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Egas Moniz : representação, saber e poder

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Academic year: 2021

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Faculdade de Letras

Universidade de Coimbra

Egas Moniz: Representação, Saber e Poder

Manuel da Encarnação Simões Correia

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Faculdade de Letras

Universidade de Coimbra

Egas Moniz: Representação, Saber e Poder

Manuel da Encarnação Simões Correia

Tese de Doutoramento em História da Cultura apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra sob a orientação da Professora Doutora Ana Leonor Pereira e

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Resumo

A singularidade de um cientista de um país semi-periférico como Portugal, ter conseguido, em 1949, a maior distinção científica do Século XX – o Prémio Nobel – tem suscitado a questão de saber que diferenças no seu trajecto, no alcance dos resultados das suas investigações científicas, e nas condições em que viveu, explicam um tão elevado grau de reconhecimento de que foi objecto, em contraste com outros cientistas portugueses, ao longo do século passado.

Sem embargo da profusa e interessante bibliografia disponível, designadamente resultante da investigação encetada pelo Grupo de História e Sociologia da Ciência do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS20, no âmbito do qual desenvolvemos o presente trabalho, foram identificados, nesse acervo bibliográfico, três tipos de fragilidades relativamente aos quais importava aprofundar a investigação, de modo a produzir um conhecimento mais satisfatório.

Em primeiro lugar, as circunstâncias em que Egas Moniz foi nomeado para o Prémio Nobel, referidas vaga e incompletamente na literatura disponível; em segundo lugar, o evitamento generalizado das polémicas que acompanharam as descobertas científicas de Egas Moniz, o seu papel estimulante para o entendimento dos problemas que elas se propunham resolver; em terceiro lugar, a mitificação da figura, por via de um enviesamento biográfico que omitia ou referia mitigadamente aspectos centrais das suas práticas sociais, culturais e políticas.

A investigação levada a cabo nos arquivos da fundação Nobel revelou um conjunto de documentos inéditos que veio acrescentar informação indispensável para a compreensão do processo de avaliação e recompensa científica que dominou o século XX. Foi, de facto, o Prémio Nobel que promoveu e consolidou internacionalmente a figura de Egas Moniz. É um

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aspecto central para a história e sociologia da ciência, quer na óptica da representação de Egas Moniz, quer na perspectiva do estudo dos dispositivos de avaliação e recompensa científica do século XX. Por isso, as sucessivas nomeações de Egas Moniz para o prémio Nobel, as razões invocadas da parte dos seus pares para o nomearem, em contraposição às apreciações e comentários dos avaliadores do Comité Nobel, fornecem uma boa base para a compreensão das práticas e dos valores associados à cultura dos cientistas.

À luz da nova documentação revelada fica patente um conjunto de limitações derivado de adaptações discutíveis do legado de Alfred Nobel e de normas de organização institucional que impedem o escrutínio tempestivo dos actos do comité Nobel. Como se pode depreender a partir da análise do dossier de Egas Moniz, a espécie de moratória de 50 anos que impede a divulgação dos fundamentos para aceitação ou recusa de cientistas nomeados, a margem de arbitrariedade, decisões injustificadas e métodos duvidosos, afectam as deliberações do Comité Nobel.

Assim, ao longo do nosso trabalho, pretendemos Primeiro, desmontar parte do intricado processo de nobelização; Segundo, contestar a ideia difusa de que o alcance e o investimento de Egas Moniz na sua carreira política foram despiciendos e, Terceiro, propor a recomposição do perfil biográfico de Moniz, agregando-lhe os aspectos que lhe conferem maior densidade social, cultural e histórica, sublinhando os principais pontos de contacto entre o indivíduo e a sua época, que o mesmo é dizer, entre o ser individual e as instituições; Moniz nas suas figurações, nos termos caros a Norbert Elias, ou, ainda, de acordo com Wright Mills, nos pontos de intersecção entre estrutura social e biografia.

Egas Moniz surge, pois, no texto que aqui submetemos, como um conjunto de representações – construídas, pensadas e dadas a ler – que registámos sob as denominações categoriais de fragmentação identitária

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(persistência de biografias lacunares) e de poder biográfico (condicionamento deliberado das versões biográficas).

A nossa proposta consiste na valorização de uma série culturalmente relevante de elementos biográficos (ou biografemas) e da sua integração na narrativa acerca de Egas Moniz com vista ao que chamamos uma historiografia inclusiva.

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Abstract

Egas Moniz: Representation, Knowledge and Power

From a semiperipheral country as Portugal, the scientist‘s singularity of attaining, in 1949, the greatest scientific award of the 20th century – the Nobel Prize – has raised the issue of what sort of differences can be found in his path, in the reach of the results of his scientific work and in his life conditions could explain a such a high degree of recognition, when contrasted to other Portuguese scientists all the century along.

In spite of the large, weighty and interesting available bibliography, including the Group of History and Science of the

Interdisciplinary Centre of Studies of the 20th Century - CEIS20 published research, and under the scope of which we developed the present work, we have noticed three kinds of weaknesses to be deeply addressable and aiming to a more satisfying knowledge.

Firstly, the circumstances surrounding the nominations of Egas Moniz to the Nobel Prize have been referred to the literature in a loose and incomplete way;

Secondly, the generalised avoidance of polemics associated to the scientific discoveries Egas Moniz undertook, as well as of its stimulating role in the grasping of the problems these discoveries should be able to overcome;

And thirdly, the mythmaking of Egas Moniz through a biographical bias omitting or barely referring to some central features of his social, cultural and political practices.

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The research undertaken in the Nobel Archives displayed a set of inedited documents containing vital information shading light on the process of evaluation and scientific rewarding that dominated the 20th century. It has been, in fact, the Nobel Prize that international consolidator of Egas Moniz‘s the image. This is a central aspect to the history and sociology of science, under the optic of Egas Moniz‘s representation, or under the perspective of the studies about scientific evaluation and rewarding devices during the 20th century. That is why the series of Egas Moniz nominations for the Nobel Prize and the reasons their peers invoked to nominate him must be confronted with the comments and appreciations signed by the Nobel Committee evaluators provide a good basis for the understanding of values and practices associated to the scientists‘s culture.

Under the uncovering of the new revealed documentation it is a set of limitations become apparent. All of which derive from unclear adaptations of the Nobel‘s will and of institutional and organizational norms do not allowing an in time verification of the Nobel Committee acts. As well as one can guess in analyzing Egas Moniz dossier, the delay of 50 years impeding the public revelation of the founding for acceptance or refusal of nominated scientists, the arbitrary margin, the unjustified decisions and doubtful methods, all in all, have affected the Committee Nobel deliberations.

Thus, we are aimed along our present work to 1st unmount (decompose) the intricate process of nobelization; 2nd pledge against the loose idea about the feeble political reach and engagement of Egas Moniz career; 3rd propose a redoing (recomposition) of the biographical profile in adding to it some features entailing a greater social, cultural and historic deep, underlying the main contact points between the individual and his epoch or to put it in another way, between the individual and the institutions; Moniz on his figurations, in the terms of Norbert Elias, or in the words of Wright Mills, in the intersection points between social structure and biography.

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Egas Moniz appears in ours present text as a set of representations ‒ built, thought and given to be read ‒ which we registered under the categorical denominations of identity fragmentation (referring to the persistence of lacunar biographies) and biographical power (deliberated conditioning of biographical versions) .

Our proposal is based on the valorization of a culturally relevant series of biographic topics (what we call biographemes) and on their integration in the narrative about Egas Moniz, aimed to what we call an inclusive historiography.

