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Sentidos e significados: evolução histórica e conceitual

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5.2 SENTIDOS E SIGNIFICADOS DOS JOGOS OLÍMPICOS

5.2.2 Sentidos e significados: evolução histórica e conceitual

Essa parte da pesquisa teve como objetivo refletir sobre questões relacionadas aos sentidos e significados no campo das ciências sociais.

Para isso, inicialmente torna-se importante ressaltar que, historicamente, o homem sempre buscou atribuir sentido às questões rotineiras ou circundantes como forma de dar/atribuir sentido à vida.

Diante de tal questionamento, diferentes autores como, por exemplo, Lukács12apud Namura (2003, p.6) explicam que a atribuição de sentido às coisas é uma condição humana.

Nas palavras de Lukács (1967, p. 207-252) o sentido “é uma necessidade humana elementar e primordial: a necessidade de que a existência, o movimento do mundo e até os fatos da vida individual – e estes em primeiro lugar tenham sentido”.

Diante de tal observação, questiona-se: quais os sentidos e significados atribuídos aos megaeventos esportivos como, por exemplo, os Jogos Olímpicos?

Atento à necessidade de responder a essa pergunta, nesse texto se pretende construir as bases conceituais necessárias para tal esclarecimento.

Desta forma, Namura (2003) corrobora que atribuir sentido é uma condição humana, apesar disso, a autora esclarece que:

Os sentidos atribuídos mudam, se transformam e adquirem novos conteúdos, significados e qualidades no processo histórico-social do desenvolvimento do homem. Dessa forma, as ideias, as estruturas sociais e as concepções ideológicas que dão sentido à vida podem se transformar, desaparecer e renovar-se; podem ser produzidas e comunicadas diretamente na expressão linguística, podem ser aprendidas indiretamente pelos fatos, acontecimentos, costumes, modos de ser e viver, enfim, as concepções de sentido se transformam nas infinitas relações sociais (NAMURA, 2003. p. 7).

Diante das colocações acima, pode-se compreender que em megaeventos esportivos, como por exemplo, os Jogos Olímpicos, os diferentes segmentos sociais residentes na cidade sede podem atribuir diferentes sentidos e significados à realização desse tipo de acontecimento dentro de seu contexto social.

Ao se iniciar a análise, registra-se que nas civilizações antigas o sentido estava associado à estética, pois o belo normalmente era associado ao bom, contudo a ideia de atribuir valores estéticos à vida como forma de dar sentido a ela cai em desuso durante a idade média, se reencontrando posteriormente no Renascimento e em alguns movimentos do século XIX, como por exemplo, no dandismo e na ética contemporânea (RUSS, 1999).

12Lukács, G. (1967). Existencialismo ou Marxismo. Tradução de José Carlos Bruni. São Paulo: Senzala.

De acordo com Namura (2003) o sentido sempre esteve ligado à experiência sensorial, à razão, à ética e às bases tradicionais da sociedade, contudo fatos relacionados à constante inovação tecnológica, ao individualismo exacerbado e pelo fetichismo da mercadoria motivaram alguns autores como Lipovetsky (1992), Harvey (1996) e Russ (1998) a sugerirem que atualmente se está atravessando um momento de insuficiência, esvaziamento ou até mesmo falência do sentido.

Chauí13apud Namura (2003) em entrevista publicada pela revista CULT na edição de maio de 2000, relata que a filosofia se estabelece em períodos em que a sociedade vive momentos de crise, ou seja, quando a mesma não conhece muito bem ou não entende muito bem qual é o seu próprio sentido.

Diante à afirmação da autora, percebeu-se recentemente no Brasil grande agitação popular que resultou em protestos e manifestações populares que ganharam todo o país a partir do segundo semestre de 2013.

Perante esses fatos, ressalta-se a importância dessa investigação para se conseguir atribuir os sentidos e significados à empreitada brasileira de sediar os Jogos Olímpicos de 2016 e com isso melhor esclarecer toda a sociedade brasileira sobre os aspectos positivos e negativos de promover um evento de tão grande porte.

Tais esclarecimentos, no caso brasileiro, devem ser relevantes, pois as colocações de Chauí apud Namura (2003) sugerem que a sociedade brasileira, diante dos protestos de junho de 2013 estava em crise ou na busca, dentre outras coisas, dos sentidos e significados dos megaeventos esportivos que aqui ocorrem durante essa década.

Nesse contexto pós-agitação popular,tornou-se necessário aos agentes públicos terem em mãos dados disponibilizados por pesquisas científicas que possam colaborar para um melhor entendimento desse fenômeno, a fim de possibilitar a toda sociedade um melhor esclarecimento sobre os sentidos e significados da ocorrência de tais acontecimentos em terras brasileiras e com isso realizar eventos pacíficos e menos onerosos aos cofres públicos.

