5.2 SENTIDOS E SIGNIFICADOS DOS JOGOS OLÍMPICOS
5.2.4 Sentido, sentido pessoal e sentido subjetivo
Diante das colocações e das definições de Vigotsky (1987) e das necessidades de desenvolvimento dessa investigação, o pesquisador esclarece que trabalhou com essas definições como forma de expor seu entendimento teórico sobre o tema pesquisado, além disso, buscou por meio da aplicação de tais conceitos uma melhor condução da pesquisa de campo e dos resultados obtidos com esse trabalho.
Costas e Ferreira (2010, p. 217) relatam ainda que nessa busca de sentidos e significados a interpretação se insere como uma forma de se atribuir significados, pois a interpretação é uma atividade que vai se diferenciando de acordo com a evolução do sujeito.
De acordo com os autores, durante a fase infantil a criança interpreta por meio da experiência do sentido. Com o passar do tempo a interpretação passa a ser intermediada pela palavra, pelo instrumento ou pelo mundo físico.Desta atividade surgem os significados que vão constituindo os seres humanos e suas relações sociais na fase adulta (COSTAS e FERREIRA, 2010).
Após discutir a respeito dos sentidos e significados baseando-se nas definições de Vigotsky, buscou-se ampliar esse entendimento ao discutir também os conceitos e definições de sentido pessoal e significado social. Para isso o pesquisador baseou sua argumentação nos estudos e pesquisas de outro pesquisador: Leontiev.
Segundo Vigotsky:
[...] o sentido é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. O significado é apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso e, ademais, uma zona mais estável, uniforme e exata. Como se sabe, em contextos diferentes, a palavra muda facilmente de sentido. O significado, ao contrário, é um ponto imóvel e imutável que permanece estável em todas as mudanças de sentido da palavra em diferentes contextos(VIGOTSKY, 2000a, p. 465).
Asbahr (2011, p. 6) argumenta que para Leontiev(197816) a consciência é um produto subjetivo da atividade dos homens com os objetos e com os outros homens e, ao mesmo tempo, regula a atividade produtora da vida humana.
Ao analisar a obra de Leontiev (1978)17,Asbahr(2011, p. 6) comenta que para esse autor os elementos constitutivos da consciência humana são o
“conteúdo sensível”, o “significado social” e o “sentido pessoal”.
Segundo Leontiev (1978), o conteúdo sensível é a base e as condições da consciência e pode ser constituído por sensações, imagens de percepção e representações.
De acordo com o autor, o conteúdo sensível é o conteúdo imediato da consciência, contudo o mesmo não reflete a consciência em toda a sua especificidade tornando-se necessário compreender também os outros dois elementos constitutivos da consciência humana, o sentido e o significado.
Asbahr (2011, p. 7) observa que para Vigotsky (1987) os significados são produtos históricos e transitórios, sendo que as relações sociais neles se refletem. Para esse autor os significados são produtos das condições objetivas que lhes deram origem, refletindo objetivamente a realidade existente através de uma generalização.
A autora comenta que para Leontiev (1978)18:
As significações medeiam as relações do homem com o mundo. Ou seja, são o reflexo da realidade elaborada historicamente pela humanidade sob a forma de conceitos, saberes, modos de ação, independentemente da relação individual que os homens estabelecem com ela. O sistema de significações, embora em eterna
16Leontiev, A. (1978). O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Horizonte Universitário.
17Idem.
18 Idem 16.
transformação, está pronto quando o indivíduo nasce, cabendo a este se apropriar dele. Dessa forma, a significação também se constitui como fenômeno da consciência individual, o que não significa que perca seu conteúdo objetivo, social. A forma como o indivíduo apropria-se de determinadas significações, ou não, depende do sentido pessoal que tenha para o sujeito (ASBAHR, 2011, p. 7).