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ÍNDICE GERAL

Prefácio ... 13 1. Introdução ... 21 1.1 A relevância do tema ... 24 1.2 – Fragmentação identitária ... 29 1.3 – O Poder Biográfico ... 33

1.4 Egas Moniz em livre exame ... 35

1.5 Os acervos documentais ... 38

1.6 Prémio Nobel à 5ª nomeação ... 43

1.7 Para uma historiografia inclusiva ... 44

1.8 Tomando o sujeito à história ... 49

2. No princípio, era o nome ... 54

2.1. Arquitectura da identidade ... 55

2.2 Poder baptismal ... 56

2.3 No colégio dos jesuítas... 60

2.4 Presidente da Tuna ... 65

2.5 O Partido Progressista e a Vida Sexual ... 67

2.6 A Casa do Marinheiro e o Ex-Libris ... 68

2.7 Os seguros de vida e a Nestlé ... 71

2.8 O político e o cientista ... 72

2.8.1 Sombra por omissão ... 73

2.8.2 Sombra por glorificação ... 75

2.8.3 ...e a luz da crítica ... 76

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2.10 Regresso à Política, em força ... 89

2.11 Equilíbrios tácticos ... 99 2.12 Superação de obstáculos ... 101 2.13 Místico da objectividade ... 102 2.14 As psicoses sociais ... 104 2.15 Organicismo e corporativismo ... 111 2.16 As doutrinas de Exeter ... 115 2.17 O mundo na cabeça ... 123

2.18 ...Ou a cabeça no mundo ... 126

3. O Prémio Nobel... 127

3.1 Memórias ... 129

3.2 O cérebro à vista ... 132

3.3 Nobelizados: elite das elites. ... 135

3.4 Primeiros passos (1928-1933) ... 136

3.5 Segundo passo: emergência da psicocirurgia ... 145

3.6 Terceiro passo (1937): A leucotomia pré-frontal ... 147

3.7 Quarto passo (1944): O discípulo nomeia o mestre ... 153

3.8 Quinto passo (1949): O Prémio ... 162

3.9 Depois do Prémio. Mudar o passado? ... 174

3.10 Alguns estudos desfavoráveis ... 177

3.11 A ideia de desnobelização em campanhas ... 184

3.12 A Fundação responde ... 189

3.13 O ―enigma periférico‖ e o alçapão chauvinista ... 192

3.14 O leito de Procusto ... 194

3.15 Direito à memória ... 197

3.16 Versões complementares ... 199

4. Ilusão biográfica e ideal historiográfico:a construção de Egas Moniz ... 203

4.1. Construção biográfica: Ilusão e poder ... 204

4.2. O político na sombra do cientista ... 207

4.3. Duelos e Maçonaria: noblesse oblige. ... 210

4.4. Vida empresarial. A indesejabilidade de um perfil. ... 212

4.5. A afinidade com Ramón y Cajal ... 215

4.6. Os biografemas que ficaram ... 220

4.7 Um exemplo do exercício do poder biográfico ... 223

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4.9. Júlio Dinis: um precursor da psicanálise? ... 233

4.10. Camilo Castelo Branco: um título abusado. ... 240

4.11 O Poder (auto) Biográfico ... 244

5. Devolvendo o sujeito à história ... 249

5.1 Biografia, Autobiografia e historiografia ... 249

5. 2 Fragmentação narrativa e comunidades de sentido ... 253

5.2.1 Um aspecto de entre os demais ... 254

5.2.2 Comunidade de sentido ... 255

5.2.3 Fragmentação identitária ... 255

5 .3 Celebração e silêncio ... 257

5.4 Herói nacional, figura omissa e ferida narcísica ... 262

5.5 Cultura científica ... 267

5.5.1 Separação de funções e de poderes ... 268

5.5.2 Gestão da imagem: tempestividade e primazia ... 271

5.5.3 A Vida Sexual ... 272

5.5.4 Eugenismo, filosofia e política (bom para o paciente; mau para a espécie?) ... 276

5.5.5 Entre cientismo e intuições espantosas ... 280

5.5.6 Os pintores da loucura ... 282

5.5.7 Discussões surdas (Cajal, Babinski, Sobral Cid e Sigmund Freud) ... 287

5.6 O défice teórico ... 292

5.7 O défice ético ... 297

5.8 O alheamento de Walter Hess ... 298

5.9 A imprecisão histórica e a pressão mitificadora. ... 300

6. Conclusões ... 304

6.1 Do défice de protagonismo político ao político na sombra do cientista ... 305

6.2 Do heroismo científico às cinco nomeações para Prémio Nobel. ... 312

6.3 Dos enigmas monizianos ao exercício do Poder Biográfico ... 317

FONTES E BIBLIOGRAFIA ... 322

Fontes Manuscritas ... 325

Fontes Impressas Periódicas ... 326

Outras Fontes ... 357

Bibliografia de Egas Moniz ... 360

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2. MEMÓRIAS E TRABALHOS CIENTÍFICOS ... 362

3. ENSAIOS POLÍTICOS E OUTROS... 382

Bibliografia acerca de Egas Moniz ... 386

Biblografia Geral ... 400

Índice de Figuras Fig. 1 - António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz ... 14

Fig. 2 - Manuscrito de Egas Moniz (fac simile) ... 18

Fig. 3 - Mesa em madeira utilizada para as provas da Angiografia Cerebral. Hospital de Santa Marta. ... 22

Fig. 4 - Mesa em madeira utilizada para as provas da Angiografia Cerebral. (Pormenor da Figura Nº 3). Hospital de Santa Marta. ... 23

Fig. 5 - Notícia da eleição de Egas Moniz para lente de Escola Médica de Lisboa ... 32

Fig. 6 - Egas Moniz aos 19 anos, em Coimbra . ... 34

Fig. 7 - Monumento a Egas Moniz. Entrada principal do Hospital Infante D. Pedro em Aveiro.36 Fig. 8 - Caricatura de Egas Moniz publicitada pelos Laboratórios Urol. ... 42

Fig. 9 - O Boletim da CP assinala a atribuição do Prémio Nobel ao seu médico especialista Egas Moniz. ... 44

Fig. 10 - Registo do Serviço de Pessoal da CP. Egas Moniz, Médico Especialista. ... 53

Fig. 11 - Convento de São Fiel. ... 62

Fig. 12 - A Tuna Académica da Universidade de Coimbra ... 65

Fig. 13 - Pormenor da fotografia anterior. ... 66

Fig. 14 - Capa da 2ª edição de A Vida Sexual, Physiologia. ... 68

Fig. 15 - Ex libris de Egas Moniz. ... 69

Fig. 16 - Alçado frontal da Casa Museu Egas Moniz em Avanca. ... 70

Fig. 17 - Notícia de Conferência política de Egas Moniz, a poucos dias do golpe de Estado de Sidónio Pais. ... 73

Fig. 18 - Notícia da morte de Egas Moniz... 129

Fig. 19 - Selo alusivo à Angiografia Cerebral, comemorativo do 1º Centenário do Nascimento de Egas Moniz. ... 133

Fig. 20- 1ª página do Diário de Notícias de 9 de Julho de 1927 ... 163

Fig. 21 - Notícia da expectativa acerca da atribuição do Prémio a Egas Moniz. (Quadrante inferior esquerdo.) ... 173

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Fig. 22 - Capa da obra em que Egas Moniz faz a recensão das críticas ao método leucotómico.

... 177

Fig. 23 - Estátua de Egas Moniz. Faculdade de Medicina de Lisboa. ... 205

Fig. 24 - Capa da 1ª edição de Júlio Dinis e a sua obra, num só volume. ... 238

Índice de Gráficos Gráfico 1 - Produção Científica de Egas Moniz ... 161

Gráfico 2 - Avaliação dos resultados 6 meses após a operação ... 181

Gráfico 3 - Evolução do estado de saúde dos leucotomizados. ... 181

Gráfico 4 - Marcos da Carreira Científica de Egas Moniz ... 314

Índice de Tabelas Tabela 1- Catamnese de Nunes da Costa ... 180

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Prefácio

A singularidade de um cientista de um país semi-periférico como Portugal, ter alcançado, em 1949, a maior distinção científica do Século XX – o Prémio Nobel – tem suscitado a questão de saber que diferenças no seu trajecto, no alcance dos resultados das suas investigações científicas, e nas condições em que viveu, explicam um tão elevado grau de reconhecimento de que foi objecto, em contraste com os outros cientistas portugueses ao longo do século passado.

