Capítulo 1 Introdução
1.2 Justificação do estudo
A investigação sobre o ensino superior é, em geral, desenvolvida por uma comunidade com caráter claramente prático, na qual as abordagens teóricas se encontram implícitas nos quadros de referência utilizados pelos investigadores e em que a área de investigação se desenvolve em grande parte com as contribuições de especialistas (Tight, 2004). Resulta assim que, por um lado, o relativamente fraco nível de desenvolvimento teórico limita o potencial de generalização da investigação e da formação de uma área disciplinar de investigação e, por outro, a forte contribuição da abordagem dos especialistas enriquece esse mesmo campo da investigação (Huisman, 2007).
Adicionalmente, a investigação no ensino superior é multidisciplinar, o que advém da natureza da temática e do envolvimento de investigadores de variadas áreas tradicionais do conhecimento, tais como a das ciências económicas, a gestão, a história, o direito, a antropologia, a filosofia, ou a sociologia (Teichler, 2005). Assim, a investigação sobre o ensino superior tornou-se uma área mais respeitada de investigação interdisciplinar e temática em muitos países do que o era há uma ou duas décadas atrás. Nas suas prioridades temáticas, a investigação sobre o ensino superior responde fortemente à evolução real do ensino superior e dos debates públicos conexos. Isso permite concluir que a investigação, e a publicação dos seus resultados sobre as dimensões internacionais do ensino superior também cresceram substancialmente nos últimos anos (Kehm & Teichler, 2007).
No entanto, a literatura sobre a internacionalização é dispersa e por vezes de difícil compreensão devido à necessidade de domínio de um vasto corpo de conhecimentos. Por ser difusa não pode ser facilmente abordada através das estratégias típicas de pesquisa da literatura e as revistas científicas subordinadas a este tema são escassas e, maioritariamente, escritas na língua inglesa (Kehm &
Teichler, 2007). Acresce a esta dificuldade a falta de consenso na utilização da terminologia – assim como no seu significado - relacionada com a internacionalização (Wit, 2001), o que introduz um considerável grau de confusão na análise da literatura (Knight, 2004).
A investigação sobre a internacionalização no ensino superior, de um modo geral, é caracterizada por um crescente número de estudos conceptual e metodologicamente ambiciosos. No entanto, um grande segmento de estudos é tão pragmático e tão motivado por preocupações práticas que não podemos facilmente identificar um campo bem estabelecido demarcado por um certo grau de qualidade (Kehm & Teichler, 2007). A partir dos anos 90, com a expansão e a consolidação do fenómeno da globalização, é visível o aumento do interesse no estudo da temática da internacionalização do ensino superior (Teichler, 2005). A mobilidade de estudantes é um dos temas mais estudado por ser um dos principais modos de internacionalização das instituições (Vincent- Lancrin, 2008) e pelo significado económico que tem para muitas nações (Altbach, 2004c).
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A análise da literatura revela um conjunto de estudos com variados focos e temas, nos níveis nacional e organizacional (Yee, 2014), como a definição do conceito de internacionalização (Knight, 2004; Wit, 2013; Wit et al., 2015) ou a gestão da internacionalização que inclui o estabelecimento de modelos (Davies, 1992; Dijk & Meijer, 1997; Knight, 1994, 2004; Neave, 1992; Rudzki, 1998; Sanderson, 2008;
Wit, 2001), a análise de estratégias (Callan, 2000; European University Association, 2013; Huang & Lin, 2007; Matei & Iwinska, 2014; Middlehurst, 2008a) e de abordagens (Bennett & Kottasz, 2011; Hénard et al., 2012).
A metodologia de estudos de caso é das mais utilizadas, com casos que abrangem cursos, instituições, atores e países, e com dados recolhidos por variados instrumentos tais como a análise documental ou por entrevistas e questionários (Kehm & Teichler, 2007), pelas suas características de profundo alcance analítico e um forte cunho descritivo.