Asbahr (2011, p. 8) observa que para Leontiev (1978)19, o sentido é criado pela relação objetiva entre aquilo que incita a ação no sujeito, podendo ser representado pelo motivo da atividade e aquilo para o qual sua ação orienta-se como resultado imediato, ou fim da ação.
Desta forma e de acordo com a autora, o sentido pessoal representa a relação do motivo com o fim, sendo que para se encontrar o sentido pessoal torna-se necessário descobrir também seu motivo correspondente.
Leontiev (1978, p.97) ilustra essa situação com o seguinte exemplo:
Imaginemos um aluno lendo uma obra científica que lhe foi recomendada. Eis um processo consciente que visa um objetivo preciso. O seu fim consciente é assimilar o conteúdo da obra. Mas qual é o sentido particular que toma para o aluno este fim e por consequência a ação que lhe corresponde? Isso depende do motivo que estimula a actividade realizada na acção da leitura. Se o motivo consiste em preparar o leitor para sua futura profissão, a leitura terá um sentido. Se, em contrapartida, trata-se para que o leitor passe nos exames, que não passam de uma simples formalidade, o sentido de sua leitura será outro.Ele lerá a obra com outros olhos; assimilá-la-á de maneira diferente.
Ao extrapolar esse exemplo e fazer sua relação com os preparativos de uma cidade sede dos Jogos Olímpicos, as pessoas podem compreender que o sentido pessoal atribuído aos Jogos Olímpicos pelas diferentes classes sociais pode variar conforme a abordagem realizada.
Sendo assim, imagina-se que devido ao seu caráter transitório, esses sentidos podem assumir novas configurações de acordo com o processo de humanização/interação gerado por esses eventos.
Asbahr (2011, p.8-9)acrescenta outra passagem onde Leontiev (1978), ao refletir sobre o fenômeno da morte, exemplifica a diferença entre sentido e significado:
Toma como exemplo o significado da morte. Uma pessoa pode compreender perfeitamente seu significado, conhecer sua natureza
19 Idem 16.
biológica, ter estudado aspectos filosóficos e religiosos acerca desse fenômeno e compreender racionalmente a inevitabilidade da morte.
Mas, no plano pessoal, a morte pode não ter um sentido, aparece como coisa distante, improvável, principalmente se o sujeito for jovem e saudável. Anos depois, para o mesmo sujeito, a morte tem outro sentido, formou-se uma nova consciência acerca disso.
Possivelmente não houve alteração no sistema de significações acerca da morte, o que variou foi seu sentido. Ressalta-se, assim, o papel das condições objetivas na determinação da diferenciação entre sentido e significado na consciência individual (ASBAHR, 2011, p. 8-9).
Diante de tal exemplo, mais uma vez pode-se notar que o significado possui uma natureza estável e que no sentido se busca a sua estabilização, mas não a encontra. Essa característica permite ao sentido variar no tempo, no espaço e de acordo com o seu interlocutor.
González Rey (2007, p.155) acrescenta que a categoria de sentido foi introduzida por Vigotsky na teoria histórico- cultural, apesar disso, até a década de oitenta do século XX, tal categoria foi ignorada por muitos psicólogos soviéticos.
Apesar dessa constatação, Leontiev (1978) retomou essa discussão ao introduzir o conceito de sentido pessoal na teoria histórico-cultural. Asmolov (1984, p.63) ao analisar o conceito de sentido pessoal na obra de Leontiev(1978)20 esclarece que:
O sentido pessoal representa o reflexo individualizado do mundo, que inclui a relação da personalidade com aqueles objetos pelos quais se desenvolve sua atividade e sua comunicação. As mais diversas manifestações da cultura, e mais amplamente, das relações sociais, assimiladas pelo sujeito no processo de interiorização das normas sociais, conceitos, papéis, valores e ideais percebidos por ele nos atos e ações de outras pessoas, podem adquirir para ele sentido pessoal se transformando em significados para mim (ASMOLOV, 1984, p. 63).
