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OS DISPOSITIVOS COMPLEXOS DE APRENDIZAGEM E A INVENÇÃO DE MUNDOS NA EDUCAÇÃO

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Academic year: 2020

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(1)OS DISPOSITIVOS COMPLEXOS DE APRENDIZAGEM E A INVENÇÃO DE MUNDOS NA EDUCAÇÃO. Roger Fabiano Pacheco Alves 1 Marcio Andre Rodrigues Martins 2. Resumo: O presente trabalho trata da invenção de mundos na educação como um Dispositivo Complexo de Aprendizagem (DiCA). Um DiCA é um elemento que dispara um processo inventivo - pode ser qualquer coisa ou ideia que tenha a potência de se tornar um mundo, de imitar a dinâmica da vida. Algo que serve para produzir contextos ricos em possibilidades, que incitem a pesquisa e a produção de conhecimento e que, como antes mencionamos, como um efeito secundário (embora fundamental dentro da aprendizagem) seja capaz de mobilizar a atenção pelo resgate da potência da alegria, do envolvimento, do que é implicado, do que possui autoria e protagonismo. Como método de pesquisa adotou-se a cartografia, que se caracteriza como pesquisa-intervenção, da caráter qualitativo. A partir dos relatos dos professores que se utilizam da invenção de mundos em sala de aula, concluímos que essa metodologia é extremamente potente, principalmente por trazer o protagonismo e a criatividade como estratégias de currículo, tal como preconizado na Base Curricular Nacional Comum. Os Dispositivos Complexos de Aprendizagem são uma estratégia potente para trabalhar com estudantes acostumados a um mundo veloz e dinâmico, em que a ampla disponibilidade da informação dificulta o engajamento em um processo de aprendizagem e apropriação do conhecimento científico.. Palavras-chave: pensamento complexo, interdisciplinariedade, educação. Modalidade de Participação: Pesquisador. OS DISPOSITIVOS COMPLEXOS DE APRENDIZAGEM E A INVENÇÃO DE MUNDOS NA EDUCAÇÃO 1 Técnico Administrativo em Educação. [email protected]. Autor principal 2 Docente. [email protected]. Orientador. Anais do 10º SALÃO INTERNACIONAL DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO - SIEPE Universidade Federal do Pampa | Santana do Livramento, 6 a 8 de novembro de 2018.

(2) OS DISPOSITIVOS COMPLEXOS DE APRENDIZAGEM E A INVENÇÃO DE MUNDOS NA EDUCAÇÃO 1 INTRODUÇÃO Os Dispositivos Complexos de Aprendizagem (DiCA) constituem-se como uma estratégia de ensino-aprendizagem potente e atual, pois permitem ao professor trabalhar o currículo em uma perspectiva interdisciplinar, a partir da emergência de problematizações que vão surgindo das intervenções e dos contextos que emergem na invenção de um mundo. Os alunos, ao inventarem um mundo, se envolvem e se divertem, como se fosse uma brincadeira: eles constroem coletivamente uma narrativa, com personagens e contextos que perduram ao longo do ano e que o professor vai utilizando para trabalhar o currículo. A diferença fundamental entre o simples brincar e a Invenção de Mundos é que neste último a brincadeira não se esgota na diversão, pois ela produz desdobramentos, situações-problemas que derivam do que acontece dentro daquele mundo inventado e que são capturadas pela atenção do professor de forma a demandar pesquisa e soluções criativas. A invenção de mundos é, portanto, um dispositivo que produz contextos de ensinoaprendizagem, que constroem uma ponte entre o brincar, o inventar, o pesquisar e o aprender.. Figura 1- Modelo conceitual simplificado da Invenção de Mundos Fonte: elaborado pelo autor A Invenção de Mundos é um Dispositivo Complexo de Aprendizagem (DiCA). Segundo explicação de Martins (2017), um DiCA é um elemento que dispara um processo inventivo ± pode ser qualquer coisa ou ideia que tenha a potência de se tornar um mundo, de imitar a dinâmica da vida. Algo que serve para produzir contextos ricos em possibilidades, que incitem a pesquisa e a produção de conhecimento e que, como antes mencionamos, como um efeito secundário (embora fundamental dentro da aprendizagem) seja capaz de mobilizar a atenção pelo resgate da potência da alegria, do envolvimento, do que é implicado, do que possui autoria e protagonismo. Anais do 10º SALÃO INTERNACIONAL DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO - SIEPE Universidade Federal do Pampa œ Santana do Livramento, 6 a 8 de novembro de 2018.

