MODELAGEM MATEMÁTICA E SUAS RELAÇÕES COM O PROCESSO CRIATIVO DE UM FIGURINISTA
Zulma Elizabete de Freitas Madruga PUCRS – Porto Alegre/RS [email protected]
Maria Salett Biembengut PUCRS – Porto Alegre/RS [email protected]
Resumo: Neste artigo apresenta-se pesquisa cujos dados empíricos advieram de um figurinista – desenhista artístico. Objetivou-se fazer análise comparativa entre o processo de criação de roupas temáticas e a modelagem, sob uma perspectiva etnomatemática. Os procedimentos metodológicos da pesquisa dividem-se em duas etapas: apreensão empírica e significação dos dados à luz da teoria. Na apreensão implicou na obtenção de dados empíricos; e a significação, organização, classificação e análise desses dados comparando aos processos de modelagem matemática. O resultado mostrou que o figurinista cria modelos de roupas temáticas, advindas de percepções e apreensões do entorno, que a partir da compreensão e da explicitação, transpassa em um modelo externo, significação e expressão: conjunto de submodelos representados em desenhos, propostas e esquemas que uma vez produzidos são utilizados por pessoas representando algum personagem.
Palavras-chave: Modelagem; Etnomatemática; Roupa temática.
1. Apresentação
Nas mais diversas áreas de atuação, as pessoas sempre recorrem a modelos para realizar alguma coisa, e a modelagem para criar ou recriar algo, mesmo que este processo seja interno em suas mentes. E, de igual forma, as pessoas estão inseridas em um contexto e trazem consigo valores culturais, costumes, objetivos, ideais que orientam ou formam suas condutas e atitudes. Seus modelos elaborados ou utilizados são providos dos diversos elementos inseridos em seus contextos, conforme afirma Biembengut (2003).
pessoas que criam modelos de roupas temáticas, para desfiles de carnaval, teatro, festas religiosas, dentre outras. Conforme George (1973), os modelos advêm das percepções que se tem do meio, que geram na mente destas pessoas, imaginação e ideias e que a partir da compreensão e do entendimento, transformação em significado, ou seja, modelo.
Esse modelo pode permanecer na mente da pessoa ou, expresso de alguma forma a permitir a produção de algo. Esta produção pode se dar por meio de desenho ou imagem, projeto, esquema, gráfico, lei matemática, dentre outros. O modelo capacita a pessoa observar e refletir sobre fenômenos complexos e, a comunicar as ideias a outras pessoas. O modelo pode auxiliar a compreender dados, informações, a estimular novas ideias e a prover de uma visão estruturada e global que inclui relações abstratas de algum fenômeno, ente, ou processo.
A ação de se fazer um modelo ou procedimentos requeridos em sua elaboração é denominado modelagem. Trata-se de um processo dinâmico de busca de modelos adequados, que sirvam de protótipos de alguma entidade (BASSANEZI, 2002, p. 45). Biembengut (2014) divide o processo da modelagem em três fases assim denominada:
percepção e apreensão; compreensão e explicitação; e significação e expressão.
De acordo com Bassanezi (2002), a modelagem matemática faz uma ligação entre as representações e o mundo. O autor define como um processo dinâmico, utilizado para se obter e validar modelos matemáticos. Considera uma forma de abstração e generalização com intuito de prever tendências. “A modelagem consiste, essencialmente, na arte de transformar situações da realidade em problemas matemáticos cujas soluções devem ser interpretadas na linguagem usual” (BASSANEZI, 2002, p. 24).
Biembengut (2007), Bassasenizi (2002) e Blum (2007), afirmam que o processo de elaboração de modelos se dá por meio de muitas interações. Para se iniciar um trabalho utilizando modelagem matemática, é necessário dispor de uma situação problema que para solução não se disponha de dados suficientes para se utilizar de uma fórmula ou um caminho de solução. Assim, requer um levantamento de possíveis situações de estudo as quais devem ser preferencialmente, abrangentes para que se possam proporcionar questionamentos em várias direções.
propõe procedimentos que podem ser agrupados em três etapas, subdivididas em seis subetapas, a saber:
- Percepção e Apreensão
A percepção é a primeira fonte de conhecimento necessária para que se possa fazer uma descrição do meio, uma decodificação, para assim apreender do que se dispõe e tomar conhecimento do que deve ser feito.
