não autorizada de produtos ou serviços que estejam sob resguardo de direitos autorais.
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Esses produtos ou serviços podem ser relativos a obras audiovisuais, mú-sicas, roupas, softwares, aparelhos eletrônicos ou qualquer outro artigo que tenha a possibilidade de ser reproduzido. O acesso a esses materiais piratas pode acontecer por meio de profissionais que buscam moneti-zação com a venda desse material, por provedores de serviço, que dão suporte para que o material seja compartilhado por pessoas que utili-zam a rede para trocar conteúdo, ou por consumidores que fazem cópias para uso pessoal, ou para compartilhar com seus familiares e amigos. (AMBROSI; PEUGEOT; PIMIENTA, 2005)
Segundo Lessig (2005), as tecnologias de publicação usadas antes das tecnologias digitais eram caras, então a maior parte delas era comer-cial. Com relação à internet, o autor acredita que a ela permite que as pessoas possam capturar imagens, mas,
diferentemente de qualquer tecnologia que simplesmente cap-ture imagens, a Internet permite que essas criações sejam divi-didas com um número extraordinário de pessoas, quase instan-taneamente. Isso é algo novo em nossa tradição – não porque a cultura pode ser capturada automaticamente, e obviamente não porque os eventos são comentados de forma crítica, mas porque essa mistura de imagens, sons e comentários pode ser difundida largamente de forma quase imediata. (LESSIG, 2005, p. 62)
A captação e a duplicação de imagens não é novidade quando se fala de pirataria – foi amplamente difundida depois do lançamento do videocassete da Sony, em 1975 (BERGAN, 2006, p. 69) –, mas as tec-nologias digitais trouxeram a possibilidade de copiar o material infini-tamente, já que a qualidade do material copiado é a mesma do original (LEMOS, 2002, p. 74). A possibilidade infinita de cópias, somada à facilidade de compartilhamento, colaborou para que a internet ficasse tão popular. A internet é o novo grande desafio da indústria. O
downlo-ad das obras, a exibição online e o baixo custo de remessa criaram uma
realidade por meio da qual as obras passaram a ter um público muito maior, inimaginável em tempos pré-internet. (BERGAN, 2006)
As tecnologias digitais contribuíram para a criação de uma nova forma de consumir mídia. “O uso doméstico e individual, os aparelhos de multimídia, a Internet, a popularização dos computadores são algu-mas das características destes novos tempos marcados pela variedade de equipamentos culturais” (SELONK, 2004, p. 162). Mesmo que música e vídeo já tivessem sido distribuídos em formatos digitais, fatores como o aumento da capacidade de armazenamento e processamento dos
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computadores e a redução do tempo de transmissão dos arquivos por meio dos formatos de compressão e do aumento das bandas domésticas foram muito importantes para o aumento da distribuição generalizada de conteúdo. (TIETZMANN; PASE, 2008)
A teoria funcionalista, criada por Charles Wright em 1964, busca ver a mídia como parte da sociedade e como uma das instituições responsá-veis pelo seu equilíbrio (ASSIS, 2011, p. 216). Nesse sentido, acrescenta--se a teoria da “energia maquínica”, criada por Lochard (2013), segundo a qual cada indivíduo, em uma sociedade, é responsável por uma parte do trabalho, como uma engrenagem. Se alguma dessas engrenagens que compõem a máquina não cumprir sua função, vai gerar problemas em toda aa sociedade, ou seja, vai ser disfuncional em vez de funcional. Assim é a pirataria com relação à indústria. A indústria trabalha para controlar a produção, a distribuição e a posterior circulação das obras, e, em um movimento contrário, a pirataria entra na etapa da distribuição e cria um canal extraoficial de circulação, tirando parte do controle das obras das mãos das produtoras.
Conclusão
A popularização das tecnologias digitais e dos aparelhos multimídia deu aos usuários domésticos o poder de produção de conteúdo. Como as obras produzidas por usuários domésticos costumam ser independentes e sem dinheiro reservado para divulgação, eles próprios compartilham suas produções e contam com a ajuda de amigos e demais usuários da rede fazendo o mesmo. Isso influenciou fortemente na criação de uma cultura de compartilhamento.
Conforme Castro (2006, p. 3), os usuários têm a percepção de que baixar músicas na internet é como pegar um CD emprestado, e essas práticas não são entendidas por eles como crime, mas como uma forma de compartilhamento entre amigos. A internet, como facilitadora desses processos, tornou natural a troca de conteúdo entre os usuários, o que acabou fomentando um espaço em que a pirataria é vista como apenas mais uma dessas trocas. Nesse caso, fica clara a aplicação da teoria fun-cionalista. A rede provoca a troca de conteúdo entre seus usuários, o que é funcional, mas, por causa dessa facilidade, criou-se um espaço de troca de conteúdo ilegal, o que é disfuncional.
A internet é um ótimo exemplo de aplicação das teorias empíricas, ao passo que evidencia a figura de um receptor ativo. Na rede, os recep-tores têm a possibilidade de fazer comentários diretos sobre os conteúdos publicados e, nesse momento, deixam de ser receptores passivos para
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interagir ativamente com os emissores e com o conteúdo emitido. Além disso, de acordo com os feedbacks dados pelos receptores, os produtores de conteúdo podem alterar ou não o rumo de suas publicações, mos-trando mais uma vez a importância da participação dos usuários. Dessa forma, os indivíduos não são mais meros espectadores da mídia; eles agora participam ativamente dela.
A sharing culture: the transformation of communication through new technologies
Abstract
This study addresses the sharing of files through the Internet based on empirical theo-ries and theotheo-ries of interaction and collaboration created by Julian Spyer and Rachel Recuero. The popularization of digital technologies gave home users the power to pro-duce content. This aspect, coupled with the ease of distribution brought about by the internet, influenced the creation of a culture in which sharing content is important, but also turned out to influence the emergence of pirated materials.
Keywords: Sharing, Internet, Digital technology. Piracy.
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Enviado em 22 de outubro de 2015. aceito em 20 de novembro de 2015.