www.elsevier.pt/acup
ACTA
Urológica
Portuguesa
ARTIGO
ORIGINAL
Escherichia
coli
nas
infec
¸ões
urinárias
da
comunidade:
comensal
ou
patogénica?
Ana
Eusébio
a,
Catarina
Araújo
a,
Madalena
Andrade
ae
Aida
Duarte
a,b,∗aLaboratóriodeMicrobiologia,FaculdadedeFarmácia,UniversidadedeLisboa,Lisboa,Portugal biMed.UL,ResearchInstituteforMedicinesandPharmaceuticalSciences,Lisboa,Portugal Recebidoa11demarçode2015;aceitea15defevereirode2016
DisponívelnaInterneta20demarçode2016
PALAVRAS-CHAVE Escherichiacoli; Cistites; Comensal; Patogénica; Virulência Resumo
Objetivo: EstudarapatogenicidadedeisoladosdeEscherichiacoli(E.coli)nasinfec¸ões uriná-riasesuarelac¸ãocomohospedeiro,tendoemcontaaassociac¸ãodebacteriúriaporE.colia critériosdefinidosdepatogenicidadeouacondic¸õesespecíficasinerentesaohospedeiro,em mulherescomidadesaté59anos.
Materiaisemétodos: Foramestudadas228estirpesdeE.coli,isoladasdeurinasdemulheres comidade≤59anos,provenientesdevárioslaboratóriosportuguesesdeprestac¸ãodeservic¸os àcomunidade.ApesquisadosgenesdevirulênciafimH,papC,ecpA,usp,hlyAecnf1,dasilhas depatogenicidade(PAI)ICFT073ePAIIICFT073,eadeterminac¸ãodogrupofilogenéticofoiefetuada
pelatécnicadePCR.
Resultados: OsgenesmaisfrequentementeisoladosforamoecpA,seguidodefimH,eosgrupos filogenéticosmaisprevalentesoB2eDpatogénicos,tantoemcITUcomoemncITU.
TantonosisoladoscomensaiscomoospatogénicosapresentaramosgenesfimH,papCeecpA
deaderênciaecolonizac¸ão;contudo,osgenesusp,hlyAecnf1,associadosaprocessosinvasivos, assim como asPAIICTF073 e PAIIICFT073 encontraram-se predominantementenos isoladosdos
grupospatogénicos.
Conclusão:Osfatores devirulênciaestudadosnãoficaram restritosàsestirpespatogénicas, tantoemncITUcomoemcITU.Osfatoresderiscodohospedeiroquepropiciamo estabeleci-mentodecistitescomoagravidez,recorrênciaediabetes,estãoassociadosàpatogenicidade dasbactérias.
© 2016Associac¸˜ao PortuguesadeUrologia.Publicado porElsevier Espa˜na, S.L.U.Este ´eum artigo OpenAccess sobumalicenc¸aCCBY-NC-ND( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
∗Autorparacorrespondência.
Correioeletrónico:[email protected](A.Duarte). http://dx.doi.org/10.1016/j.acup.2016.02.002
2341-4022/©2016Associac¸˜aoPortuguesadeUrologia.PublicadoporElsevierEspa˜na,S.L.U.Este ´eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸a CCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
KEYWORDS Escherichiacoli; Cystitis; Commensal; Pathogenic; Virulence
Escherichiacoliincommunityurinarytractinfections:commensalorpathogenic?
Abstract
Objective:TostudyEscherichiacolipathogenicityinurinarytractinfectionsandtheir relati-onshipwiththehost.AssociationofbacteriuriabyE.coliwithdefinedpathogenicitycriteriaor hostspecificconditions,inwomenagedupto59years.
Materialsandmethods: Overall228Escherichiacolistrainswerestudied.Thesewereisolated fromurineofwomenwithage≤59providedbyvariousPortugueselaboratories inthe com-munity.ThestudyofthevirulencegenesfimH,papC,ecpA,usp,hlyAandcnf1,pathogenicity islands(PAI)ICFT073 andPAIIICFT073,andphylogeneticgroupdeterminationwas performedby
PCR.