Tal singularidade foi já objecto de uma vasta produção literária, e de bom número de estudos e investigações.

A nossa abordagem tira, evidentemente, partido do acervo bibliográfico existente, propondo-se contribuir para a fileira de que se ocupa o Grupo de História e Sociologia da Ciência do CEIS201, coordenado pela Profª. Ana Leonor Pereira e pelo Prof. João Rui Pita, que são, em simultâneo, orientadores deste nosso trabalho de doutoramento.

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De facto, este grupo de investigação produziu alguns dos estudos mais significativos acerca de Egas Moniz e do respectivo contexto cultural, político e científico. Egas Moniz em Livre Exame2 e Retrato de Egas Moniz3 são dois expoentes bibliográficos de um denso e continuado trabalho de investigação e sistematização de fontes, nos domínios da saúde, farmácia, política e publicidade, cujas conclusões foram distribuídas por um elevado número de livros, teses, artigos, nótulas e entradas em dicionários e enciclopédias.

Fig. 1 - António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz

A contribuição que demos, na linha do trabalho desenvolvido pelo grupo, orientou-se para a reelaboração da narrativa acerca de Egas Moniz, desembaraçando-a, em primeiro lugar, do peso repetitivo do ritual celebracionista; em segundo lugar, descontando os exclusivismos e

2 PEREIRA, Ana Leonor e PITA, João Rui, (Org.), Egas Moniz em livre exame, Coimbra,

Minerva, 2000.

3 PEREIRA, Ana Leonor, PITA, João Rui e RODRIGUES, Rosa Maria, Retrato de Egas Moniz,

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fragmentações identitárias a que deram lugar apropriações grupais; e, em terceiro lugar, recusando as simplificações forçadas do emparcelamento biográfico a que foi sujeito e de que continuou sendo objecto.

Desenvolvemos a nossa investigação verificando em que medida o grau de complexidade patenteado pelas fontes primárias e secundárias era consistente com as versões correntes, e se as historiografias que trataram o tema apresentavam lacunas ou distorções notáveis.

Para tal, consultámos directamente o arquivo da Fundação Nobel, no Karolinska Institutet (Estocolmo), o processo existente na Academia de Ciências de Lisboa e no Centro de Estudos Egas Moniz, estabelecendo uma nova versão acerca da cronologia e atribulações das cinco nomeações de Egas Moniz para o Prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia, incluindo as cartas dos nomeadores e os pareceres dos avaliadores do Comité Nobel. Esta documentação inédita, conjugada com informação proveniente de outras fontes, revela o particular empenho de Moniz em ganhar o Prémio Nobel, e a adversidade dos obstáculos que teve de superar para consegui-lo.

O facto de o Prémio lhe ter sido atribuído na base do valor terapêutico da leucotomia em certas psicoses, avivou a controvérsia que vinha de trás, acerca dos fundamentos teóricos e da eficácia terapêutica desta neurocirurgia.

O registo das principais linhas de argumentação, pró e contra, deixa entrever um dispositivo destinado ao evitamento das polémicas, preservando a figura do nobelizado contra a erosão consequente. O ritual celebracionista aliado à norma secreta da Fundação Nobel, que impede o acesso aos processos de nomeação nos 50 anos subsequentes, e mantém ocultos os dados necessários à compreensão do que realmente esteve em causa, é um dos constituintes principais desse dispositivo. Por tudo isto, a nova versão que oferecemos está mais actualizada, é mais inclusiva (considera dados antes desconhecidos) e chama a atenção para aspectos da

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cultura científica que levantaram e continuam a levantar problemas à História e Sociologia da Ciência, e à História da Medicina.

De entre esses problemas, avulta a (quase inexistente entre nós) história da psicocirurgia (neurocirurgia funcional ou psiquiátrica), conceito que englobava a Leucotomia Pré-frontal, cunhado pelo próprio Moniz. Dados recolhidos recentemente sugerem que a prática da leucotomia em Portugal não foi ainda satisfatoriamente avaliada nem recenseada.

Aquilo a que chamamos ―apropriação grupal‖ (ou fragmentação identitária), descreve os discursos emanados de instituições e grupos que tendem a avivar determinados traços da figura pública em que Egas Moniz se converteu, reforçando as semelhanças que lhe encontram, em detrimento de outros traços que acusam pronunciadas diferenças.

Assim, alguns sectores da oposição democrática ao regime do Estado Novo, representam Moniz como um homem também de oposição; os neurologistas veneram-no como ―pai fundador‖ (o primeiro Catedrático da Especialidade na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa); os psicanalistas portugueses, puxam pelo pioneiro da psicanálise que Moniz também foi; muitos católicos prezaram e prezam o diplomata sidonista que deu um impulso decisivo no reatamento das relações do Estado Portugês com a Santa Sé após a ruptura republicana; e os maçons do GOL (Grande Oriente Lusitano) consideram-no eternamente um dos seus.

Os discursos correspondentes põem em destaque um desses papeis ou ―homens‖ que Moniz foi, ignorando ou minimizando os restantes. Daqui resulta uma espécie de ―culto da personalidade‖ fragmentador do conhecimento acerca do sujeito e das suas circunstâncias, que evidencia pontos de vista aparentemente díspares, quando tudo indica tratar-se de versões complementares – circunstancialmente separadas – de um mesmo actor histórico.

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Esses diferentes ―Monizes‖ que cada qual reivindica para o seu grupo, para a sua instituição, são um só, e a integração consequente acrescenta maior conhecimento acerca do homem e da época, humanizando-os.

O título da tese – Egas Moniz: Representação, Saber e Poder – quer significar que, para além dos obstáculos de carácter historiográfico referidos, (ritual celebracionista e apropriação grupal), um outro obstáculo emerge, derivado do empenho do próprio Egas Moniz na construção da sua notoriedade, em convergência com muitos dos seus biógrafos. Trata-se da defesa encarniçada de uma ideia acerca do destino individual que, ao afirmar-se e ao obter sintonia imediata e posterior, configura um tipo particular de poder: o poder biográfico.

Tal como aconteceu com outras figuras públicas, Egas Moniz preferia destacar alguns segmentos do seu trajecto. Assim, quer ele próprio, quer a maioria dos que escreveram textos de carácter biográfico acerca dele, coincidiram no destaque dado à carreira científica.

Ao consultarmos a documentação disponível, notamos que a partir de 1927 (ano da divulgação dos primeiros resultados do método de diagnóstico que viria a chamar-se, mais tarde, Angiografia Cerebral) Egas Moniz interdita quaisquer alusões ao seu passado político, minimizando-o ou desvalorizando-o. A esta distorção, tornada em versão oficial da representação do passado, chamamos ―poder biográfico‖. Constatamos uma série de outros traços biográficos (ou biografemas) cuja omissão empobrece o melhor conhecimento de Egas Moniz e do seu tempo, sobretudo encarando o que designamos (inspirados na obra de Norbert Elias e na sociologia figuracional ou processual) por ―marcadores civilizacionais‖. Tais

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marcadores assinalam modos de ser e opções no eixo conservador/inovador, envolvimento/distanciação e clareza/mistério4.

As fontes consultadas, incluindo a imprensa da época, outras publicações, manuscritos e registos institucionais, permitem preencher lacunas importantes no tocante às práticas que Egas Moniz e, em boa parte, os seus biógrafos minimizaram, desvalorizaram ou omitiram pura e simplesmente.