• Reconhecimento da situação-problema (Escolha do tema);
• Familiarização com o assunto ou dispor de referencial teórico (levantamento de dados).
- Compreensão e Explicitação
A compreensão é o elo entre a percepção e a significação. Compreender é expressar, mesmo que intuitivamente uma sensação. As informações e os estímulos são percebidos e podem ser compreendidos pela mente, que procura explicar ou explicitar, delineando fragmentos de símbolos ou até mesmo símbolos.
• Formulação do problema/modelo (hipóteses); • Resolução do problema/modelo.
- Significação e Expressão
Implica em resolver ou aplicar o modelo, interpretar a solução e verificar se atende às necessidades que o geraram, procurando, assim, descrever e deduzir ou verificar outros fenômenos a partir deste modelo. A partir dos resultados verificados e deduzidos da aplicação, efetua-se uma avaliação e validação do modelo.
• Interpretação da solução;
• Validação do modelo (avaliação).
sociocultural, o influenciando, ao mesmo tempo em que sofre sua influência, Biembengut (2009).
Para D'Ambrosio (2001) a cultura se manifesta no complexo de saberes e fazeres, também, na comunicação e nos valores das pessoas. Em todos os tempos e em todas as culturas, o conhecimento é gerado pela necessidade de uma resposta a problemas e situações distintas, subordinado a um contexto natural, social e cultural. Cada grupo e cada cultura desenvolvem práticas que se relacionam com seu modo de vida e obstáculos que enfrentam no cotidiano.
Etnomatemática, segundo D’Ambrosio (1993) é a arte ou técnica de conhecer, explicar e entender os diversos contextos culturais. Para Frankenstein e Powell (2009, p. 5), “Etnomatemática é a matemática praticada por grupos culturais, tais como comunidades urbanas e rurais, grupos de trabalhadores, classes profissionais, crianças de certa faixa etária, sociedades indígenas, e tantos outros grupos que identificam por objetivos e tradições comuns”.
A perspectiva etnomatemática tem como objetivo estudar a cultura matemática de diferentes grupos sociais, e lutar para que esta cultura seja aceita e valorizada. Porém, mesmo a etnomatemática evidenciando o caráter cultural da matemática, assume uma dimensão pedagógica que não pode ignorar ou desprezar as práticas matemáticas já consolidadas, pois embora a etnomatemática seja culturalmente arraigada, ela também está imersa e é motivada pelo contexto sócio-cultural-político. Conforme D’Ambrósio (2001), toda atividade humana é resultado de motivação proposta pela realidade na qual a pessoa está inserida, por meio de situações ou problemas que essa realidade propõe.
Baseado nos fundamentos da modelagem e da etnomatemática, identifica-se que há relação no fazer de pessoas que se utilizam de processos criativos. Haverá então similaridade entre o processo criativo de fazer roupas temáticas, realizadas por um figurinista, dentro do seu contexto sociocultural e as etapas de modelagem, sob uma perspectiva etnomatemática?
interesse dos estudantes a aprender a pesquisar por meio da modelagem e da etnomatemática.
Biembengut (2003) enfatiza que a modelagem e/ou a etnomatemática na Educação Básica, em particular, podem propiciar ao estudante: melhor apreensão dos conceitos matemáticos frente à aplicabilidade; integração da matemática com outras áreas do conhecimento; estímulo à criatividade na formulação e resolução de problemas; discernimento de valores e concepções; valorização das competências das culturas sociais; e realização de pesquisa científica.
2. Procedimentos Metodológicos
A pesquisa teve como objetivo conhecer o processo de criação de um figurinista que cria modelos de roupas temáticas, bem como analisar comparativamente à modelagem, sob uma perspectiva etnomatemática. Entende-se por figurinista o profissional que idealiza ou cria figurinos – trajes usados por um personagem em uma produção artística. Os figurinos, ou roupas temáticas criadas pelo profissional entrevistado são principalmente para desfile de carnaval – fantasias; para peças teatrais; e para festas de religiões de matriz africana.
Para alcançar o objetivo proposto, utilizou-se o mapeamento como princípio metodológico, Biembengut (2008), para entender fatos e questões, servir do conhecimento produzido e reordenar setores deste conhecimento. A pesquisa foi dividida duas etapas, assim denominadas: apreensão dos dados empíricos e significação dos dados à luz da teoria.