Results:ThemostfrequentlyisolatedgeneswereecpA,followedbyfimHandthemost preva-lentphylogeneticgroupswerepathogenicsB2andD,bothincITUandncITU.
Bothcommensalandpathogenicisolatesshowed presenceoffimH,papC andecpAgenes withfunctionsinadhesionandcolonization,whileusp,hlyAandcnf1usuallyassociatedwith invasivestrainsandPAIICTF073andPAIIICFT073 werefoundpredominantlyinpathogenicgroup
strains.
Conclusion:Studiedvirulencefactorswerenotrestrictedtopathogenicstrains,bothinncITU andcITU. Thehost riskfactorswhich propitiatecystitis such aspregnancy,recurrenceand diabetes,areassociatedwithbacterialpathogenicity.
©2016Associac¸˜aoPortuguesadeUrologia.PublishedbyElsevierEspa˜na,S.L.U.Thisisanopen accessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense(http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/ 4.0/).
Introduc
¸ão
AEscherichiacoli(E.coli)é oagente etiológicomais
fre-quentementeisolado nasinfec¸ões dotrato urinário(ITU), sendotambémpredominante na floraintestinal humana1. Os fatores que predispõem à infec¸ão urinária podem ser inerentesao hospedeiroou específicos domicrorganismo. Acistiteouinfec¸ãourináriabaixapodecaracterizar-secomo complicada ou não complicada, consoante o hospedeiro apresenteounãofatoresderisco,taiscomointernamento recenteemhospital,patologiasobstrutivasouusode cate-ter urinário2---6. A E. coli uropatogénica (UPEC) expressa fatoresdevirulênciataiscomoadesinas,toxinas, siderófo-roseproteínasdesuperfícieresponsáveispelacolonizac¸ão, invasãoepersistêncianotratourinário1.Entreasadesinas maisfrequentemente associadasà UPEC estãoasfímbrias dotipo 1 e asfímbrias do tipo Pou Pyelonephritis
asso-ciated pili (Pap)7,8. A adesina FimH, representativa das
fímbriasdotipo1,liga-seespecificamenteàuroplaquinaIa, umaglicoproteínaexpressapelascélulasvesicaistidacomo importantenaformac¸ãodebiofilme9,10.AsPapestão associ-adasapielonefriteagudanãocomplicada11,encontrando-se orecetorespecíficodisseminadonasmembranascelulares dascélulasrenais4,sendoessenciaisparaacolonizac¸ãodo tratourinárioalto1.Outrasadesinastêmsidodescritasem estirpesdeE.colienteropatogénicasecomensais,talcomo adenominada deE. colicommon pilusouECP, codificada pelogeneecpA,responsávelpelacolonizac¸ão,disseminac¸ão einfec¸ãodotratogastrointestinal12,13,comotambémpela formac¸ãodebiofilmesemsuperfíciesbióticaseabióticas.
Entre as proteínas excretadas pelas estirpes UPEC, a proteína uropathogenic-specific protein (USP), codificada pelogeneusp,foidescritarecentementecomoprevalente
nasestirpesurináriasrelativamenteàsestirpesfecais1,14---16. Outra proteína importante, a citotoxinaou factor necro-santecitotóxicoCNF1(cytotoxicnecrotizingfactor1),tem acapacidade deinduzirapoptosenascélulasepiteliaisda bexiga,estimulandoasuaexfoliac¸ãoeconsequenteinvasão doepitélio.Estaintervémtambémnainibic¸ãodaatividade fagocítica equimiotática dosneutrófilos17. Ainda relativa-menteàscitotoxinasdestaca-sea␣-hemolisina,codificada pelogenehly,quepromoveaformac¸ãodeporoscoma con-sequentelisecelular,facilitandoaobtenc¸ãodenutrientes e a captac¸ão deferroiónico, necessários ao metabolismo bacteriano17.
Osgenesquecodificamestesfatoresdevirulênciapodem estarlocalizadosnocromossomaouemplasmídeos,epodem também estar associados a elementos genéticos móveis como as ilhas de patogenicidade (PAI). Estes elementos caracterizam-seporteremtamanhosuperiora10kilobases, oquelhespermiteteremassociac¸ãogenescodificadoresde adesinas,toxinas,sideróforos,cápsulaseseremfacilmente transferidosentreespéciesbacterianas18---20.Das8ilhasde patogenicidadejáconhecidasemE.colidestacam-seaPAI ICFT073eaPAIIICFT073;aprimeirapossuiumgrupodegenesque
codificamparaa␣-hemolisinaeaPap,enquantoasegunda transportaapenasgenescodificadoresdaPap18.