A estratégia comparativa de natureza internacional no âmbito dos sistemas de ensino superior evidencia um renovado interesse da comunidade científica, como consequência de um processo de reorganização da política mundial, que transportou para o sistema de ensino questões que durante séculos apenas foram abordadas numa perspetiva nacional (Nóvoa & Yariv-Mashal, 2003).
As análises comparativas constituem a minoria dos estudos disponíveis na literatura sobre internacionalização do ensino superior, por estes estudos exigirem frequentemente tempo e recursos além do que é habitual para a maioria dos estudos. No entanto, os poucos estudos verdadeiramente comparativos sobre esta temática revelaram-se tão frutíferos, que mais estudos com esta estratégia de investigação são obviamente desejáveis (Kehm & Teichler, 2007).
Em particular, os estudos comparativos sobre a internacionalização do ensino superior em Portugal e Espanha são inexistentes e não estão disponíveis, dentro das nossas possibilidades de pesquisa, estudos de âmbito abrangente que se debrucem, simultaneamente, sobre os dois países.
Mesmo os estudos sobre a internacionalização dos sistemas de ensino superior de Portugal e de Espanha são muito pouco frequentes na literatura. A internacionalização, como uma estratégia de desenvolvimento do ensino superior é um conceito relativamente novo para ambos os países, até há pouco tempo muito focados no intercâmbio de estudantes e nalgumas parcerias na área da investigação.
Um dos poucos estudos que envolve o sistema de ensino superior de Espanha foi realizado por Rumbley e Howard, e incluído como estudo de caso num relatório da responsabilidade do Parlamento Europeu, que tem como objetivo principal a identificação de estratégias de internacionalização em diversos países (Wit et al., 2015). As referidas autoras apresentam uma breve panorâmica dos principais aspetos do sistema de ensino superior espanhol e das suas dimensões internacionais com foco nas instituições de ensino superior, e calculam alguns indicadores quantitativos para o sistema
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como um todo, dando especial atenção aos aspetos particulares do sistema que têm influência na internacionalização. Identificam igualmente, de forma muito resumida, alguns dos programas desenvolvidos pelos governos dos últimos anos para impulsionar a internacionalização. Por fim, com base na experiência das autoras, são apontados diversos pontos fortes e fracos dessas abordagens, assim como uma série de oportunidades e desafios importantes para o desenvolvimento futuro.
Uma das autoras, Rumbley (2010), tem um outro trabalho publicado no qual estuda as estratégias de internacionalização de quatro universidades espanholas, e demonstra que nestas universidades a internacionalização é central na definição dos planos estratégicos e no seu desenvolvimento. Num outro artigo (Rumbley, 2007), a autora já argumentava que, apesar da internacionalização em Espanha acontecer principalmente via da europeização, o crescente número de estudantes internacionais precipitou a mudança na organização e na cultura das universidades, e originou novas atividades como parcerias ou a internacionalização das abordagens pedagógicas e dos currículos. Contudo, Javier Antolín (2014) defende que, apesar de grande parte das universidades espanholas terem identificado com muita clareza a necessidade de aumentarem o seu grau de internacionalização, ainda se debatem com grandes problemas provocados pela sua complexa gestão que dificulta a introdução de mudanças na organização e modo de funcionamento, pelo que é fundamental estudar a forma como estão a responder ao desafio da internacionalização.
No que respeita a Portugal, é possível concluir da revisão da literatura que, à imagem de Espanha, são muito raros os estudos com resultados publicados. Um dos estudos realizado sobre internacionalização, que foi incluído como anexo no Relatório do Projeto “HEIGLO-Higher Education Institutions’ Responses to Europeanisation, Internationalisation and Globalisation. Developing International Activities in a Multi-Level Policy Context” da responsabilidade da Comissão Europeia (Rosa, Veiga, & Amaral, 2005), debruça-se sobre as políticas desenhadas na época no nível nacional com foco na internacionalização.