González Rey (2007, p.166) ao analisar as colocações de Leontiev, argumenta que a definição de sentido pessoal desenvolvida por Leontiev (1978)21 se afasta da definição de sentido introduzida por Vigotsky (1987)22.
20 Idem 16.
21 Idem 16.
22Vygotsky, Lev S. (1987). Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes.
Diante disso, o mesmo autor introduziu na teoria histórico-cultural o conceito ou a definição de sentido subjetivo, que será novamente apreciado no decorrer dessa tese.
Perante tal exposição, pode-se perceber que a discussão que envolve as categorias de sentido absorvem diferentes possibilidades de entendimento.
Sendo assim e diante da necessidade de se aprofundar na análise das diferentes categorias de sentido, González Rey (2002) desenvolve o conceito de sentido subjetivo, que de acordo com o autor pode ser entendido como a
“relação inseparável do emocional e o simbólico, onde um evoca o outro sem ser a sua causa” (GONZÁLEZ REY, 2002, p. 168).
Nesse contexto o autor corrobora que:
O sentido subjetivo permitiu-me compreender a personalidade como a forma de organização da subjetividade individual, mas, no percurso de meu trabalho, não reduzi o conceito de subjetividade ao individual, pois defini a subjetividade social como aquelas produções sociais carregadas de sentido subjetivo que estão configuradas por processos emocionais e simbólicos produzidos nas mais diferentes esferas da sociedade. Essa forma de compreender os sentidos subjetivos e as configurações subjetivas permitiram-me compreender o caráter social das produções subjetivas sem reduzir uma à outra, assim como superar a visão linear e determinista com que essa relação tinha sido compreendida através do conceito de interiorização, tanto em Vygotsky como em Leontiev, o que foi um dos elementos que levaram à representação de uma forte associação entre a teoria histórico-cultural e a teoria da atividade (GONZÁLEZ REY, 2007, p. 172).
Ao aprofundar em sua própria análise o mesmo autor acrescenta que:
O sentido subjetivo não representa uma expressão linear de nenhum evento da vida social, pelo contrário, ele é o resultado de uma rede de eventos e de suas consequências colaterais, que se expressam em complexas produções psíquicas (GONZÁLEZ REY, 2007, p. 172).
No esforço de consolidar suas definições, González Rey (2007, p. 173), acrescenta que ao considerar a importância das práticas sociais de caráter simbólico o mesmo introduz o conceito de subjetividade, pois em seu entendimento, as produções de sentido subjetivo não se separam da organização subjetiva dos sistemas humanos que se interpenetram na produção de qualquer ato humano.
Desta forma, o autor demonstra acreditar que a categoria de sentido subjetivo compreende a subjetividade como um nível de produção psíquica que não se separa dos contextos sociais e culturais em que ocorrem as ações humanas.
Perante tal compreensão, González Rey (2007, p. 173) observa que a subjetividade é, portanto, uma produção humana, não uma internalização, pois de acordo com o autor, a subjetividade pode ser compreendida como a qualidade de um tipo de produção humana que permite penetrar nas dimensões ocultas do social e da cultura que só se tornam acessíveis em sua dimensão subjetiva.
Complementando a explicação, González Rey (2007, p. 174) ainda esclarece que o sentido subjetivo juntamente com as configurações subjetivas permite compreender a ação individual em seu caráter sistêmico sendo que tal constatação permite compreender a sociedade em outra dimensão até então pouco ou nada explorada.
Diante de suas observações em trabalhos acadêmicos, o autor conclui que a definição de sentido subjetivo permite a análise simultânea do que se refere ao social e ao individual, colocando a psicologia em um espaço transdisciplinar que se alimenta de diferentes canais discutidos por diferentes áreas das ciências sociais.
Percebendo a relevância dos conceitos propostos por González Rey para a conclusão dessa investigação, no tópico a seguir o pesquisador aprofunda sua análise sobre a obra do autor com o intuito de apresentar aos leitores uma reflexão mais apurada no campo da subjetividade e do entendimento das representações sociais.