Fig. 2 - Manuscrito de Egas Moniz (fac simile)5

Seguindo os critérios enunciados, emerge uma nova versão das questões suscitadas de início: a importância do desempenho político de Moniz ganha proporções radicalmente diferentes e combina-se com as outras

4 Ver, p. ex. ELIAS, Norbert, Involvement and Detachment, The Collected Works of Norbert Elias,

Vol. 8, Dublin, University College Dublin Press, 2007

5 Diário do Prémio Nobel, no espólio do Psiquiatra Joaquim Seabra Dinis. Cortesia de Lina Seabra

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actividades que levou a cabo; o seu envolvimento no mundo dos duelos revela uma concepção mitigada do Estado Republicano, do protocolo republicano que implica o respeito pelo monopólio estatal da violência legítima, da soberania dos tribunais e do primado da lei; as competências médicas colocadas ao serviço do ramo vida da actividade seguradora, revelam um espírito pragmático e socialmente colocado; o abandono da prática e de prometidas reflexões acerca da psicanálise, confirmam um certo hermetismo e reserva intelectual quanto ao fundamento de muitas das suas opções.

Uma nova série de questões que vale a pena aprofundar para conhecer melhor a viagem das ideias, a sua influência e o seu modo de articulação em casos notáveis.

Para a realização do estudo cujos resultados agora submeto à apreciação académica, muito contou a contribuição de numerosas pessoas e instituições que, regra geral, excederam as minhas expectativas relativamente ao apoio, estímulo e aconselhamento esperados.

Agradeço à FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia o apoio concedido sob a forma da Bolsa de Doutoramento que me foi concedida de 2003 a 2005, e ao CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra, que nos acolheu desde então, tal como a todos os seus investigadores, mais particularmente aos membros do Grupo de Investigação em História e Sociologia da Ciência, cuja coordenação coube ou cabe à Professora Ana Leonor Pereira e ao Professor João Rui Pita, nossos orientadores científicos. Este trabalho foi possível graças à experiência recolhida por caminhos trilhados anteriormente, investigações parciais e paciente acumulação de elementos caracterizadores das ―figurações monizianas‖, de Miguel Bombarda e Júlio de Matos até Barahona Fernandes, Seabra Dinis e todos os

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autores e autoras que contribuíram para a obra colectiva Egas Moniz em livre exame6, que referirei mais apropriadamente.

Pela ajuda prestimosa, disponibilização de documentos, pareceres, críticas e conselhos que aproveitei ao máximo sem que daí resultem quaisquer responsabilidades pelas minhas eventuais falhas e inexactidões, agradeço a Joana Ribeiro e Joana Correia, José Luís Garcia e Hermínio Martins, Célia Pilão e Teresa Guerra, José Manuel Paquete de Oliveira, Maria Eduarda Gonçalves, Ana Luísa Janeira, Hans-Magnus Stölt e Margaret Jörnvall, Raimundo Narciso e Maria Machado, Armando Myre Dores e Lina Seabra Dinis, Armando Caeiro e Graça Barahona Fernandes, João Carlos Trincão e Pedro Luzes, Alexandre Castro Caldas, Augusto Moutinho Borges, Ayres Gameiro e Valter Correia, Madalena Esperança Pina, Maria João Padez de Castro; António Reis; António Coimbra de Matos, José Henrique Dias, José Morgado Pereira e Mafalda Gala, Presidente da Tuna da universidade de Coimbra.

Agradeço, ainda, às seguintes instituições e respectivos técnicos, inexcedíveis na resposta pronta às nossas solicitações: Centro de Documentação e Arquivo de Imagem da CP; Centro de Estudos Egas Moniz, Arquivos da Fundação Nobel; Arquivo Nacional da Torre do Tombo; Academia das Ciências de Lisboa; Arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros; Fundação Mário Soares; Casa Museu Abel Salazar (S. Mamede de Infesta), Casa Museu Egas Moniz e Câmara Municipal de Estarreja; Hospital de Santa Marta; Arquivo da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa; Nestlé Portugal; Hospital de Santa Marta; Biblioteca do Hospital Miguel Bombarda; Instiuto São João de Deus; Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra; Imprensa da Universidade de Coimbra; Grande Oriente Lusitano; Biblioteca Nacional; Biblioteca do ISPA; Biblioteca da Faculdade de Medicina da UL, Biblioteca do ICS da UL.

6 PEREIRA, Ana Leonor e PITA, João Rui, (Org.), Egas Moniz em livre exame, Coimbra,

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1. Introdução

O primeiro Prémio Nobel a distinguir um cientista de nacionalidade portuguesa foi atribuído ao neurologista Egas Moniz, no ano de 1949, em Medicina ou Fisiologia. António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz ia então completar 75 anos. Fora jubilado 5 anos antes. O estado de saúde não aconselhava grandes deslocações e, por isso, Egas Moniz, felicitado e aclamado em Portugal e no estrangeiro, acabou por receber os respectivos diploma e medalha, na sua casa de Lisboa, das mãos do embaixador da Suécia, em 3 de Janeiro de 19507. O prémio desse ano foi descerrado também ao investigador suíço Walter Rudolf Hess, facto que não diminuía em nada a importância do galardão, posto que, contrariamente ao que alguns detractores de Egas Moniz alvitravam, o Comité Nobel já assim

7 Cfr PEREIRA, Ana Leonor, PITA, João Rui e RODRIGUES, Rosa Maria, Retrato de Egas

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tinha procedido anteriormente – doze vezes, desde a atribuição do primeiro Prémio Nobel, em 1901, – dividindo o prémio anual por dois ou mais cientistas.

De acordo com o Comité Nobel do Karolinska Institutet8, de Estocolmo, Egas Moniz mereceu a distinção pela ―descoberta do valor terapêutico da leucotomia préfrontal no tratamento de certas psicoses‖. Tal ―valor terapêutico‖ merecera contestação praticamente desde o início, e haveria de fazer ainda correr rios de tinta sobre resmas de polémica, mas, a partir de então, Egas Moniz ascendeu a um patamar de notoriedade onde se reúnem simbolicamente os membros dessa ultra-elite9 constituída por sábios, génios e outros cientistas de sumo talento, bem-sucedidos nos seus trabalhos de pesquisa e experimentação, que fizeram, nos termos que Alfred Nobel testamentou, algo extraordinário em prol do bem-estar e da felicidade do género humano.

Fig. 3 - Mesa em madeira utilizada para as provas da Angiografia Cerebral. Hospital de Santa Marta.

8 Instituição indicada no testamento de Nobel para decidir da atribuição anual do Prémio na classe

de Medicina ou Fisiologia.

9 Harriet Zuckerman designa a comunidade imaginária que reúne os prémios Nobel como uma

ultra-elite, na medida em que os seus membros são extraídos de elites pré-existentes, passando, pois, a integrar uma elite de elites. ZUCKERMAN, Harriet, Scientific elite. Nobel laureates in the United States, New York, Free Press, 1977.

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A partir daí, Egas Moniz ascendeu à categoria dos heróis nacionais, cobiçado por instituições e grupos que reivindicavam e lhe disputavam os laços de pertença, considerando Egas Moniz um dos seus, tentando engrandecer as respectivas causas, argumentações e legitimações, com a declaração vitoriosa e retumbante de que o primeiro (e único, durante muitos anos) Nobel português alinhava no grupo com o qual partilhavam a excepcional identidade.

Não que Egas Moniz não fosse já famoso ao tempo em que recebeu o Nobel, mas a distinção atribuída pela prestigiada instituição sueca acrescentava um troféu sem par à sua biografia, coroando uma carreira científica tardia mas faustosa.

Egas Moniz notabilizou-se, primeiro, com as provas da Angiografia Cerebral, que possibilitaram um avanço sem precedente no plano do diagnóstico, permitindo visualizar, através dos raios X, boa parte da rede vascular cerebral. Essa sua grande realização, cuja divulgação se iniciou em 1927, cobrira-o de glória, levando a sua notoriedade aos quatro cantos do mundo.