A fronteira entre comensalismo e patogenicidade tem suscitadoaosinvestigadoresodesenvolvimentode metodo-logias que permitam esclarecer seuma estirpede E. coli
consideradacomensal podeserpatogénicaevice-versa,e quais as características que as diferenciam. Clermont et al.21 desenvolveram umalgoritmobaseado na detec¸ão de 3 genes conservados, o que permite agrupar as estirpes deE.coliem4gruposfilogenéticos---A,B1,B2,D---sendo que as estirpes extraintestinais patogénicas pertencem
maioritariamenteaogrupoB2eemmenornúmeroaogrupo D,enquantoascomensaispertencemaosgruposAeB121,22. Este trabalho surgecomo complemento de umprojeto quevisouoestudodaresistênciaaosantibióticos23,24,tem comoobjetivocaracterizarosfatoresdevirulênciaem iso-lados E. coli de infec¸ões urinárias e analisar a relac¸ão bactéria-hospedeiro.Com esteestudo pretendemos verifi-car sea bacteriúria por E. coli, em mulheres com idades até59anos,estáassociadaounãoacritériosdefinidosde patogenicidadedabactériaouafatoresderiscoinerentes aohospedeiro.
Materiais
e
métodos
Estirpes bacterianas: foram estudadas 228 estirpes de
E.coli, isoladasde urinasdemulheres comidade inferior ouiguala59anos.Asbactériasprovinhamdevários labora-tóriosportuguesesdeprestac¸ãodeservic¸osàcomunidade, tendosidoidentificadasnoslaboratóriosdeorigeme, pos-teriormente, enviadas ao laboratório de Microbiologia da FaculdadedeFarmáciadaUniversidadedeLisboa.
Pesquisadegenesdevirulênciaeidentificac¸ãodos gru-posfilogenéticos:apesquisadosgenesdevirulência(fimH,
papC,ecpA,usp,hlyAecnf1),dasilhasdepatogenicidade
PAIICFT073 ePAIIICFT073edogrupofilogenético(chuA,yjaA,
TSPE4.C2)foiefetuadanoDNAgenómicoextraídopela
téc-nicadeboiled25.Osprodutosobtidosapósamplificac¸ãopela
técnicadePCR,comprimersespecíficosparaosgenesem estudo12,21,26---29,foramconfirmadosporsequenciac¸ão,eas sequênciasnucleotídicaseaminoacídicasforamanalisadas
porsoftwaredisponívelnoNationalCentrefor
Biotechno-logyInformation(http://www.ncbi.nlm.nih.gov).
Resultados
Caracterizac¸ãodaamostraclínica
O diagnóstico decistite foibaseado nos sintomas clínicos comoardoràmicc¸ão,poliquiúriaeurgênciaurinária,ena análisecito-bacteriológicadaurina.Esteexameconsistena observac¸ãodeleucocitúria,marcadordeinflamac¸ão, asso-ciadaàidentificac¸ãodeumaestirpebacterianaemnúmero superior a 105 unidades formadas colónias UFC/ml. Dos
228 isoladosde E. coli, 170 foramidentificados deurinas demulheressemfatoresderisco,consideradascistitesnão complicadas(ncITU).Osrestantes50isoladoseram prove-nientes de urinas de mulheres, que se diferenciaramdos critériosdeinclusãodasncITUporqueapresentavamumou maisfatorescomorecorrênciadainfec¸ão(n=25),gravidez (n=37)ediabetes(n=2),aoqueseenglobaramnascistites complicadas(cITU)6.