1ª Etapa: Apreensão
A apreensão teve como fonte uma pessoa que cria modelos de roupas temáticas para diversos fins, os documentos por ela produzidos, e observações em um atelier que confecciona roupas para determinada festa cultural. Estas observações foram registradas em diário de campo, fotos e vídeos e configuraram instrumentos para análise dos dados. Esta fase foi dividida em:
(1998). Clandinin e Connelly (2000), afirmam que a narrativa é a melhor maneira de compreender e estudar a experiência. Dessa forma, para entender o fazer do figurinista, utilizou-se entrevista por meio de narrativas. Estas foram gravadas e posteriormente transcritas.
A entrevista não seguiu um roteiro pré-estabelecido, somente após os relatos e histórias contadas pelo figurinista, a pesquisadora fez algumas perguntas específicas sobre seu trabalho, para esclarecer alguns pontos e facilitar a análise dos dados. O figurinista ficou a vontade para contar suas experiências e histórias de vida. Narrou neste como começou a desenhar figurinos tanto para o carnaval como para as peças teatrais e festas de religiões de matriz africana, falou sobre sua paixão maior – sapatos, disse que não é profissional da moda, sua formação é em designer calçadista, e que não é ligado às tendências da moda no que se refere a roupas, somente a calçados. E o entrevistado narra seu gosto por desenhar sapatos.
Em suas narrativas relatou como e com quem aprendeu a desenhar fantasias de carnaval e de vestimentas para religiões de matriz africana, e confessou que seu interesse pelo carnaval veio justamente a partir da possibilidade de criar personagens, segundo suas palavras: “eu geralmente digo que não sou figurinista sou um desenhista artístico que
gosta de desenhar fantasias, de criar personagens. O que me interessa no carnaval, o que me seduz no carnaval é isso, é a criação de personagens”.
O figurinista enfatiza que cria também figurinos para teatros e vestimentas para religiões de matriz africana, segundo ele: “agora o que eu crio muito é roupa pra religião
104). Após dispor destes documentos, foi preciso identificar e relacionar com outros dados para dispor de argumentos para análise.
Nesta pesquisa, foram fornecidos pelo figurinista modelos e fotos de figurinos de roupas temáticas como, por exemplo, carnaval, peças teatrais, e vestimentas de religião de matriz africana, os quais o entrevistado explicou com criou e de onde veio inspiração para tal criação.
- Observações: Pode ser utilizada em situações que buscam compreender determinada ação em determinado contexto. Trata-se da coleta empírica de fatos, visando à obtenção de maior conhecimento, afirma Biembengut (2008). A observação precisa ser acurada suficientemente para que se possa ampliar e qualificar os elementos que estão sendo pesquisados. Estas observações, registradas em diário de campo e fotos, foram instrumentos importantes na coleta e análise dos dados.
Para observações do trabalho do figurinista, foram feitas visitas em um atelier de escola de samba, onde ele estava acompanhando o trabalho das costureiras e aderecistas, auxiliando no que fosse possível para que seu modelo fosse confeccionado com fidelidade ao modelo por ele elaborado.
Procurou-se registrar e relatar os fatos observados e tentar comunicá-los de modo a dar-lhe o máximo de clareza possível. De acordo com Biembengut (2008), embora os fatos observados não sejam suficientes, a observação constitui parte importante da coleta de dados.
2ª etapa: Significação
Na etapa de significação à luz da teoria, o foco foi entender e interpretar dados e discursos do figurinista em todo seu fazer, na inserção e na interação com seu ambiente sociocultural e natural. Tratou-se de uma pesquisa etnográfica de análise qualitativa, pois se estudou os padrões da expressão manifestada pelo figurinista em sua rotina profissional, ou em determinado contexto interativo entre as pessoas ou grupos ao qual participa.
tempo em que foram identificados conceitos, ideias e entendimentos a partir dos fazeres e do contar do entrevistado.
As narrativas, aliadas às observações e documentos fornecidos pelo desenhista artístico, foram suficientes para compreender o processo de criação dos modelos de roupas temáticas. Os dados coletados foram reunidos, estudados e analisados com cuidado, verificou-se então que o figurinista utiliza procedimentos similares aos processos de modelagem matemática, sob uma perspectiva etnomatemática.