Fig. 4 - Mesa em madeira utilizada para as provas da Angiografia Cerebral. (Pormenor da Figura Nº 3). Hospital de Santa Marta.

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Ora se Egas Moniz já se tinha tornado num cientista de renome antes do início da II Grande Guerra, então, a partir de 1949, passou a ser uma referência incontornável, dado constituir um exemplo raro de trajecto, conjugação de carreiras, peculiar aptidão para gerir a sua imagem e projectar a sua notoriedade.

1.1. A relevância do tema

Apesar de a nossa análise se centrar nos momentos mais relevantes do seu processo de afirmação, partindo da figura, em que a conjugação das práticas de representação com o saber certificado, institucionalmente reconhecido e potenciado, emergem socialmente como uma forma de poder activa e eficaz, torna-se indispensável passar em revisão, ainda que sucintamente, os principais traços da actividade política de Egas Moniz, desde o ano da sua formatura, em Coimbra, em 1901, até cerca de 24 anos depois, quando se decidiu pelo abandono da política activa, e se entregou à elaboração da sua agenda de pesquisa para os anos seguintes.

Consagraremos a esse período o capítulo 2, sublinhando a duração e intensidade da consagração à política activa, subestimadas até ao final do século XX, em virtude da influência exercida pelos escritos de pendor autobiográfico de Egas Moniz10, prolongada por muitos dos seus biógrafos. Por essa mesma altura, convocaremos a perspectiva de integração geracional que situa Moniz num quadro que outras visões estruturaram,

10 Ver MONIZ, Egas, A última lição, Lisboa, Portugália, 1944; MONIZ, Egas, Confidências de um

investigador científico, Lisboa, Ática, 1949; MONIZ, Egas, A Nossa Casa, Lisboa, Paulino Ferreira & Filho, reeditado pela Cãmara Municipal de Estarreja, 2001; e confrontar com MONIZ, Egas, Um Ano de Política, Lisboa, Portugal-Brasil, Lda, 1919.

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comparando-as com a dele próprio e, desse modo, contrastando auto e hétero representações.

As figurações11 em que Moniz se inscreve, assinalando as múltiplas relações que vai estabelecendo no decurso das diferentes fases da sua vida, preenchem o quadro das observações que realizámos. Apesar das dificuldades (da impossibilidade, mesmo) em discretizarmos os feixes de interacções através da consulta da correspondência depositada na Casa Museu de Avanca, a muita literatura produzida acerca de temas correlacionados com as aludidas figurações, permite gizar um contexto satisfatório, de onde emergem indicações úteis.

As dificuldades aludidas revestem um óbvio interesse para avaliar as limitações que actualmente existem em matéria de acesso às fontes, constituindo, do mesmo passo, um aviso eventualmente útil para quem oriente as suas investigações de modo a cruzar os mesmos fundos documentais.

Por isso, dedicaremos adiante (ver parte 1.5.) espaço para um curto compte rendu acerca das fontes consultadas, grau de acessibilidade e uma ou outra nota sobre o estado de conservação.

Tal como outros autores já observaram, Egas Moniz investiu bastante na elaboração da sua auto-imagem. Fazia um esforço sério, e frequentemente bem-sucedido, para que os media falassem a seu respeito, num sentido que lhe fosse favorável; tirava partido de outras oportunidades que se lhe apresentavam, designadamente no caso da publicidade farmacêutica;12 e da publicação de vários volumes de carácter autobiográfico,

11 Conceito tomado a Norbert Elias e que aqui nos serve de lembrete contra a absolutização

biográfica. Explicitando-o, o seu autor diz-nos que o conceito ―was explicitly created to overcome the confusing polarization of sociological theory in theories that placed the individual above socie-ty and those which placed society above the individual‖. ELIAS, Norbert, Norbert Elias por ele mesmo, Rio de Janeiro, Zahar, 2001, p. 148.

12

Ver série de artigos da autoria de Ana Leonor Pereira e João Rui Pita a este respeito, nomeadamente, PEREIRA, Ana Leonor, e PITA, João Rui, (coord.), ―Egas Moniz e a publicidade medicamentosa (1)‖ in Jornalismo e Ciências da Saúde – Actas do II Congresso Luso-Brasileiro

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de entre os quais se destacam Um ano de Política (1919)13, Confidências de Um Investigador Científico (1949)14, e A Nossa Casa (1950)15. O pendor autobiográfico tinge, de forma incontornável, muitos outros dos seus escritos, (A última lição, Ramón y Cajal, Subsídios para a História da Angiografia) mas a trilogia atrás descrita concentra intenção e género de modo peculiar.

Moniz desenvolve um gigantesco trabalho de memória, recordando e ressistematizando as matérias que considerou mais significativas para compor a auto-imagem que nos legou. Esse esforço particular começa a reflectir-se nos seus escritos com maior veemência a partir da altura da sua jubilação, – A Última Lição16 – e encerra-se com a comunicação que apresenta em 1955 à Academia de Ciências de Lisboa17.

Pelas razões aduzidas, justifica-se o alinhamento de um conjunto de reflexões a este respeito, destacando as particularidades detectadas nos seus trabalhos de memória.

A importância simbólica de Egas Moniz, para a ciência, para a política, e para a cultura do século XX, contrasta com as abordagens parciais e fragmentárias de que tem sido objecto. Uma figura envolta em controvérsia, da qual os grupos sociais que nutrem a seu respeito um sentimento de pertença, seleccionam e evocam alguns aspectos do seu trajecto, omitindo ou desvalorizando outros.

Por isso, ao metermos mãos à obra, vimo-nos obrigados a um paciente trabalho de desconstrução de algumas simplificações mitificadas, quer com o empenhamento do próprio, quer com a contribuição de numerosos

de Estudos Jornalísticos e do IV Congresso Luso Galego de Estudos Jornalísticos, Porto, Universidade Fernando Pessoa, 2005, (CD), p. 401-406.

13

MONIZ, Egas, Um Ano de Política, Lisboa, Portugal-Brasil, Lda, 1919.

14 MONIZ, Egas, Confidências de um investigador científico, Lisboa, Ática, 1949

15 MONIZ, Egas, A Nossa Casa, Lisboa, Paulino Ferreira & Filho, reeditado pela Câmara

Municipal de Estarreja, 2001.

16

MONIZ, Egas, A última lição, Lisboa, Portugália, 1944.

17 MONIZ, Egas, ―Subsídios para a história da angiografia‖ in Separata dos Anais Azevedos,

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testemunhos, geralmente laudatórios, que aceitaram as periodizações e classificações avançadas pelo próprio Egas Moniz nos escritos de carácter autobiográfico.

É assim que a representação (auto e hetero), o saber (a detenção de um grau universitário, de conhecimentos científicos e de uma profissão intelectual) e o poder (os estatutos de autoridade conferidos pelos cargos políticos, científicos, académicos e empresariais), se conjugam num desenho biográfico afastado da hagiografia impenitente que vai transformando as figuras em efígies, e, mercê desse afastamento, se encaminha para uma região de escolhas mais inclusivas, que permitem reconstituir ideias, conceitos, modos de estar, mais informativos acerca da sua interacção com o meio, com a sociedade, com a cultura desses tempos.

A escolha de uma entidade biográfica para pretexto e base de análise social apresenta vantagens narrativas, – posto que o fio condutor e o ponto de retorno estão facilitados – mas apresenta igualmente dificuldades metodológicas, pois é muito difícil descrever a deslocação de toda a rede de interacções à medida que o ego se desloca.

Egas Moniz e muitos dos seus biógrafos descrevem a saga investigatória que desembocou na Angiografia Cerebral e na Psicocirurgia, omitindo ou desvalorizando alguns dos pré-requisitos científicos e tecnológicos a partir dos quais estabeleceram as suas próprias agendas de pesquisa.