Genesdevirulência
Napesquisadosgenesdevirulênciaobservou-seumpadrão de prevalência idêntico em todos os isolados, sendo que o gene mais frequente foi ecpA, seguido de fimH, tal comoé observadonafigura1.Nos50 isoladosdecITU,os genes ecpA e fimH foram identificados em 94,0% (n=47) e 72,0% (n=36), respetivamente. Da mesma forma, nos
81,5 23,0 83,7 20,8 29,8 22,5 52,8 50,6 72,0 26,0 94,0 22,0 18,0 22,0 40,0 42,0 0,0
fimH papC ecpA usp hlyA cnf1
PAI ICFT073PAI IICFT073
10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 80,0 90,0 100,0
Não complicadas (n = 178) Complicadas (n = 50)
Figura1 Percentagemdeisolados deEscherichiacoli, pro-venientesde cistitesnãocomplicadase cistitescomplicadas, contendoosgenesdevirulênciaestudadosfimH,papC,espA, usp,hlyA,cnf1,easilhasdepatogenicidadePAIICTF073 ePAI IICFT073. 20% 6% 39% 35% A B1 B2 D 12% 10% 54% 24%
A
B
Figura2 Distribuic¸ãodosisoladosdeEscherichiacoli, prove-nientesdecistitesnãocomplicadas(A)ecistitescomplicadas (B),pelosgruposfilogenéticoscomensais(AeB1)epatogénicos (B2eD).
170isoladosdencITU,osgenesecpAefimHforam encon-tradosem83,7%(n=149)e81,5%(n=145).Paraosrestantes genes de virulência estudados (papC, usp, hlyA e cnf1), foramencontradosvaloresdentro damesma ordem entre 18-30%.
Relac¸ãodosfatoresdevirulênciaeosgrupos filogenéticos
Os228 isolados deE. coli distribuíram-se entreos 4 gru-posfilogenéticos,A, B1,B2,D, deacordocoma figura2. Asbactérias comensaisdosgrupos AeB1foram identifica-dasem45dos 178isoladosassociadosàsncITU(fig. 2A)e quesedistribuírampelogrupoA(20%;n=35)epelogrupo B1(6%;n=10), enquanto amaioria dos isoladosde ncITU (n=133)pertencemaosgrupospatogénicosB2eDem quan-tidadepercentualsemelhantede39%(n=70)e35%(n=63), respetivamente.Deacordocomafigura2B,dos50isolados provenientesdecITU,verificou-seque39isoladosestavam nosgrupospatogénicosB2(54%;n=27)eD(24%;n=12).Os
T abela 1 Distribuic ¸ã o dos isolados de Escherichia coli pelos grupos filogenéticos patogénicos (B2, D) e comensais (A, B1), de acordo com os fatores de virulência fimH, papC, espA, usp, hlyA, cnf1 e as ilhas de patogenicidade PA I ICFT073 e PA I IICFT073 B2 D A B1 ncITU (n= 70) cITU (n = 27) ncITU (n= 63) cITU (n = 12) ncITU (n= 35) cITU (n= 6) ncITU (n= 10) cITU (n= 5) FimH 62 88,6% 19 70,4% 49 77,7% 9 75,0% 26 74,3% 5 83,3% 8 80% 3 60% P apC 18 25,7% 8 29,6% 14 22,2% 3 25% 7 20,0% 1 16,7% 2 20% 1 20% EcpA 60 85,7% 27 100% 50 79,4% 12 100% 29 82,9% 3 50% 10 100% 5 100% Usp 16 22,9% 9 33,3% 12 19,0% 2 16,7% 6 17,1% -HlyA 37 52,9% 6 22,2% 9 14,3% 3 25% 7 20,0% -Cnf-1 24 34,3% 9 33,3% 9 14,3% 2 16,7% 6 17,1% -1 10% -PA I I CFT073 59 84,3% 15 55,6% 26 41,3% 5 41,7% 8 22,9% -1 10,0% -PA I II CFT073 55 78,6% 16 59,3% 21 33,3% 5 41,7% 12 34,3% -2 20,0% -ncITU: infec ¸ã o do trato urinário não complicada; cITU: infec ¸ã o do trato urinário complicada.
restantes11isolados(12%;n=6)e(10%;n=5) distribuíram--seentreosgruposcomensaisAeB1,respetivamente.