Os procedimentos de modelagem comparados aos fazeres do figurinista foram embasados nos princípios de Bassanezi (2002) e Biembengut (2007). Para se iniciar um trabalho utilizando modelagem matemática, é necessário dispor de uma situação problema (tema) que para solução não se disponha de dados suficientes para se utilizar de uma fórmula ou um caminho de solução. Nesta etapa há o reconhecimento da situação e familiarização com o assunto (busca por referencial teórico). Após esta primeira etapa, passa-se então à formulação e resolução do modelo, elementos importantes neste processo são intuição, criatividade e experiência acumulada. Para conclusão do modelo, é necessária uma avaliação na qual verifica sua adequabilidade – validação.
3. Resultados e discussão
Constatou-se, por meio de análise, que para o figurinista gerar o modelo das roupas temáticas, requer que: (1º) aguce sua percepção para que reconheça os diversos elementos possíveis envolvidos em seu tema e assim, apreenda o que dispõe; (2º) instigue sua
compreensão sobre os diversos entes que dispõem, explicitando ao formular um modelo que expresse a essência do tema nas vestimentas dos personagens; e (3º) dote de
significação àqueles que apreciarão, para assim validar seu trabalho, seu modelo por meio da expressão dessas pessoas.
Percepção e apreensão:
que deve ser feito.
Por exemplo, no caso dos desenhos feitos para um desfile de carnaval, os quais o figurinista confessa ser de sua preferência, ele percebe o que deverá apresentar quando recebe o tema enredo para aquele ano. Segundo o figurinista (entrevistado), ao receber o tema, busca subsídios a partir do tema recebido, ou seja, do enredo que a escola irá desenvolver.
Ao ler o texto/enredo, o figurinista tem o primeiro contato com a história que irá desenvolver: reconhecimento da situação-problema. O entrevistado cometa que, após essa leitura, ele visualiza em sua mente alguns personagens que aparecem no enredo:
percepção.
Após tomar conhecimento do tema e ler o enredo, salienta que começa a busca por mais subsídios, saber mais sobre o tema, na tentativa de que novas ideias possam aparecer:
familiarizar com o assunto ou dispor de referencial teórico. O figurinista comentou que depois de receber o tema: “Se vai para a pesquisa, então se vai pra biblioteca, se vai para
a internet, se reúne o máximo de elementos possíveis, porque alguma coisa daquelas ali, algumas imagens daquelas vai ter que te inspirar em alguma coisa”.
Comenta que costuma ler muito sobre o tema/assunto: “porque senão fica tudo
muito vago, a gente não consegue adaptar a ideia ao tema. Tem que primeiro buscar subsídios a partir do tema que te dão”.
O figurinista procura, inicialmente, perceber o entorno do tema, reconhecendo o que existe sobre o assunto, e, na sequência, passa a apreender um conhecimento já existente a fim de guiar suas criações. Assim, os primeiros procedimentos utilizados na criação e confecção de fantasias de carnaval são similares a primeira etapa dos processos de modelagem, defendida por Biembengut (2007).
Os modelos apresentados pelo figurinista, primeiramente, são criados em sua mente (modelo mental) para, posteriormente, ser expresso em forma de desenho, segundo ele: “eu preciso visualizar na minha cabeça a pessoa vestida”.
imitá-los, e assim, criar modelos das situações a qual interage, possibilitando sua interpretação, entendimento e até previsão sobre a situação ou evento modelado.
A estrutura do modelo mental é elaborada e rica. Uma característica da mente humana, a capacidade de realizar operações, resolver problemas, criar modelos. Modelos formados a partir da percepção do meio em que a pessoa está inserida. Neste caso, o figurinista, a partir do tema enredo apresentado busca perceber neste texto o que existe e pode usar para compor seus modelos de vestimentas. É a fase que o familiariza-se com o assunto e busca reconhecer os diversos elementos ou dados.
Compreensão e explicitação:
A compreensão é o elo entre a percepção e o conhecimento. Compreender é expressar, mesmo que intuitivamente uma sensação. “Uma vez tendo sido sensibilizado com o fato apresentado, a mente procura explicar, relacionar com algo já conhecido e deduzir os fenômenos que daí derivam” (BIEMBENGUT, 2003, p. 8).
No caso do figurinista, é quando começa a se inteirar sobre o tema e levantar dados e informações para obter melhor conhecimento sobre o que será desenvolvido. É neste momento que as imagens dos destaques vestidos começam a aparecer em sua mente sob forma de modelo mental, a compreender o que dispõem para poder explicitar.
