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Bibliografia
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16 -Participação, Sustentabilidade e Paisagem.
*Caio Boucinhas; Catharina Pinheiro C. dos Santos; Elaine Moraes de Albuquerque
Resumo
Eixo 2
Discute-se o significado do projeto participativo e sustentável e qual é seu peso na prática da intervenção paisagística, inclusa na relação sociedade e sustentabilidade, entendida como processo. Essa atividade procura contribuir com o desenvolvimento de cidades democráticas, socioambientalmente sustentáveis e mais belas e se encontra no interior da contradição valor de uso - valor de troca. Procura-se, nesta reflexão, encontrar brechas para superar essa contradição e definir as características de um processo participativo que discuta a relação sociedade - sustentabilidade e que contribua para abrir possibilidades de mudanças sociais. Nossa prática nos alerta para a tragédia socioambiental que se desenvolve nas periferias de expansão urbana de São Paulo. As leis ambientais no Brasil restringem a ocupação e protegem nascentes
e cursos d’água, vegetação significativa, topos de morro e áreas com altas declividades; as restrições ambientais
desvalorizam essas áreas, tornando-as sem interesse para o empreendedor imobiliário. E nelas se desenvolvem os
assentamentos da população pobre “sem teto”, surgindo bairros onde se instala uma tragédia socioambiental urbana que
desafia o poder público, as organizações sociais, e os estudiosos das questões urbanas.
Palavras - chave: arquitetura e urbanismo; sustentabilidade; paisagismo; participação; metodologia.
*Dr. Caio Boucinhas, (FAU-USP) professor no Programa de Pós-Graduação strictu sensu em Urbanismo e no Curso de Arquitetura e Urbanismo- Fiam- Faam.-Centro Universitário. São Paulo - Brasil.
*Catharina Pinheiro Cordeiro dos Santos Lima. Arquiteta e Urbanista ( UFRN, Brasil). Dra. FAU-USP, Brasil. Professora na FAUUSP - Departamento de Projeto e no Programa de Pós-Graduação (Área de Concentração Paisagem e Ambiente), Coordenadoria do Laboratório Paisagem Arte e Cultura.
*Elaine Moraes de Albuquerque, doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo.
Arquiteta concursada no Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André (SEMASA). Atuação: na área de planejamento urbano, sob o enfoque da participação cidadã, paisagem e patrimônio.
Introdução
A relação da humanidade com a natureza, como se sabe, compreende historicamente uma convivência permeada de afetos e ambiguidades, de percepções auspiciosas no trato com os sistemas naturais, mas, também de conflitos, contradições e posturas de domínio e arrogância por parte da sociedade humana.
Entretanto, se por um lado, práticas deletérias na relação com o mundo natural são, de longa data, identificadas, por outro, a percepção de que o trato com a natureza numa relação que supera antagonismos e percebe a pertinência (e ganhos bilaterais) da complementaridade entre processos sociais e sistemas naturais é tão antiga quanto as apropriações milenares chinesas (no que acomodaram construções nas planícies aluviais respeitando a hidrodinâmica dos corpos
d’água), ou ainda de práticas ancestrais no manejo da terra dos índios brasileiros no Brasil pré-cabraliano.
Assim sendo, é possível identificar desde os primórdios da agricultura e da formação das cidades, comportamentos e ações que podem ser considerados sustentáveis na manipulação dos dados e sistemas da natureza, ainda que o léxico da sustentabilidade somente houvesse sido posto, no último quartel do século XX, a partir da ideia de ecodesenvolvimento, formulada, em 1972 ao longo da Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em Estocolmo, na Suécia.
Desde então o conceito de sustentabilidade tem sido apropriado pela ONU (em seus diversos documentos e summits), pela comunidade científica (por meio de pesquisas nas várias áreas do conhecimento), pela sociedade como um todo (muitas vezes usado de forma pouco fundamentada) e mesmo pelo mercado, que esvazia seu mais legítimo
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104 sentido, publicizando ações de marketing “verde” em apropriações distorcidas de manifestações, em sua gênese,
contraculturais. O “mercado da sustentabilidade” é dessa forma um grande negócio - sob o tapete do neoliberalismo, países que advogam para si a identidade de sustentáveis, a rigor transferem práticas deletérias e insustentáveis de produção e geração de energia, por exemplo, para países do capitalismo periférico, entre tantas outras ações que aqui poderiam ser elencadas.
Nesse sentido, é fundamental que se imprima um crivo crítico na discussão do que é sustentabilidade, identificando com mais rigor que dimensões e pautas essa perspectiva complexa abraça; por exemplo, outro ponto crucial para o aprofundamento crítico deste debate diz respeito à necessidade de cada vez mais empreender-se uma busca pela inclusão das dimensões social, cultural e política nesse universo, superando definitivamente posturas exclusivamente biocentradas, que embora relevantes resultam reduzidas e ineficazes se não empreendem uma visão mais compreensiva e interdependente da realidade.
Felizmente, essa é uma percepção que ganha força em instâncias que vão desde a observância e mediação dos conflitos socioambientais até a identificação de oportunidades (formais e informais) de processos pedagógicos que busquem a construção de um conhecimento efetivamente transdisciplinar em bases solidárias que preconizem o desenvolvimento humano no processo.
O trabalho aqui apresentado faz parte dessa busca, trazendo para o debate um estudo de caso que põe à disposição de escolas comunidades e movimentos sociais as ferramentas do urbanismo e do paisagismo no desenvolvimento de um trabalho que se quer dialógico e compreensivo entre universidade e sociedade na perspectiva da troca de saberes para a construção de um novo conhecimento – que não contraponha o conhecimento técnico ao vernacular, o teórico ao prático, o científico ao popular, mas, justamente se construa a partir dessa síntese, buscando um aprofundamento do conhecimento da realidade e valorizando a sabedoria das comunidades envolvidas.
O caso analisado, que relaciona poder público, comunidades, universidades e ambiente à Sub-bacia Hidrográfica do Córrego Taióca, na fronteira entre os municípios de Santo André e São Bernardo do Campo - permite perceber que o processo de projeto participativo e sustentável, quando construído por diversas mãos, com afeto pelo lugar, reaviva as lutas pelos direitos de cidadania e por uma cidade sustentável, contribuindo, muitas vezes, a partir da resistência e da insurgência, com um desenvolvimento urbano que prioriza o sentido de pertencimento.