Em8isolados,foramidentificadostodososgenesde viru-lênciaemestudo;distribuíram-sepelosgruposfilogenéticos patogénicos B2 (n=3) e D (n=5). Apenas num isolado do grupofilogenéticoDnãoforamdetetadosquaisquerfatores devirulênciaemestudo.
Ao comparar os resultados expressos na tabela 1, dos isolados provenientes de cITU e ncITU, verifica-se que, tantoosisoladoscomensais(AeB1),comoospatogénicos (B2eD),apresentaramtodososgenesqueestãoimplicados naaderênciaàscélulasecolonizac¸ãodohospedeiro(fimH,
papC,ecpA).Inclusivamente,nogrupodeisolados
comen-sais e provenientes de cITU só foram detetados os genes decolonizac¸ão.Quanto aosgenes quecodificamproteínas deproteínasresponsáveisporprocessosinvasivos,os isola-dosdosgruposB2eDapresentamvaloressignificativamente maiselevados,quandocomparadoscomosgruposAeB1. Relac¸ãodasilhasdepatogenicidadecomosgrupos filogenéticos
Nos228isolados,as2ilhaspatogenicidade(PAIICTF073 ePAI
IICFT073) foram predominantes entre as 8 PAI pesquisadas,
tantonosisoladosdencITUcomodecITU.Emboracom valo-ressemelhantes,aPAIICTF073 foiaprevalente51,9e49,3%,
seguidadaPAIIICFT073 com49,7e46,3%paraosisoladosde
ncITUedecITU,respetivamente.Deacordocomatabela1, estasPAI tambémforamencontradas em maior percenta-gemnasestirpesB2eD,tantonosisoladosdencITUcomo decITU.Contrariamenteaoquesepoderiapensar,nãose detetaramisoladoscomas2PAInosgruposcomensaisAe B1,oriundosdecistitescomplicadas,tendoemcontaofacto deproviremde10grávidas,3delascomrecorrência,ede umamulhercomdiabetes.
Discussão
Umdosfatoresprincipaisparaaocorrênciadeinfec¸õesdo tractourinário é apresenc¸a deadesinas fimbriais, permi-tindoaaderênciadabactériaaouroepitélio.Aprevalência defímbriasdotipo1,comparativamenteàsdotipoP,éum indicadordevirulênciaimportanteerelevantena patogeni-cidadedasestirpesdeE.coli.Estafímbriadesempenhaum papelimportante nainduc¸ãodainflamac¸ão,em particular nascistites, umavez quea adesinaFimHseliga especifi-camente àuroplaquina,abundante noepitélio vesical.No entanto,aassociac¸ãocomasPapalertaparaanecessidade de um maioracompanhamento clínico, de modo a evitar infec¸õesnoaparelhourinárioalto,maisconcretamente, pie-lonefrites.
O facto de se ter verificado a presenc¸a do pilus ECP na maioria dos isolados, adesina que está implicada na colonizac¸ãodointestinoequecontribuiparaapermanência dasbactériasnohospedeiro,confirmaaautocontaminac¸ão porvia ascendentecomoa principalcausadeITU. A ade-sinaEcpAé umfatorcríticoparaa aderênciae virulência de estirpes de E. coli entero-hemorrágicas (EHEC), por-queaomimetizarocomportamentodasestirpescomensais confereavantagemnacolonizac¸ãoeevasãoaosistema imu-nitáriodohospedeiro30. Nonossoestudoa prevalênciado
geneecpA,tantoem grupospatogénicoscomocomensais, permite-nosconcordarcomRendonetal.30,aoafirmarque este gene acompanha a evoluc¸ão de E. coli intestinais e extraintestinais,possibilitando a colonizac¸ão generalizada destasbactérias.Efetivamente,ogeneecpAfoiencontrado nosisoladosdos4gruposfilogenéticos,commaior relevân-cianosisoladosdosgrupospatogénicosB2eD,enquantoem estirpeshospitalaresmultirresistentesestegenefoi encon-tradomaioritariamenteemisoladosdogrupoA31.