Após o figurinista imaginar as fantasias, efetuando assim, os primeiros modelos mentais, ele passa-se para a formulação do modelo, a partir do que dispõem, isto é, começa a desenhar as fantasias que irão para o desfile oficial. Sabedor do meio que vive, a explicação desse conhecimento se desdobra nesta fase. “eu costumo rabiscar uns desenhos
bem pequenininhos assim numa folha de ofício, para fazer testes daquilo que eu quero [...] Quando se vai pro papel, mesmo eu já tendo visualizado alguma coisa, ainda vou modificar no papel, e tem aquilo, o papel aceita tudo, mas na confecção é diferente”. E enfatiza: “e tudo ainda é adaptável [...] tem todo esse trabalho de remanejamento na
situação”.
porta-bandeira, eu levo muito em conta o tipo físico; o gasto, até quanto se pode gastar; o tom de pele da pessoa; o que gosta de usar”.
Nesta fase de formulação do modelo, o figurinista afirma que vai fazendo alguns desenhos de forma isolada: “vou fazendo separado, vou experimentando, desenho uma
parte num papel, desenho outra, aí daqui a pouco eu junto essas partes, depois eu junto mais um pouquinho. Quando a coisa é elaborada, tem que pensar muito né? Tem que pensar muito pra não fazer besteira”.
A segunda etapa da modelagem matemática proposta por Biembengut (2007) e Bassanezi (2002) baseia-se na formulação e resolução do problema – modelo. Esta etapa consiste na classificação das informações coletadas na fase anterior, na identificação dos fatos envolvidos, na formulação do modelo.
Com os modelos elaborados o figurinista segue a fase seguinte, a construção das roupas temáticas - resolução do problema. Biembengut (2000, p. 4), “uma vez modelada, resolve a situação-problema a partir do modelo, realiza-se uma aplicação e interpreta-se a solução”. É nessa etapa que começa o trabalho das costureiras no atelier, onde várias pessoas se empenham nas confecções tanto de fantasias de destaques como de alas. O figurinista confessa que não sabe costurar, mas que acompanha todo processo, diz: “Eu
acompanho, eu até faço alguma coisa, mas é uma coisa muito estranha porque eu não sei costurar [...], eu vou na costureira vejo as metragens, aí eu vou na loja com o pessoal e compro, volto na costureira e falo tudo da maneira que eu quero, na primeira prova eu to junto, na segunda prova eu estou junto, na terceira eu estou junto...”
Esta fase é concluída quando as fantasias já estão confeccionadas. Muitas vezes as fantasias são cópias fiéis do desenho (modelo), outras não, em algumas vezes não é possível confeccionar de acordo com o modelo, neste caso, se vai adaptando ou modificando o desenho durante a fase de confecção: “a gente vai adaptando conforme as
exigências das pessoas, do corpo da pessoa, e até do material”.
proposta pelos autores acima citados. Os figurinistas, ou designer artísticos, são grupos de pessoas que fazem parte de determinada cultura, por exemplo, carnaval. Estes criam técnicas e estratégias para resolver seus problemas, de certa forma produzindo conhecimento.
Significação e expressão:
Depois que as percepções ou as informações são compreendidas e explicadas, se começa uma busca em traduzir ou representar estas percepções, isto ocorre com a utilização de símbolos e/ou modelos. Estas representações mentais, chamadas de símbolos e/ou modelos podem ser internas ou externas. “As representações internas são aquelas que se construímos no sistema cognitivo para a compreensão do meio em que vivemos, sendo uma forma de sobrevivência, e as externas as que se consegue expressar ou produzir externamente como pinturas, fotografias, objetos, etc” (BIEMBENGUT, 2003, p. 8-9).
Assim, uma vez traduzidos e representados os dados por meio de um modelo é preciso saber se faz sentido e se é válido. Avaliar em que medida o modelo contribui à solução da situação-problema e, por fim, verificar, sistematicamente, a valia do modelo na produção ou na transformação de alguma coisa: objeto, técnica, tecnologia, teoria. Nesta fase o figurinista procurou traduzir suas percepções e compreensões por meio de modelo para um especifico grupo apresentar no carnaval. A avaliação de suas criações virá de três fontes externas: do público, da imprensa e da comissão julgadora.