Apesar de tal necessidade, circulou nos meios de comunicações do país que o meio encontrado pelas autoridades brasileiras para coibir as

13 Chauí, M. Entrevista. Revista CULT, Edição 122, Maio 2000.

manifestações populares dentro de um estado democrático de direito deveria será repressão policial, pois conforme reportagem do Jornal O Globo do dia 4 de janeiro de 2014, o governo federal já estava se preparando para agir, pois iria mobilizar uma tropa de 10.657 homens somente da Força Nacional de Segurança para conter esses atos durante outro megaevento esportivo – a Copa do Mundo de Futebol organizada pela FIFA realizada em 2014 no Brasil.

Na reportagem se destacou também que durante as manifestações de junho de 2013, um dos alvos dos atos foram os gastos com os estádios. Diante à necessidade de conter os manifestantes durante os próximos megaeventos esportivos que ocorrerão, os gastos com segurança durante esses megaeventos esportivos serão extraordinários, pois foram estimados em R$

1,17 bilhão somente com o torneio da FIFA e de R$ 1,16 bilhão com as olimpíadas de 2016 (O GLOBO, 2014).

Voltando à discussão que envolve a evolução histórica do conceito de sentido, pode-se afirmar que no período que se segue após a decadência do mundo grego, as religiões ocidentais começaram a se expandir e com isso o Cristianismo introduziu uma definição inédita em relação ao pensamento clássico ao inaugurar o conceito de “criação” (NAMURA, 2003).

Nesse momento, considera-se importante destacar que com a introdução desse conceito surgiram as condições ideais para a expansão do cristianismo, pois a religião católica cria, ilumina o caminho e revela o

“verdadeiro sentido da vida” (NAMURA, 2003, p.13).

Diante disso, a autora comenta que:

As paixões humanas e as sensações são fenômenos ambíguos e passíveis de erro e do pecado, e mesmo a razão é incapaz de conhecer a verdade por si mesma. As paixões e a razão são desprezadas na Idade Média para introduzir a criação divina, como o sentido verdadeiro e único. O sentido da vida é inatingível na vida terrena; a ação, a razão e as paixões, enfim o Ser não é só imperfeito ou mera aparência, como ditava a filosofia platônica, mas criatura de Deus que revela o sentido do ser (NAMURA, 2003, p. 13).

Apesar de tal visão ter se consolidado durante a idade média, diferentes acontecimentos como aqueles relacionados ao Renascimento, às transformações sociais, políticas, culturais e científicas, ao surgimento da imprensa e ao descobrimento das Américas, possibilitaram uma modernização

dos sentidos no curso da história ocidental e isso, possibilitou ao homem adquirir novas percepções e visões do mundo o que certamente alterou o sentido que normalmente era atribuído às coisas e à sua existência.

Namura (2003)complementando o raciocínio ainda esclarece que:

Figuras paradigmáticas da Renascença, como Leonardo da Vinci, Shakespeare, Giordano Bruno, são capazes de expressar valores, ideias, costumes, formas de ser, pensar e agir em mutação objetivadas nas artes, literatura e filosofia, fornecendo sentidos da vida enquanto crença no potencial de criação do homem, o sentido da individualidade e da capacidade de escolha e decisão, o sentido da liberdade, do mundo e da vida em oposição aos dogmas eclesiásticos monopolizadores da vontade, da sensibilidade e da capacidade humana (NAMURA, 2003. p.14).

Com o desenvolvimento das ciências sociais, o conceito de sentido passa a ser discutido também nos meios acadêmicos. Nesse momento histórico, o homem passa a ser reconhecido como produtor de conhecimentos e criador de significados na relação com outros homens e objetos do mundo real.

Esse homem desenvolve novos sentidos, significados e verdades, apoiando-se principalmente na sua racionalidade, contudo esse mesmo homem também desenvolve conhecimentos suspeitos, imprecisos e variados o que o impede de alcançar a essência ou a realidade última dos fatos (NAMURA, 2003, p.17-18).

Diante de diferentes possibilidades de entendimento, os conceitos de sentido e significado continuam sendo discutidos e estudados em diferentes áreas do conhecimento humano.

Sendo assim e diante das necessidades dessa investigação, o pesquisador se utilizou de textos acadêmicos em que se refletisse sobre tais definições partindo das reflexões teóricas desenvolvidas pela Psicologia sócio- histórica que tem entre seus principais pensadores autores como Vigotsky (1995), Leontiev (1978), González Rey (2002), dentre outros.

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