Outro estudo da mesma época (Veiga et al., 2006) analisa o perfil de internacionalização de seis instituições, públicas e privadas, e demonstra que nestas instituições está muito clara a importância da internacionalização, mas que existem diversas abordagens, justificadas pelas diferenças nas tradições e na cultura académica.
Horta (2010) constata que, à semelhança de Espanha, o sistema de ensino superior em Portugal não ficou imune ao fenómeno da globalização e da europeização. O autor analisa as políticas desenhadas a nível nacional para a internacionalização do setor, mas argumenta que à data de publicação deste trabalho ainda é cedo para perceber o seu impacto, embora seja já percetível que o sistema de investigação científica, sujeito a mecanismos internacionais de avaliação, se estabeleceu como um dos instrumentos para a internacionalização das instituições de ensino superior.
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Da revisão da literatura podemos concluir que existe uma notória falta de investigação sobre a internacionalização dos sistemas de ensino superior de Espanha e de Portugal. Embora muitos estudos sobre esta temática, abordem vários países, o que implica que não é fácil colocá-los geograficamente, realizamos a revisão da literatura procurando também análises de Portugal e de Espanha em estudos que envolviam vários países e não foram detetados mais do que os identificados. Adicionalmente, os estudos identificados não correspondem a trabalhos de investigação sistemática e abrangente sobre a internacionalização do ensino superior nestes dois países.
Por outras palavras, a literatura sobre a internacionalização do ensino superior em Portugal e Espanha ainda é limitada no seu âmbito, variedade e atualidade. Esta limitação reflete uma clara escassez de investigação neste campo e apoia a necessidade de novos trabalhos de natureza científica nos referidos países.
Além disso, é possível encontrar nos sites das instituições algum material sobre o seu estado de internacionalização, ou de perceções dos seus responsáveis, mas naturalmente com um foco (micro) institucional e, portanto, de utilidade e relevância limitada para a análise do sistema nacional. Em resumo, a maioria da literatura disponível fornece apenas peças incompletas do estado global da questão.
Uma estratégia de investigação comparativa entre os dois países, suportada num modelo conceptual sólido, contribui significativamente para o aumento do conhecimento nesta área de investigação, que requer a análise de um alargado leque de temas e a sua relação com o contexto em que se inserem, para além da introdução de uma sólida base teórica e métodos científicos de investigação (Teichler, 1996b).
A investigação em internacionalização do ensino superior é hoje um imperativo pela importância que o tema tem para o desenvolvimento do ensino superior do ponto de vista nacional, europeu e global.
O desenvolvimento de uma estratégia de internacionalização potencia a presença internacional dos países e das suas instituições, contribui para a atração de talentos, melhora as competências interculturais de estudantes e professores e alavanca a investigação científica e a inovação, entre outros benefícios.
Neste contexto, o estudo atual pretende expandir a base de conhecimento global sobre internacionalização do ensino superior - a partir do estudo de dois países do sul da Europa, culturalmente muito diferentes dos países mais estudados na literatura (EUA, Austrália, Canadá, Reino Unido ou China) - um conceito complexo, multifacetado e imbuído de valores culturais.
Pretende ainda contribuir, genericamente, para melhorar o conhecimento do processo e do ambiente da internacionalização das instituições de ensino superior em geral e das instituições ibéricas em particular. Adicionalmente, o estabelecimento de um modelo genérico de análise do conceito de
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internacionalização, contribui para precisar o seu significado num contexto em que este entendimento no seio da comunidade científica ainda não se encontra completamente estabelecido. Por fim, propõe a adoção de um método de cálculo do grau de internacionalização das instituições de ensino superior que se constitui como um instrumento de avaliação que permitirá a cada instituição avaliar a eficácia das estratégias de internacionalização que define e adota.
Assim, neste estudo, propomo-nos explicar, de forma comparada, o fenómeno da internacionalização das instituições de ensino superior ibéricas à luz das políticas nacionais de cada um dos países que a integram, sob o efeito dos fenómenos de globalização e europeização, desenvolvendo para atingir esse objetivo um modelo conceptual robusto.
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