O figurinista afirma que avalia suas criações (seus modelos), diz que é muito autocrítico e que: “eu tenho que despir de qualquer vaidade e avaliar o que eu mesmo
faço, nem sempre o que a gente mesmo faz é bom”, e completa, dizendo que se preocupa muito durante a confecção em analisar os detalhes: “ah ninguém iria enxergar, paciência,
mas eu iria enxergar, a pessoa iria enxergar”.
compromisso com o novo, compromisso com a ousadia, se não for assim não adianta mais eu desenhar pro carnaval, não adianta mais eu criar pro carnaval, eu tenho que criar coisas novas, eu não posso criar coisas repetidas, eu não posso copiar”.
4. Considerações finais
Pelo exposto, o figurinista primeiro cria modelos de roupas temáticas em sua mente, advindas de percepções e apreensões do entorno, que a partir da compreensão e
explicitação, significa e expressa externamente em um modelo externo geral, isto é, em um conjunto de modelos particulares representados em desenhos, propostas e esquemas que uma vez produzidos ilustrarão os figurinos para festa temática e apreciação de muitas pessoas. Pode-se afirmar que na criação e confecção de figurinos para um desfile de carnaval, por exemplo, o figurinista perpassa as fases doprocesso de modelagem sob uma perspectiva etnomatemática.
Esses procedimentos envolvidos na criação de roupas temáticas, entrementes, são similares aos processos de modelagem matemática. O figurinista, na criação de modelos de fantasias para carnaval, a partir de um tema enredo a ele proposto, reconhece e familiariza-se com os diversos dados requeridos, compreendê-los e busca formulá-los de forma a dispor de um modelo geral do desfile que espera apresentar, constrói as fantasias a partir desse modelo geral e ao concluir, ele próprio avalia e também, dispõe de uma avaliação externa que pode ou não validar seu modelo.
O figurinista, contudo, está inserido num contexto e por assim, mergulha-se em suas raízes culturais, suas tradições para praticar esta dinâmica cultural em seus fazeres, em suas criações, D’Ambrosio (2001). Pode-se afirmar que há relação entre o processo de criação de roupas temáticas e os processos de modelagem sob uma perspectiva etnomatemática.
criação dos modelos de roupas temáticas com a modelagem, que figurinista pensa por meio de modelos que são externalizados nos esboços e desenhos. Esses esboços e desenhos são materializados por muitas pessoas, virando vestimentas que ilustram e encantam milhares de pessoas.
O trabalho deste figurinista é apenas um dos muitos exemplos sobre o que ocorre em todas as áreas do conhecimento: nas atividades de pessoas; em especial, aquelas que têm como foco a criação. Essas pessoas em seu talento criativo percebem vários tipos de informação de fontes diversas que uma vez selecionadas e reorganizadas, podem gerar novos conhecimentos frente a novas necessidades impostas pelo meio, sejam econômica, social, histórica ou cultural, Biembengut (2003).
Estas manifestações artísticas podem contribuir com os processos educacionais nas mais diversas disciplinas, entre elas a Matemática. A criação de roupas temáticas pelo figurinista, por exemplo, permite ao estudante interar-se dos conceitos matemáticos e de outras áreas do conhecimento e ao mesmo tempo, conhecer e valorar a cultura de cada grupo social.
De acordo com D'Ambrosio (1986, p. 36): “Isto nos conduz a atribuir à Matemática o caráter de uma atividade inerente ao ser humano, praticada com plena espontaneidade, resultante de seu ambiente sociocultural e consequentemente determinada pela realidade material na qual o indivíduo está inserido”. Ainda conforme D'Ambrosio (1986):
Realmente, o que de conteúdo se ensina é de pouca importância no nosso contexto socioeconômico-cultural. De fato, o tipo de matemática que se ensina às nossas crianças e que será utilizado no seu ambiente de trabalho e será relevante no seu contexto sociocultural daqui a 20 anos, será absolutamente diferente daquele que se pretende de uma criança em países desenvolvidos” (D’AMBROSIO, 1986, p.15).
O professor pode proporcionar vivências de aprendizado que aproximem os conhecimentos dos estudantes da compreensão mais elaborada da realidade. Estratégias que coloquem os estudantes no enfrentamento de seus conhecimentos prévios para daí ocorrer uma confirmação ou uma renovação desses saberes são necessárias durante a vida escolar.
aprendem a desenvolver estratégias de enfrentamento, planejamento de etapas, estabelecer relações, verificar regularidades, fazer uso dos próprios erros na busca de novas alternativas; adquirem o espírito de pesquisa aprendendo a consultar, a experimentar, a organizar dados, a sistematizar resultados, a validar soluções; desenvolvem sua capacidade de raciocínio; adquirem autoconfiança e sentido de responsabilidade; e, por fim, ampliar sua autonomia e capacidade de comunicação e de argumentação.