O efeito de enviesamento biográfico deixou o político na sombra do cientista em que Moniz se tornou a partir de meados dos anos 20 do século passado, eclipsando igualmente algumas informações certamente úteis para evitar que nos quedemos pela simplificação icónica em que o celebracionismo tende a transformar Egas Moniz.

O impulso simplificador da biografia começa com o esforço autobiográfico do próprio Egas Moniz e prolonga-se nos indivíduos e grupos,

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de acordo com a maior ou menor afinidade com os aspectos que seleccionam para garantir a continuidade da interpretação hagiográfico-épica, heróica e laudatória, desconhecendo ou desvalorizando aspectos complementares atinentes ao biografado e à época.

Muita da evidência eclipsada converge para uma caracterização das figurações em que Moniz se inscreve. Se imaginarmos, como marcadores civilizacionais18, a centralização do exercício da justiça e o monopólio da violência; a universalidade do direito e a subordinação ao princípio da legalidade, afigura-se-nos que Moniz mantinha o ethos da aristocracia oitocentista que dirimia as questões envolvendo os atentados à honra e as ofensas do bom-nome, através de duelos; que preconizava uma eugenia proactiva, retirando, na versão negativa, se necessário, o direito de opção aos visados; e que, nessa matéria como noutras, outorgava ao médico a decisão final, mesmo que ―acima da lei‖19

.

Enquanto accionista fundador da Companhia de Seguros ―A Nacional‖ e Médico Chefe do Ramo de Seguros de Vida, chama igualmente a si a responsabilidade de um despacho favorável ou desfavorável à celebração dos contratos, bem como a aplicação dos critérios para estabelecer o valor dos prémios.

Recatado relativamente às suas actividades empresariais – fundara igualmente uma fábrica de produtos lácteos, em Avanca, mais tarde adquirida pela ―Nestlé‖ – refere-se-lhes muito raramente, e não as inclui nas revelações autobiográficos que dá à estampa. Tal como não faz quaisquer referências ao seu envolvimento em duelos ou à sua pertença à Maçonaria.

O Egas Moniz que ressalta dos escritos autobiográficos é um homem excepcional, consagrado à investigação científica e, também, em boa

18 Na acepção de padrões de cultura, crenças, relações de poder (sempre assimétricas), lugar

reivindicado no sistema social e político, gestão de recursos, incluindo o tempo, a violência e a imagem simbólica.

19 Cfr. A geração humana e as doutrinas de Exeter.MONIZ, Egas, ―A geração humana e as

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medida, às letras e às artes. Gostava de dar a ideia de que a sua passagem pela política fora breve, pouco auspiciosa, selada com uma obra de contexto – Um ano de política20.

Desdobra-se em comunicações e conferências, tomando parte no associativismo científico do seu tempo, mantendo contactos com a Real Academia de Ciências e, depois, já eleito sócio correspondente, na denominação republicana de Academia de Ciências de Lisboa, tornando-se seu presidente por consecutivas e numerosas vezes21.

Adentro das instituições médicas e científicas, Egas Moniz ocupa-se diligentemente dos lugares e das funções cuja autoridade lhe franqueia o acesso ao exercício da influência que abre portas, concita apoios, consolida posições e alimenta projectos.

1.2. Fragmentação identitária

A estreiteza temática, embora prolífica, que nos é dada através da imagem do cientista coroado de sucesso, abundante em boa parte da literatura acerca de Egas Moniz, reduz a possibilidade de dar conta de um muito mais variegado feixe de traços biográficos, designadamente em aspectos que nos auxiliam melhor a compreender o homem na sua rede de relações. Os modelos de descrição biográfica geralmente adoptados,

20 MONIZ, Egas, Um Ano de Política, Lisboa,Portugal-Brasil Ltda, 1919.

21 Egas Moniz foi eleito sócio da Academia de Ciências de Lisboa em 21 de Janeiro de 1916. Foi

Presidente da Instituição em 1928, 1932 e 1940; Presidente da Classe das Ciências em 1940, 1947, 1948, 1950, 1951 e 1952; e Vice-Presidente da Classe das Ciências em 1930, 1931, 1939, 1952, 1953, 1954 e 1955. Vidé Arquivo da Academia de Ciências de Lisboa, Processo de Egas Moniz.

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apresentam limitações que decorrem da vontade biográfica de amarrar a representação de Moniz a um dos seus aspectos – amiúde o de cientista nobelizado – desvalorizando ou omitindo quer as dimensões polémicas associadas às suas principais realizações, quer os diferentes tipos de actividade que sustentou, e que são reveladores de uma ancoragem social e cultural mais cromática e informativa.

Ao invés, a nossa sistematização procura acrescentar novos elementos para o conhecimento da interacção entre o personagem e a sua época, indiferente à incoerência aparente que resulta do contraste entre as facetas reveladas e o enfoque excessivo que muita da historiografia anterior concentrava na afirmação heróica de um grande homem.

O modelo de análise por nós adoptado valoriza igualmente o que é polémico na produção científica de Moniz. As potencialidades heurísticas da polémica abundam vantajosamente, em ordem à produção de novos conhecimentos, e à descrição dos consensos. Estes são, em geral, resultantes do exercício de um poder institucional eficaz, estabilizador e conformista, enquanto as linhas de tensão e de ruptura da polémica, dão conta de uma pluralidade de pontos de vista que se confrontam, produzindo linhas de argumentação diferenciadas, escrutinando as teses adversas, expondo-lhe as fragilidades e assinalando, uma vez por outra, igualmente, as zonas de acordo e os pontos fortes.

A tradição que consiste em desconhecer, desvalorizar ou diabolizar os obstáculos colocados por rivais, adversários ou opositores circunstanciais das teses de Moniz, visando aparentemente o reforço da representação heróica, acaba por dar uma ideia porventura errada acerca do terreno movediço, não adquirido, pejado de incertezas e de riscos, que acompanha o presente histórico da produção e reprodução da sociedade.

Nesse incessante devir, os dados não se apresentam do mesmo modo como mais tarde virão a ser narrados, descritos com apoios

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documentais e, ou, testemunhais. As versões da história que fizeram vencimento até aos nossos dias, não eram então mais do que um esboço possível, uma perspectiva que, entretanto, mercê dos jogos de força (de poder), de retórica (saber), e inscrição comunicacional (representação), vieram a afigurar-se aceitáveis, dominantes e quase oficiais.

À partida, nada estava adquirido. As sucessivas intervenções de Egas Moniz, a propósito do modo como, por vezes, tendia a ser representado o significado da sua actividade política, atestam a relativa plasticidade do sentido que diferentes actores políticos tentavam atribuir-se uns aos outros.

Para lá das imagens fragmentadas que parecem autonomizar-se, estilhaçando as narrativas em vez de se reconfigurarem a partir das suas contiguidades e complementaridades, o aparente divórcio entre o ser político e o ser cientista, tentando uma delimitação clássica, exterior aos sujeitos, nos territórios especializados, continua a negar a evidência da unidade estratégica que, para cada actor social, os seus diferentes papeis sociais representam.

Moniz cientista, publicista, médico, político, empresário e empreendedor, duelista, membro da maçonaria, é um só, embora saibamos que o homem não é um acumulado biográfico linear, para o qual os critérios de coerência, consistência e justificação lógicas, constituam esquemas de aferição inteiramente fiáveis.

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Fig. 5 - Notícia da eleição de Egas Moniz para lente de Escola Médica de Lisboa22

22Notícia da entrada de Egas Moniz para a Escola Médica de Lisboa. Trata-se da página 466 do nº

268 da Ilustração Portuguesa, vinda a público a 10 de Abril de 1911. Moniz substitui Miguel Bombarda (1851-1910), na regência da cadeira de doenças nervosas, deixada livre por morte deste, cerca de um ano antes.