Relativamenteàassociac¸ãodogrupofilogenéticoe fato-res de virulência, observou-se um predomínio destes nos grupospatogénicosB2,seguidodogrupoD,tantoem cisti-tescomplicadascomonãocomplicadas,comparativamente aosgruposcomensaisAeB1.Estadiferenc¸aéevidenciada pelabaixa percentagemdos genes usp, hly ecnf1 encon-trados nestes grupos, o que poderá justificar umamenor capacidadeinvasivaeumamenorcausalidadeparaainfec¸ão porpartedasestirpescomensais.AproteínaUSPtemsido encontradamaisfrequentementeemestirpes uropatogéni-casdoqueemcomensais,eestáassociadaàsbacteriemias com origem nas infec¸ões urinárias12. No nosso estudo, o geneuspfoidetetadonosisoladosdecistites complicadas nasestirpespatogénicas,oquenãoaconteceunasestirpes comensaisondefoiencontradoapenasnosisoladosde cis-tites não complicadas. Se a prevalência de uma proteína comoaUSP,com capacidadedeinvadiroepitélio vesical, numgrupodeisoladospatogénicosérelevante,apresenc¸a destaproteína USP nosisolados comensais, em particular nosprovenientesdencITU,poderáserumalertapela pato-genicidadequeconfereàbactéria,independentementedos fatores de risco inerentes ao hospedeiro. No entanto, os isolados de cITU apresentaram percentagens elevadas de fatoresdevirulência,umpoucosuperioresaosisoladosde ncITU, oque permiteestabelecerum graude patogenici-dadesemelhanteentreosgrupos,reforc¸andoahipótesede queavirulênciainerenteàbactériapoderásertãooumais importantequeosfatoresderiscodohospedeiro. Efetiva-menteapresenc¸adefatoresdeaderência,deinvasãoede toxicidadeemestirpescomensais,característicasinerentes àestirpebacteriana,temumpapeldeterminanteejustifica adificuldadedeerradicac¸ãodabactériaedarecorrênciade infec¸ão.
A prevalência das ilhas de patogenicidade PAIICFT073 e
PAIIICFT073 foisuperiornosisoladospatogénicos
comparati-vamenteaoscomensais,sendoquenestegruponãoforam detetadas nos isolados de cITU. Estas ilhas de patogeni-cidade possuem umgrupo degenes que codificam para a Pap e ␣-hemolisina, o que poderá indiciar a maior facili-dadedasestirpes atingiremoaparelhourináriosuperiore permaneceram noparênquimarenal (Pap);capacidade de lisarashemácias(␣-hemolisina),assimcomocélulas endo-teliaise doepitéliorenal,permitindo maiorfacilidadede entrada na corrente sanguínea, originando bacteriemias. No nosso estudo, não se verificou uma analogia entre o númerodeisoladospositivosparaogenehlyAeaPAIICFT073,
dado que para a detec¸ão da PAI a zona a amplificar por PCR nãoé a correspondenteà dogene hlyAe o facto de poderemocorrerdelec¸ões,mutac¸õeserearranjos genómi-cosnasPAIpoderájustificarainexistênciadeconcordância entreestesvalores.Noentanto,edeacordocomSchmidt etal.20,ainserc¸ão deumaPAInocromossomabacteriano podeconverterumabactérianãopatogénicaempatogénica
e permitir mais facilmente a aquisic¸ão de genes de virulência.
As bactérias que transportam ilhas de patogenicidade têmmaiorcapacidadeinvasiva,o queassociado a fatores deaderência conduz aumamaiorcapacidadedelesãodo epitélio,persistência,protec¸ãodoalcancedoantibióticoe sistemaimunitário,assimcomomaiorcapacidadede ascen-sãonotratourinário.
Conclusão
Nesteestudoverificou-sequetantoosisoladosdeITU com-plicadas,comoosdeITUnãocomplicadasapresentaramum graudepatogenicidadesemelhante,reforc¸andoahipótese dequeosfatoresderiscoinerentesàbactériapoderãoser tãooumaisimportantesqueosdohospedeiro.Ascondic¸ões específicasdohospedeiro,taiscomoagravidez,recorrência e diabetes, podem não ser determinantespara o estabe-lecimento da ITU, dado que os isolados nestas situac¸ões apresentaramumnúmeroelevadodefatoresdevirulência.