(3) 2 WHUPR ³FRPSOH[R´ SUHVHQWH QR GLVSRVLWLYR WUD] FRQVLgo a pluralidade de contextos e perspectivas a partir das situações que emergem em um contexto dado, uma vez que (...) a exploração da complexidade apresenta-se como o projeto de manter aberto em permanência, no próprio trabalho de explicação científica, o reconhecimento da dimensão da imprevisibilidade (MORIN 2007, p.13). Parece fazer sentido que, em um mundo em que a informação disponível é virtualmente infinita e a diversidade (e com ela, a incerteza) cresce exponencialmente, seja cada vez mais evidente que o papel do educador deve assumir um contexto distinto em relação ao que era sua função antes do advento da globalização. Ou seja, é fundamental propor o diálogo sobre o conhecimento não mais como verdade a ser conhecida, mas sim como verdades, derivadas de diferentes visões de mundo, e acima de tudo, dinâmicas, em contínuo movimento. (...) para Gaston Bachelard, o obstáculo para a aprendizagem do conhecimento científico não é o erro, mas a fixação de um conhecimento envelhecido. Acrescentemos a isso que as verdades são ³ELRGHJUDGiYHLV´ WRGD YHUGDGH GHSHQGH GH VXDV FRQGLo}HV GH formação ou de existência; (...) (MORIN 2003, p.24) 2 METODOLOGIA Tal metodologia de ensino-aprendizagem vem se constituindo através das pesquisas teóricas e empíricas elaboradas por Márcio Martins e seus colaboradores, que atuam em grupos de pesquisa e de produção coletiva desde 2011 na Universidade Federal do Pampa e em escolas parceiras. Pelo caráter rizomático do seu método de pesquisa, os Dispositivos Complexos de Aprendizagem podem apresentar uma diversidade metodológica bastante heterogênea. No entanto, suas bases teóricas se fundamentam no pensamento complexo, de Edgar Morin, nas estratégias cartográficas preconizadas por Gilles Deleuze e Felix Guatarri, na biologia do conhecer de Humberto Maturana e na perspectiva de resgate da potência atencional da alegria, de Alicia Fernandez. O grupo de pesquisa se constituiu em 2011 com o nome de Rede Sacci-Pampa (Salas de Aula Conectadas pela Criação e Inventividade) e desde então tem produzido desdobramentos, como o projeto Criatividade Aplicada, que utiliza tal metodologia nas séries iniciais de uma escola do interior do município de Caçapava do Sul, a qual produz mostras anuais de divulgação dos seus trabalhos desde 2011 e vem sendo objeto de pesquisa de trabalhos de mestrado no Programa de Pós Graduação em Ensino de Ciências (PPGEC) da Universidade Federal do Pampa. O método de pesquisa utilizado para analisar esta metodologia é de caráter qualitativo, utilizando as estratégias da cartografia. Tal termo, em um primeiro contato, pode remeter o leitor à noção de algo que tenha a ver com o trabalho de mapear e descrever territórios. E é exatamente por isso a referência ao trabalho do pesquisador cartógrafo: 2 WHUPR ³FDUWRJUDILD´ XWLOL]D HVSHFLILFLGDGHV GD JHRJUDILD SDUD FULDU UHODo}HV GH GLIHUHQoD HQWUH ³WHUULWyULRV´ H GDU FRQWD GH XP ³HVSDoR´ $VVLP ³&DUWRJUDILD´ p XP WHUPR TXH ID] UHIHUrQFLD j LGHLD GH Anais do 10º SALÃO INTERNACIONAL DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO - SIEPE Universidade Federal do Pampa œ Santana do Livramento, 6 a 8 de novembro de 2018.

(4) ³PDSD´ FRQWUDSRQGR j WRSRORJLD TXDQWLWDWLYD TXH FDUDFWHUL]D R terreno de forma estática e extensa, uma outra [ideia] de cunho dinâmico, que procura capturar intensidades, ou seja, disponível ao registro do acompanhamento das transformações decorridas no terreno percorrido e à implicação do sujeito percebedor no mundo cartografado. (FONSECA e KIRST, 2003, p.92). $LQGD VHJXQGR 3DVVRV H %DUURV S ³QmR VH WUDWD GH XPD DomR VHP GLUHomR Mi TXH D cartografia reverte o sentido tradicional de método sem abrir mão da orientação do percurso GD SHVTXLVD´ Kastrup (2015) salienta que o método cartográfico visa sempre investigar um processo de produção ao invés de meramente representar um objeto, o que exige do cartógrafo uma forma de atenção que não seleciona previamente o que pretende encontrar. Se não fosse assim, este não seria capaz de impregnar-se o suficiente com a experiência. Informações, saberes e expectativas precisam ser deixados na porta de entrada, e o cartógrafo deve pautar-se sobretudo numa atenção sensível, para que possa, enfim, encontrar o que não conhecia, embora já estivesse ali, como virtualidade. (KASTRUP, 2015, pp. 48-49) Segundo Costa, (...) o que se percebe na cartografia é que o pesquisador-cartógrafo vai constituindo seus passos estando no próprio campo (...). O pesquisador-cartógrafo não sabe, de antemão, o que irá lhe atravessar, quais serão os encontros que irá ter e no que estes mesmos encontros poderão acarretar. O cartógrafo, de certa forma, é um amante dos acasos, ele está disponível aos acasos que o seu campo lhe oferece, aos encontros imprevisíveis que se farão no decorrer do caminho. (COSTA, 2014, p. 70). Cabe destacar que o método cartográfico não possui uma linearidade prescrita, que se propõe a um fim predeterminado. (...) a atenção do cartógrafo acessa elementos processuais provenientes do território ± matérias fluidas, forças tendenciais, linhas em movimento ± bem como fragmentos dispersos nos circuitos folheados da memória. Tudo isto entra na composição de cartografias, onde o conhecimento que se produz não resulta da representação de uma realidade preexistente. Mas também não se trata de uma posição relativista, pautada em interpretações subjetivas, realizadas do ponto de vista do pesquisador. (KASTRUP, op. cit. p.41) A não-existência de um método cartográfico formal não implica em mero improviso, mas sim em transformar o próprio caminho em método. Morin faz uma reflexão pertinente sobre os percursos complexos e auto-organizativos: Longe da improvisação, mas também buscando a verdade, o método como caminho que se experimenta seguir é um método que se dissolve no caminhar. Isso explica a atualidade e o valor dos versos de Anais do 10º SALÃO INTERNACIONAL DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO - SIEPE Universidade Federal do Pampa œ Santana do Livramento, 6 a 8 de novembro de 2018.