D’Ambrosio (1986) enfatiza que:
É de fundamental importância para nós o comportamento cultural, que dá origem por um lado às artes e às técnicas como manifestações do fazer, incorporando à realidade artefatos e, por outro lado, as ideias, tais como religião, valores, filosofias, ideologias e ciência como manifestações do saber, que se incorporam à realidade na forma de ‘mentefatos’. São essas formas que se incorporam à realidade, os artefatos e os mentefatos que resultam da ação, e que ao se incorporarem à realidade, vêm modificá-la.” (D'AMBROSIO, 1986, p. 47).
Segundo Biembengut (2003), essas pessoas em seu trabalho de criação recebem vários tipos de informação de fontes diversas que uma vez selecionadas e reorganizadas podem gerar novos conhecimentos frente a novas necessidades impostas pelo meio, sejam econômica, social, histórica ou cultural.
Nesses termos, a Educação escolar, não pode negligenciar essa condição e, por conseguinte, o conhecimento acadêmico precisa ser desenvolvido de tal forma ser inter e transdisciplinar. No processo educativo, tanto o aspecto individual, quanto o social devem ser considerados, pois a pessoa adquire conhecimento a partir de sua estrutura biológica e interação com o ambiente físico e social, conforme Maturana e Varela (2001).
No que diz respeito a matemática escolar, Knijnik (1996) diz que a Educação Matemática tem como um de seus objetivos formar pessoas que tenham poder social, político e econômico e que sejam capazes de realizar transformação social. O que indica considerar o saber popular dos grupos sociais. Isto é, sob uma perspectiva etnomatemática é possível levar o estudante a se interessar por aprender mais sobre tópicos específicos do conhecimento, de matemática, por exemplo, ao se inteirar do trabalho de uma pessoa ou um grupo de pessoas: da sua cultura, do seu cotidiano e de suas criações.
programáticos não serão postos ‘enfileirados’, cada um sob um ‘limitado e fechado em sua disciplina, ‘destinados’ a permanecerem em uma memória de curto ou médio prazo, e esquecidos ou apagados pela mente, tão logo não mais sejam necessitados.
Ao integrar à educação escolar as questões do dia-a-dia, pode-se inclusive identificar diversas ações com fins de contribuir para aprendizagem. Biembengut (2000) afirma que o conhecimento é transmitido de uma geração para outra e que “cabe a educação formal prover a pessoa assegurar condições adequadas para si e demais pessoas da sociedade e ao mesmo tempo valorizando e respeitando as expressões da cultura social” (BIEMBENGUT, 2000, p. 13).
Ao estudar essa temática, valorando a herança cultural e o contexto das comunidades que vivem nesta realidade, identificou-se um caminho para a prática pedagógica, utilizando modelagem matemática, sob uma perspectiva etnomatemática com criações de modelos de roupas temáticas para diversos fins.
Para Biembengut (2014), o contínuo crescer e modificar expõe o sentido de Educação como um processo por meio do qual o conhecimento é transmitido de uma a outra geração. Cabe à Educação prover a pessoa de um conhecimento que lhe permita assegurar condições adequadas para si e demais pessoas da sociedade e ao mesmo tempo valorizando e respeitando as expressões da cultura social que herdou e as que estão no porvir.
5. Referências
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BIEMBENGUT, Maria Salett. Mapeamento na Pesquisa Educacional. Editora Ciência Moderna: Rio de Janeiro. 2008.
________________________. Modelagem & Processo Cognitivo. III Conferência Nacional de Modelagem e Educação Matemática – CNMEM. Piracicaba. 2003.
_________________________. Modelagem Matemática & Etnomatemática: Pontos (In)Comuns. I Congresso Nacional de Etnomatemática, São Paulo. 2000.
__________________________. Modelagem na Matemática e Ciências da Natureza. Blumenau: 2014. No prelo.
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D’AMBROSIO, Ubiratan. Da Realidade à Ação: reflexões sobre educação e matemática. São Paulo: Summus, 1986.
______________________. Etnomatemática. 2ª ed: São Paulo: Ática. 1993.
______________________. Etnomatemática. Elo entre as tradições e a modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 110p. 2001.
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