Responsabilidades
éticas
Protec¸ão depessoaseanimais.Osautoresdeclaramque paraesta investigac¸ão nãoserealizaram experiências em sereshumanose/ouanimais.
Confidencialidadedosdados.Osautoresdeclaramquenão aparecemdadosdepacientesnesteartigo.
Direitoà privacidade e consentimento escrito.Os auto-resdeclaramquenãoaparecemdadosdepacientesneste artigo.
Conflito
de
interesses
Osautoresdeclaramnãohaverconflitodeinteresses.
Bibliografia
1.TibaMR, YanoT, Leite Dda S.Genotypic characterizationof virulencefactorsinEscherichiacolistrainsfrompatientswith cystitis.RevInstMedTropSaoPaulo.2008;50(5):255---60. 2.SchmiemannG,KniehlE,GebhardtK,MatejczykMM,
Hummers-PradierE.Thediagnosisofurinarytractinfection:Asystematic review.DtschArzteblInt.2010;107(21):361---7.
3.KatsarolisI,PoulakouG, AthanasiaS, Kourea-KremastinouJ, Lambri N, KaraiskosE., et al. Acuteuncomplicated cystitis: Fromsurveillancedatatoarationaleforempiricaltreatment. IntJAntimicrobAgents.2010;35(1):62---7.
4.HootonTM.Pathogenesisofurinarytractinfections:Anupdate. JAntimicrobChemother.2000;46Suppl1:1---7,discussion63-5. 5.ChungA,ArianayagamM,RashidP.Bacterialcystitisinwomen.
AustFamPhysician.2010;39(5):295---8.
6.GrabeM,Bjerklund-JohansenTE,BottoH,C¸ekM,NaberKG, PickardRS,etal.Guidelinesonurologicalinfections.European Association ofUrology. 2013. Disponível em: http://uroweb. org/wp-content/uploads/18Urological-infectionsLR.pdf 7.HoldenNJ,TotsikaM,MahlerE,RoeAJ,CatherwoodK,
Lind-nerK,etal.Demonstrationofregulatorycross-talkbetweenP fimbriaeandtype1fimbriaeinuropathogenicEscherichiacoli. Microbiology.2006;152Pt4:1143---53.
8.MulveyMA.Adhesion andentry ofuropathogenicEscherichia coli.CellMicrobiol.2002;4(5):257---71.
9.WellensA,GarofaloC,NguyenH,vanGervenN,SlättegårdR, HernalsteensJP,etal.Interveningwithurinarytractinfections usinganti-adhesivesbasedonthecrystalstructureofthe FimH--oligomannose-3complex.PLoSOne.2008;3(4):e2040. 10.Anderson GG,DodsonKW, HootonTM, HultgrenSJ.
Intracel-lularbacterialcommunitiesofuropathogenicEscherichiacoli in urinary tract pathogenesis. Trends Microbiol. 2004;12(9): 424---30.
11.Snyder JA, Haugen BJ, Lockatell CV, Maroncle N, Hagan EC, Johnson DE, et al. Coordinateexpression of fimbriae in uropathogenic Escherichia coli. Infect Immun. 2005;73(11): 7588---96.
12.BlackburnD,HusbandA,Salda˜naZ,NadaRA,KlenaJ,QadriF, etal.DistributionoftheEscherichiacolicommonpilusamong diversestrainsofhumanenterotoxigenicE.coli.JClin Micro-biol.2009;47(6):1781---4.
13.GarnettJA,Martínez-SantosVI,Salda˜naZ,PapeT,Hawthorne W, Chan J, etal. Structural insightsinto thebiogenesis and biofilmformationbytheEscherichiacoli commonpilus.Proc NatlAcadSciUSA.2012;109(10):3950---5.
14.NakanoM,YamamotoS,TeraiA,OgawaO,MakinoSI,Hayashi H,etal.Structuralandsequencediversityofthepathogenicity islandofuropathogenicEscherichiacoliwhichencodestheUSP protein.FEMSMicrobiolLett.2001;205(1):71---6.
15.RijavecM,Müller-PremruM,ZakotnikB,Zgur-BertokD. Viru-lence factors and biofilm productionamong Escherichia coli strainscausingbacteraemiaofurinarytractorigin.JMed Micro-biol.2008;57Pt11:1329---34.