(5) Antonio Machado, que sempre nos acompanha e nos dá força: ³&DPLQDQWH QR KD\ FDPLQR VH KDFH FDPLQR DO DQGDU´ (...) se existe um método, este só poderá nascer durante a pesquisa; talvez no final poderá ser formulado, e até em alguns casos formalizar-VH &RPR WDQWRV RXWURV Mi DILUPDUDP ³R PpWRGR YHP QR ILQDO´ 1LHW]VFKH ³FKDPDPRV FDPLQKRV RV QRVVRV WLWXEHLRV´ .DIND (MORIN, 2003, pp.17-18). Kastrup destaca que, no desenvolvimento do fazer cartográfico, é necessário utilizar-se de uma forma específica de atenção, que denomina atenção flutuante, a qual sobrevoa de forma indiferenciada todo o território presente, à espreita de algum elemento onde pousar. (...) praticar a cartografia envolve uma habilidade para lidar com metas em variação contínua. Em realidade, entra-se em campo sem conhecer o alvo a ser perseguido; ele surgirá de modo mais ou menos imprevisível, sem que saibamos bem de onde. Para o cartógrafo, o importante é a localização de pistas, de signos de processualidade. Rastrear é também acompanhar mudanças de posição, de velocidade, de aceleração, de ritmo. O rastreio não se identifica a uma busca de informação. A atenção do cartógrafo é, em princípio, aberta e sem foco, e a concentração se explica por uma sintonia fina com o problema. (KASTRUP, 2015, p. 40) 3 RESULTADOS e DISCUSSÃO A partir dos relatos dos professores que se utilizam da invenção de mundos em sala de aula, concluímos que essa metodologia é extremamente potente, principalmente por trazer o protagonismo e a criatividade como estratégias de currículo, tal como preconizado na Base Curricular Nacional Comum. Os Dispositivos Complexos de Aprendizagem são uma estratégia potente para trabalhar com estudantes acostumados a um mundo veloz e dinâmico, em que a ampla disponibilidade da informação dificulta o engajamento em um processo de aprendizagem e apropriação do conhecimento científico. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A Invenção de Mundos, como um Dispositivo Complexo de Aprendizagem, abre espaço para a reaproximação entre o universo rico e criativo dos estudantes e o ensino dos conceitos e conteúdos científicos, em um processo interdisciplinar que faz emergir um currículo, pelas demandas que vão surgindo ao longo do processo. O grande obstáculo encontrado para disseminação dessa metodologia é a necessidade de um processo de formação específico, uma vez que ela escapa da percepção tradicional de currículo e das estratégias e programas que em geral são aplicados em sala de aula.. Anais do 10º SALÃO INTERNACIONAL DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO - SIEPE Universidade Federal do Pampa œ Santana do Livramento, 6 a 8 de novembro de 2018.

(6) REFERÊNCIAS COSTA, Luciano Bedin da. Cartografia: uma outra forma de pesquisar. Revista Digital do LAV - Santa Maria - vol. 7, n.2, p. 66-77 - mai./ago.2014. Disponível em <https://periodicos.ufsm.br/revislav/article/view/15111/pdf_1> acesso 13 setembro 2018. FONSECA, Tania Maria Galli; KIRST, Patrícia Gomes. Cartografia e devires: a construção do presente. Porto alegre: UFRGS, 2003. KASTRUP, Virgínia. O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo. In PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; ESCÓSSIA, Liliana (org.). Pistas do método da cartografia: Pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2015. MORIN, Edgar. Ciência com consciência. São Paulo: Bertrand Brasil. 2007. MORIN, Edgar et al. Educar na era planetária. São Paulo: Cortez Editora. 2003.. Anais do 10º SALÃO INTERNACIONAL DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO - SIEPE Universidade Federal do Pampa œ Santana do Livramento, 6 a 8 de novembro de 2018.

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Figura 1- Modelo conceitual simplificado da Invenção de Mundos  Fonte: elaborado pelo autor

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