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Egas Moniz mudou de campo (político) inúmeras vezes, e essas mudanças, independentemente do julgamento que se lhe queira fazer com base em critérios de coerência, valem como reposicionamentos, escolhas suas, justificadas ou não, com maior ou menor clareza.

1.3. O Poder Biográfico

23

Quem está em posição de ditar os termos em que quer ser recordado, definir o que farão da sua imagem e dos objectos que lhe pertenceram, é detentor de um poder especial24. Forçar uma versão biográfica; persuadir os biógrafos presentes e vindouros de que essa é a boa versão; estabelecer os termos do que deve ser considerado relevante, são faculdades que relevam de um poder especial, - o ―poder biográfico‖.

Egas Moniz exerceu-o plenamente, da Tuna Coimbrã até às meticulosas instruções que exarou no seu testamento, passando pela influência directa e indirecta nos órgãos de comunicação social do seu tempo.

23

Conceito descritor do exercício do poder narrativo orientado para a construção de um perfil biográfico de acordo com as estratégias conjugadas do biografado (e autobiografado) com os indivíduos e instituições interessados. Ver CORREIA, Manuel, ―Espelho meu...- Ilusão biográfica e ideal historiográfico: a construção de Egas Moniz‖ in Estudos do Século XX, Nº 8 - Cultura: imagens e representações, Coordenação: Vítor Neto. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2008, pp.345-362.

24

Diametralmente oposto à ausência de poder dos homens ―infames‖ no sentido atribuído por Foucault. Ver FOUCAULT, Michel, ―La vie des hommes infâmes‖ in Dits et écrits, 1954-1988, III, 1976-1979, Paris, Gallimard, 1994, p. 247 e seguintes.

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Fig. 6 - Egas Moniz aos 19 anos, em Coimbra25.

Este empenho específico em divulgar uma determinada versão de factos e acontecimentos, levanta um obstáculo de carácter metodológico que, para ser superado, exige uma reelaboração da narrativa cultural, social, política e científica, orientada para a verificação das fontes, a (res)sistematização da informação disponível e a inclusão das dimensões, aspectos e papeis cuja importância foi apoucada ou, pura e simplesmente, omitida.

Esta acepção do poder reveste uma importância particular, porque surge associada aos poderes geralmente entendidos como tal (o poder económico, o poder político, o poder profissional e o saber-poder, derivado

25 Foto da Casa Museu Egas Moniz, reproduzida em PEREIRA, Ana Leonor, PITA, João RUI e

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do domínio de sistemas complexos de difícil acesso) reforçando, no plano simbólico, uma faculdade especial que consiste em conseguir a aceitação generalizada de uma narrativa conveniente.

1.4. Livre exame de Egas Moniz

Na viragem de uma abordagem historiográfica de cariz celebratório, do culto repetitivo da figura pública, do cientista nobelizado e do herói nacional, para um exame histórico-cultural mais abrangente, equilibrado e distanciado do ritual panegírico, devemos assinalar a produção científica do CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra e do seu Grupo de História e Sociologia da Ciência, que investigou, acrescentou novos conhecimentos que permitem melhor contextualizar a figura e as figurações de Egas Moniz e, desse modo, compreender melhor as grandes questões que continuam a interpelar-nos através dos debates que o seu desempenho e as consequências dos seus trabalhos continuam a suscitar.

Do acervo de publicações que ilustram essa nova abordagem, destaco a obra coordenada por Ana Leonor Pereira e João Rui Pita, Egas Moniz em livre exame26, publicada em 2000. A obra, organizada como um espaço de acolhimento de diferentes perspectivas acerca de Moniz e das questões que com ele se prendem, encena um debate diferido, que confronta pontos de vista, frequentemente complementares mas, por vezes, opostos,

26 PEREIRA, Ana Leonor e PITA, João Rui, (Org.), Egas Moniz em livre exame, Coimbra,

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constituindo uma síntese do que Moniz podia representar para a ciência e para a cultura no fechar do século em estudo.

Fig. 7 - Monumento a Egas Moniz. Entrada principal do Hospital Infante D. Pedro em Aveiro.

Oscilando entre o culto do herói científico e as representações contraditórias mais próximas da dimensão humana do actor histórico, António Macieira Coelho e A. Tavares de Sousa, António Damásio e António da Rocha Melo, Miguel Castelo Branco e José Morgado Pereira, Jaime Milheiro, José Cunha Oliveira e Aleite Pedrosa, António Pedro Pita e Armando Malheiro da Silva, Alexandre Castro Caldas, Rosa Maria Rodrigues e Alfredo Rasteiro, António Lafuente e Tiago Saraiva, Guilherme de Oliveira e Carlos Amaral Dias, traçam o roteiro dos modos e das razões que justificam plenamente a revisitação de Egas Moniz.

Na linha de demarcação com a dominante panegírica, destacam-se, ainda alguns outros autores cujas contribuições para a reapresentação de Egas Moniz acrescentaram valor analítico e reflexivo ao

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que já era conhecido à data. António Fernando Cascais, Tiago Moreira, João Lobo Antunes, Maria Helena Roque, Júlio Machado Vaz, avançaram com investigações autónomas ou releituras que valorizam níveis de análise menos frequentes.

Em proporções diferentes, os seus biógrafos mais próximos – Barahona Fernandes, Almeida Lima e Diogo Furtado, – deixaram interessantes contribuições cujos testemunhos se complementam sob aparentes contradições.

De resto, o registo das efemérides fechou sempre os ciclos da praxe com menções mais ou menos generosas. Centenário do nascimento, cinquentenário da atribuição do Prémio Nobel, emissão de selos evocativos, bustos e estátuas, presença toponímica, atribuição do seu nome a edifícios, hospitais, centros de saúde e escolas.

E esse é o outro obstáculo de carácter metodológico que se ergue, dificultando a tarefa de ―voltar a falar‖ do herói nacional, do regozijo imaginário que alimenta o orgulho patriótico e a auto-estima nacional. António Fernando Cascais chamou-lhe a ―ferida narcísica‖27. Sempre que, de ―fora‖ ou de ―dentro‖ alguma nota dissonante perturba o coro de elogios, um sobressalto eclode para que tudo possa continuar como estava dito, estabelecido e arrumado. Divisa-se nessa forma de memória acerca de Egas Moniz, uma versão lendária que circula em Portugal e pelo Mundo, incluindo episódios mais ou menos fantasiosos, imprecisões surpreendentes, injustiças gritantes e exageros bizarros.

Tal como sucede com os mitos, Moniz é alvo de versões fantasiadas de alguns episódios da sua vida, tendo sido, supostamente,

27 Ver CASCAIS, António Fernando, ―A cabeça entre as mãos: Egas Moniz, a Psicocirurgia e o

Prémio Nobel‖ in NUNES, João Arriscado e GONÇALVES, Maria Eduarda, [orgs.], Enteados de Galileu? A semiperiferia no sistema mundial da ciência, Porto, Afrontamento, 2001.

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assassinado por um paciente leucotomizado; tendo passado o resto dos seus dias, após o atentado de 1939, numa cadeira de rodas; tendo recebido o prémio Nobel pela Angiografia Cerebral; sendo contrário a qualquer tipo de misticismo; e sendo conhecido pelo seu ―pseudónimo‖; etc.

Não vemos, nestes desvios às versões sustentadas documentalmente e certificadas intersubjectivamente por aqueles que ainda o conheceram ou que com ele privaram, nada de especialmente dramático ou inesperado. Porém é tarefa da história reordenar também as descrições do passado, apontando inconsistências e fornecendo dados e interpretações complementares que melhoram o conhecimento acerca do que está em questão.