16.YamamotoS, NakanoM, Terai A,YuriK, Nakata K, NairGB, etal.Thepresenceofthevirulenceislandcontainingtheusp geneinuropathogenicEscherichiacoliisassociatedwith uri-narytractinfectioninanexperimentalmousemodel.JUrol. 2001;165(4):1347---51.
17.WilesTJ,KulesusRR,MulveyMA.Originsandvirulence mecha-nisms of uropathogenic Escherichia coli. Exp Mol Pathol. 2008;85(1):11---9.
18.OelschlaegerTA, DobrindtU, HackerJ.Pathogenicity islands ofuropathogenicE.coliandtheevolutionofvirulence.IntJ AntimicrobAgents.2002;19(6):517---21.
19.Emody L, KerenyiM, NagyG. Virulence factorsof uropatho-genicEscherichiacoli.IntJAntimicrobAgents.2003;22Suppl 2:29---33.
20.SchmidtH,HenselM.Pathogenicityislandsinbacterial patho-genesis.ClinMicrobiolRev.2004;17(1):14---56.
21.ClermontO,BonacorsiS,BingenE.Rapidandsimple determi-nationoftheEscherichiacoliphylogeneticgroup.ApplEnviron Microbiol.2000;66(10):4555---8.
22.JohnsonJR,O’BryanTT,KuskowskiM,MaslowJN.Ongoing hori-zontalandverticaltransmission ofvirulencegenes andpapA allelesamongEscherichiacolibloodisolatesfrompatientswith diverse-sourcebacteremia.InfectImmun.2001;69(9):5363---74. 23.NarcisoA,FonsecaF,Cerqueira S,DuarteA.Susceptibilidade aosantibióticosdebactériasresponsáveisporcistitesnão com-plicadas:estudocomparativodosisoladosde2008e2010.Acta UrolPort.2010;28(1):16---21.
24.NarcisoA,EusébioA,FonsecaF,DuarteA.Infecc¸õesurinárias nacomunidade:estudomulticêntrico.RPDI.2012;8(1):7---12. 25.Brizio A, Vasco S, Gonc¸alves AR, Lito LM, Cristino JM,
Sal-gadoMJ,etal.Surveyofextended-spectrumbeta-lactamases inEscherichiacoliisolatesfromaPortuguesehospitaland cha-racterisationofa novelclass 1integron(In60A)carrying the blaCTX-M-9gene.IntJAntimicrobAgents.2006;28(4):320---4. 26.UseinCR,DamianM,Tatu-ChitoiuD,CapusaC,FagarasR,
Tudo-racheD,etal.PrevalenceofvirulencegenesinEscherichiacoli strains isolated from Romanian adult urinary tract infection cases.JCellMolMed.2001;5(3):303---10.
27.KaoJS,StuckerDM,WarrenJW,MobleyHL.Pathogenicityisland sequencesofpyelonephritogenicEscherichia coli CFT073are associatedwithvirulenturopathogenicstrains.InfectImmun. 1997;65(7):2812---20.
28.RaskoDA,Phillips JA,Li X,Mobley HL.Identification ofDNA sequencesfrom asecondpathogenicityislandof uropathoge-nicEscherichiacoliCFT073:Probesspecificforuropathogenic populations.JInfectDis.2001;184(8):1041---9.
29.KurazonoH,YamamotoS,Nakano M,NairGB,TeraiA, Chai-cumpaW,etal.Characterizationofaputativevirulenceisland inthechromosomeof uropathogenicEscherichia coli posses-singageneencodingauropathogenic-specificprotein.Microb Pathog.2000;28(3):183---9.
30.RendonMA,Salda˜naZ,ErdemAL,Monteiro-NetoV,VázquezA, KaperJB,etal.CommensalandpathogenicEscherichiacoliuse acommonpilusadherencefactorforepithelialcell coloniza-tion.ProcNatlAcadSciUSA.2007;104(25):10637---42. 31.Narciso A, Lito L, Cristino JM, Duarte A. Escherichia coli
uropatogénica:resistênciaaosantibióticosversusfactoresde virulência.ActaUrolPort.2010;27(2):11---20.