1.5. Os acervos documentais

A maior parte da documentação consultada (fontes primárias, bibliografia do próprio e acerca dele) pertence à Fundação Nobel no

Karolinska Institutet, à Academia das Ciências de Lisboa, ao Centro de Estudos Egas Moniz, à Biblioteca Nacional, ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, ao arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ao espólio do psiquiatra Joaquim Seabra Dinis, gentilmente cedido por Lina Dinis e Armando Myre Dores, ao Centro de Documentação e Arquivo de Imagem dos Caminhos de Ferro Portugueses e a muitas outras pessoas que, sabendo do nosso interesse pela figura histórica em análise, nos fizeram chegar livros, selos, referências e documentos com interesse para este nosso trabalho.

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O Grande Oriente Lusitano cedeu-nos cópia do registo que comprova a iniciação e o afastamento de Moniz da Maçonaria, proporcionando-nos também uma profícua troca de impressões com o historiador António Reis, Grão Mestre da organização na altura em que com ele contactámos.

Apesar das muitas insistências e deslocações, não foi possível avaliar o que na Casa Museu de Avanca poderia ser incluído no conjunto de observações que aqui trazemos. De qualquer modo, a todas estas instituições, serviços e pessoas singulares são devidos os maiores agradecimentos.

O estado de conservação e as condições de acesso variam muito, de caso para caso e, em parte, alteraram-se ao longo do período do estudo. A Casa Museu Egas Moniz e a Academia das Ciências de Lisboa iniciaram a digitalização dos espólios, projectando disponibilizá-los, ainda que apenas parcialmente, via internet, e a Fundação Nobel oferece hoje uma base de dados de acesso directo via internet (www) que permite uma visão indiciária mais satisfatória.

A par destas boas notas, há a constatar, lamentavelmente, o mau estado da generalidade dos arquivos, a degradação dos materiais e os, por vezes, imperscrutáveis critérios de reserva, acesso, ordenamento e classificação.

No caso concreto, por via da internacionalização, dos múltiplos cargos e responsabilidades que desempenhou, e da intensa troca de correspondência que manteve, os documentos com interesse para a investigação distribuem-se por numerosos arquivos e espólios, que recenseei, sem no entanto ter conseguido consultar todos.

Beneficiei evidentemente de todo o trabalho anterior desenvolvido pelo Grupo de História e Sociologia da Ciência do CEIS2028, a

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começar pelas pesquisa aprofundada que Ana Leonor Pereira e João Rui Pita levaram a cabo nos arquivos da Universidade de Coimbra, na publicidade farmacêutica e na filatelia, tal como na inter-relação com outras figuras da época, – Miguel Bombarda, Azevedo Neves, Bettencourt Rodrigues, Sobral Cid e Júlio de Matos. Foi graças a esse trabalho preparatório e às muitas pistas por ele criadas, que conseguimos, apesar dos reveses, obter a informação indispensável ao prosseguimento da nossa investigação.

Os registos consultados acerca da bibliografia de Egas Moniz baseiam-se fundamentalmente 1) na lista que forneceu à Academia de Ciências de Lisboa para efeito de eleição para membro efectivo29; 2) na lista que consta da edição de A Última Lição, elaborada, revista e comentada pelo próprio30; 3) na publicação organizada em 1963 pelo Centro de Estudos Egas Moniz31; e 4), na lista disponibilizada em linha pela Casa Museu Egas Moniz32.

A organização que o próprio fez da apresentação bibliográfica é a que adoptámos na nossa bibliografia33. Quisemos dar a conhecer a estrutura que lhe pareceu mais adequado dar à estampa por ocasião de um ritual de passagem particularmente significativo. No momento em que é assinalada a sua jubilação, Egas Moniz anota uma justificação para certas omissões que no entanto assume:

29 Onde confirma ter em mente a redacção de um novo livro, O Complexo Sexual, que, quer o

próprio Egas Moniz, quer o seu editor de A Vida Sexual, referem. Está bem documentada a intenção, porém a obra não chegou a ser publicada.

30

MONIZ, Egas, A Última Lição. Bibliografia, Lisboa, Portugália, 1944, pp. 41-86, totalizando, então, 324 itens.

31 Direcção do Centro de Estudos Egas Moniz, Bibliografia Científica e literária de Egas Moniz,

Prémio Nobel de Medicina‒ 1949, Lisboa, Edição do Centro de Estudos Egas Moniz, 1963. Foi organizado cronologicamente, incluindo, no final, também um índice alfabético dos 370 itens registados.

32 Endereço do site: http://www.cm-estarreja.pt/egasmoniz/biblio_egasmoniz.pdf. Inclui, por

ordem cronológica, 392 itens.

33 Obras Científicas: I Volumes publicados, II Memórias e trabalhos científicos; Outras

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Na bibliografia médica, apesar de ter sido cuidadosamente averiguada, ainda devem faltar alguns artigos.

Na extra-médica faltam, pelo menos, os trabalhos que se referem à minha actividade parlamentar (discursos e projectos de lei) que julguei mais conveniente não apresentar neste lugar34.

Confirma assim a preocupação que mantinha em continuar a avivar a imagem do cientista dedicado e reconhecido e a evitar a menção de uma extensa e intensa carreira política que culminou com a assunção de altas responsabilidades partidárias, parlamentares e governamentais. A discriminação das suas intervenções parlamentares, que atravessam a Monarquia Constitucional e a 1ª República, revestem a mesma estratégia que seguiu desde meados dos anos 20. É o cientista, primeiro, e o homem de cultura, depois, que devem avultar o seu testamento intelectual. A escolha da expressão ―Ao lado da medicina‖35

para designar algumas das colectâneas de ensaios e conferências que foi fazendo, acentuam uma noção de lateralização de tudo o que se afastava do que passou a ser considerado o seu empenho principal.

34 MONIZ, Egas, Ob. Cit, p. 87.

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Fig. 8 - Caricatura de Egas Moniz publicitada pelos Laboratórios Urol36.

36 Caricatura de Egas Moniz divulgada pelos Laboratórios UROL, retirado de PEREIRA, Ana

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1.6. Prémio Nobel à quinta nomeação

A investigação levada a cabo nos arquivos da fundação Nobel revelou um conjunto de documentos inéditos que veio acrescentar informação indispensável para a compreensão do processo de avaliação e recompensa científica que dominou o século XX. Foi, de facto, o Prémio Nobel que promoveu e consolidou internacionalmente a figura de Egas Moniz. É um aspecto central para a história e sociologia da ciência, quer na óptica da representação de Egas Moniz, quer na perspectiva do estudo dos dispositivos de avaliação e recompensa científica do século XX. Por isso, as sucessivas nomeações de Egas Moniz para o prémio Nobel, as razões invocadas da parte dos seus pares para o nomearem, em contraposição às apreciações e comentários dos avaliadores do Comité Nobel, fornecem uma boa base para a compreensão das práticas e dos valores associados à cultura dos cientistas.

À luz da nova documentação revelada fica patente um conjunto de limitações derivado de adaptações discutíveis do legado de Alfred Nobel e de normas de organização institucional que impedem o escrutínio tempestivo dos actos do comité Nobel. Como se pode depreender a partir da análise do dossier de Egas Moniz, a espécie de moratória de 50 anos que impede a divulgação dos fundamentos para aceitação ou recusa de cientistas nomeados, a margem de arbitrariedade, decisões injustificadas e métodos duvidosos, afectam as deliberações do Comité Nobel.

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Fig. 9 - Boletim da CP assinala a atribuição do Prémio Nobel ao seu médico especialista Egas Moniz37.

1.7. Para uma historiografia inclusiva

Não há outro modo de compreender a história que não seja pelas sucessivas integrações de diferentes escalas e sequências de registos. É assim que as biografias individuais se encaixam nos relatos das acções colectivas e os actores históricos reconhecem que estão a participar nos mesmos conflitos ou a cooperar nas mesmas realizações. A chave para a compreensão é, pois, a minuciosa inclusão dos aspectos porventura desvalorizados, na expectativa de obter um conhecimento tanto mais completo das inscrições quanto mais informação trouxer para a base de interpretação histórica.

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